Não se paga bilhete depois de entrar?

Visto a determinada distância um fogão é um cubo. Aproximamo-nos movidos pelo desejo e, num tempo e espaço diferentes, afinal é uma panela em cima de um fogão. Mais uns passos e o fogão desaparece, só se vê a panela. A observação prolongada resulta em dois acontecimentos, o esquecimento do fogão, e a compreensão da panela a ferver ao lume. Contrariando o impulso de fuga, ateado pelo borbulhar sensível ao calor do conteúdo da panela, resolvemos permanecer vidrados. Aos nossos olhos, e para nosso espanto, o cubo visto à distância é só água a ferver.

A agitação generaliza-se pela superfície, uma observação mais pormenorizada e encontram-se partes semelhantes a lagos imunes às alterações climáticas. Vai-se do particular para o geral, e de volta ao particular mas desta vez um outro particular, a ginástica que altera as conclusões. Procura-se padrões, perceber de uma só assentada o caos, dar algum significado ao cubo. Ouve-se o som do metal a cair desamparado.

O olhar segue o choque metálico, para isso tem de abandonar a água quente demais para mergulhos, foi o gato a derrubar a taça da comida, foi só isso, mais nada. Se fosse possível, depois desta distração, esquecer a água a ferver, esta deixava de ser o que é para ser um tacho a levar com gás ardente na base. Se nos esquecêssemos por uma semana, suponhamos, era um tacho frio, eventualmente com um buraco na base, em cima de um fogão. Quem o visse assim naquele estado nada tinha para acrescentar. E quem vier contar o que se passou não consegue apresentar qualquer tipo de prova, sem ser talvez uma memória humedecida pela água que ferveu ao ponto de se evaporar, e entrou pelas narinas de quem julgou compreender o que verdadeiramente aconteceu.

Fica-se com a opinião da maioria, ou da minoria que nos sirva, o que é muito bom e suficiente, diga-se. Fica-se onde incomodamos menos os outros, nunca onde nos é mais confortável, isso é um perigo. Onde calhamos é onde estamos bem. Quem não está bem onde está, e julga ficar melhor deslocado ou ter estado melhor afastado, é porque acredita que o reposicionamento vai resultar em convite para subir ao palco, quem sabe até participar no espetáculo, visitar os bastidores ou tocar no artista com a ponta dos dedos. Lamento informar mas tal coisa nunca aconteceu a viva alma. Acontece porventura aos mortos, depois do concerto acabar.

OVNI

Instantes antes de morrer, dispenso a precisão traduzida na unidade de tempo corrente, afinal em breve livrar-me-ei finalmente de tão insistente recordação. Instantes antes de morrer vi um ovni no céu disfarçado de estrela, um muito a desejar disfarce, pois nem a cor, nem a forma, nem o movimento eram os de uma estrela, e com estas espalhadas à sua maneira em volta do objeto não identificável, a camuflagem ia por água a baixo ao primeiro passar de olhos, mas não caía por terra, jamais cairia por terra.

Devo manifestar certa indignação, é talvez a primeira vez que o faço, por só aparecer agora no fim. Anos, vou voltar a não ser preciso, abandonei de vez esta obsessão,

anos a forçar abraços a troncos de instituições mitológicas seguidos de aterragens mais ou menos estilosas ora em desertos, ora em relvados, sempre com a esperança de fazer erguer nem que seja um ramito,

anos a sorrir com cortinas de pedras uniformizadas em frente do início do escorrega escuro por onde já passou sabe-se lá o quê,

anos avançar por entre o insondável, respirá-lo ininterruptamente, completamente cegos à qualidade do ar, e mesmo assim arriscando escrita e rescritas acerca do assunto, sempre este assunto mais ou menos bem tratado em fundo branco riscado a preto, convencionalmente, sinais sonoros brancos como as estrelas, pretos como o substracto,

anos a dizer algumas coisas e a não dizer outras, como se fosse isso que fizesse alguma diferença,

anos a sentir o calor do sol na face e uma rua extensa pintada com as cores mais amnésicas e o cantar do que dizemos pertencer aos pássaros. Nem tudo é mau, nem tudo foi bom, e se me tivesse livrado a tempo destas duas palavras, bastava-me livrar de uma alias, o que não teria sido a vida, teria sido o paraíso que sempre foi, escondido atrás de uma subjetividade comprada em noite de bebedeira a sabe Deus que preço. Felizmente os vapores do álcool fizeram cair a factura no esquecimento. Mas aquele ovni sabe, se calhar é ele que daqui a instantes, já disse que não volto a ser preciso, vai fazer contas comigo.

Escrever II

Era do tipo de quando tinha vontade de comer ou ir à casa de banho, escrevia num papel o melhor que sabia a vontade. Assim, quando se sentasse à mesa ou na sanita, se a vontade lhe falhasse tinha o papel. Nunca resultava, o papel era só isso mesmo, um papel. Contudo o acto de escrever aliviava-o do anseio de perder as vontades de repente.

Fez o mesmo para evitar a dor. Caminhava com os sapados mais pesados que conseguiu encontrar no mercado. Para isso levou consigo uma balança, dada a ignorância dos lojistas relativa ao peso dos coisas. Descobriu o mais pesado e comprou-o para se habituar. Na esperança de um dia ao se descalçar, não mais sentiria o peso dos pés.

Tinha ainda outras manias, como bater três vez na madeira, saltar sempre que saía do banho, guardar numa gaveta própria 39 % dos trocos que recebia nas inevitáveis transações do dia a dia. Ir para a cama sempre á mesma hora e levantar-se igualmente à mesma hora, e repetir o melhor que conseguia o dia anterior. Andar sempre pelo mesmo caminho, julgando estar a pisar a mesma linha devido a um aceitável erro de cálculo.

Um dia, vejam bem o azar, desviou por um instante o olhar da sua rotina de segurança, e viu um cão bastante rafeiro a abanar-se todo como quem sai do banho. Não parava de se abanar, um instante interminável. O som da pele a bater na carne interior, os olhos ausentes da figura, o corpo em convulsão suspensa em quatro patas. Tudo aquilo que não durou mais do que um instante, perturbou o tipo de tal maneira, ao ponto de o fazer reproduzir o gesto com a sua cabeça. Abanou-a como quem solta um espirro, ou dá um arroto. Quando voltou a si, procurou o cão, ele já lá não estava.

