Desvie-se por favor que me está a tapar o vento

Chegados a este ponto restam-nos duas alternativas (sempre o números dois, o par, uma e a outra coisa) ou aceitamos que quem morre, é porque se morre. É algo que sempre aconteceu, não é invenção do Homem. Morte que normalmente é acompanhada de sofrimento físico. Não é nada de novo, nada que já não se tenha sentido, desde o útero. Mesmo assim compreendo a nossa dor.

Ou então, aceitamos que temos de nos portar bem, daqui em diante, por tempo indeterminado, todos, muito bem. Muito bem comportadinhos e a seguir as regras ambíguas, escritas por quem sabe melhor que nós, o que é melhor para cada um. Ambíguas porque a vida é complexa, são muitos anos de história colectiva, e o peso das suas significâncias. Quem não percebe isto não sabe o que é a vida! E pelo andar da carruagem, nunca irá saber. A eles, aos que ousam ridicularizar a vida dos outros ao escolher uma vida diferente, a estes espera-lhes uma morte lenta, e dolorosa. Cada inspiração se revela mais curta que a anterior, até só terem direito a minúsculas porções de ar.

Deviam saber, já têm idade para isso, que não se vive de outra maneira. É tudo muito bonito e um mar de possibilidades, até o pneu do carro furar. E quando se parte uma perna? Quando se tem de pagar a conta do super mercado? E as pneumonias, as guerras, a pobreza e a miséria. Olhem para a realidade como nós a vemos. Porque é a realidade tal como a pintámos. Não quisemos enganar ninguém. Isto que aqui está, é uma versão reduzida do que vimos. Estamos sozinhos no final das contas. A vida é caminhar de cruz às costas, e no fim esperar pela morte.

Mas e se… (é um suponhamos), nada contra viver à imagem de Cristo. É preciso acreditar em algo (será?).

Imaginemos então, que tenho um quintal com tomates. Mais nada. Conheço o tipo que me repara o pneu da bicicleta. Vivo sem precisar da promessa de um futuro radiante, porque não me fascino mais com histórias de encantar. Consegui finalmente aceitar que o Godot não está atrasado. O vazio de estar vivo, a sua ausência de propósito, eventualmente, deixa de me assustar. Vivo sem medo. Sem nada, e sem medo.

Viver assim exige que eu conheça verdadeiramente o outro, e crie uma relação com ele. Uma relação que só é possível quando percebo que, o que separa o outro do eu, é a subjectividade. E quando se vive sem nada, no silêncio, a subjectividade é uma coisa do presente, incapaz de sobreviver ao tempo. Condenada a uma queda aparatosa no esquecimento, no instante que se segue ao seu aparecimento.

Ora, não se sabe “do que as pessoas são capazes para iludirem a ausência de um sentido para a vida, para escaparem à miséria ou ao peso dos outros”, dizia Dinis Machado.

As bestas, vamos chamar-lhes bestas, mas sem ressentimento, porque se elas pudessem seriam certamente outra coisa qualquer. As bestas não sabem relacionar-se com os outros sem se esquecerem de si mesmas. Têm medo de estar sozinhas, porque não suportam a falta que lhes faz uma história para tapar a frieza do céu, impossível de se abarcar completamente com um só olhar.

Não sabem. Têm esta fraqueza, que combatem com a sua maior arma, a sua força bestial. Disposta a matar se for caso para isso, e no dia seguinte convencer o mundo da história que desenharam e penduraram perante os seus olhos, para não verem mais nada. E enquanto tiverem forças, vão lutar contra os outros e contra o mundo, para que não lhes seja derrubado o mural.

O mural serve-lhes para reduzir o mundo a um tamanho confortável, interpretável, e inalterável. Dorme-se e quando se acorda, tudo está como se deixou ficar. Quando aquilo parece estar a ruir, o autor faz os devidos retoques.

Chegados a esta altura, o autor pode ser qualquer um. Está uma multidão a olhar para o mesmo mural. Já se esqueceram que estão a olhar para um desenho. Apertam-se uns contra os outros de tal maneira, que julgam estar unidos. Mas o movimento concêntrico é uma fuga para o centro seguro onde não se corre o risco de olhar os limites do ecrã.

Deitar abaixo o mural, o ecrã, o quadro ou o que se quiser chamar, é, chegados a esta altura, um atentado contra a humanidade. Mas desviar o olhar, mudar de sítio para espreitar o que está por detrás, é uma hipótese. Talvez esteja outro mural. Uma coisa abstracta, sem referências artísticas que nos conduzam a uma explicação catártica. Mesmo assim, vale a pena vadiar pela exposição, nem que seja para espairecer as ideias.

A besta original já cá não anda. Mas escreveu por todo o lado a sua verdade. O que está escrito hoje no mural, é a verdade das bestas que se seguiram, partindo do mito da besta original. Se calhar chamamos vândalos em vez de bestas. Ou artistas, pintores, escritores. É o que se quiser chamar.

No mural temos, disponíveis para consulta, num calendário, os nossos ritmos. Amanhã vou jantar fora, tenho de estar bem disposto. No fim de semana não trabalho, tenho de relaxar. E feliz, mesmo feliz, vai ser entre 19 e 31 de Agosto, já marquei as férias. Parece normal porque é o que vemos quando olhamos o lugar onde costumava estar o céu.

Por mim pode ficar assim. e está muito bem. Eu não tenho sangue, já sangrei o suficiente, temo não ter que me reste. Por isso vou perguntar ao vizinho: “Olhe desculpe? Onde fica os Urinóis?” Depois saiu de fininho, rezando para ninguém dar por mim. Rezar para não dar nas vistas enquanto não se abandona o templo. Assim que me vir livre é zarpar para a rua, onde se pode apanhar algum ar fresco. A brisa! Apanhar com o vento na cara!

Desculpas para não ir a qualquer lado

Se são as coisas a acontecer, e nós a enquadrar o que acontece, ou não acontece, com o pensamento. Se é o pensamento que acontece, e depois é objectivado, como se pode, ao fazer qualquer coisa, ou não fazer coisa alguma. Se não é nada disto, e é outra coisa. Eram o tipo de problemas que Álvaro ansiava ter, sobrepostos a qualquer outro problema, de manhã à noite. Dispensava os problemas dos outros, pois para estes havia, ou não havia, solução. Só aceitava ser incomodado pelos problemas cuja solução está como a cenoura presa no pau, preso à carroça do burro.

Mas, se era por culpa das suas acções ou dos seus pensamento, estava tão envolvido na vida, pelo menos para as aparências, como qualquer outra pessoa. E por isso tinha a atormentá-lo os mesmos problemas que qualquer outra pessoa experiência por estar com vida. O que o deixava mais incrédulo, era constatar que não encontrava em si, alguma tentativa que fosse de se desembaraçar da vida. Como se a sua vontade em deixar de pertencer à humanidade, não passasse de um entretém, um pensamento agradável para quando a dita humanidade incomoda.

