Escrever III

A primeira parte é sentarmo-nos em sossegada solidão, o tempo vazio como a folha branca, onde se escreve, o melhor que se pode, o que se vai encontrando pelos miolos.

A imagem é a da fonte, para não variar. A experiência constrói caminhos, barragens, aquedutos, por vezes até cidades, de maneira a aproveitar o caudal. A não experiência deixa a fonte como está.

A segunda parte, última mas nem por isso o fim, é a do confronto com o problema até altura ignorado. Caso se assuma a responsabilidade. Só se assume a responsabilidade quando se descobre o desejo – nunca a necessidade – do trabalho em cima do tempo. Refazer a pente fino o texto, desemaranhar, lentamente como se faz ao cabelo, as letras mais aglomeradas. Rescrita e leitura até ser só releitura, e depois escrita na folha do lado. Reiniciar o processo circular até ao círculo perfeito. E depois parar, para não rasgar ou queimar o papel com a caneta às voltas já sem tinta.

Orçamento de histórias

Alguém, uma pessoa qualquer, tinha uma ideia e percebia imediatamente, por lhe ser claro, que a ideia não era sua.

Aprender este despegamento seria uma revolução interessante.

Como o espaço disponível na internet parece ser inesgotável, deixo aqui uma ideia.

Uma cama para dormir, comida em cima da mesa (ou noutro local acessível), canalização para levar o fertilizante e trazer a rega. Só isto e mais nada. Havia mais coisas, mas todas obtidas sem esforço, o esforço servia única e exclusivamente para se ter cama, comida e bons canos. O esforço a mais era visto como ganância.

Quando alguém morria era menos um corpo em movimento, uma equação de subtração para equilibrar as contas. Nada mais do que isso. Não era uma tragédia, nem um alívio. Quando alguém nascia era mais um corpo, a emoção era a mesma (ou equivalente) à emoção associada à subtração, sentia-se o mistério. As lágrimas enchiam os olhos, de riso e de choro finalmente indistinguíveis.

Trabalhava-se de resto para se sair daqui.

Afinal aqui só se come e dorme. Havia esperança, a de um dia fugirmos deste vale de lágrimas. Não para a lua, porque parece ser afinal uma pedra, para enorme desilusão, falo por mim.

Os poetas engravidavam para parir em papel. O mesmo se passava com físicos, químicos, astrólogos, geólogos, engenheiros e outros. Não existiam os egos, porque não se fazia para ficar, tudo era para sair daqui.

Não havia médicos, não me parece haver necessidade para tanto. Sabia-se aliviar o sofrimento (como a dor do parto) com o mínimo de drogas.

Sem egos o sexo perdia importância. A bissexualidade era preferível. Não vejo como pudessem existir guerras se o planeta fosse exclusivamente habitado por bissexuais sem ego.

Os egos não lidam bem com esta atmosfera, é tudo muito pesado. Viu-se logo quando a maçã caiu na cabeça de Adão.

Não havia histórias, para quê alimentar o ego de significado? Só havia alimento para o corpo, descanso na cama, e esperança de um dia sair daqui num foguetão do tamanho da Europa.

Não ao pagamento das dívidas das histórias que deram prejuízo, recorrendo a crédito de outras histórias especulativas. O resultado já se sabe qual é: a dívida cresce, pede-se empréstimo (a juros cada vez mais exigentes) e pensa-se: “é desta, esta história é que nos vai salvar”. O empréstimo salda as dívidas mais recentes, e recomeça o endividamento.

Pode não haver solução. Podemos estar condenados a experienciar o tempo como uma continuidade inquebrável. Assumir um estilo, para não acabar em pantanas, como diz o Herberto Helder.

Uma batata tem, mais ou menos, 86 calorias

Alguém disse “batata é um legume nojento!” Os Homens não admitem certas palavras. Receosos dos actos consequentes de tão insensata declaração, atacaram o autor com palavras piores ainda. Terminado o ataque, seguiram a sua vida, seguros de que as suas batatas estavam para sempre em segurança.

O autor inventou um pau, e foi para a luta. Outro, esperou até descobrir o metal. Outro ainda só entrou no campo de batalha depois de esculpir uma espada afiada. As ideias, ao contrário dos sólidos, não são de natureza competitiva, pois o espaço que dispõem para se esticar é infinito. Porém, quando se agarram aos corpos, parecem adoptar as leis que regem os objectos sólidos. Quando as temos, ou elas nos possuem, e as queremos colocar ao sol, ou elas por sol imploram, devem estar revestidas de arame farpado, para o nosso bem. Aos autores mais encalhados, enrascados ou sensíveis, aconselha-se mesmo esperar ou reprimir a ideia até esta estar realmente bem armadilhada. Isto aqui é uma selva, na selva não se sabe onde começa o corpo e acaba a ideia.

