Jogo de Cultura Geral – Parte I

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Não tivesse acontecido uma acesa discussão, depois de um almoço de domingo, sempre mais perigosos que os almoços de outro dia qualquer, uma vez que calham no fim de uma semana, coincidem com a esperança dos homens de que tudo finalmente acabe de barriga cheia, homens sem maiúscula, pois era um almoço de homens. Não tivesse acontecido esta discussão, e o caso estava resolvido. Assim foi o lamentável sucedido.

A meio do segundo jarro de vinho, o equivalente a três copos por pessoa já bebidos, o José puxou da televisão, suspensa por uma armação de ferro aparafusada à parede da sala, para a mesa o tópico sugerido pelo jornalista principal que muitas vezes, num terrível habito antigo de assimilar funções, provar de que se é mais porque se faz mais, é também escritor, apresentador, actor, professor e não raras vezes empresário. Como todas estas personalidades se empilham num só corpo, num constante movimento harmonioso, é arte trabalhada do malabarista, ou segredo bem guardado do ilusionista. O tema sugerido foi o aumento do desemprego em Portugal. José deu um puxão no tema para a mesa com tanta força, que este aterrou meio desorientado.

– Olha para aquela tristeza. Ninguém quer fazer nenhum. Sabes quem paga aquilo, sou eu, és tu, Pais de merda este.

O Ricardo sentado mesmo à sua frente, tem uma sobrinha doutorada em Estudos Portugueses, desempregada, algo que era do conhecimento de José. Não era caso para se ofender, uma vez que o comentário tinha sido feito não por qualquer ajuste de contas pessoal, mas por uma necessidade antiga de revalidar a vida que se leva. De qualquer maneira Ricardo levou o comentário a peito e respondeu convictamente.

– Oh esperto, sabes que eles estão desempregados mas querem trabalhar? Ou achas que é bom estar no desemprego em poder pagar as contas?

José não é propriamente perspicaz. O esforço de imaginar-se no lugar do outro, era coisa para os dias da semana, e porque tinha de ser, era bom para o negócio. Uma missão negócio, levada a cabo pelo soldado empresário, recrutando e empregando vidas alheias. Um corpo a crescer sem um fato a impor o tamanho ideal, definitivo, o tamanho certo. A discussão continuava o seu movimento crescente, tal empresa saudável sem alfaiate, continuaria a crescer até se eleger um vencedor único.

– Epah não me chames isso outra vez se faz favor! Isso do chamar fascista a um gajo, serve para nos calar, mas eu falo e digo o que quero, não tenho medo de dizer o que penso. Tu achas bem, hã? Eu sou Português, trabalho em Portugal, mato-me a trabalhar, para pagar o ordenado a tipos que se calhar têm carros melhores do que o meu? Foda-se ó Ricardo, não me fodas!

– Mas de quem é que tu estás a falar? Tu estás a imaginar realidades alternativas. Olha vai lá um dia à segurança social, e vai lá perguntar se alguém na fila anda melhor montado que tu? Ou se apanham o autocarro ou vão a butes. Tem juízo, sabes lá do que estás a falar.

– Mas responde-me, porque é que não estão a trabalhar? Se precisam tanto assim de rendimento no final do mês, porque não vão trabalhar? E não me venhas com a história de não haver trabalho. Trabalho sempre houve e haverá de haver. É preciso é querer trabalhar.

– Há! Há muito trabalho. Dá para trabalhar na tua empresa com estágios do IEFP. Quando é para ti, tudo bem, o Estado já pode bancar. Pimenta no cu dos outros para mim é tempero.

– Tu sabes lá o que é ter de gerir uma empresa neste Pais. Sabem quanto é que eu pago de IRC, sabem? E os salários que tenho de pagar todos os meses? Queria ver-te. Falas sem saber o que custa a vida pah.

A discussão continuava neste carrocel já o telejornal tinha terminado. Para além dos três homens sentados na mesma mesa transformada de base para refeição em mesa de debate de ideias. Os restos da carne com nervos e as manchas de vinho secas no papel rasgado e dobrado pelos cotovelos irrequietos dos homens, espelhava a natureza desconstrutiva dos argumentos.

O terceiro elemento, o Sr. Fernando, conservava-se mudo, mas como auscultava os outros com toda a atenção, mesmo quando as vozes se sobrepunham, nunca pareceu ausente da discussão. Quando as vozes coincidiam, escolhia uma para acompanhar, assumindo da abafada o contraditório da percebida.

Fernando era um homem moderado. Uma moderação que lhe foi imposta pelo prazer de pensar, ao mesmo tempo por uma aversão ao conflito. Este traço da sua personalidade faziam dele um elemento deveras solicitado para almoços de convívio como este.

Numa paragem na discussão, que mais parecia o fim do combate, Fernando interveio por fim, com o direito que lhe era devido.

– Eu percebo o sentimento de injustiça aqui do nosso amigo José. Porém se tivesse de culpar alguém por me sobrecarregar para além do necessário, como se sobrecarregavam os escravos mais habilidosos nas tarefas que outros se mostravam incapazes ou se recusavam a fazer, eu culparia não os desgraçados que vivem dos subsídios, mas sim os donos e acionistas das grandes empresas. Não falo das pequenas e médias, bem sei como têm de se esforçar só para não ter prejuízo dada a feroz competitividade do mercado.

Acrescentou a parte das pequenas e médias empresas, numa hábil estratégia de demonstrar estar do lado de José, e não contra ele, de maneira a não contribuir para o carrocel de mal entendidos.

Se numa discussão entre homens da mesma classe social, acerca de temas como este, acabar com uns contra outros, deve-se certamente a um mal entendido, onde a parte responsável é deixada sossegada, o que é lamentável.

– Mas então diz-me lá Fernando. – disse Jorge – Para ver se eu compreendo, só quero perceber, nada mais. Tu achas bem? Um tipo que não faz nada, não trabalha não produz, não cria emprego, não faz nada é um parasita. E receba no final do mês? Cai-lhe o dinheiro do céu?

– Parece que essa pessoa que me descreves, sossegadamente quieta, não existe. Antes pelo contrário, o mundo está cheio de pessoas incapazes de sossegar. Encontrar alguém capaz de não fazer nada, é raríssimo. Desafio-te a tentar, e vais ver como é complicadíssimo. O que existe são algumas pessoas, uma minoria infelizmente, que não estão disponíveis para o trabalho não produtivo que gera um lucro desigualmente distribuído por quem de direito. A estes, e aos que nada fazem se os houver, eu digo que sim, devem ter o direito, mais do que justificado, de receber um valor mínimo só por existirem.

Este parágrafo, face a agitação dos interlocutores, foi várias vezes interrompido, e só foi possível a sua conclusão, graças a uma enorme paciência e perseverança de Fernando, que teve de recuar várias vezes no texto, para poder concluir o seu pensamento.

– Tu andas a viver noutro mundo oh Fernando. As pessoas se poderem ficar o dia todo de papo para o ar a ver televisão e a bater punhetas ficam. Desde que tenham alguém que lhes meta a comidinha na mesa, e lhes pague as contas no final do mês, achas que vão mexer uma palha por alguém?

– Se fosse assim, os elementos das famílias com enormes fortunas, fortunas maiores que a soma dos salários anuais de todos os trabalhadores das empresas que detém, essas pessoas não fariam nada. Mas se fores ver, são as mais activas na sociedade. Apenas está ausente das suas actividades, o trabalho não produtivo.

