Notícia cinco

Hoje, um grupo de pessoas subiu uma rua inteira, levavam cartazes contra o racismo, fascismo, machismo, e como sobravam cartazes sem nome, ainda acrescentaram mais uma ou duas coisas acabadas em “ismo” que não destoassem do conjunto. No final da rua largaram os cartazes e foram beber um copo.

Um dos manifestantes quis citar um comediante americano famoso, pois parecia-lhe ser apropriada ao contexto, mas antes sentiu-se na obrigação de explicar às senhoras quem era o comediante. Não explicou aos senhores pois assumiu não ser necessário.

Pediram todos uma cerveja, o empregado que os serviu era preto e tinha sotaque angolano. Todos repararam. O manifestante que costumava fazer imitações de sotaques africanos, para seu divertimento e de quem se entretivesse com este tipo de humor, desta vez achou por bem não o fazer. 

Depois instalou-se uma pequena desordem, afinal qual era a melhor marca de cerveja? Cada um disse a sua, apresentando argumentos, uns mais imaginativos, outros mais agarrados aos factos. Não houve grande luta, afinal cada um podia ficar com a sua.

Mas quando foi para decidir onde se ia a seguir. Ai é que foi! Tentaram o método democrático, mas não funcionou. A minoria tinha muita força, mas não a suficiente para arrastar os outros para onde quer que fosse. Estavam perigosamente perto do ponto de ruptura.

As acusações que sabiam poder atirar contra os outros, para destruir as suas ideias e fazer prevalecer as próprias, corriam livremente pelas mentes de cada um deles.

Associavam preconceitos ao destino escolhido pelo outro, e depois ao outro pessoalmente. Até que um se excedeu “ou vamos para cima, ou não se vai a lado nenhum!” Um deles teve de agarrar pelo “f” o “fascista” que queria sair lançado pela boca em resposta ao ultimato. Enfim, uma enorme desgraça para aquele grupo de pessoas.

Acabaram por partir o grupo em dois, para ser mais fácil. Depois disto, cada sub-grupo partiu com um ódio especial pelo outro sub-grupo. Mas como tinham bons corações, cultivados com boas doses de tolerância e amor, acabaram por perdoar, e ao perdoar, inesperadamente o ódio transformou-se em saudade.

Moralidade desta notícia – Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.

Televendas dois

Sente-se cansado? Com tosse? Tem febre? Eh carapau! Isso só lá vai agora com a nova vacina! É verdade. Não procure mais. Com a nossa nova vacina não precisa de máscara, nem de gel, paracetamol, lixívia. Com esta vacina nem precisa mais de lavar as mãos depois de espirrar-lhes em cima. Uma vacina todos os dias depois de acordar, durante três meses, e esqueça essa quarentena fechado em casa a ler livros sem nada para fazer. Isto é passado. Para a frente é que é caminho. Não se esqueça nunca. Injectar-se é o melhor remédio.

Aviso legal:

A vacina pode ser adquirida em farmácias ou no nosso site por 19.99$ a unidade. Os efeitos secundários são ainda desconhecidos na sua grande maioria. Porém foram identificados casos de um medo injustificável a tudo o que diz respeito a estar vivo, perda de liberdade para fazer o que nos dá na telha quando nos der na telha, ansiedade social, uma vontade incontrolável de julgar o outro, telefonar à policia para fazer queixinhas, delírios, como achar de repente que não há nada pior do que morte do corpo, e que existir neste corpo é mais importante do que qualquer outra coisa que a imaginação, competência exclusiva do humano, pode alcançar.

Notícias quatro

Um homem não sai de sua casa há sete meses, e faz intenções de continuar confinado por mais um ou dois meses. Tudo depende, segundo ele, de como as coisas avançarem. Quanto questionado se o recolhimento lhe estava a ser imposto, o homem respondeu que não, e que sim. Ninguém o obrigava fisicamente ficar em casa, porém, para que não fosse preciso chegar a este ponto, preferia mostrar voluntariamente que aceita o castigo. No raciocínio dele, ao castigar-se por sua vontade, mostra que não precisam de o castigar no futuro. Confia na sua lógica, apesar de não ter assinado nada.

