Caro Visitante

Nada disto foi o julgámos poder ser. Afinal, as coisas tendem todas a desaparecer. Entropia, julgo ser esta a melhor palavra, para dizer o que estou a tentar dizer, e poupar tempo. Quando começou a ler isto, caro leitor, tinha mais tempo do que tem agora. E irá ser sempre assim até ao fim deste breve texto. Expresso-o para que não hajam mal entendidos.

Se as coisas têm tendência a desaparecer, parece-me obrigatório concluir, que a sua importância está restrita na sua existência. Uma nota, quando digo desaparecer refiro-me a desaparecer completamente, memória, vestígios, tudo.

Talvez não seja nada disto, e esteja a ler mal a realidade. Foi este o começo, um esforço de através da escrita, dizer sem querer, é sempre sem intenção, alguma coisa diferente, interessante. Porque sei, tão bem como qualquer pessoa, não ter grande coisa para dizer.

Mesmo assim, tenho um novo site, chama-se:

artesdedormir.com

Para este novo site escolhi um tema significamente pesquisado nos motores de busca. Também o conteúdo está pensado para obter bons resultados nos motores de busca, escrita orientada para o SEO.

Não deixa de haver espaço para a exploração através da escrita e do pensamento. Afinal estamos a falar de dormir, sonhar, passar metade da vida muito quieto na horizontal, no mesmo plano da escrita.

Seja como for, a exploração livre, sem destino definido, terá de ficar longe dos títulos H1 e H2, longe das páginas principais, longe dos caminhos por onde se atravessam as aranhas que pesquisam às cegas a rede de links em toda a sua extensão. Aqui, tudo terá de permanecer acessível ao mundo superficial, pois é nele que se vive. Aprofundamentos serão feitos nas periferias.

Em breve este site irá para o cemitério de links, por onde as aranhas desistiram de passar. Não tenho dúvidas que ficará bem.

Mudança

Por agora é tudo, quanto aos contos do Urinol. Qualquer dia irei rever os 86 contos, porque devem estar uma merda, repleta de ideias de aproveitar. É sempre assim, desde há muito tempo.

Os contos não vão desaparecer, vão ficar submersos. Porque a ideia agora é outra. Vou transformar este espaço num blogue sobre a arte de dormir. Dormir será o único tema.

Ouvi o João Quadros, falar da importância de percebermos o que fazemos melhor, e usar esta vantagem para sobreviver. Que é como quem diz ganhar dinheiro.

Durante muito tempo fui o melhor a beber cerveja. Foi tão divertido que nem tive tempo para pensar como fazer disso carreira. Agora, o que faço melhor do que qualquer outra pessoa é dormir. Provavelmente porque tenho o fígado ressentido. Não interessa.

Por tratar-se de algo apreciado por todos, prevejo sucesso e prosperidade nesta minha nova demanda.

O blogue vai contar com uma categoria de dicas numeradas; vídeos sobre o assunto, porque é mais viral do que as antigas letras; uma categoria chamada sonhos (que na verdade será onde vou enfiar os contos do urinol, o que está submerso vem sempre ao de cima); e uma categoria onde vou vender, a um preço bastante acessível, horóscopos do sono, thema coeli. Inspirados no romance de Becckett, Murphy. Será o mesmo modelo, mas direcionado para ajudar o individuo a arranjar sono, em vez de emprego.

A partir de amanhã, os Contos do Urinol passam a ser,

GUIA PARA O SONO … não.

DORMIR COMO UM PORCO … nah

UMA BOA NOITE … talvez. Sinto que estou perto.

Por agora uma boa noite, e durma bem.

Escrever

A ideia de beleza, seja em que forma for, quando descoberta na cabeça há que arrancar nem que seja uma parte, com a unha ou a ponta mais redonda da caneta, como quem deseja limpar-se da cera dos ouvidos ou dos macacos do nariz, e executa com o talento que lhe é devido o movimento de extração, contando arrancar para fora algo magnífico, no melhor cenário – bastante improvável – a totalidade da coisa interior. Tudo o que tem dentro de si finalmente exposto, para a tão ansiada análise mergulhada num silêncio de isolamento dada a privacidade do gesto.

Nunca sai verdadeiramente tudo, e o que sai ou é insignificante, desfaz-se desaparecendo entre os dedos logo ao primeiro toque, ou é algo que se revela desinteressante ao fim de algum tempo.

O pior é que se cola a nós. Assim que assenta os pés na terra, num estar de dedos reduz-se a sujidade. Os dedos responsáveis, também responsáveis ficam por se libertarem da aberração, pelo menos nisto se faz justiça. Roçam-se vigorosamente uns nos outros, dedo com dedo, dedos com calças, dedo com tudo o que esteja ao redor. Por fim, quando se vêm livres do excremento, permanece a possibilidade de um reencontro, um reaparecimento na pior altura, e consequente denunciação da imundice que se sé.

