Número desconhecido

Andava de olhar intermitente entre o telemóvel, pousado no braço do sofá onde estava, e as imagens transmitidas no televisor. Mesmo assim quando este tocou, ele deu um salto. Uma respiração profunda e atendeu, ansioso por ficar a saber a quem pertencia aquele número desconhecido.

– Estou Rui! Então pah ando-te a telefonar há três dias. Tu não atendes. Tenho aqui isto tudo parado! O que é que vai na tua cabeça?

– Desculpe. Eu não sou o Rui.

– Não é o Rui? Rui Gomes? Este não é o número do Rui?

– Não. Não senhor. Deve ser engano. Eu chamo-me Ricardo.

– Eh pá, granda bronca! Ai, e agora!?

– Pois agora realmente não sei…

– Ah, o que é que eu vou fazer à minha vida. Então tenho aqui mais de 500 mil euros e tu queres ver que levei banhada.

– Pois. Eu não sei como o …

– Epah. Olhe… deixe… Foda-se…

Desligou e foi à sua vida, certamente bastante contrariado. Ricardo estava aliviado por não ser nada com ele. Se soubesse que era engano, tinha atendido há mais tempo. Mas todo o cuidado é pouco. Animado, já nem recordava porque andava tão preocupado, resolveu ir comer um bolo. Levantou-se do sofá, calçou-se, carteira no bolso de trás, e saiu pela porta fora.

Entrou no café que tinha em mira. Era um café pacato, frequentado por não mais de três ou quatro comedores de bolo por semana. Aquele fluxo de clientela só não ameaçava o negócio, porque o proprietário já ia nos noventa anos de vida vivida a vender bolos, pasteis, e umas bebidas para não empachar. Se aos noventa ainda não se conseguiu alcançar a independência financeira, única razão para um comerciante se sentir seduzido a empachar o seu estabelecimento comercial com estranhos, não é aos noventa e um que as coisas vão melhorar.

Expostos no balcão de vidro, ali desde 1960, quando aquilo era novidade e motivo para espanto, estavam os habituais bolos da casa. Na prateleira de cima estava, por esta ordem:

Um croissant de chocolate bem cozido, com pepitas de chocolate a cobrir a parte mais alta, e chocolate a sair das duas extremidades. Sugerindo que o interior do bolo não era um vazio de massa amanteigada.

Um bolo Húngaro recheado de doce de framboesa, com a framboesa também a sair de fora, produzindo o mesmo efeito do chocolate no croissant, e confirmando que naquela casa não se poupa no recheio.

Uma bola de Berlim cheia, mas cheia a abarrotar, de creme de ovo. De tal maneira que até a montra estava besuntada. Dava a sensação que só era seguro pegar naquela bola de luvas. Trincá-la então só de babete e toalha de praia por perto.

Por fim um bolo de arroz comprado no super mercado da frente, para completar a fila e não ficar o espaço vazio.

O dono daquela montra tinha horror aos vazios. Por isso mesmo não havia prateleira de baixo. Sempre que não havia bolos ou pasteis suficientes para preencher as prateleiras, estas eram arrancadas, e escondidas bem longe do olhar.

Como já era tarde, e a casa só recebe três clientes por semana, aquilo estava até bastante composto de bolos. Podia até sobrar.

Ao ver entrar o que era provavelmente o seu primeiro cliente do dia, o senhor nonagenário desejou que ele fosse guloso ou estivesse esfomeado. Ou, se não era desejar muito, as duas coisas. Se fosse as duas coisas os quatro bolos iam à vida, e ele fechava mais cedo.

– Ora bem vindo à nossa humilde casa onde o lema é servir bem bem servir, dá saúde e faz sorrir. Diga-me em que lhe posso ajudar. Temos croissant com chocolate belga, feitos em França e importado exclusivamente para este humilde estabelecimento, temos depois aqui um último, que sobrou…

Para a idade, o homem tinha uma energia admirável. Ricardo deixou de o ouvir, porque já vinha com ela fisgada para comer uma bola de Berlim.

– Pode ser a bola de Berlim. E um gin-tónico! Primeiro o gin se fizer o obséquio.

Entornava pequenas porções de gin com água tónica para dentro da boca, com a calma de um verdadeiro degustador. O velho foi buscar um prato de sopa, para fazer o transbordo da bola com segurança. Nisto o telefone toca. Ricardo, que tinha lábios, dentes, língua, copo gin, gin, tónica, tudo junto sem cumprir a distância social, numa orgia de frescura lubrificada a saliva, deu um salto que até o fez babar o balcão de 1960.

Número desconhecido! Não recordava se era o mesmo número. Aquele que andou convencido de estar a ligar para um Rui, e depois de finalmente ser atendido por um Ricardo, ficou convencido que o Rui é um vigarista.

Acalmou-se, desta vez não precisou de respirar fundo, tinha um gin-tónico na sua mão. Assim que o telemóvel deixou de tocar, foi comparar os números, na esperança de coincidirem, tal jogador de lotaria. Os dois primeiros coincidiam, os outros eram todos diferentes, ou os mesmo mas em posições diferentes. Merda! E bebeu mais um bocadinho. Mais um número desconhecido! Mas quem é esta gente que telefona para quem não conhece? Para quê?

O senhor dos bolos volto com uma tenaz, uma colher de sopa, e uma travessa. Assim que terminou a transladação da bola de Berlim, que na travessa parecia uma francesista cheia de molho amarelo, disse solenemente:

– Não pude deixar de reparar como desde que voltei, o amigo tem um peso a carregar-lhe a alma. Disponha se achar que desabafar pode ajuda-lo a reencontrar a paz com que entrou neste estabelecimento comercial.

Era uma boa observação. A verdade é que agora, nem apetite tinha para engolir o bolo tão desejado. Mas não podia fazer desfeita ao homem. Talvez pedisse para embrulhar.

– Acontece que me andam a telefonar de números desconhecidos. Eu não atendo, depois fico a pensar o que podia ter sido.

– Tem medo? É compreensível. Tememos única e exclusivamente o desconhecido sabe? Mas digo-lhe. É só mesmo por falta de conhecimento. Acredite em mim que ando às voltas nisto há 90 anos. Fui obrigado a conhecer muita coisa. Depois de conhecer, às vezes não é à primeira, deixa de meter medo. Quantas chamadas não atendidas já atendeu?

– Uma. Foi hoje a minha primeira.

– E o que era?

– Não era para mim.

– Ah… era engano. Sei bem. Está ver? Nunca é nada.

– Vinha comemorar. Só tive tempo de saborear… nem um terço do gin tónico.

Ricardo suspirou e bebeu o gin até metade. Ia com as mão à bola, mas achou que era melhor pedir uma colher de sopa. Enquanto o velho procurava por alguma, perdida numa gaveta desde os anos noventa, o telemóvel voltou a tocar. Número desconhecido! O velho voou até junto dele, de tal maneira ágil que parecia ter metade da idade, e disse empolgado:

– Quer que eu atenda!? Eu atendo-lhe isso!? Olhe que eu pareço ter esta idade, mas ainda estou aqui para as curvas.

Ricardo meio atrapalhado concordou. E o homem dos bolos e dos pastéis, arregaçou as mangas, tossiu para os bolos que já não seriam de qualquer maneira vendidos, para limpar a voz, e assumindo uma posse cerimonial, atendeu o telefone. Mesmo a tempo. Falou com a cortesia de um duque, demonstrando que quem fala não nasceu para servir o desconhecido.

– Pastelaria os Quatros Bolos. Daqui o proprietário do estabelecimento, em que lhe posso ser útil? … sim … sim … compreendo – Desligou – Era engano.

– Outro engano?

– Ora evidentemente. Está a ver? Assim já se vai habituando. Qualquer dia já atende telefones com a destreza de um operador de chamadas.