Notícias três

A equipa de jornalistas correu até à casa da mulher que afirma ser capaz de prever todos os movimentos de toda e qualquer mosca.

Foram recebidos pela mulher que pediu para se sentarem, enquanto não aparecia uma mosca. Não deveria faltar muito, as janelas estavam todas abertas.

A mosca apareceu e pousou na parede de um amarelado típico de casa de fumador. A mulher levantou-se, estendeu os braços no ar, inspirou num tom grave, mordeu o lábio inferior e abriu as sobrancelhas. Ambos os jornalistas, como a mulher e a mosca ficaram como estátuas.

A mulher começou a adivinhar: “vai para a direita” e acertou. Ouviu-se um aaah exclamativo. Depois disse “agora vai pousar na jarra” falhou. Por respeito ninguém se pronunciou. A mulher não se mostrou desencorajada, e sem perder tempo declarou a seguinte profecia “vai cair morta!”. Surpreendendo todos na sala, principalmente a mosca, a mulher espetou uma sonora bofetada na mosca com um jornal que apareceu ninguém sabe como. Acertou.

No caminho para casa, um dos jornalistas pensou, se a mulher tivesse acertado tudo, estava agora a varrer os estilhaços daquela bonita jarra.

Notícias dois

Depois de mais um mandato bem sucedido no exercício do seu poder masculino, o presidente teve direito às suas merecidas férias. Do cargo.

Porque o poder masculino não tira férias, no primeiro dia de praia o folgado presidente arranjou logo oito mulheres mais novas que ele. As mulheres, atraídas pelo poder, mostraram-se disponíveis, mas o presidente, um homem de bons costumes, ficou satisfeito apenas pelo merecido reconhecimento do seu poder.

Despediu-se das mulheres, e foi mergulhar na água fria do mar salgado de Portugal.

Arrefecer a sua magnânima erecção presidencial.

Notícias um

Foram encontradas dezenas de cadáveres de melgas, moscas, e algumas formigas, na cave de um individuo, sexo masculino, 36 anos de idade, em Santa Comba Dão.

O homem, que vivia sozinho mais um gato rafeiro, justificou as suas acções assumindo ter desejos homicidas.

Apesar de não estar previsto na lei qualquer pena para este tipo de crime, a policia resolveu colocá-lo com pulseira electrónica em prisão domiciliária.

Por precaução foi feita uma desbaratização em sua casa, e as janelas foram fechadas com cimento.

Televendas Um

“Ir para todo o lado descalço é um pesadelo. Atravessar a estrada, caminhar pela calçada cheia de lixo e dejectos de animais, correr para apanhar o autocarro, ter de avançar em bicos dos pés quando se quer sair do trabalho mais cedo sem que o patrão dê por isso. Quem nunca saiu do trabalho uns minutos mais cedo? Se é uma dessas pessoas tenho boas notícias para si! Se ligar agora para o número que está a passar mesmo em frente aos seus olhos, vai poder ganhar um incrível par de sapatos. A única coisa que precisa de fazer é ligar! E pagar por eles.

Não vai conseguir adquirir estes sapatos em mais nenhum sítio. Aliás, se perder esta oportunidade limitada ao stock existente, não terá outra. Vai ter de andar descalça para o resto da sua longa e dolorosa vida. Mas não é só isto! Estes sapatos têm uma sola feita a pensar exactamente nas medidas do seu pé. Ajustam-se como nenhum outro que já teve. Há uma vida antes, e depois destes sapatos. Depois de andar neste sapatos, já não vai poder usar outros. Isso eu garanto-lhe. Por isso o melhor é ligar e pedir dois.

O preço é de 75 euros. Só!? É verdade. Pode escolher a cor apesar de ser irrelevante. Não têm atacadores. Não precisa de ficar a noite toda acordado a pensar se os seus filhos não estarão a mexer-lhe nos atacadores, e a estudar uma maneira de se enforcarem quando não conseguirem aguentar mais as dores nos pés, por terem de caminhar descalços. Não quer que os seus filhos se enforquem? Então hoje é o seu dia de sorte. Vai poder, em vez de comprar dois pares, comprar três! Ou quatro! Um para cada filho ou filha.