Um dia estamos sozinhos, completamente sós, finalmente sós, a convalescer de uma qualquer doença, ou até mesmo em pleno estado enfermo. De entranhas inflamadas, químicas, acidezes e temperaturas aos azeites, espirramos o espirro catártico, olhos devidamente selados durante a explosão, e reabertos ao mundo para testemunhar, a repousar na mão levada à boca intuitivamente por boa educação, o extraordinário em plena completude. Mesmo fugaz, é um alívio, a leveza do esvaziamento.

E poder escrever acerca do que se tem nas mãos; Muco é certo, repugnante quando visto de fora sem um tratamento bem letrado. O trabalho do escritor é – também – dar um tratamento ao muco. Escrever para tornar o muco alheio no muco de todos, pronto a consumir. A cura para a doenças é feita da doença.

Alguns números não são os correctos

Então como ganhar o Euro-milhões? Relembrando o que se pretende, são cinco experiências, cada uma delas para encontrar um número, cada uma para um dos cinco sentidos. Quando tivermos os cinco números, ou melhor, quando estiver convencido que os tenho, então pensamos às estrelas.

Antes de avançar para as experiências devo ainda dizer mais qualquer coisa. Esta necessidade ocorra porque esta é uma experiência solitária. Por isso carece do tão precioso e útil contraditório que só o outro pode oferecer. Eu não sei o que o outro pensa disto tudo, que dúvidas ou questões lhe surgem ao ler estas palavras que escolhi para falar de qualquer coisa que também eu não sei bem do que se trata. Falta-me esta informação, que seguramente me iria conduzir por caminhos melhor sinalizados.

Há ruas que só se mostram quando alguém as sinaliza. O que vou fazer de seguida é endereçar esta questão, colmatar esta falha, propondo eu algumas questões, as chamadas perguntas frequentes, que encontramos em alguns sites cuja utilidade é duvidosa. Como é duvidosa esta minha causa. Se alguém (que não seja eu) vos tentar convencer que sabe adivinhar os números do Euro milhões, esta pessoa é um vigarista. Ou um louco. Mas vamos ao que importa por agora. Perguntas frequentes.

Porque não partilho esta experiência com as pessoas que me são próximas?

Não é seguramente pelo risco de ser confundido com um vigarista. Quem me conhece sabe que não o sou. Alias, a minha cara nem permite qualquer equivoco a este respeito. Por isso posso dizer, até quem não me conhece sabe que não posso ser um vigarista. Posso ser confundido por um louco. Não é algo que me dê especial conforto, mas também não é esta a razão de não partilhar a experiência com amigos e familiares. Não o faço porque o sucesso desta experiência depende quase exclusivamente de Fé. É preciso acreditar nestas coisas. É preciso encontrar a Fé. Ora eu não vejo (e ainda ando muito por ai) ninguém preocupado com espiritualidades. Vejo toda a gente cheia de vontade de ganhar o Euro-milhões, mas preocupados com a procura da Fé nem os padres.

Talvez esteja a ser injusto. Na verdade não conheço nenhum padre. Se partilhasse esta experiência com alguém, ou seria imediatamente ignorado, ou se perdesse tempo, e explicasse o meu ponto de vista, o melhor que conseguisse dentro do intervalo de atenção que o meu interlocutor me cedesse, sei que seria mal sucedido. Teria de esperar que a pessoa fosse procurar a sua Fé, se estivesse disposta a isto, e só depois poderia receber os seus pareceres. Quem é que, com filhos, contas para pagar, quatro semanas de férias por ano, e o clima cada vez mais quente, tem tempo para o espírito.  Nem eu que como se pode ver, estou cheio de tempo. Tanto que até o vendo a um barato. O que me leva à próxima questão.

Porque é que achas que podes saber a chave do Euro-milhões?

Não acredito que consiga acertar na chave do Euro-milhões. Disse-o para chamar a atenção. Mas sem qualquer segunda intenção. Fiz até mais para chamar a minha atenção. O que acredito é que é possível prever a chaves do Euro-milhões. Não digo acertar, isto penso que é lógico que é possível. E existe provas, já houve quem acertasse.  Digo, antes de ocorrer o sorteio, saber, com toda a certeza, os números que vão sair da tômbola. Não tenho dúvidas que a aleatoriedade é uma ideia para explicar algo que não podemos compreender racionalmente. Por isso a escolha da Fé como forma de abordar esta experiência.

O que é ter Fé?

Se esta pergunta me fosse dirigida por alguém, para parecer bem, e despejar o meu valor intelectual pelos ouvidos da pessoa, citava algo de Kierkegaard, falaria de Abraão, da metafórica espada suspensa em todas as cabeças. Lembrava o caso de Tolstoi, se estivesse a falar com alguém que não percebesse nada do assunto arriscava, e fala de Nietzsche, como um bom pedante. Como a pergunta é feita por mim a mim, vou tentar ser mais honesto.