Se os corpos percebessem os seus limites imprecisos, constatariam que também o espaço para estes é infinito. Mas o desejo de competir é um capacete medieval de viseira curta.

Uma rápida espreitadela em qualquer direção, e verificamos existir espaço livre. Existe sempre mais espaço sem corpos do que ocupado, olhe-se para onde se olhar, em qualquer altura do dia ou noite. A subjetividade sugere haver espaços mais belos que outros, o estatuto faz-nos crer haver espaços melhores do que outros, a sobrevivência ensina-nos haver espaços bons e outros maus. A vida é uma guerra quando nomeada. E a palavra partilha rende-se, mais tarde ou mais cedo, ao insistente poder.

10 biliões de corpos, ou mais, já sem contar com os bichos, árvores, montanhas, oceano. O medo de ser empurrado para um canto do mundo, sem terra de cultivo, no sol desértico, ou na sombra desesperançada, leva-nos a imprimir na vida imagens bélicas, copiadas do que percecionamos ser o comportamento animal.

As ideias, como as facas de um Conto de Jorge Luís Borges, combatem servindo-se de humanos. A vencedora sobe ao pódio, é a ideia dominante, e a vencida deve ser calada, reprimida, trancada no armário, até ser agendada desforra, desta vez com novos intervenientes humanos, arrastados e confundidos por ideias da batata.

As ideias são mais perigosas, para o humano, que os vírus. Contagiam de tal forma, que em muitos casos o corpo e a ideia tornam-se indistinguíveis. O remédio não ataca a ideia sem envenenar o corpo.

E o regresso, depois da guerra? Não há regresso. A pessoa toma o remédio, cumpre a dosagem e restantes recomendações da bula. Ultrapassado o terrível período convalescente, de vómitos, tonturas e uma canseira de uma ponta à outra do dia, encontra na sua casa, nos passeios, nas lojas, em todo o lado a doença, ainda que inerte. Uma questão de tempo até a imunidade desvanecer. Nada a fazer.

Quando alguém chama nojento a uma batata, ideia pouco sensata, dado o valor nutricional e a saborosa variedade de pratos confecionados com tão famoso legume, convém ser tolerante com o homem, e intolerante com a ideia.

Mas se a ideia for nova, e de elevado contágio… bem, deixemos essa difícil decisão para os peritos.

Ensaio

Gostava de saber como vivem os bichos. Não me parece nada correcto assumir que se sabe porque fazem eles as coisas que fazem. Não me julgue caro leitor. Não sou negacionista, excepto quando nego. Aceito e deixo a ciência entrar na minha vida tanto quando posso, reconheço a sua utilidade, reconheço também as repercussões mais imediatas.

Mas desconfio, e hesito. Parece-me que ao morder a maçã, Adão foi preso num jardim, e não ao contrário. Arrastou consigo Eva, porque os homens já se sabe. Tal como os bichos, presos no jardim zoológicos, também nós estamos enjaulados nas masmorras do jardim do Éden. Masmorras de porta encostada, umas mais do que outras, e que nunca dão para o portão de saída. Sai-se para o corredor, divaga-se pelos caminhos labirínticos, à procura da saída, e quando julgamos estar quase, já estamos metidos outra vez na aldeia dos macacos, ou na jaulas dos leões, a viver a temática da jaula.

Eu cá gosto de andar nos corredores. Há cada vez menos animais como eu nos corredores. A direção de marketing do Zoo anda apreensiva quanto aos passeadores, dizem precisar de mais atrações nas jaulas, mais espetáculo. De vez em quando lá encaminham uns quantos na direção certa. Desconfio de que o que eles querem é ter os corredores limpos, não sei para quê. Talvez não tenham percebido que o jardim não tem fim, e que os corredores são prisões como as jaulas.

No outro dia vi um macaco atirar-se a outro macaco, não no jardim, fora dele, pois estou a falar de dois macacos macacos, e não a referir-me a pessoa macaco. Imaginei o porquê da pancadaria, queria dar significado aquilo. Uma mania minha. Depois fui desenhar palavras para a gaiola dos canários, como de costume.

Caça Sonhos

Admitindo a materialidade dos protões e electrões, podemos então acreditar, nos momentos de maior aflição espiritual, que os males da alma obedecem às mesmas leis dos males do corpo. Sendo assim, o que cura o corpo cura o espírito, e vice-versa.