Impedir a vida de incomodar, é tão desafiador como mexer objectos com o poder da mente. Por isso mesmo, uma manhã acordou, e tinha um jogo de paintball marcado para depois do almoço. Quem está de fora deslumbra imediatamente, com a clareza de quem acaba de ver Jesus Cristo, pelo menos uma de muitas formas de o Álvaro se salvar. Estou com uma dor de dentes, barriga, pernas, braço, nariz. Furou-se um cano em casa. O carro tem o pneu furado. Assuntos pessoais. Não quero ir, não me apetece. Álvaro pensou em todas estas soluções para o seu problema, e outras mais ainda. Sabia que, se aplicasse qualquer uma destas soluções, teria sucesso. Também sabia porque não ia inventar uma desculpa para faltar ao compromisso. E finalmente sabia que estaria pontualmente no sítio marcado, preparado para uma partida de paintball.

Se era o pensamento que o forçava a ir. Ou ia forçosamente, e os pensamentos que surgiam faziam parte do gesto de ir, gesto irremediável, consequência de uma função muito anterior ao ser. Ir ou não ir, eis a não questão.

O individuo encarregado de conduzir o grupo pela batalha de bolinhas recheadas de tinta colorida, representava uma caricatura de uma personagem de um filme de guerra. Vestia camuflado para que os outros o pudessem ver melhor. Principalmente que vissem como ele usava camuflado, e daí tirassem as devidas conclusões. Começou por falar num tom muito próximo da sua caricatura, mas com o desenrolar das palavras, começou, em alguns momentos, a abandonar a personagem. Mas como o pano não caiu, também ele não se deixou abalar pelos momentos de fraqueza, mantendo-se na cena até ao fim.

Álvaro prestou pouca atenção, não era caso para mais. O mais importante era repetido com um grito, a antecipar a relevância do ponto que se seguia ao berro. Seguiram para uma zona de treino. Praticar porque depois era a brincar a sério. Havia um alvo a uma distância significativa. Os homens e mulheres armados, tinham de acertar no alvo, para que fossem considerados aptos para a guerra. Acertaram todos. A concorrência do mercado livre ajudou à pontaria.

Passado o teste de aptidão, tinham à sua disposição uns tantos jogos. Todos rodavam à volta do mesmo objectivo. Os guerreiros estavam bastante entusiasmados, carregavam a espingarda com a elegância que se deve ter ao carregar uma arma. Álvaro por ser feito de carne e osso, também já sentia qualquer coisa. Avançava pelas ervas com a confiança de um soldado, e ao mesmo tempo a segurança de saber que aquilo era a brincar. A pistola, o colete, o capacete, o caminhar no mato, tudo aquilo enchia-o de um espírito de entrega ao destino que o reservava. Sentia-se com força e por isso não temia a incerteza das balas. Havia por ali, no campo de batalha, uma consciência colectiva, da qual fazia parte. Tinha mergulhado na humanidade daquele momento, de capacete posto, mas mesmo assim.

Por ele era só isto. Estava bom. Era o suficiente para se perceber o que é estar vivo por aquelas bandas. Mas os outros tinham pago caro o bilhete, e queriam a experiência toda, com tudo o que tinham direito. Para desfrutar da experiência, das duas uma: Ou dizia que tinha de ir urinar. Depois ficava a passear pela natureza, quem sabe acompanhado por alguém que também não gostasse de brincar às guerras, a ver de longe as palhaçadas dos outros. Ou então tinha de acreditar que aquilo era a sério. E para acreditar que aquilo era a sério, tinha de se esquecer de que era, até certo ponto, livre de ir fazer outra coisa qualquer. Álvaro escolheu uma terceira via, a de participar sem nunca se esquecer de que aquilo era um jogo. Acreditou ser capaz, mas a convicção só durou até levar o primeiro tiro, que ao rebentar-lhe na coxa, gritou-lhe ao ouvido: “olha que isto afinal é a sério!”.

Estava com um pé dentro e outro fora. Não era o único. Havia esta diferença fundamental que partia o grupo em dois. Os que estavam completamente submersos no jogo, e os que, talvez devido às propriedades da matéria, ficavam a boiar. Metade do corpo submerso, e a outra metade fora de água à deriva.

Sem o atrito da água, as balas de tinta embatem na pele com mais velocidade. A dor que sentia, presumia ser a mesma que infligiria nos outros, se disparasse contra os seus corpos. Por isso não disparou muito. Os poucos disparos que fez, foram com o cuidado de falhar. Não sabia porém, que os que o agrediam, estavam mergulhados no jogo, e por isso quase não sentiam as balas. Os que agrediam por sua vez, não sabiam que Álvaro estava a flutuar, e por isso estava vulnerável às balas livres para percorrer o espaço sem o atrito da água. A tendência para espreitar o que existe fora da água paga-se caro.

Antes do final, Álvaro encontrou uma árvore, e sem que ninguém desse por isso, descarregou uma boa parte das suas munições na coitada. Mesmo assim foi quem entregou a arma com mais balas por gastar. Porque os outros gastaram-nas todas. Não sobrou uma.

– Então não conseguiste gastar as balas todas? Olha que eles não devolvem o dinheiro.

Já fora da arena, o sol acendia os tons de vermelho do céu. Os pássaros emitiam sons do bico, sem razão aparente para tal coisa. Surpreendentemente soava a pássaros a cantar, sem que eles tivessem combinado. Os humanos trocavam palavras numa tentativa de fazer prolongar a experiência. Evitar que caísse no esquecimento. Mas era já uma guerra perdida.

O homem do camuflado avisou que havia cerveja à venda. E assim começou outra coisa, que viria a sobrepor-se à anterior, ocupando eventualmente o seu lugar, e servindo de base de aterragem para a seguinte.

Uma conspiração, vista de longe, por um urso – III

O julgamento tinha hora marcada, porque de outra maneira, muito provavelmente não haveria julgamentos em parte alguma. Só depois do relógio é que se começou a julgar. Depois da revolução industrial, quando começaram a produzir relógios que sobram para tudo o que era pulso neste mundo, ai é que se começa a julgar como deve ser. Mas a melhor fase só chega mesmo com os despertadores e os telemóveis. Hoje estamos no auge da actividade. Já se julga até sem dar por isso. Acontece com a naturalidade dos ponteiros a circular do número um até ao número doze, em voltas incessantemente constante, até a pilha do relógio acabar.

Quem melhor sabe a que horas anda, está evidentemente em melhores condições de julgar quem por exemplo, anda a perguntar as horas, ou os dias da semana, a toda a hora. Saber as horas é relativamente fácil, e alguém minimamente precavido, consegue facilmente acertar. Surgiu então a necessidade de arranjar um método mais eficaz de aferir quem pode julgar quem, e quem tem de ser julgado por quem. Para isso fizeram-se relógios de pulso com preços que podem ir até aos milhões de euros. Não é um método muito imaginativo, mas é eficaz. E o que quer é eficácia! Para se chegar a qualquer lado, de preferência a horas.

