Já são horas

Devia estar já em qualquer sítio que não este onde estou agora. Estou atrasado, parece-me, nada de mais, vou recuperar e quando voltar a avaliar a situação vou estar mais próximo, se não mesmo a horas. Nestes momentos em que ando com pressa, surge-me inevitavelmente um pensamento tão conhecido que nem sequer perco tempo a pensa-lo. Até porque perde-se tempo a pensar, tempo que perdido iria piorar a minha situação. Estou com pressa para quê? Uso o verbo perder porque o tempo para pensar só é ganho quando não é imposto um tempo limite ao pensamento. Quando se impõe um prazo, um limite, o pensamento envergonha-se, pelo menos o meu envergonha-se. É como urinar com alguém impaciente à espera que desocupemos o urinol. E hoje em dia quem é que tem muito tempo para pensar. Trabalha-se oito horas por dia, dorme-se mais oito, lavar os dentes, fazer o comer, deslocações, diria que sobram umas quatro horas por dia para pensar. Não há paciência para tão pouco tempo. Mas as coisas têm de ser feitas. O lixo acumula-se, e cheira mal, cada vez pior. E a comida não se organiza sozinha por cores nas prateleiras dos super-mercados. É difícil, mas não desesperemos. Porque a pergunta ainda persiste, e é pertinente. Pressa para quê? E se decidisse que não existe nada que tenha realmente de fazer sem ser as coisas que faço por fazer. E se nunca mais ouvisse um despertador, nunca mais olhasse as horas. Não soubesse em que dia estava, e deixasse de contar os anos desde que Jesus nasceu? Se renunciasse a este tempo, com que tempo ficava? Um tempo novo onde nunca estava atrasado para nada. Pode existir um tempo assim? Que não marca faltas injustificadas a ninguém, que existe só para nos ter, sem nos pedir nada em troca. Uma relação nova com o tempo. Claro que já se sabe como acontece nas relações. No princípio, quando ainda é tudo uma ideia, não se deslumbram as pedras e os predadores escondidos pelo caminho. Ainda assim acredito que seja possível estar numa relação com alguma, outra coisa, e ambas as partes serem livres. Totalmente livres. Não me lembro agora de um exemplo, mas assim que tiver tempo penso num, se o encontrar, direi. Se tiver tempo.

Algumas dioptrias

Só quando começou a escola é que a criança ficou a saber que não via como deve ser. A professora chamou os pais e disse-lhes que o filho precisava de óculos, porque nem sentado na fila da frente conseguia distinguir as letras escritas a giz no quadro da sala de aula. Os pais sugeriram se o problema não podia ser ele não saber mesmo de qualquer maneira distinguir as letras, afinal é o primeiro ano. A professora riu-se, achou piada à maneira como foi feita a sugestão. Uma teoria alternativa que até podia, como uma metáfora, explicar a falta de visão da criança, não fosse o diagnóstico inicial estar evidentemente certo. Era até um bocado ridículo procurar alternativas. A criança precisava de óculos e os pais foram com ela ao médico.

Depois do médico fazer o famoso exame, que de resto era muito idêntico à maneira como a professora descobriu a deficiência visual da criança, foi passada a receita. Enquanto escrevia o médico foi dizendo em voz alta, distraidamente à maneira dos médicos experientes, o que a criança tinha. Logo se arrependeu, ao deparar-se com uma profunda e grave falta de conhecimento da parte dos seus interlocutores.

– Desculpe senhor doutor, mas eu não sei o que são dioptrias. Nem nada do que o senhor escreveu na receita.

-Não se preocupe, há felizmente para si quem saiba. Enquanto houver alguém que saiba não se precisa de preocupar. Preocupe-se com a sua profissão, e deixem lá o resto. Para os outros.

O que se podia esperar mais do médico. Não se pode enfiar cinco anos de estudo intensivo de medicina na cabeça de alguém durante o tempo que demora uma consulta. Não é possível. E também nunca acontecerá toda a gente saber tudo o que toda a gente sabe. Ao sair do consultório, apesar de não saberem porquê, sentiam um peso no espírito. O peso que sentiam era o da desigualdade social, era o peso que sempre esteve nos ombros de uma parte da sociedade, para que a outra se possa sentir mais aliviada. Como quem transporta em grupo um armário e deixa de fazer força, sem que os outros saibam. Os outros sentem que o armário ficou mais pesado, mas não sabem porquê. Talvez seja o fracasso, talvez tenha sido a pega, ou alguém perdeu a força. Ninguém diz nada, ninguém se queixa. Talvez por vergonha, custa admitir que se está cansado. Claro que tudo isto só é possível enquanto a tarefa continua a ser suportável.