Da mesma forma que um corpo desleixado bate com a cabeça numa porta aberta, e segue caminho aos solavancos, também as incontáveis, e aparentemente aleatórias, colisões, impactos violentos, choques desastrosos, quedas aparatosas, dos protões e electrões, moldam o espírito tornando-o coxo. O espirito desorientado falha o passo, seguindo caminho ao pé coxinho.

Então o melhor é cuidar do corpo. Como é que se cuida do corpo? Comer pouco e bem, dormir quando se tem sono, evacuar quando se tem vontade, e estar sempre onde se está, nem um pouco à frente nem um pouco atrás.

E ler. Tudo e mais alguma coisa, sem esquecer que os olhos emprestados têm as suas agendas. Fica-se com fantasmas agarrados à pele, se não se tem cuidado. Alguns, quando ouvem falar em planos de revolta e libertação, assombram o inquilino, fazem-no crer que a vida sem a sua presença é vazia e desesperante. O inquilino precisa de se lembrar, que há outros faz fantasmas, é o que não falta, uma vez que os mortos são mais que os vivos. Parece que os vivos lutam, com as suas ideias, quando na verdade é uma luta de fantasmas a viver uma crise de acesso à habitação.

Algo confuso, é certo. Talvez ver o filme caça fantasmas, com outros olhos, esclareça. Tentemos, tentemos sempre qualquer coisa diferente e de preferência absurda.

Manta de Retalhos

O que não tem remédio, remediado está, e a língua portuguesa é muito traiçoeira.

Não me vou desgastar com o que se pode tirar de dentro dos provérbios, vou escrever antes que o pensamento se ponha a escavar até chegar ao que costuma estar fora do alcance da luz de palco. O persistente pensamento no mesmo ponto da superfície, perfura e incomoda quem está a exercer funções vitais nos bastidores. Ao abrir buraco obriga as partes de dentro, apanhadas de surpresa pela luz do sol, a representar. O sol obriga os objectos sem luz própria a fingir ser seu o fato emprestado. Este acumular de funções do pessoal técnico, pode não fazer bem à saúde da peça. Mas pode-se também descobrir um maravilhoso novo actor. Uma coisa é certa, o buraco fica feito, pelo menos até ser esquecido ou assimilado pela peça.

A escrita perfuradora não é produtiva (e por isso há quem diga, muito boa gente, desnecessária, pessoas que percebem muito da necessidade), pelo menos em português, porque lá está, a língua é traiçoeira. Se fica muito tempo no aconchego da mudez de um livro, à espera de leitor, quando finalmente se lê, está virada na direção contrária à plateia. Trai o actor falador, e isso incomoda desnecessariamente até o senhor que sobe as cortinas para depois poder desce-las. Com uma língua destas não há como competir com a produtividade da língua alemã, por exemplo. Não sei falar alemão, confesso, mas parecem-me mais produtivos. Também me parece, isto avaliar pelo barulho das vozes, que não se divertem tanto em palco como acontece com as línguas latinas. De qualquer maneira vou parar com isto, porque as comparações entre culturas também não são nada boas para a saúda das peças, do tecido social. Só servem para confundir os textos e deixar o espectador com vontade de abandonar a sala.

Estive a pensar no que escrevi até aqui, assumo esta minha incoerência, não raras vezes percebida como hipocrisia, mas pode não ser nem uma nem outra. Prometo reunir todas as minhas forças para não repetir o façanha.

Como disse estou cansado, é esta a minha desculpa, não tenho desculpa para a desculpa, entenda-se. Sei como a primeira desculpa carece de uma segunda, porque se ficássemos pela primeira, o remédio seria descansar, e é isso que devemos evitar a todo o custo, o remédio, pois como já se viu só o que não tem remédio está remediado. Por isso é que a escrita perfuradora é tão produtiva, dira até necessária. É preciso ir de desculpa em desculpa, queimando-as pelo caminho como quem queima a carta depois de a ler, até chegar ao irremediável, para ficar tudo remediado. Se o leitor está encostado à parede, num ponto de não retorno, à beira do abismo, muitos parabéns, está onde qualquer companhia de Teatro sonha chegar.

Não podemos esquecer porém, como a língua portuguesa é traiçoeira. E eu a dar-lhe com os estudos comparatistas.

É um alívio o irremediável, e é aterrador enquanto esperamos pacientemente pelo alívio. O estado irreversível deixa até o mais anestesiado dos animais de pelo arregalado como quem quer afugentar uma ameaça maior do que o corpo que se tem. Como se o tamanho importasse. Sejamos francos, o tamanho não importa, sejamos mais francos, o tamanho importa, um pouco mais ainda, o tamanho não importa. Pode-se ir sempre um pouco mais além. Será assim que se chega ao irreversível? Desfazendo-nos das certeza que fomos colecionando quando estavam na moda as coleções?