Dedalus acordou em cima da hora, em vez de em cima do colchão. Assim que despertou, a primeira coisa que lhe assaltou a mente liberta do sonho, foram logo as horas. Que horas são? Nunca se pode ter a certeza até enfrentar o relógio com coragem. Quando se deixa o sonho, pode ser qualquer hora, o sonho demora o tempo que tem a demorar. Se podemos fazer uma critica ao sonho, é da sua falta de pontualidade, do seu incumprimento perante os compromissos agendados. O sonho é realmente muito irresponsável.

Alcançou o telemóvel e confirmou o pressentimento de que estava atrasado. Culpou-se a si mesmo, quem mais. Saiu de casa sem tomar o pequeno almoço, não para se castigar, mas porque estava atrasado para aquela dia. Custava-lhe, mas era urgente empenhar todos os esforços até que o tempo perdido fosse recuperado. Quando se está atrasado, deve-se fazer tudo o que se ia fazer, mas mais rápido. Produtividade! É a palavra de ordem. Os músicos se percebessem isto, conseguiam encaixar muito mais reportório numa hora de concerto.

Por este andar nunca mais chego ao julgamento. Pensou.

Despachou-se de tal maneira, que quando chegou ao tribunal, ainda a porta estava fechada. Sentiu-se orgulhoso por ter provado, mais uma vez a si mesmo, que por mais atrasado que um dia julgue estar, tem a capacidade de remediar a situação. Perto do tribunal havia um café, estrategicamente localizado para satisfazer o apetite dos que acabavam de julgar, e dos que tinham tido um julgamento favorável. A quem tinha caído mal o julgamento, também a comida ia cair mal, e por isso nem lá apareciam. Dedalus estava faminto, andar em contra relógio de jejum, desgasta o estômago, é preciso compensá-lo pelo esforço. Sentou-se e pediu de braço no ar uma tosta mista e um galão. Um clássico dos pequenos almoços.

A tosta demorava. Esteve quase para apressar o empregado, mas conteve-se, pois tinha sido avisado que a tostadeira estava fria, e por isso ia demorar. Quando chegou vinha queimada nos seus limites. Não conseguiu engolir aquilo. Já ia ter de engolir uma tosta queimada, para não se atrasar, não ia engolir mais nada. Manifestou-se com humor, mas para agravar a seriedade da situação.

– Agradecido. Traga-me também a manteiga para barrar aqui na torrada por favor.

– Quer mais manteiga na tosta?

– Uma tosta é que me apetecia agora.

– Quer outra tosta?

– Oh amigo. Estou a brincar consigo.

– Ah! Pois está.

E riram-se os dois. Um sem saber do que se estava a rir, e o outro para abreviar a interacção que se desviava para caminhos mais demorados. É atalhos que se quer. Só se dá uma volta maior se for para evitar o transito.

O tosta soube-lhe a queimado, mas engoliu tudo com a ajuda do café com leite. Pagou e foi fazer a digestão já dentro do tribunal. Sentou-se no lugar que lhe era devido, pronto para desempenhar a sua função. Entraram os quatro arguidos. Não sabiam ainda como tinham ido ali parar. Não sabiam que tinha sido Dedalus o responsável pelas suas detenções, e não iam ficar a saber coisa alguma. Talvez no fim ficassem a conhecer as suas penas. Às vezes era tudo tão rápido, que nem isso dava para apanhar. Não raras vezes acontecia o arguido só ficar a conhecer a sua pena depois de a cumprir. O que de certa forma é bastante mais confortável. A inocência faz-nos pagar mais caro, mas também é a melhor forma de pagamento.

Por último entrou a juíza. Dedalus nunca se cansava de olhar com atenção as caras dos juízes, e tentar perceber se existia algum traço facial, comum em todos os juízes, e ausente nos que não chegam tão longe na carreira, que explicasse como se distribuem as pessoas pelos lugares que ocupam. Para além do semblante de juiz, não distinguia mais grande coisa.

A juíza começou logo por bater com o martelo três vezes na base para esmagar a casca das sapateiras. E que golpes! Se tivesse calhado estar ali alguma, estava já pronta para se levar à boca. Gritou ordem duas vezes, e declarou: “levante-se o réu!”. De seguida, com uma voz diferente, mais brincalhona, escondendo os lábios com uma mão, criando uma espécie de ventriloquismo, disse: “Levanta-te tu meu filho da puta!” E riu-se muito, dando assim autorização para, quem na sala sentisse vontade, rir-se também. Dedalus aproveitou para soltar um peido, era a tosta queimada a fazer das suas.

– Bom. Isto foi para desanuviar aqui o ambiente que estava um bocado pesado. Sabem de que filme isto é? Não interessa. Vamos a isto. Vou ser rápida, para despachar. Não há muito a dizer. Vou até ler daqui. Ora de acordo com o nanana nanana do decreto tal das horas da Maria Cachucha, os arguidos Carlos, Rui, Joaquim e João, são os senhores, foram bla bla bla actividades desrespeitosas… ai ai os meninos. O agente Manrruso… Manduso… Danduso… Deduso… não acerto no nome. Ok… sim… isso mesmo… aqui está! Chegámos. Vou agora ler esta parte que isto é que importa.

E leu quase de uma assentada:

“Decreto número 1295 da torre de administração Pribrezhny ordena a detenção ao senhor Carlos do terreno com 0.66 hectares cadastro número 28:136:254:2001 juntamente com o prédio de residência a garagem de arrecadação, a garagem de reparação de automóveis e a estufa. O senhor Carlos realizou uma petição junto do distrito judicial de Zagorye no sentido de anular este decreto o tribunal ordenou a anulação da petição. Senhor Carlos fez nova petição desta vez junto da torre da justiça de Pribrezhny insistindo que o decreto fosse anulado. A administração da torre rejeitou a proposta. Senhor Carlos alega que o decreto inicial viola procedimentos legais e por isso disputa que a perda do terreno seja ilegal… disputa… alegando que a administração não cumpriu com os prazos de notificação exigidos por lei. Também alega que a administração violou direitos civis. O tribunal decreta pelo decreto número 1295 da torre de justiça Pribrezhny a parcela do terreno em questão seja retirada ao proprietário para a construção de uma torre de comunicações central… Torre de comunicações central. Parece-me bem. Estamos a precisar disto. “

Voltou a bater com martelo. Se a sapateira tivesse sobrevivido ao primeiro ataque agora tinha ido de vez. E terminou-se a sessão. Dito assim, sem paragens, sem virgulas, tudo de uma assentada, engolido sem se mastigar, para não sentir o sabor. Desta maneira engole-se tudo como se da verdade se tratasse. Até uma tosta queimada se engole. O importante é não dar tempo para digerir a informação. Porque depois da digestão é que se sente o cheiro a merda.