– Mais razão me dás. São os que fazem mais, e são os que recebem mais. Olha a coincidência. Agora é que estás a perceber este mistério da natureza. Quem mais trabalha mais dinheiro tem. Isso é o que eu estou a dizer desde o princípio. E o que está mal é quem não trabalha ter dinheiro.

– Qualquer uma dessas pessoas com fortuna vai ter sempre mais dinheiro do que tu, mesmo não fazendo nada, se fossem capazes claro. O trabalho e o dinheiro não estão diretamente relacionados como sugeres. Podes-me dizer, porque trabalharam antes. Eu diria porque tiveram pessoas, as tais pessoas que acusas de ociosas, durante várias gerações, e ainda hoje, a trabalhar para as suas fortunas. Esta é a justificação para todos terem direito a uma renda, mesmo os muito raros que nada querem fazer. Este pode ser um argumento para uma renda para todos, poderás dizer, e com razão, que é um argumento fraco, aceito. De qualquer maneira, mais fraco ainda é um argumento que justifique a desigualdade de riqueza do homem mais rico contra a do mais pobre. A única justificação que consigo imaginar, é um terrível erro de cálculos.

– Mas espera lá – interveio Ricardo, animado por ver a discussão circular de à pouco desbloqueada – Estás a dizer que se todos recebessem, vamos supor, 500 euros só por existir, todos os meses, achas que iam aparecer voluntários para apanhar o lixo, cozer o pão, servir à mesa?

– Como hoje são desempenhadas estas tarefas não produtivas, espero bem que não. Mas acredito que continuava a haver quem apanhasse o seu lixo, não o da cidade inteira, quem cozesse o pão e servisse os seus à mesa.

– És um utópico.

– Nem por isso. Sei que se amanhã aprovassem o que eu sugeres, uma mensalidade de 500 euros para todos, muito provavelmente isso significaria um enorme caos social. De qualquer maneira isso não me impede de imaginar um futuro onde tal seja possível, um futuro melhor para todos.

– Para todos não. Um futuro melhor para os pobres, os ricos saem prejudicados.

– Acho que esta ideia é o maior impedimento para a realização desta utopia. É uma ideia tão antiga como a civilização, esta de que é melhor ser rico do que pobre. Esta comparação entre classes valida, quase sem darmos por isso, a constante comparação entre os Homens. Enquanto existirem classes sociais, ser pobre é evidentemente pior do que ser rico. Porém o rico tem duas ameaças: o sentimento de estar a tratar injustamente o outro, e o medo de se tornar pobre. Já para não falar constante ameaça de revolta do povo. Bem sei como o grito de revolta perde força mal é lançado, como uma onda, ao longo da hierarquia social, sujando apenas de uma leve espuma os que ocupam o topo. Todavia os tsunamis são fenómenos naturas, que sucedem sem dar aviso.

– Basta um rápida passagem pelos livros de História, e verás como tudo o que é ser vivo só consegue alcançar um lugar comum com o outro, se for uma relação de poder. Viver em comunidade sem classes socias, é ainda mais Utópico do que a tal mensalidade de 500 euros.

– Não me compararia a todos os seres vivos. Pelo menos no que diz respeito a questões éticas. Parece-me que o humano tem atributos que o diferenciam de um crustáceo ou um búfalo. Todavia, apesar de não ser historiados, receio ser verdadeiro existir preferência pelas relações de poder, de maneira a facilitar a vida em comum. Porem se ousássemos contrariar esta tendência para a mimética, pudéssemos descobrir uma forma nova de nos relacionarmos. Eu consigo com o meu gato, é um começo esperançoso a realização desta descoberta.

Aproveitaram a nota humorística para encerrar a discussão. Num tom mais leve ainda manifestaram o seu mais sincero desprezo pelos muito ricos, chegaram a nomear alguns mais mediáticos. Antes de abandonarem o restaurante, para não dar o braço a torcer, José disse ainda.

– São os ricos e os pobres. Uns não fazem nenhum porque não precisam, outros não fazem nenhum porque não querem – e finalizando, para juntar-se aos seus companheiros, evocando a camaradagem incondicional de quem se junta à mesa para comer, acrescentou – nós é que andamos aqui a empurrar este Pais para a frente.

Um nós que prossuponha um eles, e o mal estava feito. Fernando sentiu-se tentado em repetir como os pobres oferecem-se diligentemente, contra todas as expectativas, para servir de qualquer forma a qualquer troco. Libertando os ricos para as desafiantes e indesejáveis tarefas de governação de um povo. Não caiu na tentação. Que a sociedade funciona assim, ninguém pode afirmar o contrário, basta enfiar a cabeça de fora da janela, e constatar os movimentos em redor. A questão não é essa. A questão é mais profunda, tão profunda como a necessidade intrínseca do humano por justiça, e por não estar só no mundo.

Ricardo aceitou as tréguas subentendidas de José, e os três agendaram por alto o próximo almoço

Assim foi a discussão.

Dias mas tarde José recebe uma chamada de um canal de televisão, congratulando-o por ter sido escolhido para servir de concorrente no programa Joker, um programa de perguntas e respostas transmitido todos os dias úteis na estação de televisão pública. Para participar, é-lhe exigido que leve consigo outra pessoa, que sirva de co concorrente, sem a qual a sua participação não poderá ser aceite. José lembrou-me imediatamente do seu amigo Ricardo.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

O pintor Daltónico

O dia adivinhava chuva sem demonstrar muita vontade de cumprir a promessa. Gonçalo tinha uma hora de almoço. Estava sem apetite mas tinha de ser, a hora estava marcada, há que fazer um esforço e empurrar a comida para onde irá fazer falta num futuro próximo. A facilidade de forjar o acto de mastigar ajuda a empurrar a comida mesmo em gargantas mais secas. Em último caso engole-se como se fosse comprimidos, e fica-se a dever um favor ao estomago. Neste caso extremo é aconselhável o uso dos talhares como alternativa aos pauzinhos.

Pediu um dos cinco menus pensados para adivinhar a imprevisibilidade do voracidade humano. O menu dois era o que melhor se ajustava ao seu apetite, uma sopa de cenoura, uma bifana enfiada no meio de uma carcaça, e um chá frio de limão. Quando o informaram que ia demorar um bocadinho ficou dividido, por um lado não lhe agradava a ideia de desperdiçar um atraso por culpa alheia, por outro lado conhecia o bem que o tempo faz aos apetites. Exigiu uma estimativa como garantia, e aceitou a espera.

O tabuleiro foi-lhe entregue antes de terminar o prazo do ultimato, dividiu-se novamente. Com esta segunda divisão ficou partido em quatro, nenhuma podia chegar atrasada ao trabalho.

Sentaram-se os quatro numa mesa onde só cabia uma pessoa. Esta incongruência capaz de arrancar do sonho mais profundo o mais crédulo dos sonhadores, não incomoda a vida de um sonâmbulo.

Olhou para o relógio, acreditava que quanto mais vigilante fosse do relógio, melhor controlo tinha do tempo. Comia lentamente a sopa, evitando com a colher a rodela de ovo cozido, para não ficar muito cedo com nada sem ser a monótona cor laranja da sopa de cenoura. Acompanhava cada colherada com respostas ao que os seus companheiros de mesa perguntavam. Um deles perguntou, num tom algo provocativo que não passou despercebido a Gonçalo, como tinha aguentado tantos anos a pintar paredes.