Os pais da criança sentiam isto. Sentiam que a vida é dura, e pesada. Pensavam como dever ser bom ser aquele médico. Sentado naquele consultório, onde pode descansar entre as consultas. E durante as consultas é ele quem manda, ninguém lhe diz o que tem de fazer, e ninguém sabe nada que ele não possa saber. Já no oculista, depois de pagar a conta dos óculos, lentes e a armação mais em conta, pois se ainda não deu para perceber, era gente pobre. O pai sem fazer contacto visual com a criança disse “agora com estes óculos quero só boas notas na escola, já não tens desculpas”. A criança tentou olhar para o pai, mas ficou tonta e zonza com a nova graduação. Ia precisar de algum tempo até conseguir ver bem o mundo como ele é.

Conto das ilhas por conhecer

Já o avô do avô do Homem tinha realizado este feito. O de ir à porta (que agora já não é porta) dos pedidos ao rei (que também já não se chama rei, hoje parece mal) e exigir um barco. Aparentemente estava no sangue destes homens, ou tornou-se uma tradição familiar. O rei abriu a porta de sorriso na cara explicando logo que os barcos são dele e não os dá, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei divertido, que tu sem eles és nada, e eles, sem ti, poderão sempre navegar, Navegam sozinhos os barcos agora é? A discussão não durou muito mais, afinal desta vez, ao contrário do que acontecera nas gerações anteriores, o povo ficara em casa. Talvez já tivesse farto de assistir a esta cena. Não há barco para ninguém, disse o Rei, se quiser dirija-se a um banco e peça dinheiro emprestado para o comprar. O que o homem não sabia, é que este Rei já sabia que as pessoas já não sabem navegar barcos, e os poucos que sabem têm medo do mar.

Limpeza do disco

Começar pela maior. Esta parte é para o lixo de certeza, nem preciso de perceber ou tentar lembrar-me porque tenho esta tralha toda em volta da cabeça a bloquear a passagem. Desculpe se faz favor. Sim claro, não tem problema. Não posso porque tenho uma razão para não poder, a razão existe e é bastante boa até. Tão boa que nem se coloca a questão do querer. Mesmo se quisesse não é. É esta a frase que vem depois. Mas não posso. Porque é que faço o que faço? Ora porque a verdade é que. Tenho razões para fazer desta maneira e não de outra, deixa-me cá explicar. É importante explicar para os outros perceberem. Os outros perceberem é quase tão importante como eu perceber. Até altero o que estou a fazer se a alteração tornar as coisas mais perceptíveis para os outros. Se não perceberem porque só trabalhei seis horas hoje em vez de oito, o melhor é trabalhar onze. Assim eles percebem, trabalhou onze porque teve de ser. Há trabalho, tem de ser feito. Se não perceberem porque faço isto em vez daquilo o melhor é fazer aquilo. Afinal os outros não são estúpidos. Estúpido sou eu que ainda não comecei a fazer outra coisa que já devia até ter terminado por esta altura. As razões são tudo. Afinal os outros são descendentes de Platão. Não se enganam nestas coisas, são irrefutáveis os seus argumentos. Cada um faz por si, e se eu conseguir isto para mim está feito, e é justo se mais ninguém conseguir, porque eu consegui, se eu consegui porque é que o outro não há-de poder conseguir também. Ninguém é mais do que ninguém. E eu trabalhei muito por isto. É justo. Falamos de justiça, e eu cá estou para dizer quando estiver a ser vítima de injustiça, por agora está tudo bem, mas se me virem a resmungar, é porque estamos perante uma qualquer injustiça, e eu não me calo enquanto não me derem aquilo a que tenho direito. Depois calo-me, porque isto aqui é cada um por si. Quem não chora não mama. Se isto serve para os bebes serve também para a vida adulta. É lógico, não fossemos nós descendentes de Aristóteles. Muita sorte têm os outros, da vida que têm. Se tivessem a minha é que iam ver. Não é para quem quer é para quem pode. É por isso que eu tenho de chamar filho a este e filho aquele, para perceberem o meu lugar, para percebem onde é que eu estou. Eu não sou uma criança, eu cuido delas porque isto a malta é que não sabe fazer as coisas. E quem não chora não mama, filho. E dou exemplos concretos, eu não falo só por falar, seu de certas e determinadas coisas e circunstancias. Eles não querem é fazer nada. Encostam-se está-se mesmo a ver. A mim só não me calha é o Euromilhões. Se me calhasse o Euromilhões. Aí é que iam ver. Aí é que eu não fazia mais nada.