De sorriso na cara e espírito livre, confiante na sua força de enfrentar o desconhecido que há-de vir, Ricardo atirou-se de cabeça à bola, e começou a devorá-la com um apetite maior do que a travessa. Por aquele andar ainda comia os outros bolos. De boca cheia de creme perguntou:

– Então o senhor já não tem medo de nada? Já conhece tudo. Certo?

– Tenho medo da morte. Ainda não morri.

Disse aquilo como se tivesse dado conta disto pela primeira vez. Ricardo interrompeu a sua comemoração, como se tivesse ouvido algo no qual nunca tivesse pensado.

– Mas seguramente deve ser como o resto… Conhece alguém que já tenha morrido?

– Não… todas pessoas que conheço nunca morreram… Espera! A minha querida mãezinha já morreu!

– Então. Pergunte-lhe. Está à espera do quê? Pergunte-lhe como é? Não tem o número dela?

O homem baixou-se e atirou com o telefone fixo da loja para cima do balcão. Com tamanha força, que as pepitas de chocolate do croissant descolaram-se quase todas. Agarrou no auscultados, quando ia marcar o número lembrou-se:

– Espera. Não lhe posso telefonar.

Ficaram ambos muito embaraçados. O embaraço, por não ser o sentimento apropriado numa situação destas, deu lugar a um terror que não conseguiam disfarçar. Sentiam que a qualquer momento iam enlouquecer. Aquela confusão absurda só era possível numa anedota dos malucos do riso. Ou quando as pessoas enlouquecem. Estavam os dois muito sérios. Olhavam em redor e um para o outro, num pânico constante. Quando se convenceram que, pelo menos por agora, nada iria acontecer, desataram a rir. Um riso que vinha do estômago com tamanha força que explodia-lhe nos dentes e nos lábios. Uma gargalhada vinda do desconhecido. Tomavam consciência de que seus corpos não lhes pertenciam. Incapazes de dizer uma palavra, esboçar um movimento da sua autoria. Riam e as lágrimas escorriam inevitavelmente. Estava tudo bem, por agora, e era o suficiente.

Ricardo acabou com a bola. Pediu para embrulhar o bolo Húngaro para comer em casa. À noite lembrou-se de o velho ter tossido em cima do Húngaro. Esquecido da gargalhada que dera antes, atirou o bolo ao lixo, com medo de apanhar alguma doença terminal.

Abelha mecânica

Toda gente que conheço sabe viver melhor que eu. Eu, por teimosia em querer perceber como é que as coisas começaram funcionar, interrompo o movimento da vida. Os outros, os que conheço, vivem, e bem, sem se incomodar com o que possa estar por detrás da vida que levam. Não sejamos tão dramáticos. O que faço não é nenhum crime, e não sou de todo o único a fazê-lo. Assalta-me uma curiosidade, quero compreender qualquer coisa para depois gritar ao mundo aquilo que vi. Compreensível julgo eu. Como é que havia de adivinhar que a vida, depois de parada, custa a arrancar, como os computadores velhos. Computador é uma má escolha para metáfora, porque eu nunca ia parar e remexer no interior de um computador. Conheço as minhas limitações. Mas recordo-me de uma abelha.

Estava de férias, tinha 10 anos e um medo irracionalmente profundo de abelhas. Era meio-dia e estavam uns quarenta graus ao sol. Encontrei uma abelha incólume e ao mesmo tempo falecida. Esperei para confirmar se estava realmente morta. Não precisei de muito tempo para ficar convencido porque nenhum corpo com vida suportaria aquele sol com tanta serenidade. Levei-a comigo para casa. Nunca tinha visto de tão perto uma abelha. Inspeccionei-a na segurança que só a morte nos pode oferecer. As patas pretas e finas como cabelo eram quatro, mas podiam ter sido mais, acidentes acontecem. Os olhos que me fascinavam sem me dizer nada a seu respeito. As asas transparentes com desenhos de formas que faziam lembrar cortinas ou toalhas de mesa. Já não tinha ferrão. Deixou-o por impulso algures, sem medir as consequências do seu acto. Sabia não poder evitar o seu destino. Já eu não sabia perceber nada destas coisas, só imaginar hipóteses, que depois de um processo de selecção, transformavam-se em frágeis verdades.

Quando satisfiz a minha curiosidade pelo exterior, resolvi abri-la ao meio, ou transversalmente. Tanto fazia desde que tivesse acesso ao interior daquele insecto que quando animado de vida, faz-me recear pela minha. Agarrei numa faca, das que têm cabo em madeira, e seguro de que estava prestes a fazer algo nunca antes feito, cortei-a ao meio como se corta a carne e o peixe. Evidentemente o interior transformou-se, logo que contactou com o ar, em exterior. O mesmo exterior que nada me dizia a respeito da coisa. Repeti a experiência até mais cinco vezes, e com seis parte de abelha em cima da mesa, perdi o interesse e fui meter a faca para lavar.

“Inútil, o voo de fora para dentro. Cá fora deveria ser uma imagem: a verdade transposta numa forma que surpreendesse quando comparada com a realidade”(1)

Esta também não é a melhor metáfora porque não havia maneira de voltar a meter a abelha a funcionar. Para além disso não fui eu que a parei. Encontrei-a parada por forças alheias a mim e a ela. Se a encontrasse em andamento, nunca teria coragem de a parar. Por mais que me garantissem, e garantem, que as abelhas não fazem mal a ninguém. O meu medo não é o do desconhecido. Já fui ferrado e sei que não dói tanto como imaginamos doer. Depende também da imaginação de cada um.

Talvez a melhor metáfora seja uma abelha robótica. Passo a explicar. É uma abelha parada, tal como a que eu encontrei de baixo a braseira do sol. Mas que pode, a qualquer momento, ser reanimada por impulsos magnéticos disparados no interior do seu ser electrónico.

Desejo a vida nas coisas. E já agora em mim. Não que me julgue diferente das coisas, mas a subjectividade tem que se lhe diga, e impõe esta separação, mesmo aos que a repudiam mais. Ao mesmo tempo quero estar bem longe, a uma distância de segurança, quando se der o impulso que dá vida ao corpo. Não gosto de ser ferrado.

Daqui se tiram algumas conclusões que tiram valor literário ao texto, mas que servem com certeza algum outro fim. Os nossos olhos não são o melhor órgão para ver a morte. Seja ela biológica, artificial, interior ou exterior. Existem vários tipos de morte. Só se tem medo quando se tem vida, e do que ainda não está morto. A vida acontece sem aviso, e por fenómenos que também não se vêm com olhos de gente. E por fim, em inglês porque receio não haver uma tradução em jeito de provérbio no português, e para terminar caia bem um provérbio: “a watched pot never boils”.

(1) – Photomaton & Vox – Herberto Helder

Exercício de conspiração

Era um domingo de manhã, o tempo não estava imperdível, e o sossego era tal que sair da cama seria considerado um pecado. Infelizmente para o Senhor Meritíssimo Presidente Global, o sono teimava a não querer voltar a pegar. A sua longa carreira profissional dotou-o de invejáveis atributos, raros de encontrar na generalidade da raça humano. Mas como o que cresce acima das suas possibilidades exige os proporcionais sacrifícios, paciência para teimosias era coisa que faltava ao Presidente.

Ao fim da segunda tentativa enfureceu-se contra o sono, e as suas vontades próprias. O sono que por não ser gente não reconhecia autoridade ao Presidente, foi-se de vez, deixando o Presidente de boca aberta, e não por força de um bocejo.

Como um raio saltou da cama. O seu desejo era com o salto acordar toda a gente do mundo. Era um homem que não fazia as coisas por menos. Se ele não dormia, é porque dormir é um defeito desprezível. Entáo ninguém dorme, para que esta sua verdade, recentemente instaurada, ganhe balanço e pegue. Já que o sono não pega.