– Eu tenho uma característica que muitos pintores não têm, é esta capacidade de criar mundos na mente. Se fores ver as minhas médias, sou dos que passa mais tempo seguido agarrado ao pincel, sem tirar os olhos da parede, porque consigo desenhar em cima da cor formas em movimento.

– Mas não gostas de fazer pausas, para fumar um cigarro, ou beber um café?

– Também faço, claro. Mas não há melhor pausa do que esta fuga para dentro. A liberdade que se pode encontrar para dentro, é incomparavelmente superior à que se encontra para fora.

– Não te faz mal estar tanto tempo a olhar para a parede?

– Tem um preço a pagar. Quando termino de pintar, fico algum tempo a ver o mundo da cor da parede acabada de pintar. O mais desagradável é agora não ser eu a desenhar as formas e fazer delas o que quiser, como me tinha habituada a fazer com aquela cor. Eventualmente os olhos ajustam-se ao mundo e à sua variedade cromática, e eu aceito as formas e os seus movimentos sem mais frustrações.

– Então se sabe isso, porque fica tanto tempo a olhar para a parede?

– É uma boa pergunta. Talvez seja…

O telefone tremeu-lhe no bolso. Uma notificação persistente que ele não sabia desativar.

– Por exemplo, isto que aconteceu agora. Não foram os do meu grupo sanguíneo seguramente os responsáveis pela invenção do telemóvel. Se os fabricassem em forma de algemas, tornava-os mais fieis ao que são. Onde é que tínhamos ficado? Estava a pensar em qualquer coisa antes disto.

Comeu a rodela de ovo cozido na penúltima colherada. Não quis deixar para a última porque assim podia escolher; terminar com um colher de sopa com ovo, ou com uma colher de sopa sem ovo, igual às outras todas.

Depois da sopa estava comido. Olhou para a bifana como quem olha para uma decoração de plástico em forma de alimento. Se o acto de mastigar pode ser facilmente falsificado, o de comer não. Comer requer vontade, sem vontade mastiga-se e engole-se, até o observador mais distraído consegue dá pela diferença.

A bifana não estava partida em duas partes iguais. Tal nunca seria exigido a quem fez o favor de a cortar ao meio. Apesar disto a disparidade de tamanho de cada metade era exagerada. Escolheu começar pela maior, ao levanta-la do prato, a outra veio atrás. A fatia superior da carcaça e a carne tinham sido separadas com sucesso, o mesmo não se podia dizer da base assente no prato. Quem preparou a sandes podia ser muito eficaz a cortar pessoas em quatro, mas deixava muito a desejar no corte de bifanas ao meio.

Partiu com as próprias mãos a base do pão, finalizando o milagre da duplicação, e desferiu a primeira dentada. Uma grande dentada uma vez que era a primeira, e não sabia até quando ia continuar a ser capaz de enganar a fome. Tinha de aproveitar cada dentada, quantas menos desse melhor. Assim que começou a mastigar identificou os seus pontos fracos da sua estratégia. Não é fácil desintegrar tanta comida quando a sua descida não está a ser solicitada. Engoliu ainda a bifana era bifana e não bolo alimentar.

A segunda dentada foi menos ambiciosa e por isso entregue ao estomago com melhor apresentação. Pousou a metade da bifana no prato, era muita comida! Mais do que precisava para o resto do dia. Lembrou-se de embrulhar para mais tarde, procurou uma boa desculpa para não o fazer, encontrou a de ter de transportar um resto de bifana consigo até encontrar o seu apetite. Não queria pressionar, nem ficar refém do seu apetite.

– Nem tudo é bom sabem?

– A que se refere?

– Ser livre para desenhar as formas e escolher o cor de fundo é um prazer enorme, quase como uma droga, mas há sempre um preço a pagar. Li em qualquer lado que só se sonha a preto e branco.

– Isto do preço a pagar não será um catolicismo capitalista. Não sei se podemos aplicar esta ideia a tudo. Ou se precisamos de aplicá-la ao que quer que seja.

– Vamos fazer uma pausa na conversa. Tenho de comer isto e assim não é fácil.

– Porquê?

Levantou a cabeça e endireitou a coluna, à procura do silêncio, nem que fosse por um instante. Depois voltou à bifana e a um dialogo interno menos esquizofrénico.

Não consigo comer tudo o que tenho no prato, mas se conseguir mais duas dentadas, pelo menos termino uma parte, já é qualquer coisa, e depois quem sabe? A outra metade é mais pequena, no rigor se comer esta metade já estou para lá do meio, mais perto do fim do que parece. Por outro lado se fiquei cheio à primeira dentada, as minhas perspetivas não são as mais animadoras.

Porque é que quem come 17 bifanas tem uma história para contar, mas ficar a rebentar pelas costuras com meia sopa não é notícia para ninguém.

– Há uma dose mínima de alimento a consumir para se ter voz.

Ainda tinha o sumo. Lembrou-se de ter assistido a uma competição de devoradores de cachorro quente. Antes de cada dentada mergulhavam o cachorro num copo com água, como quem molha bolachas no chá. Este maneira pouco usual de se ter uma refeição estava legitimada pelo prémio, em dinheiro, entregue ao vencedor. Não ia fazer o mesmo evidentemente. Apesar de a sua refeição ser, de uma manira mas indirecta, para ganhar dinheiro. Fosse como fosse, ali naquela mesa, a bifana não encaixava no copo.

Bebeu um bom bocado de sumo. A mudança de sólido para o líquido restaurou-lhe alguma confiança. Antes de a perder, não acontece só com o apetite, levou a bifana à boca e abocanhou um bocado quase igual à primeira dentada. Faltava uma trinca, e a metade mais pequena, nunca pensou chegar tão longe.

Equacionou a estratégia de começar a metade que faltava antes de terminar a outra. Sabia bem o que este caminho queria dizer, era dar-se por vencido. Era comprometer-se em aceitar a refeição como terminada com um resto por comer à vista de todos. Por mais insignificante que fosse, não podia ignora-lo, marcava o seu fracasso, e todos os significados que se podia tirar dele. Um prato vazio é uma refeição terminada para ele e para o senso comum, um prato com restos é uma refeição terminada para quem passou a ver restos onde antes jurava ver comida.

Encheu a boca com sumo e juntou-lhe o resto da primeira metade. Com tempo a criatividade junta as formas que sem tempo não se encaixam. Só faltava a metade mais pequena da bifana. Nunca pensou ser capaz de comer tanto. Visto por quem passa, era um homem sentado à mesa a almoçar, mas de perto, visto a partir dos seus olhos, era um feito heroico.

Parou, sentia-se cheio. Não precisava de comer mais. Nem naquela refeição em contra relógio, nem nas próximas.

Se tivesse dito isso a alguém, qualquer pessoa, veria reflectido na cara do outro interlocutor a pouca probabilidade de isto ser verdade. De outra maneira não havia como provar o contrário, pelo menos naquele momento.

– E se terminar a bifana? Se com o que já comi assegurei alimento para o resto da vida, se comer o resto, fico até com uma margem de segurança.

A brilhante conclusão a que chegara não lhe abriu o apetite, tal seria fatal para a sua nova filosofia. Um último esforço, pensou, vou empurrar isto para dentro, e depois acabou-se, seguem-se anos sem sobressaltos a favor do vento, indiferente ao destino até porque vou de boleia.