Correios

Quando se está sozinho em casa, ter a televisão ligada, mesmo sem som, é uma tentação à qual cedemos em segredo. Porque estamos sozinhos. Não ficam testemunhas e não corremos o perigo de um dia entre amigos alguém nos desmentir quando afirmamos orgulhosamente que não vemos televisão. Só nos orgulhamos de não ver televisão porque toda gente vê televisão. Se entramos numa sala e não encontramos uma televisão perguntamos o que aconteceu à televisão que aqui esteve. A hipótese de nunca ter estado ali uma televisão até pode ser depois aceite, mas é porque a sala não é nossa, e não queremos passar por fascistas quando estamos como convidados na sala de alguém. Cardilino Miranda tinha uma televisão. É uma televisão modesta, com boas dimensões tendo em conta o preço. Num dia de chuva, Cardilino saiu da cama, encheu uma das suas melhores chávenas com café acabado de fazer, e sentou-se no sofá decidido a fazer qualquer coisa ali mesmo. Mas antes ia terminar o café, não dava jeito fazer coisas com a mão ocupada. Para não estar só a beber café ligou a televisão. Cardilino é uma pessoa que gosta de, sempre que possível, fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo.Um dia disseram-lhe que só se consegue fazer uma coisa de cada vez. Quando se faz duas ou mais coisas parece que as estamos a fazer ao mesmo tempo, mas estamos alternando umas com as outras, muito rápido. Incerto acerca do rigor cientifico desta teoria Claudino não perdeu tempo a pensar ou a verificar a sua credibilidade. Estavam a passar anúncios televisivos. Aquela hora o alvo eram reformados, pessoas que andavam na faixa etária dos sessenta aos oitenta. Quem se encontrava a baixo desta faixa aquela hora ou estava no infantário, ou na escola, ou no trabalho. Acima dos oitenta aquela hora ou estavam mortos, ou a dormir. Não existe Marketing para estes últimos, são membros que nada ou pouco contribuem para a economia. Claudino era uma excepção aquela hora, porque estava de folga. Devia ter percebido que aquilo que ia ver na televisão não era para ele, mas como não era homem de deixar que o descriminassem, assumiu que aquilo era com ele, e estava pronto para lutar contra quem tentasse sequer sugerir o contrário. Durante os primeiros dez minutos de anúncios manteve a compostura. Verbalizou uns reparos, que vibraram no ar para só para ele, e desapareciam sem deixar prova de existência. Finalmente surgiu o anúncio que ia definir o rumo daquele dia para Claudino. Um homem careca apresentava a sua nova forma. Uns comprimidos com efeitos comprovados cientificamente, e um preço acessível a qualquer um. Não era um palerma qualquer a dizer isto como o que inventou aquela teoria de não ser possível fazer mais do que uma coisa no mesmo instante. Era um homem na televisão, de fato. Os efeitos eram tantos que foram ditos todos de seguida pelo homem um ritmo menos pausado do que era usado até altura. Vitalidade, confiança, força, criatividade, inteligência, sucesso, resistência, sentido de humor. Se os efeitos eram estes para um velho de setenta anos, Claudino só imaginava o que podiam fazer por ele. Começar a cuidar do futuro agora, foi a frase que se repetia na sua mente enquanto pegava no telefone e marcava o número no ecrã. A frase não teve direito a se materializar em ruído fora da sua cabeça, só as palavras que disse quando do outro lado atenderam o telefone.