Nunca recuperou. Estas coisas podem acontecer a qualquer um, e assim sem mais nem menos. Vive agora entre um Hospício e um canil, é voluntário nos dois. Escreve num diário tudo o que vê ouve e sente, sem inventar nada, e guarda os escritos numa gaveta própria junto aos trocos.

Jogo de Cultura Geral – Parte I

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Não fora ter acontecido uma acesa discussão, depois de um almoço de domingo, sempre mais perigosos do que os de outro dia qualquer, uma vez calharem no fim de uma semana, coincidindo em cheio com a esperança dos homens de que tudo finalmente acaba de barriga cheia, homens sem maiúscula, no almoço não havia representação feminina. Não tivesse acontecido esta discussão, que passo a contar, e José podia contar com a colaboração do amigo Ricardo para a sua causa.

A meio do segundo jarro de vinho, o equivalente a três copos por pessoa já bebidos, José puxou da televisão, enjaulada numa armação de ferro aparafusada à parede da sala, para a mesa o tópico de desconversa sugerido pelo jornalista principal e acumulador de funções, um terrível habito de se provar ser mais porque se faz mais. O jornalista escritor, apresentador, actor, professor e não raras vezes empresário. Como todas estas personalidades se empilham num só corpo, em trocas constantes e movimento harmonioso, é arte trabalhada do malabarista ou segredo bem guardado do ilusionista, ainda por descobrir por quem desempenha a custo uma única profissão. O tema sugerido foi o aumento do desemprego em Portugal. José deu um puxão no tema para a mesa com tanta força, que este aterrou meio desorientado.

– Olha para aquela tristeza. Ninguém quer fazer nenhum. Sabes quem paga aquilo, sou eu, és tu, Pais de merda este.

Ricardo, sentado mesmo à sua frente, tem uma sobrinha doutorada em Estudos Portugueses desempregada, algo que era do conhecimento de José. Não era caso para se ofender, uma vez que o comentário tinha sido feito não por qualquer ajuste de contas pessoal, mas por uma necessidade antiga de revalidar a vida que se leva. De qualquer maneira Ricardo levou o comentário a peito, e respondeu convictamente.

– Oh esperto, sabes que os desempregados querem trabalhar? Ou achas que é bom não poder pagar as contas?

Para José o esforço de se imaginar no lugar do outro era coisa para os dias da semana, e porque os estudos recentes concluíram ser bom para o negócio. Uma missão negócio levada a cabo pelo soldado empresário, recrutando e empregando vida alheia escolhida a dedo de maneira a minimizar custos e maximizar lucro. Um corpo a crescer sem um fato a impor o tamanho ideal, o tamanho certo a partir do qual o tecido rompe.

A discussão continuava o acompanhava o movimento de uma empresa saudável. Boa empresa é a que não contrata alfaiate. Alcançou um nível tão elevado mas sem elevação, tão distante das razões que impuseram o seu surgimento, que agora os seus intervenientes, envolvidos num esquecimento embaraçoso, só pensavam na eleição um único vencedor, como inevitável e justo desfecho.

– Epah! Não me chames isto outra vez se faz favor! Isso do chamar fascista a um gajo serve para nos calar, mas eu falo e digo o que quero, não tenho medo de dizer o que penso. Tu achas bem, hã? Eu sou Português, trabalho em Portugal, mato-me a trabalhar, para pagar o ordenado a tipos que se calhar têm carros melhores do que o meu? Foda-se ó Ricardo, não me fodas pah!

– Mas de quem é que tu estás a falar? Tu estás a imaginar realidades alternativas. Olha, vai lá um dia à segurança social, e vai lá perguntar se alguém na fila anda melhor montado que tu? Ou se apanham o autocarro ou vão a butes? Tem juízo, sabes lá do que estás a falar.

– Mas responde-me, porque é que não vão trabalhar? Se precisam tanto assim de rendimento no final do mês, porque não vão trabalhar? E não me venhas com a história de não haver trabalho. Trabalho sempre houve e haverá de haver. É preciso é querer trabalhar.

– Há! Há muito trabalho. Dá para trabalhar na tua empresa com estágios do IEFP. Quando é para ti, tudo bem, o Estado já pode bancar. Pimenta no cu dos outros para mim é refresco.

– Tu sabes lá o que é ter de gerir uma empresa neste Pais. Sabem quanto é que eu pago de IRC, sabem? E os salários que tenho de pagar todos os meses? Só se investe no turismo aqui. Queria ver-te. Falas sem saber o que custa a vida pah.

A discussão continuava neste carrocel já o telejornal tinha terminado. Para além dos três homens sentados na mesma mesa de café, transformada em mesa de debate político, de café, a sala estava vazia, até os empregados fartos de ouvir berros sobre os que não estão, abrigaram-se na cozinha. Os restos de carne com nervos e as manchas de vinho secas no papel rasgado e dobrado pelos cotovelos irrequietos dos homens, espelhava a natureza desconstrutiva dos argumentos.

O terceiro elemento, o Sr. Fernando, conservava-se mudo, mas como auscultava os outros com uma perturbadora atenção, nunca pareceu ausente da discussão. Ouvia-os atentamente mesmo quando as vozes se sobrepunham, quando assim era escolhia uma, assumindo da abafada o contraditório da percebida.

Fernando era um homem moderado. Uma moderação cultivada pelo prazer de pensar e uma aversão ao conflito. Este traço de personalidade faziam dele um elemento deveras solicitado para almoços de convívio combativos como este, um preço a pagar pela conservação de um raro traço entre os seus semelhantes convictos das suas certezas.

Aproveitou uma breve pausa na discussão para intervir finalmente com todo o direito que lhe era devido.

– Eu percebo o sentimento de injustiça aqui do nosso amigo José. Porém, se tivesse de culpar alguém por me sobrecarregar para além do necessário, como se sobrecarregavam os escravos mais habilidosos nas tarefas que outros demostravam ser incapazes, ou se recusavam mesmo a fazer, sofrendo as consequências bárbaras da sua recusa e que são do nosso conhecimento histórico, eu culparia não os desgraçados que vivem dos subsídios, mas sim os donos e acionistas das grandes empresas. Não falo das pequenas e médias, bem sei como têm de se esforçar só para não ter prejuízo dada a feroz competitividade do mercado.