Deu a primeira dentada e uma das últimas da sua vida. Olhou para o que já tinha feito, sentia-se cheíssimo, se fosse qualquer outra refeição teria terminado ali, mas aquela era a última, e agora que estava tão perto do fim, não se ia embora sem comer tudo.

Guardou um resto do sumo para o fim, para limpar o sabor da carne, uma vida fluida como os líquidos, livre da tirania das formas sólidas. Agarrou no resto da bifana e enfiou-a toda na boca. Foi o fim não consumado porque faltava mastigar. Mas era irreversível, como o movimento de uma ratazana no interior de uma jiboia. A boca do animal fecha-se, e o corpo engolido só volta a ver as cores quando se metamorfosear.

Mastigou pela última vez, engoliu e bebeu o sumo. Olhou para o relógio, estava algumas horas atrasado. O estômago pedia-lhe para caminhar sem inventar um destino espacial ou temporal. Estava a dever um favor ao estômago desde a primeira dentada, não podia nem queria recusar-lhe aquela vontade. Levantou-se e começou a andar.

Tanto quanto sabemos, não voltou ao seu trabalho de pintar paredes. Continuou cheio, e cheio de vontade de caminhar, cheio a dobrar. Não havia qualquer razão para ir pintar uma parede ou o que quer que fosse. Já tudo levou a primeira de mão há muito tempo.

Afta

Apareceu, no céu da minha boca, uma ferida a qual chamei afta. A palavra veio-me à minha cabeça, onde está o meu céu da boca, e onde por sua vez apareceu-me a afta, que é uma ferida, no céu da boca.

Toquei-lhe com a língua, foi uma sensação incrível. O receio, devido ao inusitado de tudo aquilo, fez-me hesitar antes de repetir o toque. Vencido o receio, perdi a contagem. Mas posso-vos dizer, não me orgulho, mas como é bom para a saúde partilhar o que pensamos, vou dizer: Houve dias, dias inteiros, que não fiz mais nada se não lamber a ferida.

Devo explicar-me. Afinal é para isso que cá estou. Faço-o mais por mim, sou egoísta. Às vezes tenho de me explicar em voz alta. Não me chego a perceber. Não, isso seria pedir demais, e seria até assustador. Não sei o que faria, se um dia percebesse o que quer que fosse.

Passo a explicar-me. A ferida, que por definição é o que está depois da carne, lambida, produzia em mim uma sensação de infinito. Cada lambidela produzia mais infinito. No espectro das sensações, fica no extremo oposto de nenhuma sensação. Ironicamente, uma conduz à outra. A de infinito à de nada, a de nada ao infinito.

Não percebo. Melhor assim, perceber não me ia fazer nada bem.

Vou arriscar uma explicação! É assim que elas começa, as enxaquecas.

Admito tratar-se de um vulgar problema de armazenamento. Nada mais do que um simples problema logístico.

Passo a explicar pela segunda vez, porque a primeira pareceu-me insuficiente.

O infinito, sentido, é constituído (como se pensa ser constituído tudo o resto) por protões e electrões. Estes electrões e protões têm de estar em algum lado, antes de ir para lado nenhum. Ora quer-me parecer, existir algures em mim, um local onde são armazenados. Quem trata das feridas seguindo os conselhos do médico, e não como um cão como eu faço, nunca tem o armazém a rebentar pelas costuras. Como vos disse, passei um dia inteiro a lambuzar na ferida. O armazém não podia receber mais encomendas, houve uma ordem de esvaziamento, abriu-se um buraco negro em mim, e despejou-se aquilo tudo para o buraco.

Isto tudo para explicar o quê? Entretanto esqueci-me.

Enfim.

Deixei de sentir infinito. Ainda assim, sentia algum prazer ao tocar na ferida. Depois uma dor agradável, leve, e depois aquilo infectou. Tive de ir ao médico, ele disse-me que eu era um animal. Eu disse está bem senhor doutro, mas diga-me, isto é caso para eu me preocupar? Deu-me um antibiótico. Só pediu para eu não o misturar com álcool. Deve ter ficado com uma má ideia a meu respeito. Apesar de eu me ter explicado, quando não precisava. Acho que foi quando falei em protões e electrões, que ele deixou de me levar a sério. Se tivesse, em vez disso, falado em bactérias ou vírus, para mim é a mesma coisa.

Hoje, porque isto já se passou alguns anos, passo a língua e não sinto nada.

Mas é um nada confortável, é sempre um bocado triste, deve ser pela lembrança do que foi. Não podia continuar assim, estava a infectar, disse o médico.

Enfim.

Se calhar não estou a passar a língua no sítio certo. A memória não é nada precisa.

Enfim.

Quando voltar a ter uma afta, porque o médico falou-me da forte possibilidade de isto voltar a acontecer, só não percebi porque falou dessa possibilidade como se fosse algo a evitar.

Enfim.

Quando reaparecer, tenho já as horas marcadas para cada lambidela, fiz uma folha no excell. Se me comprometer, exige algum compromisso, por mais que custe, se conseguir seguir o plano à risca.

Enfim.

Hei-de me habituar à rotina. Se correr mal, esvazio-me e volto ao antibiótico. Sobraram alguns comprimidos da última vez.

O que me fui lembrar

Eu não sou isto que aqui vês

Este é o corpo que uso para ser nos outros tudo aquilo que posso ser

Estou cansado, o meu corpo está gasto

Porque já sou muitas coisas nos outros

O que vai ser de mim quando os outros morrerem

Eles que transportam o meu verdadeiro eu

E o que vai ser dos outros quando eu morrer

Eu que tenho em mim tanto que não me pertence

Não entendido

Tudo isto não passa de um mal-entendido. Só saio de casa quando tem mesmo de ser, normalmente é quando a comida acaba. Antes nem isso, mas de tanto praticar a autofagia, nas suas mais variadas formas, desenvolvi uma intolerância à minha própria carne.

Julgo que irreversível. Nada de grave.

Regresso pelo meu pé com comida e aquilo que se agarra aos sapatos. Deixo-os à porta por precaução. Evitar tanto quando possível contaminar o interior com o exterior. Não mistura-los de maneira que o seu segredo não se revele aos nossos olhos, que só vêm um lado de cada vez.

Não sei se me faço entender. Estou a falar da auto-sustentação de tudo. É preciso acreditar num certo grau de diferenciação. A nossa carne e a carne dos outros não podem ser a mesma.

Pode ser que esteja a fazer um mal-entendido por não perceber o valor das transacções.

Não gosto de ficar a dever. Não quero o mundo à porta, a exigir o que quer que seja de mim. Não suporto ficar em dívida por não ser clara a forma, o momento, ou a vantagem de pagar de volta.

Temo desequilibrar a balança. Ou por não ser capaz de saldar a dívida, ou por ter entendido mal os contornos da transferência.

Por isso deixo os sapatos à porta. Se aconteceu trazer algo por engano agarrado à sola, fica do lado de fora. Alguém há-de se apropriar, e fazer o que deve ser feito.

Não sei o que deve ser feito.

Saber só pode resultar em duas possibilidades:

Ou recusamos o mundo, para não ter de andar sempre a incomodar-nos com o não saber o que fazer com as coisas que nos são oferecidas.

Ou ficamos com tudo. Guarda-mos tudo em nós, na nossa casa, tudo o que nos é oferecido.