Passado uns dias Claudino chegou a casa e no correio encontrou uma carta a informar que os seus comprimidos tinham chegado e estavam no correio à sua espera. Não era comum isto acontecer. Normalmente os comprimidos eram sempre entregues directamente ao proprietário porque este encontrava-se sempre em casa. Mas Claudino era um cliente não habitual. Estes clientes eram igualmente bem vindos, e até pagavam o mesmo que os outros. À hora a que chega a casa já os correis estavam fechados, por isso tinha de ficar para amanhã. Depois de jantar deitou-se e meteu o despertador umas horas mais cedo do que precisava. Dando tempo para ir aos correis antes de ir trabalhar, e assim começar logo naquele dia a beneficiar dos merecidos super poderes. Na manhã seguinte bebeu café pelo caminho. Considerou nem beber café e emborcar logo três comprimidos em jejum. Mas decidiu que só o café até podia ajudar na absorção dos super nutrientes testados em laboratório que iam ser libertados no seu organismo. Já sentia o seu corpo preparado, conseguia até visualizar as paredes do estômago a esticar, de modo a alargar os buracos por onde passam as moléculas dos alimentos digeridos. Tinha a imagem das membranas do intestino, a mesma que vira nos livros de biologia quando andava na escola, e que tinha andado esquecida até altura. Sentia aqueles milhares de coisas, cujo nome estava definitivamente esquecido, mas cuja função era fazer passar os nutrientes no seu estado mais básico do intestino para a corrente sanguínea. Sentia-os a abanar, todos esticados porque sabiam o que ali vinha. O tão esperado alimento, aquilo que tanta falta fazia, como uma refeição para um esfomeado ou uma caricia a um cão abandonado. Entrou nos correios, carta na mão, e parou incrédulo com o que via. Uma fila de mais de cinquenta pessoas. Pessoas de todas as raças, géneros e idades. Não contava com uma final daquelas nos correis. Ainda para mais aquela hora num dia de semana. Nos correios. Quem é que ainda usa os correios, e para quê? Foi para a fila e ficou lá ainda uns dez minitos até perceber que aquele fila era a fila para outra coisa, e o que ele precisava era de tirar uma senha. Invadido de uma renovada esperança tirou a senha que ao sair fez sair também aquela esperança infundada. Era o número noventa e sete, ia no vinte e três.

Os números passavam devagar. De vez em quando lá passavam uns quarto ou cinco de seguida. Claudino pensava “se for assim ainda consigo chegar a tempo ao trabalho”. Mas não era assim, e depois lá encalhava num número. Claudino começou a olhar para aquilo como se estive a ver televisão. Só não podia verbalizar os seus comentários. Nem muito baixinho, porque se alguém estivesse a observá-lo pensaria que ele era doido. E havia doidos ali nos correis aquela hora. Um homem entrou tirou a senha, começou depois a falar sozinho, para o chão. “Não dá. Não posso estar aqui em pé. O médico disse que não podia. Merda que filhos da puta. Não metem mais gente a trabalhar porquê? Vão ao centro de emprego está lá muita gente a precisar de emprego.” Um doido que não compreende como funcionam as coisas. Claudino também não percebia como funcionavam as coisas, mas era mais sofisticado que o doido. Sabia que a solução não podia ser aquela, se fosse já o tinham feito. Apesar da sua superior sofisticação, não deixava de estar tão frustrado como o doido. Queria perceber porque é que havia pessoas que demoravam dois minutos para ser atendidas, e outras demoravam quase meia hora. Não lhe parecia justo. Começou a observar as pessoas, e a atribuir-lhes a culpa de tudo: “A culpa é vossa. Não são organizados. Não existe ordem. Cada um faz o que quer e não compreende que vive em sociedade.” Via como um homem lia uma carta e encolhia os ombros sem perceber nada, e depois ia perguntar ao funcionário pedindo que lhe explicasse. Ouviu uma conversa de uma mulher que não tinha trazido o cartão de cidadão, mas mesmo assim queria qualquer coisa para a qual era preciso ter o cartão consigo. Viu um homem a pedir fita cola para colar a caixa que queria enviar. Toda a gente pedia canetas, as que estavam presas por um fio tinham sido quase todas roubadas. Uma funcionária fazia caretas e dizia coisas desnecessárias e inapropriadas a um bebe ao colo da mulher que estava a ser atendida por ela. Coisas como “Então estás bom? Tens uma barriguinha muito bonita. Não falas comigo porquê?” Tudo isto entrava no seu sistema caindo em cima das paredes do estômago que se fechavam com o peso cada vez maior. Os intestinos já não estavam receptivos, só ferviam, irradiando um calor que cujos efeitos podiam ser comprovados pela sua testa já húmida de suor.