O que foi isto!? Não acredito. O alarme mágico. Sabe o que quer dizer? O preço já não são os 75 euros que lhe falei. Agora pode aproveitar esta oportunidade, que irá melhorar a sua vida amorosa, familiar, carreira, prestação sexual. Não sei se já lhe disse, mas os sapatos aderem a toda a superfície como um pega-monstros. Eu pelo menos só fodo com eles calçados. Como pode ver tenho-os agora. Por apenas 10 euros o par! 10 euros! Chiça! Esta é que eu não estava à espera.

Porque é que o preço desceu inexplicavelmente, cinquenta euros? Primeiro, porque eu não sei fazer contas. Não me pagam para pensar. E a si também não. Aposto que já ouviu isso no seu trabalho. A segunda razão é porque quem produz sapatos não o faz para calçar as pessoas. Por isso é que mesmo quem não anda descalço, ideologicamente é como andasse. Quem produz sapatos, produz para gerar lucro. O máximo possível. Tem de sobrar dinheiro para pagar aos infelizes que fazem sapatos de forma compulsiva.

Sapatos que não servem o seu propósito, porque estão ocupados a servir outro. E outros. Sempre o mesmo, sempre os mesmos, independentemente do méritos das cambalhotas que damos para sermos o outro que não somos. Transformar tudo o mais depressa possível em dinheiro. Porque tudo acaba por se transformar em dinheiro. É inevitável. Como a morte. A morte trágica dos seus filhos se não comprar estes sapatos agora por 7.99!”

Bananas que eu escrevo o que me cai na cabeça

Chega-se ao pé de mim de tão perto que somo.
Escrevi isto porque foram umas palavras,
que fui buscar ao acaso. Juro,
não têm qualquer tipo de propósito.

Não é comum escrever desta maneira.
Não tinha absolutamente nada,
nada para dizer. E sou aprendiz no silêncio.
Achei que o melhor era escrever mesmo assim.

É o que estou a fazer. 
Assim mesmo.
Estou a escrever em quadras.
A forma vem ao de cima.

A forma e as ideias.
Já estou para aqui a dizer alguma merda.
São as ideias e as formas.
Colam-se a nós e nem com a escova de arame.

Já estou a tentar dizer qualquer coisa de novo.
A cabo de um vagão sem destino terrestre
Boa. Ás vezes para adormecer faço isto.
Digo palavras ao acaso.

Estou preocupado sem razões sabem?
Se ao menos inventasse uma ou duas.
Inventar razões não me parece nada cientifico.

Que se foda a ciência. 
Antes pelo menos reconhecíamos não haver nada a fazer.
Agora não se aceita a implacabilidade desta coisa.

Estava a ir tão bem. 
Tenho de meditar mais.
É cientifico que produz efeito.

Mas vou acabar como comecei.
Nem que seja no último verso.
Bananas. 

Vendilhões do tempo.

Como pode ver Fátima, nós preocupamo-nos acima de tudo com o bem estar das pessoas. Empregamos mais de quinhentas pessoas, todas com salários superiores ao salário mínimo imposto por lei. Porque para nós as pessoas, e as suas famílias, estão em primeiro lugar. Queremos acima de tudo colaboradores felizes por estarem connosco.

Muito bem. E você? Como gere a sua empresa?

Eu não posso, nem quero saber das pessoas. São mais de quinhentos porra! É muita gente. Nem sei os nomes daquela gente toda. Eu vejo as coisas desta maneira. Enquanto der para mim, mais do que para os outros evidentemente, eu mantenho o negócio. Mas tenho de ser eu a ganhar mais, porque a empresa é minha, foi eu que arrisquei, não ando a trabalhar para os outros. Pago mais que o ordenado mínimo porque sei que ganho com isso. Eles andam mais contentes, e produzem mais. Só pago o valor que maximiza o meu ganho. Isto não tem nada que se lhe diga Fátima. A partir do momento que eu deixe de ganhar, deixam todos. Como é óbvio. Isto existe para me servir, e serve os outro por consequência.

Lamentável… Voltando a si. Explique-nos como funciona o seu negócio?