Mas as coisas não se fazem como noutros tempos. No tempo de seus bisavós bastava gritar “estão proibidos de dormir meus filhos de uma puta.” Insultar era de homem, e ninguém dormia. Quem dormisse, e fosse apanhado, levava o tratamento da espada, ou espingarda, ou prisão, tortura, fosse o que fosse que lhe tirasse o sono. Mas cedo se percebeu as trágicas consequências deste caminho. O povo não gostava, identificava a causa do seu sofrimento, que logo a calhar era material. Revoltava-se contra a matéria no poder, e até que percebessem que a promessa de liberdade da revolução, não era afinal liberdade nenhuma, era o cabo das tormentas.

Por um lado, naqueles tempos, a revolução dava jeito. Enquanto se está convencido de que alguém está a tratar da libertação colectiva, não se faz nada pela libertação individual. Não se correndo assim o risco de acontecer uma libertação geral, que possibilite a tão esperada implementação da anarquia. Isso é que tirava o sono ao Presidente. Agarrou no telemóvel e ligou ao vice Presidente global, que de um maneira geral era o Presidente de toda a gente no mundo, menos do Presidente.

– O que é que andas a fazer?

Que raio de pergunta para se fazer ao segundo homem mais atarefado do mundo. O Vice Presidente só admitiria aquele tom de voz a uma pessoa.

– As pessoas têm de andar com mais medo José! O que é que andas a fazer José?!

O vice Presidente só admitiria que o tratassem por José, a uma pessoa, que é quem vocês podem imaginar.

– Tira-lhes o sono José. Inventa um ameaça que não os faça rir. Nada de colapsos financeiros, eles já desenvolveram um sentido de humor para a pobreza material Nada material! Quero sombras! Electricidade! Mitos! Invisibilidade! Confundi-os está bem. Faz alguma coisa de jeito nem que seja uma vez na puta da tua vida. Se precisares de ajuda liga. Tenho de ir cagar.

Meio atrapalhado, o Vice Presidente convocou logo uma reunião com os melhores argumentistas que o dinheiro pode comprar. Havia melhores, mas é preciso levar também em consideração a qualidade preço. Ao fim de três horas de reunião ainda não havia uma ideia. Só material. Os argumentistas culpavam silenciosamente o Vice Presidente, que insistia em pegar nas suas ideias e transformá-las em algo concreto. Só para poder ter algo para mostrar ao Presidente Global. Grande engraxador.

Um argumentista que tinha de ir apanhar o mais novo ao ballet, e estava a ficar apertado de tempo, tentou pôr fim àquilo, indo buscar uma ideia das suas ao baú. Reciclagem criativa.

– E que me dizem de um Apocalipse de Zombis

– Isso não é uma série?

– Sim, mas primeiro foi um filme.

– Não. Primeiro foi um romance.

– Ninguém se lembra do romance.

– E o filme é para rir? É que se for esqueçam já a ideia. Tem de ser de terror.

– Sim, o filme é terror.

– Aquilo é mais acção.

– Nick tu não escreveste uma comédia com Zombies.

– Sim. Mas foi em 2004. Ninguém se lembra.

– O Jarmusch não fez um recentemente?

– Sim, mas não é comédia.

– Não é? Eu achei piada.

– Mas uma coisa é um filme, outra é a realidade. José, confia em mim, ninguém vai achar piada.

Quem não achou piada foi o Vice Presidente. Ficou com a ideia do Nick, e mandou-o prender por excesso de intimidade.

Contratou-se logo outro. Era pior mas mais barato. E para evitar mais despedimentos e custos de contratações inesperadas, ninguém lhe disse o nome do Vice Presidente. No anonimato tudo corre melhor, e com menos custos. Fica mais difícil para os criativos terem ideias a tempo de ir buscar os filhos ao ballet. Mas quem é que dança ballet quando anda a correr por ai uma pandemia de Zombis.

Desvie-se por favor que me está a tapar o vento

Chegados a este ponto restam-nos duas alternativas (sempre o números dois, o par, uma e a outra coisa) ou aceitamos que quem morre, é porque se morre. É algo que sempre aconteceu, não é invenção do Homem. Morte que normalmente é acompanhada de sofrimento físico. Não é nada de novo, nada que já não se tenha sentido, desde o útero. Mesmo assim compreendo a nossa dor.

Ou então, aceitamos que temos de nos portar bem, daqui em diante, por tempo indeterminado, todos, muito bem. Muito bem comportadinhos e a seguir as regras ambíguas, escritas por quem sabe melhor que nós, o que é melhor para cada um. Ambíguas porque a vida é complexa, são muitos anos de história colectiva, e o peso das suas significâncias. Quem não percebe isto não sabe o que é a vida! E pelo andar da carruagem, nunca irá saber. A eles, aos que ousam ridicularizar a vida dos outros ao escolher uma vida diferente, a estes espera-lhes uma morte lenta, e dolorosa. Cada inspiração se revela mais curta que a anterior, até só terem direito a minúsculas porções de ar.

Deviam saber, já têm idade para isso, que não se vive de outra maneira. É tudo muito bonito e um mar de possibilidades, até o pneu do carro furar. E quando se parte uma perna? Quando se tem de pagar a conta do super mercado? E as pneumonias, as guerras, a pobreza e a miséria. Olhem para a realidade como nós a vemos. Porque é a realidade tal como a pintámos. Não quisemos enganar ninguém. Isto que aqui está, é uma versão reduzida do que vimos. Estamos sozinhos no final das contas. A vida é caminhar de cruz às costas, e no fim esperar pela morte.

Mas e se… (é um suponhamos), nada contra viver à imagem de Cristo. É preciso acreditar em algo (será?).

Imaginemos então, que tenho um quintal com tomates. Mais nada. Conheço o tipo que me repara o pneu da bicicleta. Vivo sem precisar da promessa de um futuro radiante, porque não me fascino mais com histórias de encantar. Consegui finalmente aceitar que o Godot não está atrasado. O vazio de estar vivo, a sua ausência de propósito, eventualmente, deixa de me assustar. Vivo sem medo. Sem nada, e sem medo.

Viver assim exige que eu conheça verdadeiramente o outro, e crie uma relação com ele. Uma relação que só é possível quando percebo que, o que separa o outro do eu, é a subjectividade. E quando se vive sem nada, no silêncio, a subjectividade é uma coisa do presente, incapaz de sobreviver ao tempo. Condenada a uma queda aparatosa no esquecimento, no instante que se segue ao seu aparecimento.

Ora, não se sabe “do que as pessoas são capazes para iludirem a ausência de um sentido para a vida, para escaparem à miséria ou ao peso dos outros”, dizia Dinis Machado.

As bestas, vamos chamar-lhes bestas, mas sem ressentimento, porque se elas pudessem seriam certamente outra coisa qualquer. As bestas não sabem relacionar-se com os outros sem se esquecerem de si mesmas. Têm medo de estar sozinhas, porque não suportam a falta que lhes faz uma história para tapar a frieza do céu, impossível de se abarcar completamente com um só olhar.

Não sabem. Têm esta fraqueza, que combatem com a sua maior arma, a sua força bestial. Disposta a matar se for caso para isso, e no dia seguinte convencer o mundo da história que desenharam e penduraram perante os seus olhos, para não verem mais nada. E enquanto tiverem forças, vão lutar contra os outros e contra o mundo, para que não lhes seja derrubado o mural.

O mural serve-lhes para reduzir o mundo a um tamanho confortável, interpretável, e inalterável. Dorme-se e quando se acorda, tudo está como se deixou ficar. Quando aquilo parece estar a ruir, o autor faz os devidos retoques.