Estava na senha noventa, e eram horas de entrar ao serviço. Faltavam sete senhas. Chegar atrasado compensava tento em conta que estava ali já há duas horas. Se desistisse agora eram duas horas que não iam contar para nada. Estava de pé quando fez a chamada para o serviço. Desculpou-se com o transito, a desculpa não foi bem recebida, pois era já repetida, mas passou. Ainda viu duas pessoas passar-lhe à frente. Umas estava grávida, a outra tinha prioridade mas ele não percebeu porquê. Finalmente chegou a sua vez. Deu o papel ao funcionário, este deu-lhe o envelope com os comprimidos. Assim só, quase não se trocou uma palavra, nem demorou um minuto porque o envelope estava mesmo ali à mão. Saiu disparado dos correios. Pelo caminho abriu o envelope, tirou cinco comprimidos e engoliu-os em duas vezes. Agora é que vai ser, pensou enquanto esticava a mão para mandar parar um taxi de maneira a chegar o mais depressa possível ao serviço. Quando chegou percebeu porque é que a desculpa tinha tido tão má aceitação. Era um daqueles dias. Filas que saiam do prédio. Gente sem paciência que não percebia a demora, e culpava os outros por tudo. Vestiu a camisa e antes, o chefe disse-lhe que não podia ter escolhido um pior dia para chegar atrasado, e sugeriu que talvez não fosse má ideia ele fazer mais umas horas hoje. Ele olhou para fila outra vez e concordou. O chefe agradeceu e deu umas palavras de incentivo que ele engoliu com mais dois comprimidos dos seus. Na pausa quando foi urinar viu que o seu mijo era azul. Nunca tinha visto tal coisa.

Entrevista de emprego

Tinha ainda mais duas entrevistas até dar por concluída a semana. Na sua inocência estava convencida que esta era a parte mais dura do todo que tinha pela frente. Ninguém corrige este tipo de optimismos, e ainda bem. É como correr uma maratona, se a pessoa sentir ao principio a dor sentida a meio da corrida perde a coragem para se iniciar. Faltava um quarto de hora para a hora marcada quando se apresentou na recepção. Fê-lo de uma maneira informal pois não se sentia confortável com formalismos “Ola sou a Rita. Tenho uma entrevista agora às 9.” Escusado seria dizer que estava nervosa, apesar de lhe correrem sempre bem as entrevistas, sem nunca as preparar como faziam alguns dos outros candidatos às mesmas vagas. Sabia-o que preparavam as entrevistas porque os via com papeis que reliam enquanto ainda havia tempo. Ela não preparava nada, tinha até orgulho nisso. Admirava as pessoas que não se esforçavam principalmente quando era de esperar que se esforçassem. Na sala de espera só lá estava ela. Por detrás de uma porta ouviam-se vozes de três pessoas. Ia estar em desvantagem numérica. Finalmente ouviram-se as despedidas, e o candidato saiu sozinho. Rita olhou-o tentando adivinhar qualquer coisa acerca do que a esperava. Era um rapaz novo mas que já vestia um fato com uma gravata. Rita estava com umas calças beje, uma t-shirt preta da moda, uns ténis all-star e um colar de prata que quase nunca tirava do pescoço. Quando a recepcionista disse-lhe que podia entrar ela bateu com as mãos nos joelhos como se este choque desse impulso para se levantar.

Rita era sem duvida uma rapariga simpática e descontraída. Podia não responder o que se pretendia ouvir, mas respondia sempre o que tinha de responder. Esta característica, quando usada de forma inteligente, é cómica. Rita fazia os outros rir com a sua espontaneidade. Que por sua vez quebravam o expectável. Neste aspecto Rita não tinha nada de inocente. Sabia como provocar o riso. Tinha haver com os papelinhos. Nas entrevistas não é suposto dizer o que se pensa durante a entrevista. O que é esperado do candidato é que estude o que acha que deve estudar, escreva num papel e depois pronuncia as suas falas no momento certo. Está era a mecânica esperada. Ao dizer o que pensava (nunca era exactamente o que pensava, não podia ser) quebrava a mecânica e (nem sempre assim era) encontrava o riso. Mas não era um palhaço. Um palhaço não consegue arranjar um emprego, e Rita queria um emprego ao ponto de pensar que precisava de um. Talvez precisasse mesmo, quem sou eu para o dizer.

O final da entrevista estava reservado para que os entrevistadores fizessem uma breve apresentação acerca do salário. Um deles empurrou uma folha quase em branco para o centro da mesa, de maneira a ficar mais perto do olhar da candidata, e foi acompanhando a sua apresentação com rabiscos ilustrativos: “O vencimento é processado no ultimo dia de cada mês. São 945 euros por mês, brutos, que podem chegar aos 1200, também brutos. O horário é o horário normal das nove às oito… às seis. Folga aos fins de semana… que mais posso dizer…” Na sua inocência Rita perguntou porque eram 945 euros. “Como assim porquê?” Era uma pergunta difícil, e ainda por cima não teve piada. Foi até ofensivo, porque mil euros por mês? Quem é que não queria receber mil euros por mês. É um ordenado muito bom, é unânime, nem é preciso pensar mais no assunto. Rita despediu-se com um aperto de mão e a promessa de uma chamada caso corra tudo bem. Despediu-se da recepcionista feliz por poder ir agora comer, estava com fome, mas sem saber como é que tinham desencantado os 945 euros brutos. Não se pode ter tudo, ter um apetite às horas certas já não é nada mau.