Eu não faço parte dos que se encaixam na segunda possibilidade. Se pudesse receber visitas, estas confirmariam como tenho a casa vazia.

Todo o pó lá em casa cai em cima de mim, por falta de opção. Tenho pó atrás nos dentes, à frente dos olhos, por baixo das unhas. Uma vez por mês recebo nas escadas uma senhora que faz limpezas. Tira-me o pó todo. Diz-me depois que é meu, o pó. Eu respondo que não, não é. Pago-lhe e volto para dentro. Deixo-a com o meu dinheiro mais o meu pó, de maneira a certificar-me que o saldo continua a tombar para o meu lado.

Ela não se rala com isso, não se importa de ficar a dever. Tem mais com que se preocupar do que com o equilíbrio universal.

O que lhe é destinado é, o que não é não é.

É preciso um certo grau de relaxamento, despreocupação, para aguentar, acompanhar, tanta transacção em andamento.

Quando se acha que se está muito para um lado, ou para o outro, é precisa lembrar como tudo não passa de um mal-entendido.

Um mal-entendido serve para justificar um erro por excesso, ou por escassez. Os mal-entendidos resolvem-se da mesma maneira como acontecem. Exclusivamente pela mão divina. O Homem não tem acesso a esta funcionalidade. Está bloqueada.

Sei de certas coisas.

Sei fazer trocas para obter alimento, sei relacionar-me com a mulher que me limpa o pó, e sei que quando saio à rua, tudo não passa de um mal-entendido.

Paraíso perdido, eventualmente

Não se encontravam há tanto tempo que era como se agora fossem estranhos um para o outro. A sua história ficara tão esquecida, que agora vista à distância, pareciam ser duas histórias distintas. Uma para cada. Bastante parecidas. Se as comparássemos podia-mos até arriscar dizer que pertenciam à mesma peça. Se sim ou se não, é um assunto que só interessava à arqueologia.

Beijaram-se à porta do centro comercial e como estavam atrasados foi só isso que fizeram. Entraram apressados centro comercial a dentro, ela na liderança, porque sabia melhor o caminho.

Temos de nos despachar. Não acredito que vamos perder o filme.

Pensei que era às e um quarto. Mas vamos conseguir. Queres correr?

Ela começou a correr imediatamente a seguir à sugestão. Estava só à espera de uma autorização para desautorizar as boas maneiras que mandam não correr em espaços públicos com muita gente. Chegaram ao mesmo tempo à bilheteira. Não estava ninguém na fila.

Bom dia, noite. Eram dois bilhetes para, nem sei como é que se chama o filme, mas começa com P. tens aí a dizer?

Se era para a sessão das oito já não há. Só para a próxima.

Ah porra não acredito. Não pode ser. Eh pá que chatice.

Pois. Já não posso mesmo fazer nada. O filme já começou.

Oh começar não começou, não pode ter começado, só passaram cinco minutos.

Pois.

Granda chatice. E a que horas é a próxima sessão?

Às 23h30.

Só? O que é que vamos fazer aqui até as onze e meia. Nada. Não há nada para fazer. Bem. Obrigado, vamos pensar.

Afastaram-se da bilheteira. Ele ainda não tinha expressado o seu desagrado porque não tinha a certeza se não era melhor assim. Estava expectante por saber o que iam fazer agora.

Bom. Então como é que estás? Parece que temos muito tempo para meter a conversa em dia.

Três horas de vinte minutos. Temos três horas e vinte minutos.

Onde é que queres ir?

Tanto faz. Onde é que queres esperar?

Vamos até ao parque.

Saltaram o gradeamento e entraram numa zona coberta por relva que, a avaliar pela ausência de uma passagem para o seu interior, devia estar interdita a pessoas. Contudo estava cheia de vários grupos pessoas, sentadas a desfrutar os últimos raios de sol daquele dia. Sentaram-se os na relva sem saber exactamente como iam preencher aquele tempo não contabilizado pelos seus planos.

Comecei a praticar tai chi chuan. Relaxa-me imenso. Então agora.

Ainda estás a morar no mesmo sítio?

Qual sitio?

Já não me lembro para onde foste morar. Mas é o mesmo não é.

Sim deve ser. Já lá estou à tanto tempo que deve ser. E tu? Ainda és pintor? Ou já começas-te a ter dinheiro para pagar as contas?

Eu não tenho grandes contas para pagar. Quando moravas comigo era outra conversa.

Sempre paguei tudo. Que me lembra. Mas se te estou a dever alguma coisa.

Não não. Estou a brincar. Não me deves nada.

Boa. Então hoje pagas tu o jantar.

Ambos experimentavam posições para se sentar na relva. Ora de mãos atrás a apoiar o tronco, ora abraçando os joelhos com os braços, cruzando as pernas uma por cima da outra. Iam-se imitando um ao outro, à procura de uma posição confortável. Uma posição conseguissem manter por muito tempo sem dor. Já não acreditavam em posições para o resto da vida. Mas se descobrissem alguma, que fosse suportável e até desse ao corpo algum prazer, iriam mantê-la pelo menos até ao último raio de sol. Por enquanto continuavam a tentar. Ela decidiu repetir a das mãos enterradas na relva a servir de suporte, e pernas esticadas em V. Ele foi copiou.

Estou a pensar mudar-me para aqui. Estou cansada de Sintra. Aqui pelo menos posso sair à rua, ver coisas acontecer.

Queres trocar comigo? Eu estou cansado de ver coisas a acontecer. Se não acontecesse mais nada, por mim estava óptimo.

Às vezes mereces que te metam um espelho à frente quando dizes certas coisas. Já nem me lembrava dessa tua… maneira de dizer as coisas.

Qual maneira de dizer as coisas?

Não. Eu preciso de pessoas com vontade de fazer coisas na minha vida. Dividir a casa com mais, sei lá, uma data de gente.

Mas que coisas é que queres fazer?

Sei lá. Passear pela cidade junto ao rio. Comer numa mesa cheia de gente, numa esplanada iluminada por luzes de natal, e música vinda de todos os lado. As ruas cheia de gente a noite inteira, até depois de nos irmos deitar.

E o teu marido vai a esse jantar? Ou só aparece mais tarde?

Mais adiante três pessoas, separadas por uma distância considerável, atiravam um disco entre elas. Um cão corria de um lado para o outro atrás de uma bola arremessada pelo dono. E um rapaz dizia qualquer coisa ao ouvido da namorada que a punha a rir descontroladamente.

Vamos jogar ao disco com eles?

Vamos. Deixa-me só descansar um bocadinho.

Deitou-se de barriga para cima na relva. Ela chegou-se mais para perto dele, e esticou-se da mesma maneira. Nos seus campos de visão passou só a existir um azul avermelhado que escondia as estrelas, mas não por muito tempo. Os pássaros faziam as suas últimas passagens por aquele plano azul e vermelho. Dali por uns minutos iam interromper o seu voo por umas horas. Iam esperar abrigados num ramo de uma árvore qualquer. Quando o sol decidisse voltar, arrancavam dos ramos das árvores para retomar o seu voo incessante.

Está-se bem aqui. Melhor do que no cinema.

Isto é um bom plano. E estamos deitados. Sempre é melhor do que sentados a ver pessoas a fingir que estão a fazer coisas.

Porque é que as pessoas fingem que estão a fazer coisas?

Não sei. Nunca pintei um céu. Já pintei tanta coisa. E nunca me passou pela cabeça pintar a merda do céu.