Ainda bem que me pergunta Fátima. Tenho todo o prazer em explicar. A actual crise fez-nos olhar mais longe. Através de uma parceria internacional, conseguimos ter acesso a um mercado mais alargado. Investimos também na qualificação. Percebemos que ao produzir em maior escala, aliando uma eficiente rede de distribuição, conseguíamos fazer chegar os nossos produtos até ao nosso cliente, ao melhor preço. O nosso principal objectivo é dar ao nosso cliente o melhor produto possível, a um preço acessível à sua realidade. Porque para nós o cliente está em primeiro lugar. Sabe Fátima… isto não é uma área fácil. É preciso trabalhar arduamente para que tudo isto seja possível. Mas é para isso que cá estamos. Todos os dias ultrapassamos desafios, tudo para que o nosso cliente possa contar connosco do seu lado.

Magnifico. E o senhor. Como é o dia a dia do seu negócio?

Eu compro a um preço e vendo mais caro. É só isto. Podem dar as voltas que quiserem, repetir de diferentes maneiras. É comprar a X vender a X mais Y. O desafio é só este. Fazer lucro. Somos os vendilhões do tempo dona Fátima. O dinheiro deu-nos educação, fatos caros, gravatas, carros para ir a reuniões, pagar a legisladores, mas o que fazemos é isto. Não passamos de comerciantes incapazes de ver mais do que isto. O que fazemos só é aceitável porque o povo é miserável, e sem isto morriam milhões à fome. Com isto morrem à mesma, mas lentamente. Se eu ganho todos os meses 1000, e o tipo que trabalha para mim 10, não é? Passado um ano eu tenho 12 000 e ele tem 120. Passado 10 anos eu tenho 120 000 e ele tem 1200. Passado 20 anos ele morreu à fome. E eu também me fodo. Fodemo-nos todos dona. Andamos todos a foder-nos uns aos outro como animais que somos.

Calma. Este tipo de linguagem não é admissível neste programa.

Não devia ser. Mas é. Tanto é que foi. E continuará a ser. Até uns morrerem à fome, e outros de solidão.

Cena I

Numa sala cerimoniosa. Uma mesa em frente a uma lareira acesa. Copos de whisky e um cinzeiro por cima da toalha da mesa. A luz é amarela e expande-se pelas paredes vermelhas da casa, dando um tom obscuro à cena. Quando as vozes se calam, ouvimos a lenha a queimar. Na sala de pé apoiados na lareira, estão duas personagens, o Juiz, e o Presidente. Esperam a terceira e última, o Arbitro.

Presidente – O rapaz é um campeão. Sabe de onde ele vem? Vem de um meio muito pobre, teve de vencer muitas dificuldades para chegar onde chegou. Não é fácil. Nunca foi, mas está cada vez mais difícil. Não sei o onde vamos parar. Esta nova geração não é capaz. Vai ver, quando nós acabarmos, isto deixa de existir.

Juiz – Isto o quê?

Presidente – Isto. Um Isto geral. Percebe-me. Coisas que me ponho a pensar. Como vai a sua saúde? Tenho uns cigarros para quando ele chegar. Deve estar aí a chegar. Isto não vai demorar, é o tempo do cigarro. O que se passou foi… sabe o que se passou.

Juiz – Estou familiarizado.

Presidente – Melhor ainda. Não sei qual a sua posição. Não sei o que pensa de tudo isto. Mas espero poder ajudá-lo a ver as coisas como eu sei que podem ser vistas. Se não houver inconveniente claro. O senhor tem estatuto para ver o que quer como quer. Eu também, devo dizer. O que me interessava, era que víssemos as coisas da mesma maneira. Se isto o interessar. A si, particularmente.

Juiz – Temos a mesma idade, já nos conhecemos algum tempo. Não sei também o que pensa a respeito de tudo isto. Sei que seja lá o que for, é o que é. Tal como eu. Chega-se uma certa idade e o que se viu é o que é. Confia-se na memória sabe. Os olhos já não são capazes de ver outra vez as mesmas coisas com renovado olhar.

Presidente – São as mesmas coisas. Para quê olhar de novo. Confia-se na memória. Quando se tem memória até se avança às cegas. Mas talvez fosse boa ideia falarmos um pouco sobre o que pensamos sobre tudo isto. Quer começar?