Dois problemas

Estou convencido que os gatos não vêm as mesmas coisa que eu vejo. É verdade que não sei o que qualquer outro par de olhos vê, só sei aquilo que os meus vêm. Por enquanto. Mas parece-me que nós, as pessoas, vêm todos mais ou menos as mesmas coisas. Há quem diga que vê coisas que mais ninguém vê, como extra-terrestres ou espíritos. Provavelmente é mentira. O que não quer dizer que quem afirme convictamente que vê o que mais ninguém vê esteja a mentir propositadamente. Todos temos uma certa necessidade de ser especial, manifestamente único. Isto por vezes distorce-nos a visão. Os gatos. Sempre que me apanho parado somente a olhar numa direcção sem saber porquê, reprimo-me. Fico até preocupado com a maneira como dou por mim a desperdiçar tempo. Quem tem gatos, ou observa os que por aí andam sem dono, os selvagens, sabe que esta prática é comum entre a sua espécie. Os gatos são capazes de estar sentados nas suas quatro patas a contemplar o infinito como se o tempo estivesse parado. A ciência já deve ter encontrado uma bem fundada explicação. Talvez diga que nestes momentos o cérebro do gato aproveita para dormir. Só a parte direita, enquanto a esquerda permanece de vigília para possíveis ataques de predadores ancestrais. Eu respeito, como respeito quase tudo, mas tenho ideias diferentes. Posso-as ter porque quero, e porque a ciência tem tantas respostas para as grandes questões como qualquer outra coisa. Quais são as grandes questões? Não interessa, mas sei que a ciência não as respostas correspondentes. Os gatos vêm personagens de ficção. Aquelas que depois ganham uma representação dada por nós, a espécie humana. Isto levanta um problema, mais um, por isso é que eu avisei que eram dois. Se os gatos os vêm, eles não são personagens de ficção mas sim pessoas reais, como nós, que não os vemos, por estarmos em realidades diferentes. E se eles são reias, nós não os podemos inventar. Se inventarmos, inventamos outra coisa, que não é um personagem de ficção, e por isso não serve para o fim pretendido.

No outro dia estava a escrever uma personagem que chamei Rita. Pareceu-me ser uma Rita, e pareceu-me que tinha o cabelo vermelho. De resto não sabia mais, por isso comecei a inventar. Queria que ela fosse nova, vivesse com o pai, e tivesse o sonho de ser uma comediante. Peguei nela e meti-a a fazer coisas, em situações que conheço e que pareciam-me ser interessantes para ver o que ele fazia. Devo dizer que saiu-se bem, e revelou-me algumas das suas características sem que eu as tivesse de inventar. Estava satisfeito com a sua prestação mas uma coisa são estes testes, outra coisa é uma história. Para a meter na história tinha de saber se ela era real. Tinha de saber se ela existia. Precisava de um gato emprestado, por alguns dias. Só por um curto período de tempo. Não tenho nem nunca tive um gato porque não seria justo para o animal estar constantemente a tropeçar nas minhas personagens. E as minhas personagens se calhar não gostam de ter um gato a observar os seus ocultos comportamentos. Mas por um alguns dias talvez pudesse descobrir alguma coisa.

Sou algo tímido, não me agrada incomodar os vizinhos ainda por mais com estas coisas. Por isso raptei o gato do segundo esquerdo. O gato do segundo esquerdo é um vadio, palavras dos donos, e por isso menos ofensivas. Anda pelas escadas do prédio, mia para as portas, e quando estas se abrem entra sem pensar nas consequências. Num destes dia esperei até ouvir o miar, já com tudo preparado, comida de gato, seca e húmida, e uma caixa cheia de areia, para uma estadia de alguns dias. Ele miou, eu abri a porta à primeira, e ficou feito o check in. No primeiro dia não aconteceu nada. Ele ainda se estava acostumar à nova casa, não tinha tempo para a ficção. No segundo dia, felizmente porque já não podia ter o gato lá em casa, faço imensa alergia, ele parou no meio da cozinha e ficou só a olhar. Olhei para o mesmo sitio, esfreguei e apertei os músculos das pálpebras, num esforço de ver mais além. Ficamos assim durante algum tempo até inesperadamente o gato dar um salto e desatar a correr pelo corredor fora até ao outro extremo da casa. Fiquei sozinho com Rita. Perguntei “és tu Rita?”. Depois andei o resto do dia à procura do gato, que se tinha enfiado debaixo da cama e não queria sair dali, quase como protesto. Quando finalmente saiu, agarrei-o e deixei-o nas escadas. Uma experiência falhada. Agora que a analiso à distancia acho que se tivesse ido à farmácia comprar um anti-histamínico tinha conseguido levar a experiência com mais tempo e tranquilidade. De qualquer maneira passei a acreditar que a Rita não gosta de gatos.