Acrescentou a parte das pequenas e médias empresas, numa hábil estratégia de demonstrar estar do lado de José, e não contra ele, de maneira a não contribuir para o carrocel de mal entendidos. De qualquer maneira esqueceu-se de demonstrar como é que os poderosos sobrecarregam os seus compatriotas. Foi melhor assim, se o tivesse feito, baseando-se na História e nos seus números mais redondos, ia obrigar os companheiros a jantar fora de casa.

Se uma discussão entre pessoas da mesma classe social, acerca de temas como este, acaba com uns contra outros, deve-se certamente a um mal entendido, onde a parte responsável é deixada de fora, sossegada em anonimato, o que é profundamente lamentável.

– Mas então diz-me lá então Fernando. – disse Jorge – Para ver se eu compreendo, só quero perceber, nada mais. Tu achas bem? Um tipo que não faz nada, não trabalha não produz, não cria emprego, não faz nada, é um parasita. E receba no final do mês por isso? Cai-lhe o dinheiro do céu?

– Parece que essa pessoa que me descreves, sossegadamente quieta, não existe. Antes pelo contrário, o mundo está cheio de pessoas incapazes de sossegar. Encontrar alguém capaz de não fazer nada, é raríssimo. Desafio-te a tentar, e vais ver como é complicadíssimo. O que existe são algumas pessoas, uma minoria infelizmente, que não estão disponíveis para o trabalho não produtivo que gera um lucro desigualmente distribuído por quem de direito. A estes, e aos que nada fazem se os houver, eu digo que sim, devem ter o direito, mais do que justificado, de receber um valor mínimo só por existir. Estou convicto de como, ao receberem da sociedade, gentilmente e voluntariamente retribuirão. Até prova em contrário, é esta a minha convicção.

Este parágrafo, face a agitação dos interlocutores, foi várias vezes interrompido, e só foi possível a sua conclusão, graças a uma enorme paciência e perseverança de Fernando, que teve de recuar várias vezes no texto, para poder concluir o seu pensamento.

– Tu andas a viver noutro mundo oh Fernando! As pessoas se poderem ficar o dia todo de papo para o ar a ver televisão ficam. Desde que tenham alguém que lhes meta a comidinha na mesa, e lhes pague as contas no final do mês, achas que vão mexer uma palha por alguém?

– Se fosse assim, os elementos das famílias com enormes fortunas, fortunas maiores que a soma dos salários anuais de todos os trabalhadores das empresas que detém, essas pessoas não fariam nada. Mas se fores ver, são as mais activas na sociedade. Apenas está ausente das suas actividades, o trabalho não produtivo.

– Mais razão me dás. São os que fazem mais, e são os que recebem mais. Olha a coincidência. Agora é que estás a perceber este mistério da civilização. Quem mais trabalha mais dinheiro tem. Isso é o que eu estou a dizer desde o princípio, e o que está mal é quem não trabalha ter dinheiro.

– Qualquer uma dessas pessoas com fortuna vai ter sempre mais dinheiro do que tu, mesmo não fazendo nada, se fossem capazes de não fazer nada claro. O trabalho e o dinheiro não estão diretamente relacionados como sugeres. Podes-me dizer, porque trabalharam antes. Eu diria antes porque tiveram pessoas, as tais pessoas que acusas de ociosas, durante várias gerações, e ainda hoje, a trabalhar para as suas fortunas. Esta alias parece-me ser uma boa justificação para todos terem direito a uma renda. Poderás dizer, e com razão, é um argumento fraco, aceito. De qualquer maneira, mais fraco é um argumento que justifique a desigualdade de riqueza do homem mais rico contra a do mais pobre. A única justificação que consigo imaginar, é um terrível erro de cálculos.

– Mas espera lá – interveio Ricardo, animado por ver a discussão desbloqueada – Estás a dizer que se todos recebessem, vamos supor, 500 euros só por existir, todos os meses, achas que iam aparecer voluntários para apanhar o lixo, cozer o pão, servir à mesa?

– Da maneira como hoje são desempenhadas estas tarefas não produtivas, espero bem que não. Mas acredito que continuava a haver quem apanhasse o seu lixo, não o da cidade inteira, quem cozesse o pão e servisse os seus à mesa.

– És um utópico.

– Nem por isso. Sei que se amanhã aprovassem o que eu sugeri, uma mensalidade de 500 euros para todos, muito provavelmente isso significaria um enorme caos social. De qualquer maneira isso não me impede de imaginar um futuro onde tal acontecesse, um futuro melhor para todos.

– Para todos não. Um futuro melhor para os pobres, os ricos saem prejudicados.

– Finalmente! Mas se queres saber, acho que esta ideia, de que ser rico é o fim a alcançar, o salvamento da raça humana, é o maior impedimento para a realização desta utopia. É uma ideia tão antiga como a civilização, a de que é melhor ser rico do que pobre. Esta comparação entre classes valida, quase sem darmos por isso, a constante comparação entre os Homens. Enquanto existirem classes sociais, ser pobre é evidentemente pior do que ser rico. Porém o rico tem duas ameaças: o sentimento de estar a tratar injustamente o outro, e o medo de se tornar pobre. Já para não falar da constante ameaça de revolta do povo. Bem sei como o grito de revolta perde força mal é lançado, como uma onda ao longo da hierarquia social, sujando apenas de uma leve espuma os que ocupam o topo. Todavia os tsunamis são fenómenos naturais, que sucedem sem aviso.

– Basta olhares para os livros de História do meu filho – disse Ricardo – e verás como tudo o que é ser vivo só consegue alcançar um lugar comum com o outro dentro de uma lógica de poder. Viver em comunidade sem classes socias é ainda mais Utópico do que a tal mensalidade de 500 euros.

– Não me compararia a outros seres vivos não falantes. Pelo menos no que diz respeito a questões éticas. Parece-me que o humano tem atributos que o diferenciam de um crustáceo ou de um búfalo. Todavia receio existir realmente entre animais uma preferência pelas relações de poder, de maneira a facilitar a vida em comum. Porém, se ousássemos contrariar esta tendência para a mimética, quem sabe descobríamos uma nova forma de relacionamento. Eu consigo com o meu gato, é um sinal esperançoso para realização desta promessa.

Aproveitaram a nota humorística para encerrar a discussão. Num tom ainda mais leve manifestaram o seu mais sincero desprezo pelos muito ricos, chegaram a nomear alguns mais mediáticos. Antes de abandonarem o restaurante, para não dar o braço a torcer, José disse ainda.