-Mas afinal o que é o senhor? Um troca tintas qualquer? Então agora o tamanho já importa outra vez?

-Se deseja acusar alguém de troca tintas, acuse a língua portuguesa se faz favor! Não vê como eu fui igualmente intrujado!?

Um rapaz, que podia muito bem ser uma rapariga, tanto quanto eu, e estou seguro de que os outros também, podemos perceber porque se nasce uma coisa e não outra. Um rapaz passa por uma prancha e decide não saltar para o mar. As razões são as mesmas de sempre, e como sempre mencioná-las é querer resolver o que está resolvido. Um dia percebe que afinal tem de saltar, e a partir do momento em que recebe a condenação, culpa-se por não ter saltado antes, duvida até se é possível fazê-lo agora sem prática. Isto dito assim é um problema gravíssimo para o rapaz, porque saltar de uma prancha, por escrito, pode ser qualquer coisa. O poder da abstração leva-nos de um particular ao outro sem dar tempo de conferir o geral que as transporta, passam-se depois anos até descobrir o erro nas configurações da máquina do tempo. Se não for escrito, nem a tinta nem na pedra, o que aconteceu foi, e perdoem-me dizer-vos por escrito, não havia outro remédio: Um rapaz não saltou da prancha e depois saltou. Pode ter gostado, pode não ter gostado, isso agora é com ele. Também os sabores dizem respeito à língua, mesmo quando esta se encontra calada.

Abaixo as palavras! Ou que se comece a escrever a lápis.

Ou se invente uma nova linguagem, constituída por palavras que não se encaixem umas nas outras. Ou que se proíba o convívio entre palavras, distanciamento social para as palavras, abraços nas ruas entre os corpos, mesmo os de nariz entupido.

Devo ter pensado em tudo o que escrevi, não serei o único, dias e dias a fio. De qualquer maneira continuo a confiar no primeiro provérbio, apesar da iminente traição sugerida pelo segundo.

Quando começaram com os provérbios já estava tudo aos remendos.

Não se paga bilhete depois de entrar?

Visto a determinada distância um fogão é um cubo. Aproximamo-nos movidos pelo desejo e, num tempo e espaço diferentes, afinal é uma panela em cima de um fogão. Mais uns passos e o fogão desaparece, só se vê a panela. A observação prolongada resulta em dois acontecimentos, o esquecimento do fogão, e a compreensão da panela a ferver ao lume. Contrariando o impulso de fuga, ateado pelo borbulhar sensível ao calor do conteúdo da panela, resolvemos permanecer vidrados. Aos nossos olhos, e para nosso espanto, o cubo visto à distância é só água a ferver.

A agitação generaliza-se pela superfície, uma observação mais pormenorizada e encontram-se partes semelhantes a lagos imunes às alterações climáticas. Vai-se do particular para o geral, e de volta ao particular mas desta vez um outro particular, a ginástica que altera as conclusões. Procura-se padrões, perceber de uma só assentada o caos, dar algum significado ao cubo. Ouve-se o som do metal a cair desamparado.

O olhar segue o choque metálico, para isso tem de abandonar a água quente demais para mergulhos, foi o gato a derrubar a taça da comida, foi só isso, mais nada. Se fosse possível, depois desta distração, esquecer a água a ferver, esta deixava de ser o que é para ser um tacho a levar com gás ardente na base. Se nos esquecêssemos por uma semana, suponhamos, era um tacho frio, eventualmente com um buraco na base, em cima de um fogão. Quem o visse assim naquele estado nada tinha para acrescentar. E quem vier contar o que se passou não consegue apresentar qualquer tipo de prova, sem ser talvez uma memória humedecida pela água que ferveu ao ponto de se evaporar, e entrou pelas narinas de quem julgou compreender o que verdadeiramente aconteceu.

Fica-se com a opinião da maioria, ou da minoria que nos sirva, o que é muito bom e suficiente, diga-se. Fica-se onde incomodamos menos os outros, nunca onde nos é mais confortável, isso é um perigo. Onde calhamos é onde estamos bem. Quem não está bem onde está, e julga ficar melhor deslocado ou ter estado melhor afastado, é porque acredita que o reposicionamento vai resultar em convite para subir ao palco, quem sabe até participar no espetáculo, visitar os bastidores ou tocar no artista com a ponta dos dedos. Lamento informar mas tal coisa nunca aconteceu a viva alma. Acontece porventura aos mortos, depois do concerto acabar.