Fábrica de mealheiros

Numa sala de reuniões, daquelas com mesas desnecessariamente grandes ao centro, e rodeadas por pessoas tão idênticas que se confundem, um homem que parecia liderar as operações parecia pensar no que ia dizer. Olhava o horizonte, com o cotovelo em cima da mesa, o queixo em cima da palma da mão, para assim estabilizar o cérebro promovendo um melhor desempenho ao pensamento. Assim que surgiu uma oportunidade, não interrompeu ninguém, dando às suas tão prometedoras palavras um começo civilizado mas pouco cinematográfico. Disse “Só não percebo porque fica ao critério das pessoas escolher onde vão gastar o dinheiro que poupam? Querem dar-lhes trabalho?” A sugestão de dar trabalho ao cliente que paga para não o ter foi cómica. Um paradoxo interessante que provocaria o riso mesmo se não tivesse sido quem foi o autor da piada. O homem esperou que o riso abandonasse a sala, pelas paredes e pelo tecto, e continuou satisfeito, mas não muito satisfeito. Não queria que pensassem que o sucesso da piada tinha sido simplesmente por sorte, mas também não queria passar a ideia que o que disse era uma anedota. Continuou “Este produto, mealheiros inteligentes, porque não escrevemos no produto para que serve? Por exemplo este” e pega no que esteve sempre na sua frente “diz aqui: poupar para… Para quê? Porque não escrevermos logo para o que é que se poupa? Não me parece boa ideia deixar uma decisão destas para o nosso cliente.” Depois calou-se até alguém terminar de verbalizar o seu raciocínio. Alguém completou dizendo que se ia fazer vários modelos de mealheiros. Cada um estampado com um texto diferente. O inicio seria sempre o mesmo: “Poupar para” e o resto variava. Podia ser para uns sapatos, para uma viagem, para um jantar, para uma televisão nova, ou um sofá novo, isto depois logo se via com o departamento de Marketing. O importante era sermos nós a dizer o que é que as pessoas querem. Porque é que vivem da maneira que vivem, dia após dia, cinco dias por semana, e dois para fazer outras coisas. Podemos dizer porque estamos em condições de o fazer, esta mesa gigante no meio desta sala num escritório a cem metros do chão é a prova que estamos em condições de o fazer. Podemos falhar para uma ou duas almas perdidas, que perderam ou nunca tiveram em contacto com a civilização. Mas o resto acertamos, acertamos sempre. Queremos acertar porque existe outras pessoas a tentar acertar, e torna-se um jogo. Quem não gosta de brincar? Tudo isto é possível porque toda a gente gosta de brincar. A reunião terminou com o bater de palmas do homem. Quando estavam todos já a chegar à porta o homem disse ainda para fazerem os mealheiros mais pequenos, quase que se ia esquecendo, mas foi a tempo, é para isso que o pagam.

E os palhaços não sabem rir

Faz exactamente agora uma semana que por distracção derrubei a minha caneca preferida atirando-a ao chão e partindo-a em pelo menos cinco partes, sem contar com os estilhaços. Lembro-me de como fiquei angustiado. Nestes momentos que nos chegam com a desagradável lembrança da irreversibilidade do tempo, resta-nos o esforço de com o tempo que nos resta reverter o estrago que foi feito. Nos sonhos é fácil, basta acordar, mudar o lado do disco e verificar para nosso alivio que deste lado não está riscado. Quando uma coisa se parte mesmo, e não foi um sonho, é preciso agir. É-nos exigido alguma coisa, nem que seja ignorar o acidente e afastarmo-nos da desgraça com toda a resignação que podemos arranjar. Alguém depois varra o que ficou caído. Ponderei colar as partes da caneca, reconstituindo-a. Ideia que foi prontamente abandonada pelo trabalho que me iria dar. Depois já quando empurrava para uma pá aquilo que um dia fora a minha caneca preferida, voltei a ponderar a ideia. Ter uma caneca refeita com cola, voltando a ser quase uma caneca, depois de ter deixado de o ser. Uma caneca que nem sempre foi uma caneca. Uma caneca que pensou que deixara de ser uma caneca para sempre, para voltar a sê-lo por força da cola. Achei isto de alguma maneira poético. Voltei a rejeitar a ideia devido ao trabalho que me ia dar. A experiência diz-me que a poesia é inesgotável, e surge sem esforço. Pode-se tentar materializa-la com trabalho esforço e dedicação, mas neste caso achei que o melhor era deixá-la ir, como deixei ir a minha caneca preferida para o lixo. Não me arrependo.