Juiz – Bom em primeiro lugar penso que devemos enquadrar a questão com o espírito! O espírito da nação! Depois é preciso não esquecer…

O Juiz é interrompido pelo bater na porta anunciador da entrada em cena do arbitro.

Presidente – Ora aqui está ele. Vem vem. Com cuidado. Já se conhecem todos não é verdade. Pois bem. Continue senhor Juiz estava a ir muito bem.

Juiz – Bom… Certo… Pronto. Então… Agora… O que é que eu estava a falar? Varreu-se-me.

Presidente – (ri num riso contagiante) Isto está a pedir é que nos sentemos e acendemos estes três cigarros que trago aqui comigo.

Sentam-se, dois de um lado e o arbitro do outro, acendem os cigarros. Fumam algumas baforadas, as suficientes para encher o cenário de fumo, tornando o ambiente mais obscuro ainda.

Arbitro – O que me deixa desconfortável é somente o agendamento deste encontro. Muitas vezes vim, sempre como convidado, antes de um jogo. Nunca depois. Isto deixa-me intrigado.

Presidente – Sente-se perdido. É natural. Nós estávamos precisamente a falar disto antes de chegar. Mas deixe-me que lhe diga. Esteve muito bem no jogo. Via-se que sabia o que estava a fazer. Sempre em cima dos acontecimentos, nada lhe passou ao lado. A sua prestação foi imaculada diria. A clareza com que apitou os lances, mesmo os mais desafiantes, foi de uma… de uma… faltam-me as palavras. Viu o jogo senhor juiz.

Juiz – Não vi com muita pena minha. Mas partilho o mesmo ponto de vista. O que de resto não é novidade alguma. Este jogo foi mais uma confirmação da sua inquestionável competência. Não foi um jogo nada fácil, lances com variadíssimas possibilidades de interpretação. O senhor abordou-os todos com uma visão de águia.

Presidente – Mesmo os mais difíceis. Reforço. Nomeadamente um que gostava de falar agora consigo. Quando o (hesita, tira uma pequena agenda do bolso do casado, volta a colocar no bolso) Marquinhos corta a bola ao (repete o movimento de tirar a agenda do bolso) Soares, lembra-se? Toca na bola.

Arbitro – Sim mas eu marquei falta.

Presidente – Fez muito bem. Parabéns. Era falta. Não era um lance fácil. Mas era falta e foi marcada. O problema é a tecnologia sabe. A tecnologia confunde o jogo. Ou melhor, torna-o mais incompreensível. E quem já não o compreendia bem, fica baralhado. Fica a pensar que percebe o que se está a passar, mas não percebe nada. Percebe? Eu e o senhor juiz estávamos antes de o senhor chegar a falar precisamente disto.

Arbitro – A regra ali é muito clara. Há um desequilibro do Soares provocado pelo Marquinhos que resulta na violação da lei 18 do código. Posteriormente existe o contacto na bola, mas como vem previsto na alínea c) do mesmo artigo não valida o lance.

Presidente – Maravilhoso. Ouviu isto senhor Juiz. Eu não percebo nada disto. Mas pareceu-me correctíssimo. Sem erros legais.

Juiz – Não estou familiarizado com o artigo em questão mas concordo. Parece-me não existir espaço para leituras alternativas.

Presidente- (ri novamente como antes) Até aqui estamos todos de acordo. O problema são precisamente as ideias alternativas. E é para estas que deve estar preparado. Não sei se já viu alguma destas ideias? Deve ter visto com certeza. Espero que perceba uma coisa. O problema não é ver. Mais cedo ou mais tarde todos vemos. O problema é querer ver e assumir que se viu.

Arbitro – Eu vi que foi falta. Pelas razões que apresentei.

Presidente – Imagine que via que não era falta? Qual era o problema se, imagine, agora visse que era falta? Visse de tal maneira que não podia deixar de ver?

Arbitro – Admito que posso errar. Como disse há lances de muito difícil análise. No entanto estou convencido que tomei a decisão correcta. É um pouco desconfortável para mim, visto ser o senhor o Presidente do clube que foi beneficiado. Mas isto não afecta de maneira alguma as minhas acções. É uma questão de justiça. Da verdade.