– São os ricos e os pobres. Uns não fazem nenhum porque não precisam, outros não fazem nenhum porque não querem – e finalizando, para juntar-se aos seus companheiros, evocando a camaradagem incondicional de quem se junta à mesa para comer, acrescentou – nós é que andamos aqui a empurrar este Pais para a frente.

Um nós que prossuponha um eles, e o mal estava feito. Fernando sentiu-se tentado em repetir como os pobres oferecem-se diligentemente, contra todas as expectativas, para servir de qualquer forma a qualquer troco. Libertando os ricos para as desafiantes e indesejáveis tarefas de governação de um povo, que não raras vezes lamentavelmente se transformam em tarefas de exploração de um povo. A tarefa é desafiante, é importante estar atento mas não julgar para lá do necessário.

Não caiu na tentação e deixou o amigo ficar com a última palavra. Que a sociedade funciona assim, ninguém pode afirmar o contrário, basta enfiar a cabeça de fora da janela, e constatar os movimentos em redor. A questão não é essa. A questão é mais profunda, tão profunda como a necessidade intrínseca do humano por justiça, e por não estar só no mundo.

Ricardo aceitou as tréguas subentendidas de José, e os três agendaram por alto o próximo almoço

Assim foi a discussão.

Dias mas tarde José recebeu uma chamada de um canal de televisão, congratulando-o por ter sido o escolhido para servir de concorrente no programa Joker, um programa de perguntas e respostas transmitido todos os dias úteis na televisão pública. Para participar foi-lhe exigido que levasse consigo outra pessoa, um co-concorrente, sem o qual a sua participação não poderia ser aceite. José lembrou-me imediatamente do seu amigo Ricardo. Não fosse a discussão descrita, e o caso mudava de figura.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

O pintor Daltónico

O dia adivinhava chuva sem demonstrar muita vontade de cumprir a promessa. Gonçalo tinha uma hora de almoço. Estava sem apetite mas tinha de ser, a hora estava marcada, há que fazer um esforço e empurrar a comida para onde irá fazer falta num futuro próximo. A facilidade de forjar o acto de mastigar ajuda a empurrar a comida mesmo em gargantas mais secas. Em último caso engole-se como se fosse comprimidos, e fica-se a dever um favor ao estomago. Neste caso extremo é aconselhável o uso dos talhares como alternativa aos pauzinhos.

Pediu um dos cinco menus pensados para adivinhar a imprevisibilidade do voracidade humano. O menu dois era o que melhor se ajustava ao seu apetite, uma sopa de cenoura, uma bifana enfiada no meio de uma carcaça, e um chá frio de limão. Quando o informaram que ia demorar um bocadinho ficou dividido, por um lado não lhe agradava a ideia de desperdiçar um atraso por culpa alheia, por outro lado conhecia o bem que o tempo faz aos apetites. Exigiu uma estimativa como garantia, e aceitou a espera.

O tabuleiro foi-lhe entregue antes de terminar o prazo do ultimato, dividiu-se novamente. Com esta segunda divisão ficou partido em quatro, nenhuma podia chegar atrasada ao trabalho.

Sentaram-se os quatro numa mesa onde só cabia uma pessoa. Esta incongruência capaz de arrancar do sonho mais profundo o mais crédulo dos sonhadores, não incomoda a vida de um sonâmbulo.

Olhou para o relógio, acreditava que quanto mais vigilante fosse do relógio, melhor controlo tinha do tempo. Comia lentamente a sopa, evitando com a colher a rodela de ovo cozido, para não ficar muito cedo com nada sem ser a monótona cor laranja da sopa de cenoura. Acompanhava cada colherada com respostas ao que os seus companheiros de mesa perguntavam. Um deles perguntou, num tom algo provocativo que não passou despercebido a Gonçalo, como tinha aguentado tantos anos a pintar paredes.

– Eu tenho uma característica que muitos pintores não têm, é esta capacidade de criar mundos na mente. Se fores ver as minhas médias, sou dos que passa mais tempo seguido agarrado ao pincel, sem tirar os olhos da parede, porque consigo desenhar em cima da cor formas em movimento.

– Mas não gostas de fazer pausas, para fumar um cigarro, ou beber um café?

– Também faço, claro. Mas não há melhor pausa do que esta fuga para dentro. A liberdade que se pode encontrar para dentro, é incomparavelmente superior à que se encontra para fora.

– Não te faz mal estar tanto tempo a olhar para a parede?

– Tem um preço a pagar. Quando termino de pintar, fico algum tempo a ver o mundo da cor da parede acabada de pintar. O mais desagradável é agora não ser eu a desenhar as formas e fazer delas o que quiser, como me tinha habituada a fazer com aquela cor. Eventualmente os olhos ajustam-se ao mundo e à sua variedade cromática, e eu aceito as formas e os seus movimentos sem mais frustrações.

– Então se sabe isso, porque fica tanto tempo a olhar para a parede?

– É uma boa pergunta. Talvez seja…

O telefone tremeu-lhe no bolso. Uma notificação persistente que ele não sabia desativar.

– Por exemplo, isto que aconteceu agora. Não foram os do meu grupo sanguíneo seguramente os responsáveis pela invenção do telemóvel. Se os fabricassem em forma de algemas, tornava-os mais fieis ao que são. Onde é que tínhamos ficado? Estava a pensar em qualquer coisa antes disto.

Comeu a rodela de ovo cozido na penúltima colherada. Não quis deixar para a última porque assim podia escolher; terminar com um colher de sopa com ovo, ou com uma colher de sopa sem ovo, igual às outras todas.

Depois da sopa estava comido. Olhou para a bifana como quem olha para uma decoração de plástico em forma de alimento. Se o acto de mastigar pode ser facilmente falsificado, o de comer não. Comer requer vontade, sem vontade mastiga-se e engole-se, até o observador mais distraído consegue dá pela diferença.

A bifana não estava partida em duas partes iguais. Tal nunca seria exigido a quem fez o favor de a cortar ao meio. Apesar disto a disparidade de tamanho de cada metade era exagerada. Escolheu começar pela maior, ao levanta-la do prato, a outra veio atrás. A fatia superior da carcaça e a carne tinham sido separadas com sucesso, o mesmo não se podia dizer da base assente no prato. Quem preparou a sandes podia ser muito eficaz a cortar pessoas em quatro, mas deixava muito a desejar no corte de bifanas ao meio.