Hoje acho tudo isto cómico. A contracção dos meus músculos faciais quando derrubei a caneca, a minha distracção de a deixar na borda da mesa, a sonoridade da caneca a partir-se no chão desrespeitadora da hora tardia que se fazia, a velocidade com que tudo aconteceu, até a própria caneca a partir-se. Uma caneca a partir-se é cómico. Se fosse um vaso da vista alegre, uma peça única avaliada em meio milhão de euros, era ainda mais cómico. Tinha era de se esperar mais do que uma semana, quem sabe alguns anos, para o cómico se revelar. Mas o riso, desde que se tenha algum sentido de humor, o riso vem sempre a caminho. Para nos lembrar que a culpa foi nossa. Não devíamos ter pensado que as coisas são eternas nas suas formas actuais. Este foi o primeiro erro, o segundo foi atribuir significado às coisas. Foi ridículo da nossa parte. Felizmente podemos rir agora. Os palhaços partem a loiça toda porque não se podem rir. Os palhaços não se riem. Para um palhaço nada tem significado, nada pode ter graça. Os palhaços não podem ser civilizados, até porque aqueles sapatos não são bons para andar na cidade ou no campo. Primeiro rimo-nos dos palhaços, depois temos medo dos palhaços, até nos tornarmos palhaços. Gente desumanizada, barulhenta, desrespeitadora, para quem nada importa, nada é real, nada tem significado, como num sonho. Da mesma maneira que não podemos recuar no tempo, também não podemos evitar o seu avanço. E por isso está tudo bem, estou só um bocado pessimista porque parti a minha caneca preferida.

Sair de casa

Não saía de casa há mais de uma semana. Nunca tinha estado tanto tempo sem sair de casa. Os primeiros dois dias foram passados em casa como que por acaso. Ou seja, aconteceu. Depois disto quis ver até onde conseguia ir. Tinha visto no telejornal a notícia de uma família na Holanda que por estar convencida que o mundo ia acabar, enfiaram-se num Búnquer, de onde só saíram passados nove anos. As razões que levaram a família a acreditar em tal coisa ficaram por contar. Foi uma notícia de final de telejornal, onde só há um tempo para o entretenimento, pois é assim que se deve acabar as noticias,num tom leve. Não tenho qualquer teoria a respeito da história ou das razões por detrás das causas. Provavelmente tratasse de gente que deseja ver o mundo acabar. O desejo é tanto que acabam por fazer este tipo de disparates.

Já eu não saía de casa há mais de uma semana. Sabem quando fazemos uma coisa todos os dias, e por uma razão ou por outra deixamos de a fazer. Quando voltamos a fazê-la parece-nos diferente. Saí de casa passado uma semana. Se tivesse os mantimentos daquele Búnquer tinha-me aguentado mais uns dias, quem sabe mais uns meses. Saí porta fora e foi até ao café. Apesar da rua ser a mesma (estou convencido disto) parecia diferente, e por isso melhor. Já o caminho que fiz depois do café até ao super-mercado foi arrastado, por obrigação, sem interesse. Foi o que se conseguiu arranjar com uma semana, sete dias de jejum. Imagino como aquela família se sentiu ao sair à rua depois de estar nove anos sem sair de casa. Não deve ter sido fácil aguentar nove anos, mas com certeza valeu a pena. Estar aquele tempo todo sem sair de casa, e depois de repente ir à praia, tem de ser para toda a gente uma experiência incrível. É como ficar muito tempo a reter o ar nos pulmões, e depois finalmente ceder e deixar o ar sair. Ou como ficar muito tempo sem comer, e depois dar uma dentada em qualquer coisa. São tudo experiências que se podem fazer, sozinho, acompanhado ou em família. Quem tem um espírito cientifico tem uma boa vida.