Passas pouco tempo nesta posição. Este já não pintas.

Podia-lhe tirar uma foto e pintar amanhã.

Para que é que vais pintar um céu?

Amanhã também não podia. Tenho tanta coisa para fazer amanhã.

Queres ir andando? Está a ficar frio não está.

Sim quero. Vamos.

O amor é um curto circuito dizia Beckett. Foi uma sorte, à falta de uma palavra certa para explicar o que aconteceu. Quiseram os dois deitar-se juntos, e quiseram os dois, ao mesmo tempo, começar a caminhar.

Os que ficaram, os outros exemplos pessoais no parque, não tiveram a mesma sorte:

Das três pessoas que jogavam frisbee, uma perdeu a vontade de continuar a brincadeira muito antes das outras duas. A rapariga queria continuar a rir-se, mas o rapaz não tinha mais nada engraçado para dizer. E o dono do cão fartou-se de lhe atirar a bola. Quando o cão estava capaz de continuar a correr atrás daquela bola para o resto da sua vida, ou até lhe acabarem as forças.

Subiram lado a lado a rua, muito devagar. Qualquer que fosse o seu destino, queriam que este chegasse dali por muito tempo. Tal como fizeram na relva, com as posições do corpo estático, começaram a experimentar agora em movimento. Ela contou dois tempos enquanto ele deu um passo. E pensou que conseguia melhorar o tempo dele para o dobro. Ele topou que ela dava agora passos de quatro tempos cada. Foi ambicioso e no passo seguinte demorou-se, vejam bem, dezasseis tempos. Ela quase que ia tropeçando e se esbardalhando no chão tal fora a mudança de velocidade. Mas não se deixou ficar, e apresentou-lhe uma incrível passada de cinquenta e nove tempos.

Na manhã seguinte quando os pássaros arrancaram voo dos ramos das árvores, eles ainda estavam a subir a rua.

Meses, bolos e livros

Foto por Magda Ehlers

Um mês não é nada na vida de uma pessoas. Espera-se que passem doze, e depois é só repetir o ciclo umas cinquenta a setenta vezes, e o que quer que seja que aconteceu acabou. Uma caixa de bolos sortidos aumenta de valor com o tempo. Quando está cheia, ainda por abrir, qualquer um que peça “pode-me desperdiçar um dos seus bolinhos?” recebe um educado “sim” como resposta, daqueles que saem apressados atropelando a pergunta, para que não restem dúvidas quanto à boa vontade de quem tem está bem abastecido. À medida que os bolos vão sendo devorados pelas bocas esfomeadas, até o mais generoso dos seres deita uma olhadela para dentro da sua caixa antes de ceder o bolo. Nem que seja só para avaliar o sortido da situação, e imaginar o futuro com mais ou menos bolos.

Os meses não são como os bolos sortidos. Bem sei. Eu bolos cedo todos a quem quer que seja. Podem levá-los. São mais as bocas às quais dou prioridade em relação à minha, do que as que não dou. Gostava de poder dizer que dou a todas, mas a minha reduzidíssima capacidade de tirar conclusões, convenceu-me que andam por aí alguns cabrões que não merecem bolos.

Posso estar enganado, espero até estar. Equivocadamente sentado no meu sofá extensível, em frente a um computador com ligação à Internet, e uma caixinha de bolos sortidos meio comida, com especial cuidado para manter a variedade que lhe deu o nome. Não é fácil manter a disponibilidade de sortido equilibrada quanto à sua variedade. A subjectividade não ajuda na luta contra as desigualdades, mas faço um esforço, contra os meus princípios. Sou pela igualdade, mas contra o esforço. O que me deixa numa situação muito delicada.

Quanto à diferença entre bolos e meses, quanto a mim: os bolos sei para que os quero. Os meses é outra conversa.

Cheguei a ter em minha posse, ao alcance dos meus braços portanto, um livro. Sempre que o lia, não percebia nada das palavras impressas. Conhecia-as quase todas, e as que não conhecia ia logo consultar o seu significado no dicionário online, para não ter de procurar no de papel, que por desuso deve andar perdido por ai numa gaveta. Pelo menos não apanha tanto pó.

Nem assim percebia o que é que aquele livro me estava a dizer. Ora culpava-me a mim, ora culpava o livro. Não encontrava utilidade para aquele objecto. Não o vendi logo porque havia qualquer coisa nele, na forma talvez, a cor das páginas, o tipo de letra, até algumas palavras em certos parágrafos, tiradas do contexto que eu julgava que tinham de estar devido ao seu paradeiro. Mas acabei por vender.

Não me lembro quanto me deram por ele. Sei que já não tenho esse dinheiro. Devo ter comprado algo, cuja a utilidade vem escarrapachada no livro de instruções, escrita por alguém que sabe o que quer e por isso sabe também o que o cliente quer.

Passado alguns meses, numa das minhas navegações pela Internet, sentado no sofá e bem sortido, encontrei o livro à venda por um milhão de euros! Um milhão de euros! Passei meses a refrescar a página. Até que um dia refresco, e leio “vendido”. Vendido!

Alguém fez um lucro absurdo com o meu livro. Porque eu não quis esperar até lhe encontrar utilidade. Ou não soube ver a sua utilidade. Ou não trabalhei na procura da sua utilidade. Ou simplesmente não aceitei a sua ausência de utilidade, e fiquei com ele mesmo assim só porque era belo. Por ter qualquer coisa de belo, único, irrepetível, que apesar de não poder compreender, não significa que o deva ceder, entregar de mão beijada ao outro, que o trata como um artigo de compra e venda.

Os meses, os livros e as bolachas. Aguentava-me só com estes três uma vida. Desde que não me viessem falar do tipo que agora abriu uma empresa, e ganhou um prémio de empreendedor, e dá entrevistas e discursos, tudo com o dinheiro que lucrou com o meu livro! Se me lembrar do tipo, que eu nem sei quem é, salto já do sofá extensível, desassossegado e irado, e só volto quando me sentir vingado. Só volto para o sofá quando recuperar o meu livro!

Espero quando voltar que ainda me restem meses e bolachas suficientes para acabar o acabar de ler em sossego.

Número desconhecido

Andava de olhar intermitente entre o telemóvel, pousado no braço do sofá onde estava, e as imagens transmitidas no televisor. Mesmo assim quando este tocou, ele deu um salto. Uma respiração profunda e atendeu, ansioso por ficar a saber a quem pertencia aquele número desconhecido.

– Estou Rui! Então pah ando-te a telefonar há três dias. Tu não atendes. Tenho aqui isto tudo parado! O que é que vai na tua cabeça?

– Desculpe. Eu não sou o Rui.

– Não é o Rui? Rui Gomes? Este não é o número do Rui?

– Não. Não senhor. Deve ser engano. Eu chamo-me Ricardo.

– Eh pá, granda bronca! Ai, e agora!?

– Pois agora realmente não sei…

– Ah, o que é que eu vou fazer à minha vida. Então tenho aqui mais de 500 mil euros e tu queres ver que levei banhada.

– Pois. Eu não sei como o …

– Epah. Olhe… deixe… Foda-se…

Desligou e foi à sua vida, certamente bastante contrariado. Ricardo estava aliviado por não ser nada com ele. Se soubesse que era engano, tinha atendido há mais tempo. Mas todo o cuidado é pouco. Animado, já nem recordava porque andava tão preocupado, resolveu ir comer um bolo. Levantou-se do sofá, calçou-se, carteira no bolso de trás, e saiu pela porta fora.