Partiu com as próprias mãos a base do pão, finalizando o milagre da duplicação, e desferiu a primeira dentada. Uma grande dentada uma vez que era a primeira, e não sabia até quando ia continuar a ser capaz de enganar a fome. Tinha de aproveitar cada dentada, quantas menos desse melhor. Assim que começou a mastigar identificou os seus pontos fracos da sua estratégia. Não é fácil desintegrar tanta comida quando a sua descida não está a ser solicitada. Engoliu ainda a bifana era bifana e não bolo alimentar.

A segunda dentada foi menos ambiciosa e por isso entregue ao estomago com melhor apresentação. Pousou a metade da bifana no prato, era muita comida! Mais do que precisava para o resto do dia. Lembrou-se de embrulhar para mais tarde, procurou uma boa desculpa para não o fazer, encontrou a de ter de transportar um resto de bifana consigo até encontrar o seu apetite. Não queria pressionar, nem ficar refém do seu apetite.

– Nem tudo é bom sabem?

– A que se refere?

– Ser livre para desenhar as formas e escolher o cor de fundo é um prazer enorme, quase como uma droga, mas há sempre um preço a pagar. Li em qualquer lado que só se sonha a preto e branco.

– Isto do preço a pagar não será um catolicismo capitalista. Não sei se podemos aplicar esta ideia a tudo. Ou se precisamos de aplicá-la ao que quer que seja.

– Vamos fazer uma pausa na conversa. Tenho de comer isto e assim não é fácil.

– Porquê?

Levantou a cabeça e endireitou a coluna, à procura do silêncio, nem que fosse por um instante. Depois voltou à bifana e a um dialogo interno menos esquizofrénico.

Não consigo comer tudo o que tenho no prato, mas se conseguir mais duas dentadas, pelo menos termino uma parte, já é qualquer coisa, e depois quem sabe? A outra metade é mais pequena, no rigor se comer esta metade já estou para lá do meio, mais perto do fim do que parece. Por outro lado se fiquei cheio à primeira dentada, as minhas perspetivas não são as mais animadoras.

Porque é que quem come 17 bifanas tem uma história para contar, mas ficar a rebentar pelas costuras com meia sopa não é notícia para ninguém.

– Há uma dose mínima de alimento a consumir para se ter voz.

Ainda tinha o sumo. Lembrou-se de ter assistido a uma competição de devoradores de cachorro quente. Antes de cada dentada mergulhavam o cachorro num copo com água, como quem molha bolachas no chá. Este maneira pouco usual de se ter uma refeição estava legitimada pelo prémio, em dinheiro, entregue ao vencedor. Não ia fazer o mesmo evidentemente. Apesar de a sua refeição ser, de uma manira mas indirecta, para ganhar dinheiro. Fosse como fosse, ali naquela mesa, a bifana não encaixava no copo.

Bebeu um bom bocado de sumo. A mudança de sólido para o líquido restaurou-lhe alguma confiança. Antes de a perder, não acontece só com o apetite, levou a bifana à boca e abocanhou um bocado quase igual à primeira dentada. Faltava uma trinca, e a metade mais pequena, nunca pensou chegar tão longe.

Equacionou a estratégia de começar a metade que faltava antes de terminar a outra. Sabia bem o que este caminho queria dizer, era dar-se por vencido. Era comprometer-se em aceitar a refeição como terminada com um resto por comer à vista de todos. Por mais insignificante que fosse, não podia ignora-lo, marcava o seu fracasso, e todos os significados que se podia tirar dele. Um prato vazio é uma refeição terminada para ele e para o senso comum, um prato com restos é uma refeição terminada para quem passou a ver restos onde antes jurava ver comida.

Encheu a boca com sumo e juntou-lhe o resto da primeira metade. Com tempo a criatividade junta as formas que sem tempo não se encaixam. Só faltava a metade mais pequena da bifana. Nunca pensou ser capaz de comer tanto. Visto por quem passa, era um homem sentado à mesa a almoçar, mas de perto, visto a partir dos seus olhos, era um feito heroico.

Parou, sentia-se cheio. Não precisava de comer mais. Nem naquela refeição em contra relógio, nem nas próximas.

Se tivesse dito isso a alguém, qualquer pessoa, veria reflectido na cara do outro interlocutor a pouca probabilidade de isto ser verdade. De outra maneira não havia como provar o contrário, pelo menos naquele momento.

– E se terminar a bifana? Se com o que já comi assegurei alimento para o resto da vida, se comer o resto, fico até com uma margem de segurança.

A brilhante conclusão a que chegara não lhe abriu o apetite, tal seria fatal para a sua nova filosofia. Um último esforço, pensou, vou empurrar isto para dentro, e depois acabou-se, seguem-se anos sem sobressaltos a favor do vento, indiferente ao destino até porque vou de boleia.

Deu a primeira dentada e uma das últimas da sua vida. Olhou para o que já tinha feito, sentia-se cheíssimo, se fosse qualquer outra refeição teria terminado ali, mas aquela era a última, e agora que estava tão perto do fim, não se ia embora sem comer tudo.

Guardou um resto do sumo para o fim, para limpar o sabor da carne, uma vida fluida como os líquidos, livre da tirania das formas sólidas. Agarrou no resto da bifana e enfiou-a toda na boca. Foi o fim não consumado porque faltava mastigar. Mas era irreversível, como o movimento de uma ratazana no interior de uma jiboia. A boca do animal fecha-se, e o corpo engolido só volta a ver as cores quando se metamorfosear.

Mastigou pela última vez, engoliu e bebeu o sumo. Olhou para o relógio, estava algumas horas atrasado. O estômago pedia-lhe para caminhar sem inventar um destino espacial ou temporal. Estava a dever um favor ao estômago desde a primeira dentada, não podia nem queria recusar-lhe aquela vontade. Levantou-se e começou a andar.

Tanto quanto sabemos, não voltou ao seu trabalho de pintar paredes. Continuou cheio, e cheio de vontade de caminhar, cheio a dobrar. Não havia qualquer razão para ir pintar uma parede ou o que quer que fosse. Já tudo levou a primeira de mão há muito tempo.

Afta

Apareceu, no céu da minha boca, uma ferida a qual chamei afta. A palavra veio-me à minha cabeça, onde está o meu céu da boca, e onde por sua vez apareceu-me a afta, que é uma ferida, no céu da boca.