Percebo tanto o que é a Fé como percebo a importância do sistema bancário ou a relevância dos accionista para a economia. Sei explicar tão bem o que é a Fé como sei dizer qual a melhor dieta para determinado individuo. Mas sei onde ela se manifesta. Quando amamos alguém, e esperamos que esta pessoa sinta o mesmo amor por nós. Quando um jogo de futebol vai nos noventa minutos, e esperamos que aconteça um golo. Quando vamos ver as notas de um determinado exame, e esperamos encontrar a palavra aprovado junto ao nosso nome. Ou quando vamos verificar a chave do Euro-milhões. Nestes exemplos (excepto o último) existe um conjunto de factores que definam o resultado, e que podem ser explicados e percebidos. Mesmo assim, mesmo assim. É a espada suspensa por uma corda, se a corda ceder (e vai ceder) a espada cai e desfere o golpe derradeiro. Mas assumimos insistentemente que tal não vai acontecer. Recuso-me a ser um niilista.

Porquê baralhar o Euro-milhões com a Fé?

Pela importância que hoje se dá ao dinheiro. Um cidadão Europeu (presumo que também um cidadão Americano) tem todas as semanas do ano uma oportunidade de se tornar tão rico como um rei. Todas as semanas tem oportunidade de ganhar a vida de uma só vez, em vez de a ter de ganhar aos bocadinhos todos os dias.

Quanto Dinheiro é preciso para ganhar a vida?

Esta para mim é a questão que permite relacionar a Fé com o dinheiro. Ninguém sabe ao certo. Mas toda a gente sabe que é preciso agir de maneira a satisfazer as exigências do dinheiro. Por isso seguem um determinado código de valores. Algumas por medo do que será delas se não o fizerem, medo de ser castigadas pelo Dinheiro. Outras porque descobriram que a vida torna-se mas fácil, melhor, se seguirem um código de valores que atraia o Dinheiro.

Então podemos dizer que quem ganhar o Euro-milhões percebe o que é a Fé?

Não. Não me parece.

Mas se dizes que a Fé é como dinheiro. Quem tiver muito dinheiro tem muita Fé.

Digo que da mesma maneira que não se percebe o que é a Fé, também não se percebe o que é o dinheiro. É como se o Homem sempre que escolhe algo para dar propósito, significado à vida, deixa de perceber a natureza do que escolheu. Não sei porque tal acontece?

Talvez porque o que o Homem não percebe mesmo é a vida. Percebo-te de alguma maneira. Mesmo assim acho perverso e até perigoso misturar a questão da Fé com o Euro-milhões. A Fé não pode ter utilidade neste mundo, e o dinheiro é deste mundo.

Pois é isto mesmo que proponho. Encontrar uma utilidade da Fé neste mundo. Uma utilidade prática e concreta. Que tenha aplicabilidade, que seja traduzível. Como a ciência.

Como a ciência?

Como a ciência.

Bem. Boa sorte.

Onde é que vais?

Calar-me.

Certo. Mas não vais longe?

Não. 

Não me podes dizer mais qualquer coisa a respeito do sítio onde estás?

Pensas que é aqui o tal sítio que falaste? Onde se pode encontrar os números do Euro-milhões. Pensas que aqui é algum sitio fora do mundo? E queres algo de fora do mundo para usar no mundo?

Bem. Sim. Era isto mesmo que esperava.

Aqui também não se sabe a chave do Euro-milhões, Aqui é o mesmo que ai.

Não. Isto é porque agora também estás aqui. Estamos no mesmo sítio, percebes? O que eu quero saber é onde é que estavas antes?

Antes de quê?

Antes de aqui estar.

Não me lembro. Só me lembro disto. Tu é que deves saber? Onde estava antes de me teres trazido para aqui?

Eu trouxe-te para aqui? Bem. Não me lembro de o fazer. Se o fiz, não foi de propósito.

Oh foda-se. De que é que isso me serve. Se foi de propósito ou não foi de propósito.

Desculpa. Talvez quando fores vais para onde eu te fui buscar.

Se assim for, não tenho com que me preocupar.

Mas podes ir para outro sitio.

Isso já me preocupa. 

Desculpa mais uma vez.

Não. Eu sei que estas coisas acontecem. Deixa. Se tiver de arriscar. O Euro-milhões de hoje vai ser…

Não! Não digas. Eu não vou jogar. Podes acertar, e isto seria doloroso.

2 3 7 19 32 estrelas 2 e 9.

Filha da puta.

Vais jogar?

Não. Quero que se foda.

Estás magoado comigo.

Não. Estas coisas acontecem. Tens sentido de humor.

Sim. Foi engraçado. Bem. Adeus.

Estas são as perguntas mais frequentes. Resta-me agora meter mãos à obra e iniciar as experiências que ficaram por fazer. Se percebi bem, temos cinco experiências, são cinco sentidos, e cinco números. Não sei porque não se optou pelo totoloto em vez do Euro-milhões. De certeza que o primeiro prémio de tanto um como o outro servem para pagar os custos de uma vida.