Chegados a esta altura, o autor pode ser qualquer um. Está uma multidão a olhar para o mesmo mural. Já se esqueceram que estão a olhar para um desenho. Apertam-se uns contra os outros de tal maneira, que julgam estar unidos. Mas o movimento concêntrico é uma fuga para o centro seguro onde não se corre o risco de olhar os limites do ecrã.

Deitar abaixo o mural, o ecrã, o quadro ou o que se quiser chamar, é, chegados a esta altura, um atentado contra a humanidade. Mas desviar o olhar, mudar de sítio para espreitar o que está por detrás, é uma hipótese. Talvez esteja outro mural. Uma coisa abstracta, sem referências artísticas que nos conduzam a uma explicação catártica. Mesmo assim, vale a pena vadiar pela exposição, nem que seja para espairecer as ideias.

A besta original já cá não anda. Mas escreveu por todo o lado a sua verdade. O que está escrito hoje no mural, é a verdade das bestas que se seguiram, partindo do mito da besta original. Se calhar chamamos vândalos em vez de bestas. Ou artistas, pintores, escritores. É o que se quiser chamar.

No mural temos, disponíveis para consulta, num calendário, os nossos ritmos. Amanhã vou jantar fora, tenho de estar bem disposto. No fim de semana não trabalho, tenho de relaxar. E feliz, mesmo feliz, vai ser entre 19 e 31 de Agosto, já marquei as férias. Parece normal porque é o que vemos quando olhamos o lugar onde costumava estar o céu.

Por mim pode ficar assim. e está muito bem. Eu não tenho sangue, já sangrei o suficiente, temo não ter que me reste. Por isso vou perguntar ao vizinho: “Olhe desculpe? Onde fica os Urinóis?” Depois saiu de fininho, rezando para ninguém dar por mim. Rezar para não dar nas vistas enquanto não se abandona o templo. Assim que me vir livre é zarpar para a rua, onde se pode apanhar algum ar fresco. A brisa! Apanhar com o vento na cara!

Desculpas para não ir a qualquer lado

Se são as coisas a acontecer, e nós a enquadrar o que acontece, ou não acontece, com o pensamento. Se é o pensamento que acontece, e depois é objectivado, como se pode, ao fazer qualquer coisa, ou não fazer coisa alguma. Se não é nada disto, e é outra coisa. Eram o tipo de problemas que Álvaro ansiava ter, sobrepostos a qualquer outro problema, de manhã à noite. Dispensava os problemas dos outros, pois para estes havia, ou não havia, solução. Só aceitava ser incomodado pelos problemas cuja solução está como a cenoura presa no pau, preso à carroça do burro.

Mas, se era por culpa das suas acções ou dos seus pensamento, estava tão envolvido na vida, pelo menos para as aparências, como qualquer outra pessoa. E por isso tinha a atormentá-lo os mesmos problemas que qualquer outra pessoa experiência por estar com vida. O que o deixava mais incrédulo, era constatar que não encontrava em si, alguma tentativa que fosse de se desembaraçar da vida. Como se a sua vontade em deixar de pertencer à humanidade, não passasse de um entretém, um pensamento agradável para quando a dita humanidade incomoda.

Impedir a vida de incomodar, é tão desafiador como mexer objectos com o poder da mente. Por isso mesmo, uma manhã acordou, e tinha um jogo de paintball marcado para depois do almoço. Quem está de fora deslumbra imediatamente, com a clareza de quem acaba de ver Jesus Cristo, pelo menos uma de muitas formas de o Álvaro se salvar. Estou com uma dor de dentes, barriga, pernas, braço, nariz. Furou-se um cano em casa. O carro tem o pneu furado. Assuntos pessoais. Não quero ir, não me apetece. Álvaro pensou em todas estas soluções para o seu problema, e outras mais ainda. Sabia que, se aplicasse qualquer uma destas soluções, teria sucesso. Também sabia porque não ia inventar uma desculpa para faltar ao compromisso. E finalmente sabia que estaria pontualmente no sítio marcado, preparado para uma partida de paintball.

Se era o pensamento que o forçava a ir. Ou ia forçosamente, e os pensamentos que surgiam faziam parte do gesto de ir, gesto irremediável, consequência de uma função muito anterior ao ser. Ir ou não ir, eis a não questão.

O individuo encarregado de conduzir o grupo pela batalha de bolinhas recheadas de tinta colorida, representava uma caricatura de uma personagem de um filme de guerra. Vestia camuflado para que os outros o pudessem ver melhor. Principalmente que vissem como ele usava camuflado, e daí tirassem as devidas conclusões. Começou por falar num tom muito próximo da sua caricatura, mas com o desenrolar das palavras, começou, em alguns momentos, a abandonar a personagem. Mas como o pano não caiu, também ele não se deixou abalar pelos momentos de fraqueza, mantendo-se na cena até ao fim.

Álvaro prestou pouca atenção, não era caso para mais. O mais importante era repetido com um grito, a antecipar a relevância do ponto que se seguia ao berro. Seguiram para uma zona de treino. Praticar porque depois era a brincar a sério. Havia um alvo a uma distância significativa. Os homens e mulheres armados, tinham de acertar no alvo, para que fossem considerados aptos para a guerra. Acertaram todos. A concorrência do mercado livre ajudou à pontaria.

Passado o teste de aptidão, tinham à sua disposição uns tantos jogos. Todos rodavam à volta do mesmo objectivo. Os guerreiros estavam bastante entusiasmados, carregavam a espingarda com a elegância que se deve ter ao carregar uma arma. Álvaro por ser feito de carne e osso, também já sentia qualquer coisa. Avançava pelas ervas com a confiança de um soldado, e ao mesmo tempo a segurança de saber que aquilo era a brincar. A pistola, o colete, o capacete, o caminhar no mato, tudo aquilo enchia-o de um espírito de entrega ao destino que o reservava. Sentia-se com força e por isso não temia a incerteza das balas. Havia por ali, no campo de batalha, uma consciência colectiva, da qual fazia parte. Tinha mergulhado na humanidade daquele momento, de capacete posto, mas mesmo assim.

Por ele era só isto. Estava bom. Era o suficiente para se perceber o que é estar vivo por aquelas bandas. Mas os outros tinham pago caro o bilhete, e queriam a experiência toda, com tudo o que tinham direito. Para desfrutar da experiência, das duas uma: Ou dizia que tinha de ir urinar. Depois ficava a passear pela natureza, quem sabe acompanhado por alguém que também não gostasse de brincar às guerras, a ver de longe as palhaçadas dos outros. Ou então tinha de acreditar que aquilo era a sério. E para acreditar que aquilo era a sério, tinha de se esquecer de que era, até certo ponto, livre de ir fazer outra coisa qualquer. Álvaro escolheu uma terceira via, a de participar sem nunca se esquecer de que aquilo era um jogo. Acreditou ser capaz, mas a convicção só durou até levar o primeiro tiro, que ao rebentar-lhe na coxa, gritou-lhe ao ouvido: “olha que isto afinal é a sério!”.

Estava com um pé dentro e outro fora. Não era o único. Havia esta diferença fundamental que partia o grupo em dois. Os que estavam completamente submersos no jogo, e os que, talvez devido às propriedades da matéria, ficavam a boiar. Metade do corpo submerso, e a outra metade fora de água à deriva.

Sem o atrito da água, as balas de tinta embatem na pele com mais velocidade. A dor que sentia, presumia ser a mesma que infligiria nos outros, se disparasse contra os seus corpos. Por isso não disparou muito. Os poucos disparos que fez, foram com o cuidado de falhar. Não sabia porém, que os que o agrediam, estavam mergulhados no jogo, e por isso quase não sentiam as balas. Os que agrediam por sua vez, não sabiam que Álvaro estava a flutuar, e por isso estava vulnerável às balas livres para percorrer o espaço sem o atrito da água. A tendência para espreitar o que existe fora da água paga-se caro.