Toquei-lhe com a língua, foi uma sensação incrível. O receio, devido ao inusitado de tudo aquilo, fez-me hesitar antes de repetir o toque. Vencido o receio, perdi a contagem. Mas posso-vos dizer, não me orgulho, mas como é bom para a saúde partilhar o que pensamos, vou dizer: Houve dias, dias inteiros, que não fiz mais nada se não lamber a ferida.

Devo explicar-me. Afinal é para isso que cá estou. Faço-o mais por mim, sou egoísta. Às vezes tenho de me explicar em voz alta. Não me chego a perceber. Não, isso seria pedir demais, e seria até assustador. Não sei o que faria, se um dia percebesse o que quer que fosse.

Passo a explicar-me. A ferida, que por definição é o que está depois da carne, lambida, produzia em mim uma sensação de infinito. Cada lambidela produzia mais infinito. No espectro das sensações, fica no extremo oposto de nenhuma sensação. Ironicamente, uma conduz à outra. A de infinito à de nada, a de nada ao infinito.

Não percebo. Melhor assim, perceber não me ia fazer nada bem.

Vou arriscar uma explicação! É assim que elas começa, as enxaquecas.

Admito tratar-se de um vulgar problema de armazenamento. Nada mais do que um simples problema logístico.

Passo a explicar pela segunda vez, porque a primeira pareceu-me insuficiente.

O infinito, sentido, é constituído (como se pensa ser constituído tudo o resto) por protões e electrões. Estes electrões e protões têm de estar em algum lado, antes de ir para lado nenhum. Ora quer-me parecer, existir algures em mim, um local onde são armazenados. Quem trata das feridas seguindo os conselhos do médico, e não como um cão como eu faço, nunca tem o armazém a rebentar pelas costuras. Como vos disse, passei um dia inteiro a lambuzar na ferida. O armazém não podia receber mais encomendas, houve uma ordem de esvaziamento, abriu-se um buraco negro em mim, e despejou-se aquilo tudo para o buraco.

Isto tudo para explicar o quê? Entretanto esqueci-me.

Enfim.

Deixei de sentir infinito. Ainda assim, sentia algum prazer ao tocar na ferida. Depois uma dor agradável, leve, e depois aquilo infectou. Tive de ir ao médico, ele disse-me que eu era um animal. Eu disse está bem senhor doutro, mas diga-me, isto é caso para eu me preocupar? Deu-me um antibiótico. Só pediu para eu não o misturar com álcool. Deve ter ficado com uma má ideia a meu respeito. Apesar de eu me ter explicado, quando não precisava. Acho que foi quando falei em protões e electrões, que ele deixou de me levar a sério. Se tivesse, em vez disso, falado em bactérias ou vírus, para mim é a mesma coisa.

Hoje, porque isto já se passou alguns anos, passo a língua e não sinto nada.

Mas é um nada confortável, é sempre um bocado triste, deve ser pela lembrança do que foi. Não podia continuar assim, estava a infectar, disse o médico.

Enfim.

Se calhar não estou a passar a língua no sítio certo. A memória não é nada precisa.

Enfim.

Quando voltar a ter uma afta, porque o médico falou-me da forte possibilidade de isto voltar a acontecer, só não percebi porque falou dessa possibilidade como se fosse algo a evitar.

Enfim.

Quando reaparecer, tenho já as horas marcadas para cada lambidela, fiz uma folha no excell. Se me comprometer, exige algum compromisso, por mais que custe, se conseguir seguir o plano à risca.

Enfim.

Hei-de me habituar à rotina. Se correr mal, esvazio-me e volto ao antibiótico. Sobraram alguns comprimidos da última vez.

O que me fui lembrar

Eu não sou isto que aqui vês

Este é o corpo que uso para ser nos outros tudo aquilo que posso ser

Estou cansado, o meu corpo está gasto

Porque já sou muitas coisas nos outros

O que vai ser de mim quando os outros morrerem

Eles que transportam o meu verdadeiro eu

E o que vai ser dos outros quando eu morrer

Eu que tenho em mim tanto que não me pertence

Não entendido

Tudo isto não passa de um mal-entendido. Só saio de casa quando tem mesmo de ser, normalmente é quando a comida acaba. Antes nem isso, mas de tanto praticar a autofagia, nas suas mais variadas formas, desenvolvi uma intolerância à minha própria carne.

Julgo que irreversível. Nada de grave.

Regresso pelo meu pé com comida e aquilo que se agarra aos sapatos. Deixo-os à porta por precaução. Evitar tanto quando possível contaminar o interior com o exterior. Não mistura-los de maneira que o seu segredo não se revele aos nossos olhos, que só vêm um lado de cada vez.

Não sei se me faço entender. Estou a falar da auto-sustentação de tudo. É preciso acreditar num certo grau de diferenciação. A nossa carne e a carne dos outros não podem ser a mesma.

Pode ser que esteja a fazer um mal-entendido por não perceber o valor das transacções.

Não gosto de ficar a dever. Não quero o mundo à porta, a exigir o que quer que seja de mim. Não suporto ficar em dívida por não ser clara a forma, o momento, ou a vantagem de pagar de volta.

Temo desequilibrar a balança. Ou por não ser capaz de saldar a dívida, ou por ter entendido mal os contornos da transferência.

Por isso deixo os sapatos à porta. Se aconteceu trazer algo por engano agarrado à sola, fica do lado de fora. Alguém há-de se apropriar, e fazer o que deve ser feito.

Não sei o que deve ser feito.

Saber só pode resultar em duas possibilidades:

Ou recusamos o mundo, para não ter de andar sempre a incomodar-nos com o não saber o que fazer com as coisas que nos são oferecidas.

Ou ficamos com tudo. Guarda-mos tudo em nós, na nossa casa, tudo o que nos é oferecido.

Eu não faço parte dos que se encaixam na segunda possibilidade. Se pudesse receber visitas, estas confirmariam como tenho a casa vazia.

Todo o pó lá em casa cai em cima de mim, por falta de opção. Tenho pó atrás nos dentes, à frente dos olhos, por baixo das unhas. Uma vez por mês recebo nas escadas uma senhora que faz limpezas. Tira-me o pó todo. Diz-me depois que é meu, o pó. Eu respondo que não, não é. Pago-lhe e volto para dentro. Deixo-a com o meu dinheiro mais o meu pó, de maneira a certificar-me que o saldo continua a tombar para o meu lado.

Ela não se rala com isso, não se importa de ficar a dever. Tem mais com que se preocupar do que com o equilíbrio universal.

O que lhe é destinado é, o que não é não é.