OVNI

Instantes antes de morrer, dispenso a precisão traduzida na unidade de tempo corrente, afinal em breve livrar-me-ei finalmente de tão insistente recordação. Instantes antes de morrer vi um ovni no céu disfarçado de estrela, um muito a desejar disfarce, pois nem a cor, nem a forma, nem o movimento eram os de uma estrela, e com estas espalhadas à sua maneira em volta do objeto não identificável, a camuflagem ia por água a baixo ao primeiro passar de olhos, mas não caía por terra, jamais cairia por terra.

Devo manifestar certa indignação, é talvez a primeira vez que o faço, por só aparecer agora no fim. Anos, vou voltar a não ser preciso, abandonei de vez esta obsessão,

anos a forçar abraços a troncos de instituições mitológicas seguidos de aterragens mais ou menos estilosas ora em desertos, ora em relvados, sempre com a esperança de fazer erguer nem que seja um ramito,

anos a sorrir com cortinas de pedras uniformizadas em frente do início do escorrega escuro por onde já passou sabe-se lá o quê,

anos avançar por entre o insondável, respirá-lo ininterruptamente, completamente cegos à qualidade do ar, e mesmo assim arriscando escrita e rescritas acerca do assunto, sempre este assunto mais ou menos bem tratado em fundo branco riscado a preto, convencionalmente, sinais sonoros brancos como as estrelas, pretos como o substracto,

anos a dizer algumas coisas e a não dizer outras, como se fosse isso que fizesse alguma diferença,

anos a sentir o calor do sol na face e uma rua extensa pintada com as cores mais amnésicas e o cantar do que dizemos pertencer aos pássaros. Nem tudo é mau, nem tudo foi bom, e se me tivesse livrado a tempo destas duas palavras, bastava-me livrar de uma alias, o que não teria sido a vida, teria sido o paraíso que sempre foi, escondido atrás de uma subjetividade comprada em noite de bebedeira a sabe Deus que preço. Felizmente os vapores do álcool fizeram cair a factura no esquecimento. Mas aquele ovni sabe, se calhar é ele que daqui a instantes, já disse que não volto a ser preciso, vai fazer contas comigo.

Escrever II

Era do tipo de quando tinha vontade de comer ou ir à casa de banho, escrevia num papel o melhor que sabia a vontade. Assim, quando se sentasse à mesa ou na sanita, se a vontade lhe falhasse tinha o papel. Nunca resultava, o papel era só isso mesmo, um papel. Contudo o acto de escrever aliviava-o do anseio de perder as vontades de repente.

Fez o mesmo para evitar a dor. Caminhava com os sapados mais pesados que conseguiu encontrar no mercado. Para isso levou consigo uma balança, dada a ignorância dos lojistas relativa ao peso dos coisas. Descobriu o mais pesado e comprou-o para se habituar. Na esperança de um dia ao se descalçar, não mais sentiria o peso dos pés.

Tinha ainda outras manias, como bater três vez na madeira, saltar sempre que saía do banho, guardar numa gaveta própria 39 % dos trocos que recebia nas inevitáveis transações do dia a dia. Ir para a cama sempre á mesma hora e levantar-se igualmente à mesma hora, e repetir o melhor que conseguia o dia anterior. Andar sempre pelo mesmo caminho, julgando estar a pisar a mesma linha devido a um aceitável erro de cálculo.

Um dia, vejam bem o azar, desviou por um instante o olhar da sua rotina de segurança, e viu um cão bastante rafeiro a abanar-se todo como quem sai do banho. Não parava de se abanar, um instante interminável. O som da pele a bater na carne interior, os olhos ausentes da figura, o corpo em convulsão suspensa em quatro patas. Tudo aquilo que não durou mais do que um instante, perturbou o tipo de tal maneira, ao ponto de o fazer reproduzir o gesto com a sua cabeça. Abanou-a como quem solta um espirro, ou dá um arroto. Quando voltou a si, procurou o cão, ele já lá não estava.

Nunca recuperou. Estas coisas podem acontecer a qualquer um, e assim sem mais nem menos. Vive agora entre um Hospício e um canil, é voluntário nos dois. Escreve num diário tudo o que vê ouve e sente, sem inventar nada, e guarda os escritos numa gaveta própria junto aos trocos.

Jogo de Cultura Geral – Parte I

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Não fora ter acontecido uma acesa discussão, depois de um almoço de domingo, sempre mais perigosos do que os de outro dia qualquer, uma vez calharem no fim de uma semana, coincidindo em cheio com a esperança dos homens de que tudo finalmente acaba de barriga cheia, homens sem maiúscula, no almoço não havia representação feminina. Não tivesse acontecido esta discussão, que passo a contar, e José podia contar com a colaboração do amigo Ricardo para a sua causa.