Antes do final, Álvaro encontrou uma árvore, e sem que ninguém desse por isso, descarregou uma boa parte das suas munições na coitada. Mesmo assim foi quem entregou a arma com mais balas por gastar. Porque os outros gastaram-nas todas. Não sobrou uma.

– Então não conseguiste gastar as balas todas? Olha que eles não devolvem o dinheiro.

Já fora da arena, o sol acendia os tons de vermelho do céu. Os pássaros emitiam sons do bico, sem razão aparente para tal coisa. Surpreendentemente soava a pássaros a cantar, sem que eles tivessem combinado. Os humanos trocavam palavras numa tentativa de fazer prolongar a experiência. Evitar que caísse no esquecimento. Mas era já uma guerra perdida.

O homem do camuflado avisou que havia cerveja à venda. E assim começou outra coisa, que viria a sobrepor-se à anterior, ocupando eventualmente o seu lugar, e servindo de base de aterragem para a seguinte.

Uma conspiração, vista de longe, por um urso – III

O julgamento tinha hora marcada, porque de outra maneira, muito provavelmente não haveria julgamentos em parte alguma. Só depois do relógio é que se começou a julgar. Depois da revolução industrial, quando começaram a produzir relógios que sobram para tudo o que era pulso neste mundo, ai é que se começa a julgar como deve ser. Mas a melhor fase só chega mesmo com os despertadores e os telemóveis. Hoje estamos no auge da actividade. Já se julga até sem dar por isso. Acontece com a naturalidade dos ponteiros a circular do número um até ao número doze, em voltas incessantemente constante, até a pilha do relógio acabar.

Quem melhor sabe a que horas anda, está evidentemente em melhores condições de julgar quem por exemplo, anda a perguntar as horas, ou os dias da semana, a toda a hora. Saber as horas é relativamente fácil, e alguém minimamente precavido, consegue facilmente acertar. Surgiu então a necessidade de arranjar um método mais eficaz de aferir quem pode julgar quem, e quem tem de ser julgado por quem. Para isso fizeram-se relógios de pulso com preços que podem ir até aos milhões de euros. Não é um método muito imaginativo, mas é eficaz. E o que quer é eficácia! Para se chegar a qualquer lado, de preferência a horas.

Dedalus acordou em cima da hora, em vez de em cima do colchão. Assim que despertou, a primeira coisa que lhe assaltou a mente liberta do sonho, foram logo as horas. Que horas são? Nunca se pode ter a certeza até enfrentar o relógio com coragem. Quando se deixa o sonho, pode ser qualquer hora, o sonho demora o tempo que tem a demorar. Se podemos fazer uma critica ao sonho, é da sua falta de pontualidade, do seu incumprimento perante os compromissos agendados. O sonho é realmente muito irresponsável.

Alcançou o telemóvel e confirmou o pressentimento de que estava atrasado. Culpou-se a si mesmo, quem mais. Saiu de casa sem tomar o pequeno almoço, não para se castigar, mas porque estava atrasado para aquela dia. Custava-lhe, mas era urgente empenhar todos os esforços até que o tempo perdido fosse recuperado. Quando se está atrasado, deve-se fazer tudo o que se ia fazer, mas mais rápido. Produtividade! É a palavra de ordem. Os músicos se percebessem isto, conseguiam encaixar muito mais reportório numa hora de concerto.

Por este andar nunca mais chego ao julgamento. Pensou.

Despachou-se de tal maneira, que quando chegou ao tribunal, ainda a porta estava fechada. Sentiu-se orgulhoso por ter provado, mais uma vez a si mesmo, que por mais atrasado que um dia julgue estar, tem a capacidade de remediar a situação. Perto do tribunal havia um café, estrategicamente localizado para satisfazer o apetite dos que acabavam de julgar, e dos que tinham tido um julgamento favorável. A quem tinha caído mal o julgamento, também a comida ia cair mal, e por isso nem lá apareciam. Dedalus estava faminto, andar em contra relógio de jejum, desgasta o estômago, é preciso compensá-lo pelo esforço. Sentou-se e pediu de braço no ar uma tosta mista e um galão. Um clássico dos pequenos almoços.

A tosta demorava. Esteve quase para apressar o empregado, mas conteve-se, pois tinha sido avisado que a tostadeira estava fria, e por isso ia demorar. Quando chegou vinha queimada nos seus limites. Não conseguiu engolir aquilo. Já ia ter de engolir uma tosta queimada, para não se atrasar, não ia engolir mais nada. Manifestou-se com humor, mas para agravar a seriedade da situação.

– Agradecido. Traga-me também a manteiga para barrar aqui na torrada por favor.

– Quer mais manteiga na tosta?

– Uma tosta é que me apetecia agora.

– Quer outra tosta?

– Oh amigo. Estou a brincar consigo.

– Ah! Pois está.

E riram-se os dois. Um sem saber do que se estava a rir, e o outro para abreviar a interacção que se desviava para caminhos mais demorados. É atalhos que se quer. Só se dá uma volta maior se for para evitar o transito.

O tosta soube-lhe a queimado, mas engoliu tudo com a ajuda do café com leite. Pagou e foi fazer a digestão já dentro do tribunal. Sentou-se no lugar que lhe era devido, pronto para desempenhar a sua função. Entraram os quatro arguidos. Não sabiam ainda como tinham ido ali parar. Não sabiam que tinha sido Dedalus o responsável pelas suas detenções, e não iam ficar a saber coisa alguma. Talvez no fim ficassem a conhecer as suas penas. Às vezes era tudo tão rápido, que nem isso dava para apanhar. Não raras vezes acontecia o arguido só ficar a conhecer a sua pena depois de a cumprir. O que de certa forma é bastante mais confortável. A inocência faz-nos pagar mais caro, mas também é a melhor forma de pagamento.

Por último entrou a juíza. Dedalus nunca se cansava de olhar com atenção as caras dos juízes, e tentar perceber se existia algum traço facial, comum em todos os juízes, e ausente nos que não chegam tão longe na carreira, que explicasse como se distribuem as pessoas pelos lugares que ocupam. Para além do semblante de juiz, não distinguia mais grande coisa.

A juíza começou logo por bater com o martelo três vezes na base para esmagar a casca das sapateiras. E que golpes! Se tivesse calhado estar ali alguma, estava já pronta para se levar à boca. Gritou ordem duas vezes, e declarou: “levante-se o réu!”. De seguida, com uma voz diferente, mais brincalhona, escondendo os lábios com uma mão, criando uma espécie de ventriloquismo, disse: “Levanta-te tu meu filho da puta!” E riu-se muito, dando assim autorização para, quem na sala sentisse vontade, rir-se também. Dedalus aproveitou para soltar um peido, era a tosta queimada a fazer das suas.

– Bom. Isto foi para desanuviar aqui o ambiente que estava um bocado pesado. Sabem de que filme isto é? Não interessa. Vamos a isto. Vou ser rápida, para despachar. Não há muito a dizer. Vou até ler daqui. Ora de acordo com o nanana nanana do decreto tal das horas da Maria Cachucha, os arguidos Carlos, Rui, Joaquim e João, são os senhores, foram bla bla bla actividades desrespeitosas… ai ai os meninos. O agente Manrruso… Manduso… Danduso… Deduso… não acerto no nome. Ok… sim… isso mesmo… aqui está! Chegámos. Vou agora ler esta parte que isto é que importa.