Entrou no café que tinha em mira. Era um café pacato, frequentado por não mais de três ou quatro comedores de bolo por semana. Aquele fluxo de clientela só não ameaçava o negócio, porque o proprietário já ia nos noventa anos de vida vivida a vender bolos, pasteis, e umas bebidas para não empachar. Se aos noventa ainda não se conseguiu alcançar a independência financeira, única razão para um comerciante se sentir seduzido a empachar o seu estabelecimento comercial com estranhos, não é aos noventa e um que as coisas vão melhorar.

Expostos no balcão de vidro, ali desde 1960, quando aquilo era novidade e motivo para espanto, estavam os habituais bolos da casa. Na prateleira de cima estava, por esta ordem:

Um croissant de chocolate bem cozido, com pepitas de chocolate a cobrir a parte mais alta, e chocolate a sair das duas extremidades. Sugerindo que o interior do bolo não era um vazio de massa amanteigada.

Um bolo Húngaro recheado de doce de framboesa, com a framboesa também a sair de fora, produzindo o mesmo efeito do chocolate no croissant, e confirmando que naquela casa não se poupa no recheio.

Uma bola de Berlim cheia, mas cheia a abarrotar, de creme de ovo. De tal maneira que até a montra estava besuntada. Dava a sensação que só era seguro pegar naquela bola de luvas. Trincá-la então só de babete e toalha de praia por perto.

Por fim um bolo de arroz comprado no super mercado da frente, para completar a fila e não ficar o espaço vazio.

O dono daquela montra tinha horror aos vazios. Por isso mesmo não havia prateleira de baixo. Sempre que não havia bolos ou pasteis suficientes para preencher as prateleiras, estas eram arrancadas, e escondidas bem longe do olhar.

Como já era tarde, e a casa só recebe três clientes por semana, aquilo estava até bastante composto de bolos. Podia até sobrar.

Ao ver entrar o que era provavelmente o seu primeiro cliente do dia, o senhor nonagenário desejou que ele fosse guloso ou estivesse esfomeado. Ou, se não era desejar muito, as duas coisas. Se fosse as duas coisas os quatro bolos iam à vida, e ele fechava mais cedo.

– Ora bem vindo à nossa humilde casa onde o lema é servir bem bem servir, dá saúde e faz sorrir. Diga-me em que lhe posso ajudar. Temos croissant com chocolate belga, feitos em França e importado exclusivamente para este humilde estabelecimento, temos depois aqui um último, que sobrou…

Para a idade, o homem tinha uma energia admirável. Ricardo deixou de o ouvir, porque já vinha com ela fisgada para comer uma bola de Berlim.

– Pode ser a bola de Berlim. E um gin-tónico! Primeiro o gin se fizer o obséquio.

Entornava pequenas porções de gin com água tónica para dentro da boca, com a calma de um verdadeiro degustador. O velho foi buscar um prato de sopa, para fazer o transbordo da bola com segurança. Nisto o telefone toca. Ricardo, que tinha lábios, dentes, língua, copo gin, gin, tónica, tudo junto sem cumprir a distância social, numa orgia de frescura lubrificada a saliva, deu um salto que até o fez babar o balcão de 1960.

Número desconhecido! Não recordava se era o mesmo número. Aquele que andou convencido de estar a ligar para um Rui, e depois de finalmente ser atendido por um Ricardo, ficou convencido que o Rui é um vigarista.

Acalmou-se, desta vez não precisou de respirar fundo, tinha um gin-tónico na sua mão. Assim que o telemóvel deixou de tocar, foi comparar os números, na esperança de coincidirem, tal jogador de lotaria. Os dois primeiros coincidiam, os outros eram todos diferentes, ou os mesmo mas em posições diferentes. Merda! E bebeu mais um bocadinho. Mais um número desconhecido! Mas quem é esta gente que telefona para quem não conhece? Para quê?

O senhor dos bolos volto com uma tenaz, uma colher de sopa, e uma travessa. Assim que terminou a transladação da bola de Berlim, que na travessa parecia uma francesista cheia de molho amarelo, disse solenemente:

– Não pude deixar de reparar como desde que voltei, o amigo tem um peso a carregar-lhe a alma. Disponha se achar que desabafar pode ajuda-lo a reencontrar a paz com que entrou neste estabelecimento comercial.

Era uma boa observação. A verdade é que agora, nem apetite tinha para engolir o bolo tão desejado. Mas não podia fazer desfeita ao homem. Talvez pedisse para embrulhar.

– Acontece que me andam a telefonar de números desconhecidos. Eu não atendo, depois fico a pensar o que podia ter sido.

– Tem medo? É compreensível. Tememos única e exclusivamente o desconhecido sabe? Mas digo-lhe. É só mesmo por falta de conhecimento. Acredite em mim que ando às voltas nisto há 90 anos. Fui obrigado a conhecer muita coisa. Depois de conhecer, às vezes não é à primeira, deixa de meter medo. Quantas chamadas não atendidas já atendeu?

– Uma. Foi hoje a minha primeira.

– E o que era?

– Não era para mim.

– Ah… era engano. Sei bem. Está ver? Nunca é nada.

– Vinha comemorar. Só tive tempo de saborear… nem um terço do gin tónico.

Ricardo suspirou e bebeu o gin até metade. Ia com as mão à bola, mas achou que era melhor pedir uma colher de sopa. Enquanto o velho procurava por alguma, perdida numa gaveta desde os anos noventa, o telemóvel voltou a tocar. Número desconhecido! O velho voou até junto dele, de tal maneira ágil que parecia ter metade da idade, e disse empolgado:

– Quer que eu atenda!? Eu atendo-lhe isso!? Olhe que eu pareço ter esta idade, mas ainda estou aqui para as curvas.

Ricardo meio atrapalhado concordou. E o homem dos bolos e dos pastéis, arregaçou as mangas, tossiu para os bolos que já não seriam de qualquer maneira vendidos, para limpar a voz, e assumindo uma posse cerimonial, atendeu o telefone. Mesmo a tempo. Falou com a cortesia de um duque, demonstrando que quem fala não nasceu para servir o desconhecido.

– Pastelaria os Quatros Bolos. Daqui o proprietário do estabelecimento, em que lhe posso ser útil? … sim … sim … compreendo – Desligou – Era engano.

– Outro engano?

– Ora evidentemente. Está a ver? Assim já se vai habituando. Qualquer dia já atende telefones com a destreza de um operador de chamadas.

De sorriso na cara e espírito livre, confiante na sua força de enfrentar o desconhecido que há-de vir, Ricardo atirou-se de cabeça à bola, e começou a devorá-la com um apetite maior do que a travessa. Por aquele andar ainda comia os outros bolos. De boca cheia de creme perguntou:

– Então o senhor já não tem medo de nada? Já conhece tudo. Certo?

– Tenho medo da morte. Ainda não morri.

Disse aquilo como se tivesse dado conta disto pela primeira vez. Ricardo interrompeu a sua comemoração, como se tivesse ouvido algo no qual nunca tivesse pensado.

– Mas seguramente deve ser como o resto… Conhece alguém que já tenha morrido?

– Não… todas pessoas que conheço nunca morreram… Espera! A minha querida mãezinha já morreu!

– Então. Pergunte-lhe. Está à espera do quê? Pergunte-lhe como é? Não tem o número dela?