É preciso um certo grau de relaxamento, despreocupação, para aguentar, acompanhar, tanta transacção em andamento.

Quando se acha que se está muito para um lado, ou para o outro, é precisa lembrar como tudo não passa de um mal-entendido.

Um mal-entendido serve para justificar um erro por excesso, ou por escassez. Os mal-entendidos resolvem-se da mesma maneira como acontecem. Exclusivamente pela mão divina. O Homem não tem acesso a esta funcionalidade. Está bloqueada.

Sei de certas coisas.

Sei fazer trocas para obter alimento, sei relacionar-me com a mulher que me limpa o pó, e sei que quando saio à rua, tudo não passa de um mal-entendido.

Paraíso perdido, eventualmente

Não se encontravam há tanto tempo que era como se agora fossem estranhos um para o outro. A sua história ficara tão esquecida, que agora vista à distância, pareciam ser duas histórias distintas. Uma para cada. Bastante parecidas. Se as comparássemos podia-mos até arriscar dizer que pertenciam à mesma peça. Se sim ou se não, é um assunto que só interessava à arqueologia.

Beijaram-se à porta do centro comercial e como estavam atrasados foi só isso que fizeram. Entraram apressados centro comercial a dentro, ela na liderança, porque sabia melhor o caminho.

Temos de nos despachar. Não acredito que vamos perder o filme.

Pensei que era às e um quarto. Mas vamos conseguir. Queres correr?

Ela começou a correr imediatamente a seguir à sugestão. Estava só à espera de uma autorização para desautorizar as boas maneiras que mandam não correr em espaços públicos com muita gente. Chegaram ao mesmo tempo à bilheteira. Não estava ninguém na fila.

Bom dia, noite. Eram dois bilhetes para, nem sei como é que se chama o filme, mas começa com P. tens aí a dizer?

Se era para a sessão das oito já não há. Só para a próxima.

Ah porra não acredito. Não pode ser. Eh pá que chatice.

Pois. Já não posso mesmo fazer nada. O filme já começou.

Oh começar não começou, não pode ter começado, só passaram cinco minutos.

Pois.

Granda chatice. E a que horas é a próxima sessão?

Às 23h30.

Só? O que é que vamos fazer aqui até as onze e meia. Nada. Não há nada para fazer. Bem. Obrigado, vamos pensar.

Afastaram-se da bilheteira. Ele ainda não tinha expressado o seu desagrado porque não tinha a certeza se não era melhor assim. Estava expectante por saber o que iam fazer agora.

Bom. Então como é que estás? Parece que temos muito tempo para meter a conversa em dia.

Três horas de vinte minutos. Temos três horas e vinte minutos.

Onde é que queres ir?

Tanto faz. Onde é que queres esperar?

Vamos até ao parque.

Saltaram o gradeamento e entraram numa zona coberta por relva que, a avaliar pela ausência de uma passagem para o seu interior, devia estar interdita a pessoas. Contudo estava cheia de vários grupos pessoas, sentadas a desfrutar os últimos raios de sol daquele dia. Sentaram-se os na relva sem saber exactamente como iam preencher aquele tempo não contabilizado pelos seus planos.

Comecei a praticar tai chi chuan. Relaxa-me imenso. Então agora.

Ainda estás a morar no mesmo sítio?

Qual sitio?

Já não me lembro para onde foste morar. Mas é o mesmo não é.

Sim deve ser. Já lá estou à tanto tempo que deve ser. E tu? Ainda és pintor? Ou já começas-te a ter dinheiro para pagar as contas?

Eu não tenho grandes contas para pagar. Quando moravas comigo era outra conversa.

Sempre paguei tudo. Que me lembra. Mas se te estou a dever alguma coisa.

Não não. Estou a brincar. Não me deves nada.

Boa. Então hoje pagas tu o jantar.

Ambos experimentavam posições para se sentar na relva. Ora de mãos atrás a apoiar o tronco, ora abraçando os joelhos com os braços, cruzando as pernas uma por cima da outra. Iam-se imitando um ao outro, à procura de uma posição confortável. Uma posição conseguissem manter por muito tempo sem dor. Já não acreditavam em posições para o resto da vida. Mas se descobrissem alguma, que fosse suportável e até desse ao corpo algum prazer, iriam mantê-la pelo menos até ao último raio de sol. Por enquanto continuavam a tentar. Ela decidiu repetir a das mãos enterradas na relva a servir de suporte, e pernas esticadas em V. Ele foi copiou.

Estou a pensar mudar-me para aqui. Estou cansada de Sintra. Aqui pelo menos posso sair à rua, ver coisas acontecer.

Queres trocar comigo? Eu estou cansado de ver coisas a acontecer. Se não acontecesse mais nada, por mim estava óptimo.

Às vezes mereces que te metam um espelho à frente quando dizes certas coisas. Já nem me lembrava dessa tua… maneira de dizer as coisas.

Qual maneira de dizer as coisas?

Não. Eu preciso de pessoas com vontade de fazer coisas na minha vida. Dividir a casa com mais, sei lá, uma data de gente.

Mas que coisas é que queres fazer?

Sei lá. Passear pela cidade junto ao rio. Comer numa mesa cheia de gente, numa esplanada iluminada por luzes de natal, e música vinda de todos os lado. As ruas cheia de gente a noite inteira, até depois de nos irmos deitar.

E o teu marido vai a esse jantar? Ou só aparece mais tarde?

Mais adiante três pessoas, separadas por uma distância considerável, atiravam um disco entre elas. Um cão corria de um lado para o outro atrás de uma bola arremessada pelo dono. E um rapaz dizia qualquer coisa ao ouvido da namorada que a punha a rir descontroladamente.

Vamos jogar ao disco com eles?

Vamos. Deixa-me só descansar um bocadinho.

Deitou-se de barriga para cima na relva. Ela chegou-se mais para perto dele, e esticou-se da mesma maneira. Nos seus campos de visão passou só a existir um azul avermelhado que escondia as estrelas, mas não por muito tempo. Os pássaros faziam as suas últimas passagens por aquele plano azul e vermelho. Dali por uns minutos iam interromper o seu voo por umas horas. Iam esperar abrigados num ramo de uma árvore qualquer. Quando o sol decidisse voltar, arrancavam dos ramos das árvores para retomar o seu voo incessante.

Está-se bem aqui. Melhor do que no cinema.