Exercício do poder

O exercício que melhor reflecte o poder do atleta tem como nome: peso-morto. Descreve-se como sendo a maneira mais eficaz de arrancar um peso do chão. Só o tira do chão quem pode. Todos podem, não existe qualquer lei que o proíba, mesmo se existisse, seria certamente desrespeitada sem ninguém saber. Mas nem toda a gente pode com o peso. Há quem tente e conclua que não tem força para levantar o peso do chão. Incapaz de completar o movimente da forma correcta e segura, desiste, vai fazer outro exercício. Há quem se aproxime do peso, sabendo de ante-mão que é muito mais do que pode levantar, mas mesmo assim decida “eu vou levantar isto do chão custe o que custar”. Esta decisão é perigosa porque dela pode resultar danos para a pessoa (o peso morto tem um elevado risco para a integridade física caso executado de forma incorrecta), e colateralmente para o ginásio, que passa a ser um local perigoso, onde os utentes não sentem segurança. Dai se conclui, o peso morte deve ser feito apenas por atletas experientes, e com moderação. Apesar disto, qualquer pessoa pode tentar fazer o peso morto, apenas porque é feio proibir.

Outro exemplo: alguém está sentado no sofá com o gato ao colo, enquanto bebe café e lê um livro. O café, quem bebe café sabe, faz com que se tenha de ir à casa de banho, cagar. A pessoa levanta-se, pede licença ao gato, e vai à casa de banho. O gato por ser gato, e não pensar muito tempo acerca do que faz ou deixa de fazer, ocupa o lugar agora vago. Quando regressa, a pessoa quer evidentemente o seu lugar de volta. Mas o gato não cede o lugar por livre vontade. Está agarrado ao lugar, com unhas e dentes. A pessoa pode tirar o gato dali. Alias a pessoa  tem poder para tirar o gato de qualquer sítio da casa, todos os dias, a toda a hora. Se a pessoa quiser, pode não deixar o gato fixar-se jamais num lugar. O que a impede é o interesse de não incomodar o gato. As pessoas e os gatos podem conviver juntos harmoniosamente, basta não serem idiotas. Os gatos não costumam ser idiotas. Neste exemplo bastou um leve cutucar nos flancos traseiros do gato para este devolver harmoniosamente o lugar à pessoa, e ocupar o seu, ao colo.  Mais tarde, quando o peso do gato já se fazia sentir nas penas que ocupava, a pessoa aguentou heroicamente o desconforto. Porque o gato estava a dormir, e não é um peso morto que se possa arrancar de onde está sem consideração.

Se no primeiro exemplo temos coisas mortas, no segundo temos coisas vivas. Acho que… acho que é bastante claro. Que assim é… Não existem outras coisas fora destas duas categorias. Ou estão vivas ou estão mortas. Aquilo que sei acerca de biologia é que uma coisa viva pode tornar-se uma coisa morta. Mas uma coisa morta não pode ser uma coisa viva. As coisas mortas, em princípio ficam onde estão. Se alguma força fizer com que se movam, movem-se para onde a força as empurra, emitindo os seus gritos de possível desagrado, ou contentamento, quem sabe. Quanto maior for a força e e deslocação, maior é o grito. Depois calam-se e ficam onde estão, é o conformismo das coisas mortas, é o silêncio. As coisas vivas fazem o mesmo. Precisamente a mesma coisa. Não podia ser de outra maneira.

Manifesto de intenções para este lado

Se alguém tem um ponto de vista, acerca de qualquer assunto, custa-me acreditar que consiga também ter o outro. Não duvido que exista um outro ponto de vista que se oponha precisamente ao primeiro. Falo da magia do número dois. Ou mais de um. Uma e outra coisa. Por isso quando aqui se encontrar transcritas conversas entre duas ou mais pessoas (nada de monólogos, tudo o que for monólogos de qualquer espécie vai para a outra página) são mesmo conversas entre duas ou mais pessoas. E não o autor a ter uma crise de esquizofrenia. Garanto-vos que nunca tive uma crise de esquizofrenia.

As conversas são entre pessoas distintas, indivíduos possuidores do um corpo, e como tal todos os direitos sociais que a lhe estão associados. Os nomes porém podem não corresponder aos verdadeiros. Refiro-me aos que constam no bilhete de cidadão. Nem todos são cidadãos, devo dizer. Alguns não o são, mas aqui tenta-se que não haja descriminações, como de resto em qualquer sítio.

Haverá sempre, em todas as conversas, uma parte que será inventada, por mim, como não podia deixar de ser.  Refiro-me ao contexto. Porque o contexto real é muito aborrecido. Se não vejam. Eu convido as pessoas a vir cá a casa (ou irei ter com elas, não existe uma regra fixa, é daquelas coisas que à medida que se avança vai-se descobrindo o que se está realmente a fazer) elas chegam, falam e depois, só depois, eu escrevo o que se passou. Assim sem mais nem menos. Não podia ser, até alguém sem qualquer experiência sabe que não ia resultar. Sempre que escrever, seja o que for, o contexto sou eu que invento. Já que não posso inventar as conversas, devido à impossibilidade que acredito existir e que referi no inicio deste texto (a de uma única pessoa possuir dois pontos de vista) ao menos que seja livre para pintar o fundo da coisa.