A meio do segundo jarro de vinho, o equivalente a três copos por pessoa já bebidos, José puxou da televisão, enjaulada numa armação de ferro aparafusada à parede da sala, para a mesa o tópico de desconversa sugerido pelo jornalista principal e acumulador de funções, um terrível habito de se provar ser mais porque se faz mais. O jornalista escritor, apresentador, actor, professor e não raras vezes empresário. Como todas estas personalidades se empilham num só corpo, em trocas constantes e movimento harmonioso, é arte trabalhada do malabarista ou segredo bem guardado do ilusionista, ainda por descobrir por quem desempenha a custo uma única profissão. O tema sugerido foi o aumento do desemprego em Portugal. José deu um puxão no tema para a mesa com tanta força, que este aterrou meio desorientado.

– Olha para aquela tristeza. Ninguém quer fazer nenhum. Sabes quem paga aquilo, sou eu, és tu, Pais de merda este.

Ricardo, sentado mesmo à sua frente, tem uma sobrinha doutorada em Estudos Portugueses desempregada, algo que era do conhecimento de José. Não era caso para se ofender, uma vez que o comentário tinha sido feito não por qualquer ajuste de contas pessoal, mas por uma necessidade antiga de revalidar a vida que se leva. De qualquer maneira Ricardo levou o comentário a peito, e respondeu convictamente.

– Oh esperto, sabes que os desempregados querem trabalhar? Ou achas que é bom não poder pagar as contas?

Para José o esforço de se imaginar no lugar do outro era coisa para os dias da semana, e porque os estudos recentes concluíram ser bom para o negócio. Uma missão negócio levada a cabo pelo soldado empresário, recrutando e empregando vida alheia escolhida a dedo de maneira a minimizar custos e maximizar lucro. Um corpo a crescer sem um fato a impor o tamanho ideal, o tamanho certo a partir do qual o tecido rompe.

A discussão continuava o acompanhava o movimento de uma empresa saudável. Boa empresa é a que não contrata alfaiate. Alcançou um nível tão elevado mas sem elevação, tão distante das razões que impuseram o seu surgimento, que agora os seus intervenientes, envolvidos num esquecimento embaraçoso, só pensavam na eleição um único vencedor, como inevitável e justo desfecho.

– Epah! Não me chames isto outra vez se faz favor! Isso do chamar fascista a um gajo serve para nos calar, mas eu falo e digo o que quero, não tenho medo de dizer o que penso. Tu achas bem, hã? Eu sou Português, trabalho em Portugal, mato-me a trabalhar, para pagar o ordenado a tipos que se calhar têm carros melhores do que o meu? Foda-se ó Ricardo, não me fodas pah!

– Mas de quem é que tu estás a falar? Tu estás a imaginar realidades alternativas. Olha, vai lá um dia à segurança social, e vai lá perguntar se alguém na fila anda melhor montado que tu? Ou se apanham o autocarro ou vão a butes? Tem juízo, sabes lá do que estás a falar.

– Mas responde-me, porque é que não vão trabalhar? Se precisam tanto assim de rendimento no final do mês, porque não vão trabalhar? E não me venhas com a história de não haver trabalho. Trabalho sempre houve e haverá de haver. É preciso é querer trabalhar.

– Há! Há muito trabalho. Dá para trabalhar na tua empresa com estágios do IEFP. Quando é para ti, tudo bem, o Estado já pode bancar. Pimenta no cu dos outros para mim é refresco.

– Tu sabes lá o que é ter de gerir uma empresa neste Pais. Sabem quanto é que eu pago de IRC, sabem? E os salários que tenho de pagar todos os meses? Só se investe no turismo aqui. Queria ver-te. Falas sem saber o que custa a vida pah.

A discussão continuava neste carrocel já o telejornal tinha terminado. Para além dos três homens sentados na mesma mesa de café, transformada em mesa de debate político, de café, a sala estava vazia, até os empregados fartos de ouvir berros sobre os que não estão, abrigaram-se na cozinha. Os restos de carne com nervos e as manchas de vinho secas no papel rasgado e dobrado pelos cotovelos irrequietos dos homens, espelhava a natureza desconstrutiva dos argumentos.

O terceiro elemento, o Sr. Fernando, conservava-se mudo, mas como auscultava os outros com uma perturbadora atenção, nunca pareceu ausente da discussão. Ouvia-os atentamente mesmo quando as vozes se sobrepunham, quando assim era escolhia uma, assumindo da abafada o contraditório da percebida.