E leu quase de uma assentada:

“Decreto número 1295 da torre de administração Pribrezhny ordena a detenção ao senhor Carlos do terreno com 0.66 hectares cadastro número 28:136:254:2001 juntamente com o prédio de residência a garagem de arrecadação, a garagem de reparação de automóveis e a estufa. O senhor Carlos realizou uma petição junto do distrito judicial de Zagorye no sentido de anular este decreto o tribunal ordenou a anulação da petição. Senhor Carlos fez nova petição desta vez junto da torre da justiça de Pribrezhny insistindo que o decreto fosse anulado. A administração da torre rejeitou a proposta. Senhor Carlos alega que o decreto inicial viola procedimentos legais e por isso disputa que a perda do terreno seja ilegal… disputa… alegando que a administração não cumpriu com os prazos de notificação exigidos por lei. Também alega que a administração violou direitos civis. O tribunal decreta pelo decreto número 1295 da torre de justiça Pribrezhny a parcela do terreno em questão seja retirada ao proprietário para a construção de uma torre de comunicações central… Torre de comunicações central. Parece-me bem. Estamos a precisar disto. “

Voltou a bater com martelo. Se a sapateira tivesse sobrevivido ao primeiro ataque agora tinha ido de vez. E terminou-se a sessão. Dito assim, sem paragens, sem virgulas, tudo de uma assentada, engolido sem se mastigar, para não sentir o sabor. Desta maneira engole-se tudo como se da verdade se tratasse. Até uma tosta queimada se engole. O importante é não dar tempo para digerir a informação. Porque depois da digestão é que se sente o cheiro a merda.

E assim termina esta trilogia, com referências ao cinema e à literatura para o leitor mais atento. Parece-me ter ficado bem de altura. Uma altura que combina bem com a largura e o comprimento das outras.

Inesperada forma de abrir garrafas

Queria ser o primeiro a chegar porque era o lugar com maior hipótese de acertar. Ser o segundo, ou o terceiro, é uma questão de sorte. Ser o primeiro é quase certo, basta aparecer antes da hora marcada. Assim podia chegar onde era esperado, e saber o que ia encontrar. Isto aliviava-lhe a ansiedade destas reuniões ocasionais. Ainda faltavam duas horas e já estava pronto, começou a imaginar os passos seguintes “se sair de casa agora, caminhar sem pressa, como quem não está atrasado. Sim parece-me uma melhor ideia do que me sentar no sofá à espera que passem mais uns minutos.” Saiu e virou à direita, apesar de o caminho mais directo ser para a esquerda. Sentiu-se orgulhoso por não ter perdido tempo a pôr em prática o seu plano de se demorar. Este sucesso inicial foi só isto mesmo. Porque assim que virou à direita, o seu caminhar revelou-se muito mais acelerado do que precisava de ser. Desapontado tentou manter a calma, pelo menos da cintura para cima, já que as pernas estavam irremediavelmente convencidas de que estavam atrasadas. “Se elas não se acalmarem” pensou “não é grave. Escolho um caminho maior. Ou na pior das hipóteses, encontro algum já decorado, e repito-o as vezes que forem necessárias. Elas hão-de se cansar, eventualmente.” E seguro disto foi andando. Por vezes tentava impor às pernas um outro ritmo. Mas das duas ou três vezes que tentou, quase que ia caindo, pela força do pensamento sobre as pernas. Para evitar a humilhação de cair em público, deixou que as pernas levassem a melhor.

A pernas não podiam ver, porque as pernas, naturalmente, não vêm coisa alguma, mas o resto do corpo tinha chegado ao destino. Ainda faltavam quarenta e cinco minutos para ser aceitável bater à porta. Mais coisa menos coisa. Atravessou a rua e começou a caminhar na direcção inversa. Dava até tempo para fazer o caminho todo novamente, não fossem as pernas agora caminhar ao ritmo pensado para o trajecto que acabavam de concluir. Como é que estas coisas aconteciam, estava muito para além da sua capacidade de perceber estes fenómenos. Era cansativo andar tanto, e nem poder confiar nas pernas. Agora, enquanto se afastava de onde julgava ir acabar, o seu corpo deslizava pela rua ao ritmo de uma tartaruga preguiçosa. Àquela velocidade conseguia preocupar-se com outra coisa que não ele próprio. Mesmo assim não podia evitar que as outras coisas o fizessem lembrar de si mesmo. Quem sabe parado conseguisse?

Não tinha tempo para isto agora. Olhou para o relógio, e para evitar inverter a marcha, rodando 180º sobre o eixo do seu corpo, atravessou novamente a rua, e prosseguiu no outro passeio para onde veio. Nunca mudava de direcção no mesmo passeio, não fosse alguém pensar que estava perdido.

Pressionou a campainha, foi o primeiro a chegar, tal como previra. O que não estava abrangido pela sua capacidade de adivinhação, era tudo resto. A anfitriã, surpreendida por o ver chegar tão cedo, mas nem por isso preocupada, deu-lhe para beber um chá de pimenta, hortelã e menta, com mel. Um chá de pimenta, hortelã e menta! Com mel! Por esta é que ele não esperava.

O jogo iniciou-se depois de todos terem chegado. Era a última etapa, depois seguiam-se as devidas despedidas, e cada um seguia para a sua vida, desfazendo-se esta embrulhada de vidas que coincidiam no mesmo tempo, na mesma sala, na mesma mesa. Teve de esperar pacientemente enquanto o tabuleiro era montado, e as regras explicadas a alguns dos elementos que ainda não as sabiam. Ele já conhecia as regras, mas recusava segui-las. Pelo menos da mesma maneira que os outros. Precisava de jogar de maneira diferente, testar as possibilidades do jogo, descobrir que este era mais do que o que estava escrito no livro de regras. Por isso os outros achavam imensa piada à imprevisibilidade das suas jogadas. Raramente ganhava o jogo, porque o jogo tinha sido pensado para ser jogado de uma, duas no máximo, maneiras de jogar. Aos que inventavam, estava-lhes reservada a inevitável derrota, no último lugar da classificação. Se todos inventassem, não se sabe ao certo o que podia acontecer. Tal nunca acontece, porque há sempre quem leve o jogo muito a sério. Para ele não interessava ganhar, estava habituado a perder. O que interessava era poder ser livre para fazer as jogadas que bem entendesse enquanto o jogo não acabava.

Já o jogo ia a meio, e tudo indicava que mais uma vez, ele ia acabar com menos moedas que os outros. Alguém perguntou se não havia por acaso uma cervejinha fresquinha algures por ali. Como tinha terminado o seu turno, ofereceu-se para ir buscar ao ali, que só podia ser o frigorífico. Agarrou na cerveja, estava fresca, procurou nas gavetas pelo abre caricas, mas nada de o encontrar. Procurou mais um bocado, na esperança de não ter de perguntar, mas desistiu.

– Está aqui a cerveja mas não sei onde está o abre caricas.

– Não há. É com a Gillette da casa de banho.

Riram-se porque a resposta era absurda. Depois de algumas tentativas de explicar a relação entre uma Gillette e uma garrafa de cerveja fechada, a anfitriã lá conseguiu convencer os que não sabiam já, que a Gillette servia mesmo, à falta de melhor solução, para abrir as garrafas. Convencido, entrou na casa de banho, seguindo as indicações para encontrar a Gillette certa para o estranho propósito que lhe cabia. Abriu a terceira gaveta, como lhe fora indicado, e lá estava ela.

Encontrou um objecto desfigurado. O cabo estava torto, devido ao esforço de fazer algo para o qual não servia. As lâminas eram agora quatro linhas de ferrugem encarnada. E o plástico do local que contactava inocentemente com o alumínio pontiagudo da carica, estava ruído como a pele de um marinheiro no final de sua vida.

Ele agarrou naquele infeliz objecto, e quando ia para abrir a garrafa, não foi capaz de sequer tentar. Voltou para junto deles. Com um sorriso fingido na cara disse:

– Está aqui. Mas não fui capaz.

– Como assim não foste capaz? Dá cá isso.