Isto é um bom plano. E estamos deitados. Sempre é melhor do que sentados a ver pessoas a fingir que estão a fazer coisas.

Porque é que as pessoas fingem que estão a fazer coisas?

Não sei. Nunca pintei um céu. Já pintei tanta coisa. E nunca me passou pela cabeça pintar a merda do céu.

Passas pouco tempo nesta posição. Este já não pintas.

Podia-lhe tirar uma foto e pintar amanhã.

Para que é que vais pintar um céu?

Amanhã também não podia. Tenho tanta coisa para fazer amanhã.

Queres ir andando? Está a ficar frio não está.

Sim quero. Vamos.

O amor é um curto circuito dizia Beckett. Foi uma sorte, à falta de uma palavra certa para explicar o que aconteceu. Quiseram os dois deitar-se juntos, e quiseram os dois, ao mesmo tempo, começar a caminhar.

Os que ficaram, os outros exemplos pessoais no parque, não tiveram a mesma sorte:

Das três pessoas que jogavam frisbee, uma perdeu a vontade de continuar a brincadeira muito antes das outras duas. A rapariga queria continuar a rir-se, mas o rapaz não tinha mais nada engraçado para dizer. E o dono do cão fartou-se de lhe atirar a bola. Quando o cão estava capaz de continuar a correr atrás daquela bola para o resto da sua vida, ou até lhe acabarem as forças.

Subiram lado a lado a rua, muito devagar. Qualquer que fosse o seu destino, queriam que este chegasse dali por muito tempo. Tal como fizeram na relva, com as posições do corpo estático, começaram a experimentar agora em movimento. Ela contou dois tempos enquanto ele deu um passo. E pensou que conseguia melhorar o tempo dele para o dobro. Ele topou que ela dava agora passos de quatro tempos cada. Foi ambicioso e no passo seguinte demorou-se, vejam bem, dezasseis tempos. Ela quase que ia tropeçando e se esbardalhando no chão tal fora a mudança de velocidade. Mas não se deixou ficar, e apresentou-lhe uma incrível passada de cinquenta e nove tempos.

Na manhã seguinte quando os pássaros arrancaram voo dos ramos das árvores, eles ainda estavam a subir a rua.

Meses, bolos e livros

Foto por Magda Ehlers

Um mês não é nada na vida de uma pessoas. Espera-se que passem doze, e depois é só repetir o ciclo umas cinquenta a setenta vezes, e o que quer que seja que aconteceu acabou. Uma caixa de bolos sortidos aumenta de valor com o tempo. Quando está cheia, ainda por abrir, qualquer um que peça “pode-me desperdiçar um dos seus bolinhos?” recebe um educado “sim” como resposta, daqueles que saem apressados atropelando a pergunta, para que não restem dúvidas quanto à boa vontade de quem tem está bem abastecido. À medida que os bolos vão sendo devorados pelas bocas esfomeadas, até o mais generoso dos seres deita uma olhadela para dentro da sua caixa antes de ceder o bolo. Nem que seja só para avaliar o sortido da situação, e imaginar o futuro com mais ou menos bolos.

Os meses não são como os bolos sortidos. Bem sei. Eu bolos cedo todos a quem quer que seja. Podem levá-los. São mais as bocas às quais dou prioridade em relação à minha, do que as que não dou. Gostava de poder dizer que dou a todas, mas a minha reduzidíssima capacidade de tirar conclusões, convenceu-me que andam por aí alguns cabrões que não merecem bolos.

Posso estar enganado, espero até estar. Equivocadamente sentado no meu sofá extensível, em frente a um computador com ligação à Internet, e uma caixinha de bolos sortidos meio comida, com especial cuidado para manter a variedade que lhe deu o nome. Não é fácil manter a disponibilidade de sortido equilibrada quanto à sua variedade. A subjectividade não ajuda na luta contra as desigualdades, mas faço um esforço, contra os meus princípios. Sou pela igualdade, mas contra o esforço. O que me deixa numa situação muito delicada.

Quanto à diferença entre bolos e meses, quanto a mim: os bolos sei para que os quero. Os meses é outra conversa.

Cheguei a ter em minha posse, ao alcance dos meus braços portanto, um livro. Sempre que o lia, não percebia nada das palavras impressas. Conhecia-as quase todas, e as que não conhecia ia logo consultar o seu significado no dicionário online, para não ter de procurar no de papel, que por desuso deve andar perdido por ai numa gaveta. Pelo menos não apanha tanto pó.

Nem assim percebia o que é que aquele livro me estava a dizer. Ora culpava-me a mim, ora culpava o livro. Não encontrava utilidade para aquele objecto. Não o vendi logo porque havia qualquer coisa nele, na forma talvez, a cor das páginas, o tipo de letra, até algumas palavras em certos parágrafos, tiradas do contexto que eu julgava que tinham de estar devido ao seu paradeiro. Mas acabei por vender.

Não me lembro quanto me deram por ele. Sei que já não tenho esse dinheiro. Devo ter comprado algo, cuja a utilidade vem escarrapachada no livro de instruções, escrita por alguém que sabe o que quer e por isso sabe também o que o cliente quer.

Passado alguns meses, numa das minhas navegações pela Internet, sentado no sofá e bem sortido, encontrei o livro à venda por um milhão de euros! Um milhão de euros! Passei meses a refrescar a página. Até que um dia refresco, e leio “vendido”. Vendido!

Alguém fez um lucro absurdo com o meu livro. Porque eu não quis esperar até lhe encontrar utilidade. Ou não soube ver a sua utilidade. Ou não trabalhei na procura da sua utilidade. Ou simplesmente não aceitei a sua ausência de utilidade, e fiquei com ele mesmo assim só porque era belo. Por ter qualquer coisa de belo, único, irrepetível, que apesar de não poder compreender, não significa que o deva ceder, entregar de mão beijada ao outro, que o trata como um artigo de compra e venda.

Os meses, os livros e as bolachas. Aguentava-me só com estes três uma vida. Desde que não me viessem falar do tipo que agora abriu uma empresa, e ganhou um prémio de empreendedor, e dá entrevistas e discursos, tudo com o dinheiro que lucrou com o meu livro! Se me lembrar do tipo, que eu nem sei quem é, salto já do sofá extensível, desassossegado e irado, e só volto quando me sentir vingado. Só volto para o sofá quando recuperar o meu livro!

Espero quando voltar que ainda me restem meses e bolachas suficientes para acabar o acabar de ler em sossego.