Fernando era um homem moderado. Uma moderação cultivada pelo prazer de pensar e uma aversão ao conflito. Este traço de personalidade faziam dele um elemento deveras solicitado para almoços de convívio combativos como este, um preço a pagar pela conservação de um raro traço entre os seus semelhantes convictos das suas certezas.

Aproveitou uma breve pausa na discussão para intervir finalmente com todo o direito que lhe era devido.

– Eu percebo o sentimento de injustiça aqui do nosso amigo José. Porém, se tivesse de culpar alguém por me sobrecarregar para além do necessário, como se sobrecarregavam os escravos mais habilidosos nas tarefas que outros demostravam ser incapazes, ou se recusavam mesmo a fazer, sofrendo as consequências bárbaras da sua recusa e que são do nosso conhecimento histórico, eu culparia não os desgraçados que vivem dos subsídios, mas sim os donos e acionistas das grandes empresas. Não falo das pequenas e médias, bem sei como têm de se esforçar só para não ter prejuízo dada a feroz competitividade do mercado.

Acrescentou a parte das pequenas e médias empresas, numa hábil estratégia de demonstrar estar do lado de José, e não contra ele, de maneira a não contribuir para o carrocel de mal entendidos. De qualquer maneira esqueceu-se de demonstrar como é que os poderosos sobrecarregam os seus compatriotas. Foi melhor assim, se o tivesse feito, baseando-se na História e nos seus números mais redondos, ia obrigar os companheiros a jantar fora de casa.

Se uma discussão entre pessoas da mesma classe social, acerca de temas como este, acaba com uns contra outros, deve-se certamente a um mal entendido, onde a parte responsável é deixada de fora, sossegada em anonimato, o que é profundamente lamentável.

– Mas então diz-me lá então Fernando. – disse Jorge – Para ver se eu compreendo, só quero perceber, nada mais. Tu achas bem? Um tipo que não faz nada, não trabalha não produz, não cria emprego, não faz nada, é um parasita. E receba no final do mês por isso? Cai-lhe o dinheiro do céu?

– Parece que essa pessoa que me descreves, sossegadamente quieta, não existe. Antes pelo contrário, o mundo está cheio de pessoas incapazes de sossegar. Encontrar alguém capaz de não fazer nada, é raríssimo. Desafio-te a tentar, e vais ver como é complicadíssimo. O que existe são algumas pessoas, uma minoria infelizmente, que não estão disponíveis para o trabalho não produtivo que gera um lucro desigualmente distribuído por quem de direito. A estes, e aos que nada fazem se os houver, eu digo que sim, devem ter o direito, mais do que justificado, de receber um valor mínimo só por existir. Estou convicto de como, ao receberem da sociedade, gentilmente e voluntariamente retribuirão. Até prova em contrário, é esta a minha convicção.

Este parágrafo, face a agitação dos interlocutores, foi várias vezes interrompido, e só foi possível a sua conclusão, graças a uma enorme paciência e perseverança de Fernando, que teve de recuar várias vezes no texto, para poder concluir o seu pensamento.

– Tu andas a viver noutro mundo oh Fernando! As pessoas se poderem ficar o dia todo de papo para o ar a ver televisão ficam. Desde que tenham alguém que lhes meta a comidinha na mesa, e lhes pague as contas no final do mês, achas que vão mexer uma palha por alguém?

– Se fosse assim, os elementos das famílias com enormes fortunas, fortunas maiores que a soma dos salários anuais de todos os trabalhadores das empresas que detém, essas pessoas não fariam nada. Mas se fores ver, são as mais activas na sociedade. Apenas está ausente das suas actividades, o trabalho não produtivo.

– Mais razão me dás. São os que fazem mais, e são os que recebem mais. Olha a coincidência. Agora é que estás a perceber este mistério da civilização. Quem mais trabalha mais dinheiro tem. Isso é o que eu estou a dizer desde o princípio, e o que está mal é quem não trabalha ter dinheiro.

– Qualquer uma dessas pessoas com fortuna vai ter sempre mais dinheiro do que tu, mesmo não fazendo nada, se fossem capazes de não fazer nada claro. O trabalho e o dinheiro não estão diretamente relacionados como sugeres. Podes-me dizer, porque trabalharam antes. Eu diria antes porque tiveram pessoas, as tais pessoas que acusas de ociosas, durante várias gerações, e ainda hoje, a trabalhar para as suas fortunas. Esta alias parece-me ser uma boa justificação para todos terem direito a uma renda. Poderás dizer, e com razão, é um argumento fraco, aceito. De qualquer maneira, mais fraco é um argumento que justifique a desigualdade de riqueza do homem mais rico contra a do mais pobre. A única justificação que consigo imaginar, é um terrível erro de cálculos.