À primeira a anfitriã abriu a garrafa. Ouviu-se, apesar de tudo, um som diferente, que foi abafado pelo riso de todos ao ver como se abre uma garrafa com o que era para ter sido uma Gillette. O improvisado abre caricas passava de mão em mão, todos queriam ver a aberração, e todos viam e manifestavam pelo riso o lado cómico de tudo aquilo.

Ele não era parvo, percebia a piada que mais ninguém via. Ele era aquele coitado abre caricas, feito a partir um uma lâmina de barbear, que se calhar nunca teve a sorte de barbear sequer um pêlo.

Para não estragar tudo no final do convívio, riu-se com os outros. Somaram-se os pontos, descobriram-se os vencedores, ele inesperadamente não ficou em último, ficou outro que tal como ele não parecia incomodado. Quem estava mais desgostoso foi o segundo lugar, que não ganhou o jogo por uns míseros dois pontos. Azar de uns, sorte para outros, e alguém tem sempre de perder, porque alguém tem sempre de ganhar.

Quando chegou a casa estava cansado. Como não podia deixar de ser. Andamos todos cansados. Para descontrair abriu uma cerveja, na mesa da sala. E apesar de não ser parvo, não deu pela ironia.

Ladrar a canção

Um velho na televisão bem vestido que fala sobre as coisas que viu.

Tenho inveja, não conto a ninguém, por contradizer a vida.

Não se contradiz a vida de ânimo leve.

Encontro-me com alguém que me pergunta quem sou.

Respondo-lhe sem hesitações, como se fosse coisa minha,

como se ele não soubesse

Sou igual a todos, estamos todos na mesma relação.

É o segredo que escondemos uns dos outros, para acreditar, até ao fim, que a vida tem uma relação connosco, que não tem com mais ninguém.

A vida chateia-se, porque para ela os Homens são todos iguais.

Estranha relação.

Os cães amam a vida, e por isso ela não se chateia tanto.

Amam a vida de tal maneira que só lhes sobra amizade.

Os cães não morrem. Não percebo porquê.

Se me lembrasse porque os cães não morrem, também eu seria, até certo ponto, imortal.

Não se tem medo quando se descobre que se é imortal.

Mas não basta sermos notificados.

Só tenho medo de mim mesmo. Não tenho medo de mais nada.

Do que está fora, não tenho palavra a dar. Cá dentro é outra conversa.

Os cães não dançam porque não sabem ouvir a linguagem musical.

Eu danço para esquecer-me dela.

A música com letra é uma piada de mau gosto.

Como a poesia com palavras.

Uma conspiração, vista de longe, por um urso – II

O agente Mancuso acordou cansado como era de costume. Antes de sair da cama escreveu num papel, agora com letras maiúsculas, que tinha de trocar a cama de lugar. Estava cansado de acordar sempre no mesmo sítio, ao lado da mesma pessoa. Quanto à pessoa seria preciso um desastre acontecer para que agora, ao fim de tantos anos de casamento, as coisas mudassem de lugar. Porém, mudar a cama de lugar, fazer umas mudanças, era até algo que entusiasmava a esposa. Pequenas alterações fazem toda a diferença.

Escreveu com maiúsculas num papel não para se lembrar, mas para registar a importância da ideia. Era um homem simples, consciente de um mundo finalizado, assim que deixou os estudos, e transitou para a vida adulta. Quando este mundo, fechado e acabado, que era o seu, começava a ruir, Mancuso mudava as coisas de lugar. Se pinga do tecto, por cima do sofá, desvia-se o sofá, porque a obra está finalizada.

Se Mancuso fosse músico, em vez de um lembrete escrito à mão, compunha uma peça, que capturasse o ruído que sentia ao acordar.

Arrastou-se até à sala, abriu o computador e começou a escrever o relatório. Começou assim:

“No dia 21 de Junho de 2020, um grupo de quatro indivíduos, já devidamente identificados com os seguintes nomes e apelidos: João Alves, Rui da Costa, Joaquim Silva e Carlos Sousa. Infringiram a lei número 75 do código de Estado. São acusados dos seguintes crimes. 1)”

Levantou-se da mesa porque o ruído do estômago em jejum começava a ser difícil de ignorar. O estômago é um órgão autêntico. Há outros, como o fígado, que passa uma vida inteira sem dar sinal, e de um dia para o outro, arruína o seu portador. Os olhos, que estão longe como o diabo, costumam dar o primeiro aviso. Um alerta quase sempre tardio, divido à distancia entre os dois. Mas o estômago comunica honestamente, sem preconceitos ou complexos, directamente, sem papas na língua, o que se está a passar por dentro.

Mancuso abriu o frigorífico, que para condizer com o resto da casa, fazia também ele um ruído terrível, devido a um problema na ventoinha. Não havia dinheiro para reparações. Tal como Mancuso transmitira à esposa “quando avariar compra-se um novo.” Colocou em cima da mesa uma cuvete com fígado, e a manteiga.

Vamos passar à frente dos preparativos da refeição, porque Mancuso tem até um gato. Quem percebeu de qual romance é este Mancuso, e teve ao mesmo tempo a pachorra de ler o romance onde entre Stephen Dedalus, pode descobrir uma relação entre um e outro, e substituir um pelo outro. Na sua mente claro. Ou misturá-los numa só personagem. Isto já vai lançado para todas as direcções, não quero contribuir mais para a desordem.

Ora, depois de calar o estômago, o seu e o do gato, que ao vê-lo na cozinha tirou instintivamente partido da situação. Stephen Dedalus avançou destemido para o computador, disposto a terminar o relatório, para depois ir, livre das amarras das obrigações laborais, passear junto ao mar. Recomeçou de onde acreditava ter ficado:

“2) Aquisição de uma quantidade absurda de bens de primeira necessidade como carne, pão, cerveja, entre outros. 3) Ingestão de uma quantidade insultuosa de comida e de bebida. 4) Conversas de teor inapropriado, por vezes até pornográfico, onde se objectivava o sexo feminino. 5) Troca de insultos ofensivos para a boa moral da nação, durante um jogo ilegal. 6) Demonstrações injustificadas de arrogância, aquando a vitória nesse mesmo jogo. 7) As garrafas de cerveja vazias ficaram por despejar no vasilhame, num acto de inequívoca preguiça.”

Guardou, releu para corrigir algum erro gramatical, exportou para pdf e enviou a quem de direito. Estava concluído o seu trabalho, por agora. Teria ainda de estar presente em tribunal, no dia do julgamento estatal. Estava satisfeito por, pelo menos, ter cumprido o seu dever. O sentimento de dever cumprido acaricia-nos o espírito independentemente do dever que se cumpriu.

Sentiu sua mulher a despertar, no quarto. Sem perder tempo enfiou os sapatos nos pés, agarrou na carteira e no telemóvel, num gesto já compulsivo, e saiu de casa. O ruído da sua saída foi abafado pelo do frigorífico, pelo menos isso.

Caminhou até à praia onde viu uns adolescentes, evidentemente embriagados, no mar não vigiado por um nadador salvador, a jogar à bola. Pensou “Hoje não. Hoje estou de folga. Hoje é um dia para mim.” Ignorou-os e continuou pelo passeio.

Mais à frente tirou os sapatos, deixou-os na calçada, confiante, apesar de tudo, nos bons valores morais dos seus concidadãos, e caminhou pela areia até às rochas junto ao mar.

Um, o tacto, sentia mais nos pés, livres como as mãos, destinadas pela força evolutiva a gestos mais delicados. Sentia o resultado da teimosia das ondas, da sua implacabilidade, desferindo líquidos golpes salgados, nas rochas até lhes destituir da forma. Água mole em pedra dura. E agora enfiavam-se nos furos, entre os dedos dos pés, colando-se à pele, aproveitando uma boleia prevista pelo vento.