O presidente levanta-se, leva consigo o copo e o cigarro. Arrasta-se lentamente até ficar de frente para a lareira.

Juiz – O senhor viu que não era falta. As imagens mostram como está a olhar para o lance no momento em que Marco Henrique toca na bola. Porque é que marcou falta?

Arbitro – Não compreendo o que se está a passar. Eu marquei falta. E se não foi falta foi erro meu.

Juiz – Um erro. Nem mais. Toda a gente erra. O senhor errou. Era um lance difícil, e errou. Não volta a acontecer. Depois trata-se da suspensão e os aspectos concretos do castigo, isto é o menos importante. O mais importante é perceber o que se passou… Percebe o que se passou.

Arbitro – Cometi um erro. Errei como humano que sou. Assumo a responsabilidade da minha decisão, e cumprirei o meu castigo.

Juiz – Certo. É isto que tem de ver. Agora próximo ponto. Porque é que errou?

Presidente – (interrompe) Não, agora porque é que marcou falta?

Juiz – Exacto. Porque é que marcou falta?

Arbitro – (hesita na resposta e dá uma baforada para ganhar tempo) Não lhe sei dizer. Pareceu-me que era falta. Segundo as regras do jogo.

Juiz – (ri como o Presidente) Segundo as regras do jogo era falta de certeza.

Presidente – (com um sorriso irónico nos lábios) Não. Ele refere-se ao regulamento de futebol.

Juiz – Ah. Sim. E isto é bom ou é mau?

Presidente (volta energicamente para a mesa) Bom, mau, o que importa é perceber. O mal está feito. É irremediável. Mas não aconteceu nenhum desastre. Acontece a todos os arbitro, em todos os jogo. E sim, é uma boa resposta. Agora o que é importante, é a tal justiça, a tal verdade de que falou. Repara, como disse, mais cedo ou mais tarde todos acabamos por ver, refiro-me ao outro lado das coisas. E não é verdade nenhuma, muito menos é justo, é o que é. As coisas são o que são. O problema, e é disto que eu tenho medo, é quando se quer que as coisas sejam o que não são, só porque vimos algo que nos parece ser a tal verdade, ou a tal justiça. Isto não existe, percebe. Então pergunto-lhe, porque é que beneficiou o meu clube?

Arbitro – (puxa a cadeira atrás com indignação) Eu não beneficiei o seu clube. Desculpe, eu sou um profissional integro. Tenho integridade. E deixe-me que lhe diga, não vejo como podemos continuar a ter estes convívios depois desta sugestão. Não sou inocente, seu bem que este tipo de acusações fazem parte da minha profissão, mas vindas de alguém como o senhor. Alguém que como parte envolvida sabe tão bem como eu que nunca me tentou corromper.

Juiz (ri-se mas desta vez de forma menos intensa) Acha que não esta corrompido? Como juiz folgo em saber.

Presidente – Como disse. Mais cedo ou mais tarde todos vemos. Vemos muita coisa, uma delas é esta, de que estamos todos corrompidos.

Juiz – Era isso que eu estava a falar antes do senhor chegar. Quando me perguntou do espírito da nação. Devo continuar? Deixe-me então só dizer duas ou três coisas antes que me perca novamente. O povo é a base para se poder pensar tudo o que se segue. Se percebermos a sua natureza…

Presidente – (interrompe o Juiz) Perdão meritíssimo, permita-se só terminar este ponto, antes que me esqueça.

Juiz – Mas eu posso-me esquecer também.

Presidente – Oh com uma memória como a sua? Não acredito que tal seja possível. De qualquer maneira eu vou apontar aqui na minha agenda para não se esquecer, apesar de ser absolutamente desnecessário (aponta na agenda). Continuando…

Juiz – O que é que escreveu?

Presidente – Apenas umas notas para não nos esquecermos. Continuando. Nós daqui a nada, antes de se ir embora, vamos jogar aqui uma cartada, e espero que com o desenrolar do jogo perceba melhor, porque sou-lhe sincero, nem eu percebo inteiramente. Mas como o senhor juiz referiu e muito bem, o que importa é a vontade do povo. Tudo o resto acontece por consequência. Agora, quanto mais afastados estivermos do povo, melhor para nós. É isto que eu quero que perceba, deve-se afastar do povo.