E assim termina esta trilogia, com referências ao cinema e à literatura para o leitor mais atento. Parece-me ter ficado bem de altura. Uma altura que combina bem com a largura e o comprimento das outras.

Inesperada forma de abrir garrafas

Queria ser o primeiro a chegar porque era o lugar com maior hipótese de acertar. Ser o segundo, ou o terceiro, é uma questão de sorte. Ser o primeiro é quase certo, basta aparecer antes da hora marcada. Assim podia chegar onde era esperado, e saber o que ia encontrar. Isto aliviava-lhe a ansiedade destas reuniões ocasionais. Ainda faltavam duas horas e já estava pronto, começou a imaginar os passos seguintes “se sair de casa agora, caminhar sem pressa, como quem não está atrasado. Sim parece-me uma melhor ideia do que me sentar no sofá à espera que passem mais uns minutos.” Saiu e virou à direita, apesar de o caminho mais directo ser para a esquerda. Sentiu-se orgulhoso por não ter perdido tempo a pôr em prática o seu plano de se demorar. Este sucesso inicial foi só isto mesmo. Porque assim que virou à direita, o seu caminhar revelou-se muito mais acelerado do que precisava de ser. Desapontado tentou manter a calma, pelo menos da cintura para cima, já que as pernas estavam irremediavelmente convencidas de que estavam atrasadas. “Se elas não se acalmarem” pensou “não é grave. Escolho um caminho maior. Ou na pior das hipóteses, encontro algum já decorado, e repito-o as vezes que forem necessárias. Elas hão-de se cansar, eventualmente.” E seguro disto foi andando. Por vezes tentava impor às pernas um outro ritmo. Mas das duas ou três vezes que tentou, quase que ia caindo, pela força do pensamento sobre as pernas. Para evitar a humilhação de cair em público, deixou que as pernas levassem a melhor.

A pernas não podiam ver, porque as pernas, naturalmente, não vêm coisa alguma, mas o resto do corpo tinha chegado ao destino. Ainda faltavam quarenta e cinco minutos para ser aceitável bater à porta. Mais coisa menos coisa. Atravessou a rua e começou a caminhar na direcção inversa. Dava até tempo para fazer o caminho todo novamente, não fossem as pernas agora caminhar ao ritmo pensado para o trajecto que acabavam de concluir. Como é que estas coisas aconteciam, estava muito para além da sua capacidade de perceber estes fenómenos. Era cansativo andar tanto, e nem poder confiar nas pernas. Agora, enquanto se afastava de onde julgava ir acabar, o seu corpo deslizava pela rua ao ritmo de uma tartaruga preguiçosa. Àquela velocidade conseguia preocupar-se com outra coisa que não ele próprio. Mesmo assim não podia evitar que as outras coisas o fizessem lembrar de si mesmo. Quem sabe parado conseguisse?

Não tinha tempo para isto agora. Olhou para o relógio, e para evitar inverter a marcha, rodando 180º sobre o eixo do seu corpo, atravessou novamente a rua, e prosseguiu no outro passeio para onde veio. Nunca mudava de direcção no mesmo passeio, não fosse alguém pensar que estava perdido.

Pressionou a campainha, foi o primeiro a chegar, tal como previra. O que não estava abrangido pela sua capacidade de adivinhação, era tudo resto. A anfitriã, surpreendida por o ver chegar tão cedo, mas nem por isso preocupada, deu-lhe para beber um chá de pimenta, hortelã e menta, com mel. Um chá de pimenta, hortelã e menta! Com mel! Por esta é que ele não esperava.

O jogo iniciou-se depois de todos terem chegado. Era a última etapa, depois seguiam-se as devidas despedidas, e cada um seguia para a sua vida, desfazendo-se esta embrulhada de vidas que coincidiam no mesmo tempo, na mesma sala, na mesma mesa. Teve de esperar pacientemente enquanto o tabuleiro era montado, e as regras explicadas a alguns dos elementos que ainda não as sabiam. Ele já conhecia as regras, mas recusava segui-las. Pelo menos da mesma maneira que os outros. Precisava de jogar de maneira diferente, testar as possibilidades do jogo, descobrir que este era mais do que o que estava escrito no livro de regras. Por isso os outros achavam imensa piada à imprevisibilidade das suas jogadas. Raramente ganhava o jogo, porque o jogo tinha sido pensado para ser jogado de uma, duas no máximo, maneiras de jogar. Aos que inventavam, estava-lhes reservada a inevitável derrota, no último lugar da classificação. Se todos inventassem, não se sabe ao certo o que podia acontecer. Tal nunca acontece, porque há sempre quem leve o jogo muito a sério. Para ele não interessava ganhar, estava habituado a perder. O que interessava era poder ser livre para fazer as jogadas que bem entendesse enquanto o jogo não acabava.

Já o jogo ia a meio, e tudo indicava que mais uma vez, ele ia acabar com menos moedas que os outros. Alguém perguntou se não havia por acaso uma cervejinha fresquinha algures por ali. Como tinha terminado o seu turno, ofereceu-se para ir buscar ao ali, que só podia ser o frigorífico. Agarrou na cerveja, estava fresca, procurou nas gavetas pelo abre caricas, mas nada de o encontrar. Procurou mais um bocado, na esperança de não ter de perguntar, mas desistiu.

– Está aqui a cerveja mas não sei onde está o abre caricas.

– Não há. É com a Gillette da casa de banho.

Riram-se porque a resposta era absurda. Depois de algumas tentativas de explicar a relação entre uma Gillette e uma garrafa de cerveja fechada, a anfitriã lá conseguiu convencer os que não sabiam já, que a Gillette servia mesmo, à falta de melhor solução, para abrir as garrafas. Convencido, entrou na casa de banho, seguindo as indicações para encontrar a Gillette certa para o estranho propósito que lhe cabia. Abriu a terceira gaveta, como lhe fora indicado, e lá estava ela.

Encontrou um objecto desfigurado. O cabo estava torto, devido ao esforço de fazer algo para o qual não servia. As lâminas eram agora quatro linhas de ferrugem encarnada. E o plástico do local que contactava inocentemente com o alumínio pontiagudo da carica, estava ruído como a pele de um marinheiro no final de sua vida.

Ele agarrou naquele infeliz objecto, e quando ia para abrir a garrafa, não foi capaz de sequer tentar. Voltou para junto deles. Com um sorriso fingido na cara disse:

– Está aqui. Mas não fui capaz.

– Como assim não foste capaz? Dá cá isso.