Dois, o olfacto, cheirava os odores da praia que o levavam para a banheira num passado longínquo. Quando uma coisa implicava eventualmente a outra. Os cheiros, por serem invisíveis, chegam mais rapidamente ao pensamento, e o pensamento desvia-se do seu caminho para os perseguir. Um desvio também ele previsto, pela brisa.

Três, a visão, percepcionava agora todo aquele espectáculo, enquadrado pela luz já como imagem final. Os olhos, esforçam-se ao máximo para atingir a autenticidade do estômago, desprezando por agora as perturbações da figadeira, que não eram urgentes seguramente. O esforço prejudica a visão. Quando semicerramos, os olhos, focam a coisa isolada do resto. Não é preciso força para abrir os olhos, morre-se tanto de olhos fechados como abertos.

Quatro, o paladar, está ainda ocupado com o sabor do fígado, da manteiga e do café. Este pelo menos tem desculpa para estar distraído com outra coisa qualquer, e não a coisa que está ausente.

E por fim cinco, a audição, do ressoar do que está ausente. O barulho que atravessa o tempo que não existe, e surge invisível, trazendo agarrado a inexistência, igual ao silêncio.

Inventaram-se mais pecados que sentidos. Agora o autor não consegue inventar ele uma bela simetria. Sendo assim termino.

Não perca o próximo episódio porque este já excedeu o seu comprimento.

Estar no mar, não poder estar perdido, uma ideia como qualquer outra

As transições de um estado para outro são os momentos mais interessantes de testemunhar. Só quem está de fora, ou quem já os ter experimentou mais que uma vez, consegue abstrair-se, de alguma maneira, e assistir devidamente ao espectáculo. Uma vez éramos cinco, estávamos embriagados, por sermos jovens e nos terem sido concedidas algumas horas de liberdade da autoridade paternal. Não éramos experientes nos licores e afins, mas como não era também a nossa estreia, a transição do sóbrio para o ébrio fez-se sem grandes surpresas e hesitações.

Decidimos ir até ao mar. Levámos uma bola porque a intenção original, ou pelo menos a mais anterior que podíamos alcançar, era a de ir jogar. O que nos levou a entrar no mar foi, ironicamente, a bola. Foi lá parar antes de nós, saída de um pé menos afinado, ou com uma inclinação secreta para descobrimento oceânicos.

Esta transição, por mais experiente que se seja, é sempre dura. Afinal é, e foi, uma enorme transição. Instalou-se uma pequena discussão. Não fosse o álcool a correr-nos nas veias, e a maré a empurrar devagarinho a bola para a linha do horizonte, teria durado mais tempo. Reunidas estas condições, o primeiro mergulhador ofereceu o corpo, ainda a bola estava apenas a umas dez braçadas de distância.

Não fui o primeiro, o pioneiro, mas também não esperei para ser o último. Na verdade nunca dei importância a classificações. Nem sei de onde vem esta necessidade absurda de ordenar as coisas, quando a ordem das coisas está bem resolvida. Só mergulhei de cabeça depois de sentir os colhões encharcados. Foi assim a minha transição. Não sei como foi a experiência para os outros, nunca falámos sobre isto.

Uma vez lá dentro… e agora aqui é que está a poesia.

Toda enfiada neste momento, que passou por nós como passam as horas dos dias quando deixamos de pensar no relógio.

Nem todos fazíamos o mesmo, apesar de haver uma força que nos empurrasse para isso. Essa força não era a maré, nem o vento, que não têm nada haver com os desejos de adolescentes bebemos. Começamos por brincar como crianças. A bola desenhava círculos perfeitos ao passar de uns para os outros. De vez em quando alguém, por se aborrecer com a previsibilidade da trajectória, inventava um passe para outro que não fosse o esperado. Mas a bola, por mais voltas que desse, voltava a estabelecer o seu movimento perfeitamente circular. Quando ficava sem bola, preocupava-me inutilmente. Acreditava na hipótese de não voltar a ter a bola, de ser esquecido, de ficar isolado num mar desconhecido. A aleatoriedade do trajecto da bola alarmava-me, mas a previsibilidade era ainda pior. Tudo preocupações estéreis, porque a bola volta sempre. Os outros deviam sentir como eu sentia. Digo isto porque ouvia-os gritar: “Passa a bola caralho!” Depois de experimentem uma privação prolongada, e julgarem não aguentar mais tamanhas provações.

O repetição foi acumulando cansaço, e aos poucos fomos ficando sérios. Eu fui uma das vítimas, mas não fui o primeiro a manifestar-me. Fingi durante algum tempo, não era seguramente o único. Finalmente um de nós, acho que foi o que entrou primeiro no mar, faz sentido que tivesse sido, desistiu do jogo, e simplesmente afastou-se. Cada um faz o que quer com o seu tempo, não são exigidas justificações (porém são bem-vindas explicações). Pensar nas possibilidades pode parecer sufocante, mas é melhor do que ficar a brincar aos círculos com a bola, até a pele ficar enrugada.

Qualquer ideia é válida. Devido à natureza da matéria, umas têm melhor aplicabilidade que outras. Mas todas são válidas.

Um encheu o peito de ar, e pôs-se a boiar na água de barriga para cima, a olhar o céu, sem esforço, deixando-se levar pela corrente. Para outros aquilo não servia. Ou porque não conseguiam flutuar, e tinham vergonha de pedir que os ensinassem, ou porque simplesmente precisavam de se mexer, fazer coisas. Uns então nadavam, do ponto A para o ponto B, faziam corridas para dar sentido às suas deslocações. Havia quem nadasse contra a corrente, e depois ficasse tão cansado, que pensasse não ser capaz de continuar. É assim que alguns se afogam. Ali, por estarmos em grupo, ninguém corria este risco. Outro mergulhava no mar e desaparecia. Eu ficava ansioso quando alguém desaparecia debaixo de água por tempo indeterminado. Não podia evitar pensar nos piores cenários. Depois sentia um alívio por o ver emergir, de olhos fechados, respiração ofegante, num sítio diferente e surpreendente. Quando alguém regressa do fundo do mar, nem parece ser mais ele, mas sim outro qualquer. Ao agarrar a respiração de novo, parece querer dizer qualquer coisa importante, qualquer descoberta feita no fundo, lá por baixo. Não chega a dizer, parece que se arrepende e escolhe ficar calado, em silêncio. Se calhar falou debaixo de agua, mas não se ouviu.

Dançámos, cantámos, insultámo-nos, por amor, amámo-nos, beijámo-nos, abraçamo-nos, rolámos na areia, levámos com a rebentação das ondas em cima, as voltas que demos.

Fomos todos parar à toalha. Alguém perguntou: “E a bola? Onde está a bola?” Estava ao nosso lado, foi lá parar sem que tivesse havido qualquer esforço da nossa parte. “Sorte”, disse alguém. Outro disse que se tratava de uma coincidência. Eu, talvez por ter conservado a minha bebedeira de álcool no mar salgado, senti que era algo mais. Uma outra coisa para além da coisa em si, qualquer coisa que devia perceber, resolver, como na canção.

Conversa de bêbedo, eu sei. E um amigo meu disse “Podia morrer agora mesmo e morria feliz.” Lembro-me de o ouvir a dizer isto, e não ter ficado preocupado, porque afinal era só uma ideia, como qualquer outra ideia. Como flutuar, mergulhar ou nadar com a corrente. Mas lá está, nem todas as ideias, devido à natureza da matéria, têm uma boa aplicabilidade. Umas demonstram-se melhor que outras. Apesar disso recuso-me a rotular de má ou boa uma ideia. Não há nem pode existir tal coisa. Tão certo como naquele dia, termos acabado todos no sítio certo, à hora certa, independentemente das ideias e consequentes movimentos de cada um.

Esquecemo-nos foi da bola.