Isto podia ser feito em podcast, ou mesmo em video. Só não é porque acredito (sou um Homem cheio de crenças como já devem ter reparado) que as câmaras de filmar tiram a alma às pessoas. O que me interessa é a alma (aqui neste lado, no outro lado tenho outros interesses). Se as filmar fico com conversas de corpos humanos sobre observação. Isto nunca interessou a ninguém. Lembram-se? Antes da tecnologia, lembram-se do que interessava? Gravar em audio apresenta o mesmo problema. Não quero que as pessoas sequer desconfiam das minhas intenções de recordar as suas palavras. Nem apontamentos vou tirar, terei de confiar na minha memória. É o preço a pagar. Não é grave, acabamos sempre por ficar dependentes da memória.

O melhor era nem estar presente, mas se assim fosse era como se não tivesse acontecido. Eu não consigo escrever o que não aconteceu. Terá de haver alguma observação, mínima. Acredito que com o tempo até se esqueçam que eu lá estou. Acredito que com o tempo vou desaparecer. Só assim se pode garantir totalmente a liberdade. Entretanto ficam estas conversas.

Chuva

Não me incomoda mais andar à chuva como quando era mais novo. Descobri que, desde que nunca pare, hei-de deixar de estar à chuva. Não é possível apanhar com a chuva toda em cima, por mais tempo que se passe à chuva. Agora nem acelero o passo, mantenho-me igual, como se não estivesse a chover, e avanço como considero ser a melhor maneira de avançar. Que não é mais do que uma maneira igual a qualquer outra maneira. Espero um dia ir mais longe e passar até de gostar de andar à chuva, como quando era ainda mais, mais novo.

Confissão numa igreja cristã

Em criança tinha feito a catequese até ao primeiro crisma. Os pais não eram religiosos ao ponto de fazer questão que o filho fizesse a catequese ou fosse baptizado ou visitasse uma igreja todos os domingos antes do almoço. Mas eram pessoas de fé, que por sua vez lhes fora ensinado em criança a importância do sagrado. Talvez não teria sido necessário ensinar-lhes a fé, pois mesmo antes de perceber porque é que a religião é importante, já acreditavam que o era. Bastou ouvirem alguém com autoridade no assunto dizê-lo, foi mais uma confirmação do que uma revelação. Por isso quando tiveram um filho acharam por bem inscreve-lo na catequese. O miúdo perguntou-lhes porquê. Era uma boa oportunidade para explicaram porque é que consideravam a religião importante. Foi uma oportunidade desperdiçada. Porém não devemos culpa-los por falta de responsabilidade como progenitores educadores. Afinal isto é tudo uma questão de fé, não se explica, mas pode-se perceber. O miúdo disse que não percebia nada, oferecendo uma razão concreta aos pais para o inscreverem na catequese.

Entrou e saiu, por lá ouviu histórias antigas, personagens com nomes hebraicos, e um Jesus que parecia ser o preferido por se o Deus Homem. Não pensara mais nisso, e seguiu com a sua vida não perdendo tempo com a vida destas pessoas que talvez até nunca tivessem existido. Quando chegou à faculdade alguém recordou os textos bíblicos. E derepente, aquele assunto que tinha ficado esquecido voltou agora com uma importância inesperada. Conhecer os textos bíblicos era sinal de cultura, e ser um Homem culto era importante, porque um Homem culto é um Homem relevante, que provavelmente sabe o que diz. Então ele passou a conhecer os textos bíblicos, através de filmes, livros audio, ou vídeos no YouTube. Não os percebia mas isso não tinha importância porque ninguém parecia saber a importância de perceber aquelas histórias. O importante era conhecer, principalmente as partes onde entra Jesus, que permanece o preferido.

Ser um homem culto ajudou-o a conseguir o que queria na vida. Na sua vida, porque se não tinha perdido tempo em criança a perceber a vidas de personagens fictícias, não ia agora em adulto, agora que a vida revelou toda a sua gravidade, não ia agora perder tempo a preocupar-se com a vida de ninguém sem ser a dele. Tornou-se aquilo que está descrito na bíblia como um egoísta de merda. Casou-se e teve filhos, porque queria ter uma mulher e filhos. A mulher reprimia-o por só pensar nele. Ele desvalorizava as criticas da mulher, porque ela não conhecia o mundo. Já ele conhecia o mundo, melhor que ninguém no seu entender, e tinha desistido de o perceber. Ela gostava dele, porque sabia que enquanto estivesse com ele não lhe ia faltar nada. Mas não o amava, porque ele também não a amava. Amar é um acto de fé, coisa que tinha decidido não investir o seu tempo, nem o seu dinheiro que estava investido noutros lugares. Os lugares que escolhera para investir o seu dinheiro faziam aquilo que vem na bíblia como milagre da multiplicação. Ele conhecia este milagre, mas tal como acontecera quando estudava na catequese, não percebia o milagre. Os milagres são como o amor, é preciso fé para os perceber. No entanto eles acabam por acontecer quer se tenha ou não fé.