À primeira a anfitriã abriu a garrafa. Ouviu-se, apesar de tudo, um som diferente, que foi abafado pelo riso de todos ao ver como se abre uma garrafa com o que era para ter sido uma Gillette. O improvisado abre caricas passava de mão em mão, todos queriam ver a aberração, e todos viam e manifestavam pelo riso o lado cómico de tudo aquilo.

Ele não era parvo, percebia a piada que mais ninguém via. Ele era aquele coitado abre caricas, feito a partir um uma lâmina de barbear, que se calhar nunca teve a sorte de barbear sequer um pêlo.

Para não estragar tudo no final do convívio, riu-se com os outros. Somaram-se os pontos, descobriram-se os vencedores, ele inesperadamente não ficou em último, ficou outro que tal como ele não parecia incomodado. Quem estava mais desgostoso foi o segundo lugar, que não ganhou o jogo por uns míseros dois pontos. Azar de uns, sorte para outros, e alguém tem sempre de perder, porque alguém tem sempre de ganhar.

Quando chegou a casa estava cansado. Como não podia deixar de ser. Andamos todos cansados. Para descontrair abriu uma cerveja, na mesa da sala. E apesar de não ser parvo, não deu pela ironia.

Ladrar a canção

Um velho na televisão bem vestido que fala sobre as coisas que viu.

Tenho inveja, não conto a ninguém, por contradizer a vida.

Não se contradiz a vida de ânimo leve.

Encontro-me com alguém que me pergunta quem sou.

Respondo-lhe sem hesitações, como se fosse coisa minha,

como se ele não soubesse

Sou igual a todos, estamos todos na mesma relação.

É o segredo que escondemos uns dos outros, para acreditar, até ao fim, que a vida tem uma relação connosco, que não tem com mais ninguém.

A vida chateia-se, porque para ela os Homens são todos iguais.

Estranha relação.

Os cães amam a vida, e por isso ela não se chateia tanto.

Amam a vida de tal maneira que só lhes sobra amizade.

Os cães não morrem. Não percebo porquê.

Se me lembrasse porque os cães não morrem, também eu seria, até certo ponto, imortal.

Não se tem medo quando se descobre que se é imortal.

Mas não basta sermos notificados.

Só tenho medo de mim mesmo. Não tenho medo de mais nada.

Do que está fora, não tenho palavra a dar. Cá dentro é outra conversa.

Os cães não dançam porque não sabem ouvir a linguagem musical.

Eu danço para esquecer-me dela.

A música com letra é uma piada de mau gosto.

Como a poesia com palavras.

Uma conspiração, vista de longe, por um urso – II

O agente Mancuso acordou cansado como era de costume. Antes de sair da cama escreveu num papel, agora com letras maiúsculas, que tinha de trocar a cama de lugar. Estava cansado de acordar sempre no mesmo sítio, ao lado da mesma pessoa. Quanto à pessoa seria preciso um desastre acontecer para que agora, ao fim de tantos anos de casamento, as coisas mudassem de lugar. Porém, mudar a cama de lugar, fazer umas mudanças, era até algo que entusiasmava a esposa. Pequenas alterações fazem toda a diferença.

Escreveu com maiúsculas num papel não para se lembrar, mas para registar a importância da ideia. Era um homem simples, consciente de um mundo finalizado, assim que deixou os estudos, e transitou para a vida adulta. Quando este mundo, fechado e acabado, que era o seu, começava a ruir, Mancuso mudava as coisas de lugar. Se pinga do tecto, por cima do sofá, desvia-se o sofá, porque a obra está finalizada.

Se Mancuso fosse músico, em vez de um lembrete escrito à mão, compunha uma peça, que capturasse o ruído que sentia ao acordar.

Arrastou-se até à sala, abriu o computador e começou a escrever o relatório. Começou assim:

“No dia 21 de Junho de 2020, um grupo de quatro indivíduos, já devidamente identificados com os seguintes nomes e apelidos: João Alves, Rui da Costa, Joaquim Silva e Carlos Sousa. Infringiram a lei número 75 do código de Estado. São acusados dos seguintes crimes. 1)”

Levantou-se da mesa porque o ruído do estômago em jejum começava a ser difícil de ignorar. O estômago é um órgão autêntico. Há outros, como o fígado, que passa uma vida inteira sem dar sinal, e de um dia para o outro, arruína o seu portador. Os olhos, que estão longe como o diabo, costumam dar o primeiro aviso. Um alerta quase sempre tardio, divido à distancia entre os dois. Mas o estômago comunica honestamente, sem preconceitos ou complexos, directamente, sem papas na língua, o que se está a passar por dentro.

Mancuso abriu o frigorífico, que para condizer com o resto da casa, fazia também ele um ruído terrível, devido a um problema na ventoinha. Não havia dinheiro para reparações. Tal como Mancuso transmitira à esposa “quando avariar compra-se um novo.” Colocou em cima da mesa uma cuvete com fígado, e a manteiga.

Vamos passar à frente dos preparativos da refeição, porque Mancuso tem até um gato. Quem percebeu de qual romance é este Mancuso, e teve ao mesmo tempo a pachorra de ler o romance onde entre Stephen Dedalus, pode descobrir uma relação entre um e outro, e substituir um pelo outro. Na sua mente claro. Ou misturá-los numa só personagem. Isto já vai lançado para todas as direcções, não quero contribuir mais para a desordem.

Ora, depois de calar o estômago, o seu e o do gato, que ao vê-lo na cozinha tirou instintivamente partido da situação. Stephen Dedalus avançou destemido para o computador, disposto a terminar o relatório, para depois ir, livre das amarras das obrigações laborais, passear junto ao mar. Recomeçou de onde acreditava ter ficado:

“2) Aquisição de uma quantidade absurda de bens de primeira necessidade como carne, pão, cerveja, entre outros. 3) Ingestão de uma quantidade insultuosa de comida e de bebida. 4) Conversas de teor inapropriado, por vezes até pornográfico, onde se objectivava o sexo feminino. 5) Troca de insultos ofensivos para a boa moral da nação, durante um jogo ilegal. 6) Demonstrações injustificadas de arrogância, aquando a vitória nesse mesmo jogo. 7) As garrafas de cerveja vazias ficaram por despejar no vasilhame, num acto de inequívoca preguiça.”

Guardou, releu para corrigir algum erro gramatical, exportou para pdf e enviou a quem de direito. Estava concluído o seu trabalho, por agora. Teria ainda de estar presente em tribunal, no dia do julgamento estatal. Estava satisfeito por, pelo menos, ter cumprido o seu dever. O sentimento de dever cumprido acaricia-nos o espírito independentemente do dever que se cumpriu.

Sentiu sua mulher a despertar, no quarto. Sem perder tempo enfiou os sapatos nos pés, agarrou na carteira e no telemóvel, num gesto já compulsivo, e saiu de casa. O ruído da sua saída foi abafado pelo do frigorífico, pelo menos isso.