– Mas espera lá – interveio Ricardo, animado por ver a discussão desbloqueada – Estás a dizer que se todos recebessem, vamos supor, 500 euros só por existir, todos os meses, achas que iam aparecer voluntários para apanhar o lixo, cozer o pão, servir à mesa?

– Da maneira como hoje são desempenhadas estas tarefas não produtivas, espero bem que não. Mas acredito que continuava a haver quem apanhasse o seu lixo, não o da cidade inteira, quem cozesse o pão e servisse os seus à mesa.

– És um utópico.

– Nem por isso. Sei que se amanhã aprovassem o que eu sugeri, uma mensalidade de 500 euros para todos, muito provavelmente isso significaria um enorme caos social. De qualquer maneira isso não me impede de imaginar um futuro onde tal acontecesse, um futuro melhor para todos.

– Para todos não. Um futuro melhor para os pobres, os ricos saem prejudicados.

– Finalmente! Mas se queres saber, acho que esta ideia, de que ser rico é o fim a alcançar, o salvamento da raça humana, é o maior impedimento para a realização desta utopia. É uma ideia tão antiga como a civilização, a de que é melhor ser rico do que pobre. Esta comparação entre classes valida, quase sem darmos por isso, a constante comparação entre os Homens. Enquanto existirem classes sociais, ser pobre é evidentemente pior do que ser rico. Porém o rico tem duas ameaças: o sentimento de estar a tratar injustamente o outro, e o medo de se tornar pobre. Já para não falar da constante ameaça de revolta do povo. Bem sei como o grito de revolta perde força mal é lançado, como uma onda ao longo da hierarquia social, sujando apenas de uma leve espuma os que ocupam o topo. Todavia os tsunamis são fenómenos naturais, que sucedem sem aviso.

– Basta olhares para os livros de História do meu filho – disse Ricardo – e verás como tudo o que é ser vivo só consegue alcançar um lugar comum com o outro dentro de uma lógica de poder. Viver em comunidade sem classes socias é ainda mais Utópico do que a tal mensalidade de 500 euros.

– Não me compararia a outros seres vivos não falantes. Pelo menos no que diz respeito a questões éticas. Parece-me que o humano tem atributos que o diferenciam de um crustáceo ou de um búfalo. Todavia receio existir realmente entre animais uma preferência pelas relações de poder, de maneira a facilitar a vida em comum. Porém, se ousássemos contrariar esta tendência para a mimética, quem sabe descobríamos uma nova forma de relacionamento. Eu consigo com o meu gato, é um sinal esperançoso para realização desta promessa.

Aproveitaram a nota humorística para encerrar a discussão. Num tom ainda mais leve manifestaram o seu mais sincero desprezo pelos muito ricos, chegaram a nomear alguns mais mediáticos. Antes de abandonarem o restaurante, para não dar o braço a torcer, José disse ainda.

– São os ricos e os pobres. Uns não fazem nenhum porque não precisam, outros não fazem nenhum porque não querem – e finalizando, para juntar-se aos seus companheiros, evocando a camaradagem incondicional de quem se junta à mesa para comer, acrescentou – nós é que andamos aqui a empurrar este Pais para a frente.

Um nós que prossuponha um eles, e o mal estava feito. Fernando sentiu-se tentado em repetir como os pobres oferecem-se diligentemente, contra todas as expectativas, para servir de qualquer forma a qualquer troco. Libertando os ricos para as desafiantes e indesejáveis tarefas de governação de um povo, que não raras vezes lamentavelmente se transformam em tarefas de exploração de um povo. A tarefa é desafiante, é importante estar atento mas não julgar para lá do necessário.

Não caiu na tentação e deixou o amigo ficar com a última palavra. Que a sociedade funciona assim, ninguém pode afirmar o contrário, basta enfiar a cabeça de fora da janela, e constatar os movimentos em redor. A questão não é essa. A questão é mais profunda, tão profunda como a necessidade intrínseca do humano por justiça, e por não estar só no mundo.

Ricardo aceitou as tréguas subentendidas de José, e os três agendaram por alto o próximo almoço

Assim foi a discussão.

Dias mas tarde José recebeu uma chamada de um canal de televisão, congratulando-o por ter sido o escolhido para servir de concorrente no programa Joker, um programa de perguntas e respostas transmitido todos os dias úteis na televisão pública. Para participar foi-lhe exigido que levasse consigo outra pessoa, um co-concorrente, sem o qual a sua participação não poderia ser aceite. José lembrou-me imediatamente do seu amigo Ricardo. Não fosse a discussão descrita, e o caso mudava de figura.

FIM DA PRIMEIRA PARTE