Esta história começa agora, até aqui foi uma pequena introdução, para uma ainda mais pequena história. Não estamos em tempo de cansar as pessoas com textos bíblicos. Como não percebia o mundo, mais concretamente o mundo onde investia o seu dinheiro, acabou por perde-lo todo. É o risco de se viver dependente de algo que não se percebe. No dia que perdeu tudo, saiu do escritório sem saber o que fazer. O suicídio foi a primeira ideia. No passado tinha até dito cheio da coragem de quem está longe de ter de enfrentar a adversidade, com palavras ensopadas com álcool de uma sexta-feira de copos, que se um dia perdesse tudo matava-se imediatamente. Agora já tinha deixado passar mais do que tempo necessário para se poder dizer que não cumprira a promessa. Caminhava pelo passeio a um ritmo lento. Nunca tinha visto aquele passeio, aquelas ruas, os prédios de um lado e do outro, as portas os carros de todas as cores, e as pessoas que se moviam como ele. Não pensava no que ia fazer, gostava de saber onde iam aquelas pessoas, pessoas que só agora via serem como ele. O que é que elas queriam? Porque andavam ali aquela hora? Porque é que as pessoas fazem o que fazem? Era o que precisava de saber, e não sabia. Sentiu vergonha por não saber algo que devia ser tão simples, devia ser das primeiras coisas que se aprende. Os sinos da igreja perto de si fizeram-no parar. Ouviu-os tocar, achava até que nunca tinha ouvido sinos tocar. Seguiu as pessoas e com elas entrou na igreja. Não conseguiu concentrar-se numa única palavra durante a missa. Quando esta terminou ficou sentado onde estava, até estar só ele e o padre na igreja. O padre aproximou-se:

– A missa já terminou meu filho.
– Não tenho para onde ir senhor Padre.

Atrapalhado com a conversa o padre sugeriu uma confissão. Pelo menos assim consegui fazê-lo levantar-se de onde estava. É mais fácil convencer alguém ajoelhado a ir para casa do que alguém sentado.

– Diz-me lá então uma coisa meu filho. O que desejas confessar a Deus?

Disse o padre como quem se prepara para contar uma anedota dos malucos do riso.

– Senhor padre será que posso antes me sentar. Doem-me os joelhos. – Olhe que isto sentado é mais caro. E nós aqui não aceitamos cartões de crédito.

Aquela piada, feita por um padre que se o tivéssemos ouvido a dar a missa arriscávamos dizer que tem uma especial inclinação para a comédia. Mas por qualquer motivo que agora não temos tempo de desvendar é padre. Aquela piada provocou um quantidade de riso tão imensa que assim que se formou no interior do nosso herói, agora de joelhos, saiu disparada pela boca nariz e olhos. Ficou a jorrar com alta intensidade ainda mais uns dez minutos depois de ter saído da igreja. O padre até o acompanhou à porta, pelo caminho contou mais umas piadas, mas o riso que ressoava pela igreja era da sua primeira grande piada. Da porta disse adeus ao seu mais satisfeito cliente daquele dia, e voltou para dentro. Ia ficar semanas a dizer piadas a torto e a direito. Mas isso não interessa porque temos de acompanhar o nosso herói até ao fim da sua história. Quando finalmente se esgotou, as ultimas gargalhadas saíram intermitentemente, como o final de uma grande mija, o nosso herói voltou a si e o seu semblante ficou sério como dantes. Nada tinha mudado. Depois ficou ainda mais sério, porque teve uma ideia. No dia seguinte declarou falecia junto de quem tinha obrigação de o fazer e foi para padre. Ainda não sabe para que serve a religião, mas isso não importa, porque agora é um homem de fé. Aceita a vida sem a perceber, e a vida por se sentir aceitada torna-se suportável. A vida é misteriosa em vez de obscura e oculta. Vamos só ouvir, antes de ir embora, o inicio de uma das suas missas.

– O remédio. A cura para todo o desespero, é o sofrimento. E não por razões espirituais, ou teológicas. Mas sim porque tem de existir sempre duas coisas, uma e o seu oposto. E isto é física, é ciência, química, não é preciso ter-se fé. Se há molhado há seco, se há subida há descida se há lucro há prejuízo, e muito pode ser o prejuízo. Quando Jesus Cristo com a coroa de espinhos, a cruz às costas, subiu o monte… o monte…

E depois passou à frente, começou um pai nosso para disfarçar. Não se lembrava do nome do monte. Mas era um homem desenrascado.