Caminhou até à praia onde viu uns adolescentes, evidentemente embriagados, no mar não vigiado por um nadador salvador, a jogar à bola. Pensou “Hoje não. Hoje estou de folga. Hoje é um dia para mim.” Ignorou-os e continuou pelo passeio.

Mais à frente tirou os sapatos, deixou-os na calçada, confiante, apesar de tudo, nos bons valores morais dos seus concidadãos, e caminhou pela areia até às rochas junto ao mar.

Um, o tacto, sentia mais nos pés, livres como as mãos, destinadas pela força evolutiva a gestos mais delicados. Sentia o resultado da teimosia das ondas, da sua implacabilidade, desferindo líquidos golpes salgados, nas rochas até lhes destituir da forma. Água mole em pedra dura. E agora enfiavam-se nos furos, entre os dedos dos pés, colando-se à pele, aproveitando uma boleia prevista pelo vento.

Dois, o olfacto, cheirava os odores da praia que o levavam para a banheira num passado longínquo. Quando uma coisa implicava eventualmente a outra. Os cheiros, por serem invisíveis, chegam mais rapidamente ao pensamento, e o pensamento desvia-se do seu caminho para os perseguir. Um desvio também ele previsto, pela brisa.

Três, a visão, percepcionava agora todo aquele espectáculo, enquadrado pela luz já como imagem final. Os olhos, esforçam-se ao máximo para atingir a autenticidade do estômago, desprezando por agora as perturbações da figadeira, que não eram urgentes seguramente. O esforço prejudica a visão. Quando semicerramos, os olhos, focam a coisa isolada do resto. Não é preciso força para abrir os olhos, morre-se tanto de olhos fechados como abertos.

Quatro, o paladar, está ainda ocupado com o sabor do fígado, da manteiga e do café. Este pelo menos tem desculpa para estar distraído com outra coisa qualquer, e não a coisa que está ausente.

E por fim cinco, a audição, do ressoar do que está ausente. O barulho que atravessa o tempo que não existe, e surge invisível, trazendo agarrado a inexistência, igual ao silêncio.

Inventaram-se mais pecados que sentidos. Agora o autor não consegue inventar ele uma bela simetria. Sendo assim termino.

Não perca o próximo episódio porque este já excedeu o seu comprimento.

Estar no mar, não poder estar perdido, uma ideia como qualquer outra

As transições de um estado para outro são os momentos mais interessantes de testemunhar. Só quem está de fora, ou quem já os ter experimentou mais que uma vez, consegue abstrair-se, de alguma maneira, e assistir devidamente ao espectáculo. Uma vez éramos cinco, estávamos embriagados, por sermos jovens e nos terem sido concedidas algumas horas de liberdade da autoridade paternal. Não éramos experientes nos licores e afins, mas como não era também a nossa estreia, a transição do sóbrio para o ébrio fez-se sem grandes surpresas e hesitações.

Decidimos ir até ao mar. Levámos uma bola porque a intenção original, ou pelo menos a mais anterior que podíamos alcançar, era a de ir jogar. O que nos levou a entrar no mar foi, ironicamente, a bola. Foi lá parar antes de nós, saída de um pé menos afinado, ou com uma inclinação secreta para descobrimento oceânicos.

Esta transição, por mais experiente que se seja, é sempre dura. Afinal é, e foi, uma enorme transição. Instalou-se uma pequena discussão. Não fosse o álcool a correr-nos nas veias, e a maré a empurrar devagarinho a bola para a linha do horizonte, teria durado mais tempo. Reunidas estas condições, o primeiro mergulhador ofereceu o corpo, ainda a bola estava apenas a umas dez braçadas de distância.

Não fui o primeiro, o pioneiro, mas também não esperei para ser o último. Na verdade nunca dei importância a classificações. Nem sei de onde vem esta necessidade absurda de ordenar as coisas, quando a ordem das coisas está bem resolvida. Só mergulhei de cabeça depois de sentir os colhões encharcados. Foi assim a minha transição. Não sei como foi a experiência para os outros, nunca falámos sobre isto.

Uma vez lá dentro… e agora aqui é que está a poesia.

Toda enfiada neste momento, que passou por nós como passam as horas dos dias quando deixamos de pensar no relógio.

Nem todos fazíamos o mesmo, apesar de haver uma força que nos empurrasse para isso. Essa força não era a maré, nem o vento, que não têm nada haver com os desejos de adolescentes bebemos. Começamos por brincar como crianças. A bola desenhava círculos perfeitos ao passar de uns para os outros. De vez em quando alguém, por se aborrecer com a previsibilidade da trajectória, inventava um passe para outro que não fosse o esperado. Mas a bola, por mais voltas que desse, voltava a estabelecer o seu movimento perfeitamente circular. Quando ficava sem bola, preocupava-me inutilmente. Acreditava na hipótese de não voltar a ter a bola, de ser esquecido, de ficar isolado num mar desconhecido. A aleatoriedade do trajecto da bola alarmava-me, mas a previsibilidade era ainda pior. Tudo preocupações estéreis, porque a bola volta sempre. Os outros deviam sentir como eu sentia. Digo isto porque ouvia-os gritar: “Passa a bola caralho!” Depois de experimentem uma privação prolongada, e julgarem não aguentar mais tamanhas provações.

O repetição foi acumulando cansaço, e aos poucos fomos ficando sérios. Eu fui uma das vítimas, mas não fui o primeiro a manifestar-me. Fingi durante algum tempo, não era seguramente o único. Finalmente um de nós, acho que foi o que entrou primeiro no mar, faz sentido que tivesse sido, desistiu do jogo, e simplesmente afastou-se. Cada um faz o que quer com o seu tempo, não são exigidas justificações (porém são bem-vindas explicações). Pensar nas possibilidades pode parecer sufocante, mas é melhor do que ficar a brincar aos círculos com a bola, até a pele ficar enrugada.

Qualquer ideia é válida. Devido à natureza da matéria, umas têm melhor aplicabilidade que outras. Mas todas são válidas.

Um encheu o peito de ar, e pôs-se a boiar na água de barriga para cima, a olhar o céu, sem esforço, deixando-se levar pela corrente. Para outros aquilo não servia. Ou porque não conseguiam flutuar, e tinham vergonha de pedir que os ensinassem, ou porque simplesmente precisavam de se mexer, fazer coisas. Uns então nadavam, do ponto A para o ponto B, faziam corridas para dar sentido às suas deslocações. Havia quem nadasse contra a corrente, e depois ficasse tão cansado, que pensasse não ser capaz de continuar. É assim que alguns se afogam. Ali, por estarmos em grupo, ninguém corria este risco. Outro mergulhava no mar e desaparecia. Eu ficava ansioso quando alguém desaparecia debaixo de água por tempo indeterminado. Não podia evitar pensar nos piores cenários. Depois sentia um alívio por o ver emergir, de olhos fechados, respiração ofegante, num sítio diferente e surpreendente. Quando alguém regressa do fundo do mar, nem parece ser mais ele, mas sim outro qualquer. Ao agarrar a respiração de novo, parece querer dizer qualquer coisa importante, qualquer descoberta feita no fundo, lá por baixo. Não chega a dizer, parece que se arrepende e escolhe ficar calado, em silêncio. Se calhar falou debaixo de agua, mas não se ouviu.