Arbitro – (confuso, encontra o copo com o olhar, ri-se como quem de repente compreende tudo) Ok. Já estou a perceber tudo. (bebe o whisky de uma só vez) vamos então há cartada. Já está bom por hoje desta conversa da chacha.

Juiz – (num tom de repreensão) O senhor é um arbitro de futebol. Um arbitrozeco. Alias, um arbitrozeco suspenso.

Presidente – Por favor. Não vamos estragar esta noite com discórdias superficiais. Para si é uma conversa desinteressante. Eu compreendo, para mim também, acredite.

Arbitro – Eu devo pedir desculpa. Vejo que ofendi o senhor Juiz, não era minha atenção. Quando me referi ao tema como me referi queria manifestar a minha posição de que, não precisamos de abordar as questões de uma maneira tão abstracta. Quando existe regras concretas, critérios, normas, toda uma lei, que nos pode guiar.

Presidente – E temos aqui o senhor Juiz que nos serve de luz orientadora neste campo denso de leis. Mas eu não quero ir por tais caminhos. Porque a este respeito estamos mais ou menos de acordo. E em caso de discórdia temos a posição do amigo Juiz que prevalece.

Arbitro – Nada prevalece à lei. A Justiça, nem a posição do senhor Juiz. Com todo o respeito.

Juiz – Vá lá não disse verdade.

Presidente – Vamos vamos. Eu não esperava outra coisa. Verdade seja dita. Pressuponho o que o está a incomodar é a natureza abstracta das minha palavras. Um homem não dever ser abstracto. Concordo. Vou mais longe, quem sabe o que é a vida, não é abstracto. Mas o que é a vida para quem diz que sabe o que é a vida? É uma história, não concorda?

Arbitro – Eu estudei Filosofia na escola, percebo o que me está dizer. Só não percebo o que isto tem haver com o que eu faço dentro de campo. O que eu faço dentro de campo é aplicar as regras. Só isto. É agarrar numa ideia abstracta, a de justiça, e através das regras expor para que se possa observar. Para que deixe de ser uma ideia e passe a ser algo observável.

Juiz – Já alguma vez conseguiu? Eu não acompanho o que se passa por aí nos campos de futebol deste pais. Aborrece-me, principalmente por ser uma coisa que agrada tanta gente. Mas fora dos campos vejo, e leio o que se passou noutros tempos. Existe leis para quase tudo, não só para o futebol, e tudo é injusto. Custa-me encontrar, fora da ficção, um momento, um instante verdadeiramente justo.

Presidente – Deixe-me contar a história. Um homem trabalhava numa fábrica. Um dia o patrão perguntou-lhe se parava em algum café antes de vir para o trabalho. O homem disse que sim. Então o patrão começou a dar-lhe dinheiro para que lhe fosse trazido um café todos os dias. O homem considerou a proposta justa, afinal o patrão era quem lhe pagava o ordenado, e não lhe custava nada. Passado dois anos já não podia mais com aquilo. Aquela tarefa, de levar o café ao patrão todos os dias, que no principio parecia justa e normal, agora parecia-lhe errada. Conclusão, o homem acabou por apresentar a sua demissão.

Arbitro – (Depois de reflectir alguns segundos sobre a história) Quer que apresente a minha demissão?

Presidente – Quero evitar que sinta que tem de pedir a sua demissão. Porque você é um bom arbitro, e no final, quando se deixa de gostar da história do patrão, só restam estas duas hipóteses. ou se pede a demissão ou se é demitido. Palavras duas estas. Não acha? Senhor juiz existe algum outro termo jurídico, mais técnico.

Juiz – Término de funções. Afastamento por justa causa. Gosto destas duas. Que horas são? Ainda há tempo para a cartada?

Presidente – Sim. Vamos jogar ao Truco.

Juiz – Oh que grande ideia.

Arbitro – Receio não saber bem as regras desse jogo.

Presidente – Não tem importância eu explico.