	

Azinheiras nos campos de batalha

Quando era pequena disseram-lhe que podia ser o que quisesse. Só por enquanto, pensavam eles depois de lhe dizer a melhor parte. Foi desta maneira inspiradora que terminou uma das suas aulas do terceiro ou quarto ano de escola, não é fácil precisar o momento certo. As datas por serem mais irrelevantes do que as palavras ficam esquecidas. Iria comprovar isto anos mais tarde nos testes de História. Mas avançando, para não nos perdermos no tempo. No final desta aula, os colegas cheios de inocência inflamada pelas prosperas palavras da professora (e pelo tempo, estava um dia de sol), diziam uns aos outros o que iam ser. Se o senhor presidente tivesse ouvido a conversa, tranquilizava-se quanto ao futuro da nação. Havia de tudo: médicos, cantores, artistas, compositores, escritores, pilotos de avião ou camião. Havia também mão de obra para profissões menos nobres, como policias, bombeiros, socorristas, taxistas ou maquinistas. Ficavam de fora algumas profissões como varredor de ruas, pedreiro, trolha. Não era grave, mais tarde alguém cedia e ficava com a fava. Ela, a Criança, participou na conversa, mas não disse nada a respeito do seu caso. Preferiu ir para casa reflectir na questão. Tinha medo da reacção dos colegas àquilo que queria ser quando crescesse, pois era algo bastante diferente das ambições dos colegas. Mesmo assim não deixava de ser qualquer coisa, e por isso encaixava dentro dos parâmetros que a professora estipulou. Depois de uma noite de sono voltou à escola e no primeiro intervalo disse aos colegas perto dela, confiante por saber-se defender de eventuais criticas: eu quando crescer quero ser uma árvore.

Passou a ser tratada por Azinheira até ao secundário. Uma boa escolha, pois podia ser abreviado para “Azelha” servindo assim na mesma o propósito de insultar e não deixando de fazer referência à palavra original pela semelhança fonética. Esta transformação proporcionava sempre alguns risos, que naturalmente foram perdendo intensidade pelo uso. Entretanto também a Azinheira deixou de querer ser árvore. Não havia como resistir à pressão social. Então a Azinheira cresceu e depois do ensino obrigatório foi estudar Marketing. Já não podia ser agora o que quisesse. Mesmo assim podia ser muita coisa com um curso de Marketing. O que não faltavam eram mercados, uns mais emergentes que outros, era uma questão de escolher o terreno que mais lhe convinha. Podia até mudar de pais, e escolher um clima mais propício. Tudo coisas que não podia fazer (pelo menos de forma independente) se fosse uma árvore. Durante o curso já nem a tratavam por Azinheira, mas antes pelo seu nome próprio. Aquele sonho de criança parecia-lha agora um devaneio inexplicável.

Quando terminou o curso atirou com o currículo para tudo quanto era lado. Tal um mau atirador numa guerra que não é a sua. Acertou numa empresa que lhe dava algum do seu dinheiro em troca do seu tempo. Ela aceitou e em vez de dar o ar fresco das azinheiras, dava lucro à empresa, que por ser uma entidade não precisava de respirar, mas precisava muito de lucro. Os anos passaram com ela a mudar de empresa para empresa, mas no fundo sempre a fazer quase a mesmo. Aquele episódio da escola primária acompanhou-a. Era uma daquelas recordações de infância que ficaram como que tatuadas numa região qualquer do cérebro. Ela sentia que ali estava qualquer coisa da sua identidade, qualquer coisa que podia ajudar a dar significado ao resto. Espaçadamente lembrava-se do episódio. Uma vez lembrou-se ao ter uma conversa durante uma noite de copos com uma colega sua que tinha nascido homem e agora era mulher. Outra vez em casa no sofá no final de um domingo em família, quando na televisão falavam sobre a crescente escassez de árvores no planeta, e o perigo de sufocarmos todos por isso. Lembrava-se que um dia sonhara ser uma árvore. E aquilo parecia-lhe ridículo, mas importante. Por isso esforçava-se para não cair no esquecimento.

Um dia o chefe do gabinete onde trabalhava decidiu levar a equipa a jogar paintball. Não há nada como a guerra para criar laços. Aquilo que não nos mate torna-nos mais fortes ao que parece. No terreno de batalha havia uma grande azinheira, no meio. Sabe-se porquê, talvez por aborrecimento, surgiu uma ideia na cabeça da Azinheira, a que não estava plantada. Então saiu do seu esconderijo, tão naturalmente e descontraída que ninguém se atreveu a disparou na sua direcção, pensaram que se tinha rendido evidentemente. Estagnou ao lado da árvore e de braços abertos copiou a sua forma. Ficou assim, como se fosse uma árvore. Os colegas riram-se, desta vez com ela e não dela, eram mais maduros. Ela também se ria, até estagnar só de sorriso na cara. Sentia-se bem, muito mais confortável do que antes, quando estava a lutar numa guerra a fingir com tiros de tinta. Os colegas da sua equipa ficaram confusos, se fosse uma brincadeira, tal como pensaram no princípio, estava a ser muito demorada. Os adversários que pensaram que ela tinha-se rendido, agora já não tinham certeza. Um deles perguntou “Marta!? Estás viva?”. As árvores não respondem. Depois levou com uns seis ou sete balázios no tronco e membros. No dia seguinte tinha a pele castanha como o tronco de uma Azinheira.