Dançámos, cantámos, insultámo-nos, por amor, amámo-nos, beijámo-nos, abraçamo-nos, rolámos na areia, levámos com a rebentação das ondas em cima, as voltas que demos.

Fomos todos parar à toalha. Alguém perguntou: “E a bola? Onde está a bola?” Estava ao nosso lado, foi lá parar sem que tivesse havido qualquer esforço da nossa parte. “Sorte”, disse alguém. Outro disse que se tratava de uma coincidência. Eu, talvez por ter conservado a minha bebedeira de álcool no mar salgado, senti que era algo mais. Uma outra coisa para além da coisa em si, qualquer coisa que devia perceber, resolver, como na canção.

Conversa de bêbedo, eu sei. E um amigo meu disse “Podia morrer agora mesmo e morria feliz.” Lembro-me de o ouvir a dizer isto, e não ter ficado preocupado, porque afinal era só uma ideia, como qualquer outra ideia. Como flutuar, mergulhar ou nadar com a corrente. Mas lá está, nem todas as ideias, devido à natureza da matéria, têm uma boa aplicabilidade. Umas demonstram-se melhor que outras. Apesar disso recuso-me a rotular de má ou boa uma ideia. Não há nem pode existir tal coisa. Tão certo como naquele dia, termos acabado todos no sítio certo, à hora certa, independentemente das ideias e consequentes movimentos de cada um.

Esquecemo-nos foi da bola.

Cães de todas as cores

Por aborrecimento, ou qualquer outro sentimento, que se tenta empurrar para segundo plano, e que depois por lá vai ficando, apodrecendo, e naturalmente emanando um odor por vezes sufocante, que rompe pelos planos todos até se libertar na atmosfera, o homem começou a dar de comer a um cão vadio que frequentava as suas bandas.

Começou por um impulso. Viu o cão a rondar a sua porta, arrebitar o focinho, esforçando-se por cheirar qualquer aroma interessante. Pensou “que se dane” e atirou-lhe os restos do almoço. No dia seguinte o cão voltou. Sabia por conversa com os vizinhos, que não era boa ideia dar confiança ao cão. Dizia-se que era um cão teimoso e barulhento. Quando ganhava confiança transformava-se num ordinário sem maneiras. Cagava e mijava em qualquer canto, ladrava sem parar a noite inteira, comia tudo e logo a seguir chorava por mais. Um inferno. E pior que isso, depois era o cabo dos trabalhos até ele perceber que não é mais bem vindo, e pode ir passear para outra freguesia.

Ignorando os conselhos dos vizinhos, o homem lá foi dando comida todos os dias ao cão. As primeiras vezes o cão comia afastado do homem, por segurança. Mas o homem queria tocar no cão, é humano desejar o contacto físico. Foi investido aos poucos, até que finalmente, ao fim de alguns dias, alcançou o toque no pêlo da besta, e assim ficou estabelecida a intimidade. No dia seguinte já o cão lançou-se sem hesitar até junto do homem. Foi quando ele se deu conta que o cão cheirava, naturalmente, a cão.

Quanto mais se dá banho ao cão, mais o cão cheira a cão. É o feitiço a virar-se contra o feiticeiro. Foi quando o homem previu, que talvez não tivesse sido boa ideia atrair o rafeiro. Para não piorar a situação interrompeu imediatamente as doações alimentares diárias. Mas o cão continuava a aparecer todos os dias à mesma hora. Todavia era só isto que fazia. Surgia, espreitava, e quando aceitava que não ia receber nada do homem sem ser o seu desprezo, metia trote até à próxima paragem.

Por piedade, mas pode ter sido outro sentimento qualquer, que agora irrompia de um plano anterior, depois de lá ter sido esquecido, por embaraço ou inconveniência, o homem decidiu voltar a alimentar o cão.

Resolveu interiormente o conflito da seguinte maneira: “Todos os dias é um disparate, depois fico com o cão a toda a hora aqui à porta, a cheirar mal, a incomodar os vizinhos. Mas uma vez por semana, uma dose pré-definida. Se todos fizerem o mesmo, o cão não passa fome, e não desgraça a vida a ninguém. Porque ter aí à solta uma animal esfomeado, também não me parece uma boa solução. Pode até ser perigoso.”

Saiu de casa com exactamente 150 gramas de ração num saco de plástico. Mas o cão não o esperava à porta como era habitual. Colocou os dois pés assentes no chão da rua e assobiou. Esperou pelo vizinhou do lado, que subia a rua na sua direcção, para lhe perguntar se tinha visto o bicho.

– O cão? Deve ter ido pregar para outra freguesia. Ou foi parar a um canil.

Voltou para dentro com a ração no saco. Por experiência não a deitou fora. Sabia que eventualmente ia aparecer outro cão por ali. Há cães a vadiar por todo o lado, de todas as cores e todos os tamanhos.

Uma conspiração, vista de longe, por um urso

À rebeldia das novas regras, impostas de forma informal, mas designadas de recomendações, para acelerar a sua aceitação, o grupo de amigos juntou-se para uma jantarada. Eram quatro, normalmente seriam mais, mas à última da hora, o espírito rebelde abandonou os que não compareceram. Tinham comprado fatias de carne, que iam seguramente sobrar, e cerveja em quantidade correspondente à carne. O Joca por ser o mais experiente naquelas andanças, atirou-se logo ao grelhador. O Rui, dono da casa e por consequência do grelhador, não levou a mal. Antes pelo contrário ficou satisfeito por Joca ter reclamado o lugar que lhe servia bastante bem. Ofereceu-se simplesmente para ajudar, pois apesar de amigos desde a instrução primária, a cortesia estava presente nas suas relações. O Carlos e o Quim, os que faltava mencionar, trouxeram as cervejas e os quarto beberam enquanto a carne grelhava.

Depois do comer também não houve confusões. Os dois que sentiam ser os que menos tinham contribuído com o seu trabalho, voluntariaram-se para lavar a loiça, enquanto os outros dois pensavam o que se ia jogar a seguir. Tarefas concluídas sentaram-se à mesa e tiraram o primeiro jogo da caixa. Todas as caixas tinham as respectivas regras do jogo respectivo, imprimidas em papel, e que eram respeitadas à letra. Todos eles tinham a certeza que nenhum fazia, ou alguma vez fez, batota. Conheciam-se bem, porque tinham investido naquelas relações, era única maneira de estarem certos do carácter de cada um. Podia existir alguma desconfiança, porque é humano errar por distracção. Todavia batota deliberada era algo que não existia naqueles jogos.

Foram trocando de jogo ao longo da noite, para não se fartarem, e mais do que isso, para não se esquecerem que estavam a jogar a um jogo. Apesar de serem bastante amigos, sabiam que todos os homens podem ser corrompidos, é uma questão de tempo.

Tinham um jogo, intitulado “Guerra dos tronos”, baseado num livro com o mesmo nome, que demorava muito tempo a acabar. Podia até prolongar-se por dias ou semanas. Nesse jogo, os amigos, deixavam de ser capazes de manter a compostura. Ao fim de quatro horas, era este o seu limite, instalava-se a desconfiança. Um olhava para o mão do outro, via que este tinha quase o dobro das suas moedas, e um pensamento de inveja explodia, sem que ninguém desse conta.

– Como é que tens esse dinheiro todo?

– Já não te lembras é? Estivesses com atenção pato bravo.

Já ninguém se lembrava. E isto era só o início. Ao fim de seis horas, mais coisa menos coisa, até se esqueciam que tudo aquilo era a brincar. Começavam as discussões, instalava-se o tal clima de tensão, que se ouve falar no noticiário, por cima das horas da refeição. Quando um perdia uma batalha, iniciava imediatamente a retaliação com insultos verbais. Remexia no passado, até encontrar eventos que justificassem a sua derrota, e lhe devolvessem o orgulho perdido. O outro defendia-se para que a sua vitória não acabasse desvalorizada. Cada movimento das peças tinha agora de ser medido e pensado várias vezes antes de concretizado. Depois de executada a acção, não havia nada a fazer. Ou se salvava, ou estava tudo para sempre perdido. Irremediavelmente perdido. “Carta batida carta jogada” era a nova regra, acrescentada ao livro, dada a gravidade da situação. No final nem o vencedor ficava satisfeito. À medida que arrumavam o jogo na caixa, e o feitiço se ia dissipando, voltavam aos poucos a conseguir rir. No final prometiam não mais abrir aquela caixa maldita.

Naquele dia nada disto aconteceu. Jogaram vários jogos. O Carlos foi quem mais ganhou, e no final fez questão de recordar os amigos da sua superioridade, que, por ser uma superioridade inventada pela imaginação, com prazo de validade curto, não incomodou os outros. Antes pelo contrário, contribuiu, tal como as cervejas, para animar a malta, que é o que é preciso.

Era já tarde e estavam todos borracheirões. Quim que tinha sido o que bebera menos, pediu aos amigos mais uma hora, e garantiu que depois estava em condições de conduzir. Aproveitaram a espera para uma segunda investida à carne. Comeram como estivadores ao pequeno almoço. Concluída a ceia Quim deu boleia aos amigos. Deixou o Carlos em casa e depois o Joca, por esta ordem pois era a que melhor encaixava no percurso. Estacionou o carro e foi-se deitar já o dia estava a clarear.

A história não acaba aqui, porque para enorme infortúnio dos quatro amigos, houve mais alguém que presenciou aquela inocente farra. O agente Mancuso, do alto de uma colina, disfarçado de urso, testemunhou, e tirou notas, do crime desde o seu principio.

Não perca o próximo episódio porque este já excedeu a sua largura.

Barbear ao relento

Era um sujeito bem parecido, que se parecia melhor com alguma barba no rosto do que sem nenhuma. No entanto era demais. Parecia um desleixado, com pêlos mais compridos que outros, encaracolados nas partes do rosto onde remexia distraidamente. Os bigodes ficavam a cheirar a gordura depois de comer. Conseguia cheirá-a melhor quando enfiava os pêlos que cobriam o lábio superior dentro de uma das narinas. Era algo que lhe dava certo prazer.

Prometera a si mesmo que não ia passar mais um dia, e no final daquele, ia mesmo fazer a barba. Procrastinou de tal maneira que, só já depois de fazer a digestão do jantar, agarrou na máquina de barbear. Tirou a camisola ficando o tronco nu. Ao espelho contraiu os músculos abdominais, e ficou satisfeito por ver a forma de alguns. Lembrou-se do trabalho que dava limpar os pêlos do lavatório depois de fazer a barba. Saltavam-lhe da cara e mesmo quando cobria tudo com um papel, eles arranjavam maneira de cair ao lado, enfiando-se em tudo quanto era canto.

Agarrou na máquina e foi para a rua. Começou a barbear-se em cima da relva. O rugir da máquina, o seu tronco destapado, os músculos abdominais, e a hora tardia, encheram-no de uma virilidade romântica. Sentia-se um homem, e não um sujeito com nome próprio, apelido, nacionalidade e um número de identificação. Barbeou-se algum tempo no mesmo sitio, e depois, por achar que já estava a deixar demasiados pêlos onde estava, mudou de poiso. Uns passos para o lado.

Levantou a cabeça para melhor chegar à pelugem do pescoço, e ali onde estava agora, o seu olhar encontrou as estrelas. Agora peço ao leitor, se tive a sorte de o ter ainda aqui comigo, visto que um homem a barbear-se não é um acontecimento relevante para a vida de alguém. Peço que perceba, porque eu não fui capaz.

Um homem sai de casa meio despido. Enquanto corta a pelugem que lhe cresceu na cara, com uma máquina movida a electricidade, olha para cima e vê o céu e as estrelas. Como é que isto foi acontecer? Como é que ele foi ali parar? Como é que os pêlos cresceram? Porque é que foram acabar ali no chão da rua? Quem é que adivinhava uma coisa destas? Onde é que o vento os vai levar? E a electricidade? O barulho da máquina a irromper no silêncio que o céu gelado contém. E as estrelas ali a fazer o quê? Tudo por baixo das nossas cabeças. Sempre por baixo das nossas cabeças.

Evitando de pensar nisto, porque tinha a barba para fazer, limitou-se a observar. Contemplou tudo sem qualquer esforço, deixando-se apenas estar ali, a fazer o que acabava por fazer. Não podia ver o que estava a fazer, pois não tinha espelho. Não acompanhava, com o olhar, as suas transformações, aquilo que lhe estava acontecer. Foi a troca que fez. Sacrificou o espelho por não ter de perder tempo a procurar os milhares de pêlos, cortados em partes incompletas, da sua raiz, cuspidos sabe-se lá para que recanto do lavatório, sujando tudo em redor. Ali do lado de fora, nem lhe interessava onde eles fossem cair. Fosse onde fosse, passavam logo a fazer parte da natureza. Assim que abandonassem o seu rosto, deixavam imediatamente de ser problema seu.

Desligou a máquina e voltou para dentro. Acendeu a luz da casa de banho, arrumou a máquina e olhou-se ao espelho. A barba tinha ficado bem feita. Seja lá isso o que queira dizer.