O dinheiro cheira a pobre

Depois de se aprender as coisas mais importantes que se tem para aprender… Não quero meter-me para aqui a fazer listas como quem vai ao super-mercado, mas para não me acusarem de ser abstracto (não gosto que me acusem destas coisas) dou um ou dois exemplos: comer vegetais faz bem, trabalhar é importante e inevitável. Cá estão, foram mesmo duas. Evidentemente existe mais, é importante ir à escola, pedir se faz favor mesmo quando não é favor nenhum, cumprimentar ao chegar e ao sair dos locais, não beber muito, depois de se aprender estas coisas, fica-se a saber que apesar de nos melhorarem a vida, sua aprendizagem não é suficientes para a vida deixar de ser uma filha da puta de vida. Os primeiros anos, ou gerações, ainda se tem alguma esperança de que se insistirmos na sua prática, vamos mais cedo ou mais tarde ser devidamente recompensados. Não sabemos o que é uma devida compensação, nunca ninguém nos disse. O que nos disseram é que já somos devidamente recompensados, apesar de não nos parecer nada. Os espíritos mais portugueses acabam por se convencer que sim, pelo menos exteriorizam esta crença. Mas já Freud, ou outro psicólogo famoso, dizia qualquer coisa como apesar do individuo não manifestar uma necessidade de justiça dos outros para com ele, o seu intimo necessita desta justiça, e reprimi-o por se deixar andar, sem exigir um tratamento justo. Claro que o intimo pode estar enganado, se devemos ou não confiar nos instintos, é uma discussão que não queria de todo ter. Antes queria dizer o que aconteceu a um Homem pobre, que se tornou rico.

Enquanto pobre o Homem, que já era considerado um adulto, saia de casa para trabalhar. Só assim podia continuar a viver naquela casa, que nem dele era. Deixavam-no viver lá, e já era uma sorte. Nem sequer sabia quem é que o deixava lá viver. Se era o senhorio, o banco, a imobiliária, o estado Português ou o Americano. Também não tinha coragem de perguntar, podia ser mal interpretado e ficar a viver nas ruas onde só podia olhar em redor para ver tantas casas que não são dele. Mas ele trabalhava, e suava por trabalhar. Chegava a casa e despia-se, mas o cheiro ficava na roupa, mesmo depois de lavada, porque vejam, eram todos os dias, não há roupa que aguente. Eventualmente todas as suas roupas tinham aquele cheiro do suor, e o mesmo acontecia aos seus vizinhos que, apesar de ele se convencer que não, que só ele tinha uma vida dura cheia de trabalho ingrato, tinham a mesma vida que ele. Este cheiro que era o cheiro do cruzamento de todo aquele suor, dava um cheiro característico aquelas casas. Neste cheiro estavam também outras flagrâncias, como a madeira velha dos soalhos, a humidade nas paredes, os peidos da comida barata de micro-ondas. Era o cheiro que ele respirava quando chegava a casa e era pobre. Se lhe perguntassem que cheiro era aquele, não saberia responder, pois já nem sentia o cheiro. Porque era pobre, e aquele cheiro estava sempre com ele.

O Homem ficou rico. Sabe-se lá porquê. Não interessa. É um erro pensar que interessa, um erro que interessa a quem não é pobre. Como se houvesse maneira morais e éticas de ter o milhões de euros na carteira. Como se aqueles milhões pudessem pertencer a alguém de forma justa. A sorte é que O Senhor os perdoa. Porque eles sabem o que fazem. Talvez não saibam, ouso dizer. Mas o homem ficou rico. Mudou de casa, comprou tudo o que se lembrava de ter desejado comprar quando era pobre, e saiu de cena. Nem disse a ninguém. As pessoas que são ricas têm medo de dizer aos outros quão ricas são verdadeiramente. É compreensível, Lacan ou outro psicólogo famoso pode explicar. Eu acho que é porque têm medo que lhes peçam dinheiro. Depois disto tudo o homem sentou-se no seu sofá, em frente ao seu plasma, e pôs-se ver uma cena de um filme, onde o protagonista depois de ganhar uma mão cheia de dinheiro, agarrou o melhor que conseguia as notas, com as mãos, levou-as ao nariz e cheirou-as profundamente. Apresentando depois ao espectador uma expressão de enorme contentamento. Agora era a sua vez de experimentar aquela flagrância, só ao alcance de alguns. Saiu para a rua, logo ao virar da esquina levantou o máximo de notas que podia tirar da máquina multibanco. Até aquela altura nem sabia quantas eram. Eram muitas. Foi para casa, sempre com cuidado para ninguém o ver. Medo de ser assaltado obviamente. Sentou-se no sofá almofadado, à frente do plasma, levou as notas à boca e quando inspirou sentiu o cheiro da sua antiga vida, da sua antiga casa, da sua antiga roupa. O dinheiro cheirava a pobre. A partir daquele dia passou sempre a pagar tudo com cartão, ou pela Internet.