O homem baixou-se e atirou com o telefone fixo da loja para cima do balcão. Com tamanha força, que as pepitas de chocolate do croissant descolaram-se quase todas. Agarrou no auscultados, quando ia marcar o número lembrou-se:

– Espera. Não lhe posso telefonar.

Ficaram ambos muito embaraçados. O embaraço, por não ser o sentimento apropriado numa situação destas, deu lugar a um terror que não conseguiam disfarçar. Sentiam que a qualquer momento iam enlouquecer. Aquela confusão absurda só era possível numa anedota dos malucos do riso. Ou quando as pessoas enlouquecem. Estavam os dois muito sérios. Olhavam em redor e um para o outro, num pânico constante. Quando se convenceram que, pelo menos por agora, nada iria acontecer, desataram a rir. Um riso que vinha do estômago com tamanha força que explodia-lhe nos dentes e nos lábios. Uma gargalhada vinda do desconhecido. Tomavam consciência de que seus corpos não lhes pertenciam. Incapazes de dizer uma palavra, esboçar um movimento da sua autoria. Riam e as lágrimas escorriam inevitavelmente. Estava tudo bem, por agora, e era o suficiente.

Ricardo acabou com a bola. Pediu para embrulhar o bolo Húngaro para comer em casa. À noite lembrou-se de o velho ter tossido em cima do Húngaro. Esquecido da gargalhada que dera antes, atirou o bolo ao lixo, com medo de apanhar alguma doença terminal.

Abelha mecânica

Toda gente que conheço sabe viver melhor que eu. Eu, por teimosia em querer perceber como é que as coisas começaram funcionar, interrompo o movimento da vida. Os outros, os que conheço, vivem, e bem, sem se incomodar com o que possa estar por detrás da vida que levam. Não sejamos tão dramáticos. O que faço não é nenhum crime, e não sou de todo o único a fazê-lo. Assalta-me uma curiosidade, quero compreender qualquer coisa para depois gritar ao mundo aquilo que vi. Compreensível julgo eu. Como é que havia de adivinhar que a vida, depois de parada, custa a arrancar, como os computadores velhos. Computador é uma má escolha para metáfora, porque eu nunca ia parar e remexer no interior de um computador. Conheço as minhas limitações. Mas recordo-me de uma abelha.

Estava de férias, tinha 10 anos e um medo irracionalmente profundo de abelhas. Era meio-dia e estavam uns quarenta graus ao sol. Encontrei uma abelha incólume e ao mesmo tempo falecida. Esperei para confirmar se estava realmente morta. Não precisei de muito tempo para ficar convencido porque nenhum corpo com vida suportaria aquele sol com tanta serenidade. Levei-a comigo para casa. Nunca tinha visto de tão perto uma abelha. Inspeccionei-a na segurança que só a morte nos pode oferecer. As patas pretas e finas como cabelo eram quatro, mas podiam ter sido mais, acidentes acontecem. Os olhos que me fascinavam sem me dizer nada a seu respeito. As asas transparentes com desenhos de formas que faziam lembrar cortinas ou toalhas de mesa. Já não tinha ferrão. Deixou-o por impulso algures, sem medir as consequências do seu acto. Sabia não poder evitar o seu destino. Já eu não sabia perceber nada destas coisas, só imaginar hipóteses, que depois de um processo de selecção, transformavam-se em frágeis verdades.

Quando satisfiz a minha curiosidade pelo exterior, resolvi abri-la ao meio, ou transversalmente. Tanto fazia desde que tivesse acesso ao interior daquele insecto que quando animado de vida, faz-me recear pela minha. Agarrei numa faca, das que têm cabo em madeira, e seguro de que estava prestes a fazer algo nunca antes feito, cortei-a ao meio como se corta a carne e o peixe. Evidentemente o interior transformou-se, logo que contactou com o ar, em exterior. O mesmo exterior que nada me dizia a respeito da coisa. Repeti a experiência até mais cinco vezes, e com seis parte de abelha em cima da mesa, perdi o interesse e fui meter a faca para lavar.

“Inútil, o voo de fora para dentro. Cá fora deveria ser uma imagem: a verdade transposta numa forma que surpreendesse quando comparada com a realidade”(1)

Esta também não é a melhor metáfora porque não havia maneira de voltar a meter a abelha a funcionar. Para além disso não fui eu que a parei. Encontrei-a parada por forças alheias a mim e a ela. Se a encontrasse em andamento, nunca teria coragem de a parar. Por mais que me garantissem, e garantem, que as abelhas não fazem mal a ninguém. O meu medo não é o do desconhecido. Já fui ferrado e sei que não dói tanto como imaginamos doer. Depende também da imaginação de cada um.

Talvez a melhor metáfora seja uma abelha robótica. Passo a explicar. É uma abelha parada, tal como a que eu encontrei de baixo a braseira do sol. Mas que pode, a qualquer momento, ser reanimada por impulsos magnéticos disparados no interior do seu ser electrónico.

Desejo a vida nas coisas. E já agora em mim. Não que me julgue diferente das coisas, mas a subjectividade tem que se lhe diga, e impõe esta separação, mesmo aos que a repudiam mais. Ao mesmo tempo quero estar bem longe, a uma distância de segurança, quando se der o impulso que dá vida ao corpo. Não gosto de ser ferrado.

Daqui se tiram algumas conclusões que tiram valor literário ao texto, mas que servem com certeza algum outro fim. Os nossos olhos não são o melhor órgão para ver a morte. Seja ela biológica, artificial, interior ou exterior. Existem vários tipos de morte. Só se tem medo quando se tem vida, e do que ainda não está morto. A vida acontece sem aviso, e por fenómenos que também não se vêm com olhos de gente. E por fim, em inglês porque receio não haver uma tradução em jeito de provérbio no português, e para terminar caia bem um provérbio: “a watched pot never boils”.

(1) – Photomaton & Vox – Herberto Helder

Exercício de conspiração

Era um domingo de manhã, o tempo não estava imperdível, e o sossego era tal que sair da cama seria considerado um pecado. Infelizmente para o Senhor Meritíssimo Presidente Global, o sono teimava a não querer voltar a pegar. A sua longa carreira profissional dotou-o de invejáveis atributos, raros de encontrar na generalidade da raça humano. Mas como o que cresce acima das suas possibilidades exige os proporcionais sacrifícios, paciência para teimosias era coisa que faltava ao Presidente.

Ao fim da segunda tentativa enfureceu-se contra o sono, e as suas vontades próprias. O sono que por não ser gente não reconhecia autoridade ao Presidente, foi-se de vez, deixando o Presidente de boca aberta, e não por força de um bocejo.

Como um raio saltou da cama. O seu desejo era com o salto acordar toda a gente do mundo. Era um homem que não fazia as coisas por menos. Se ele não dormia, é porque dormir é um defeito desprezível. Entáo ninguém dorme, para que esta sua verdade, recentemente instaurada, ganhe balanço e pegue. Já que o sono não pega.

Mas as coisas não se fazem como noutros tempos. No tempo de seus bisavós bastava gritar “estão proibidos de dormir meus filhos de uma puta.” Insultar era de homem, e ninguém dormia. Quem dormisse, e fosse apanhado, levava o tratamento da espada, ou espingarda, ou prisão, tortura, fosse o que fosse que lhe tirasse o sono. Mas cedo se percebeu as trágicas consequências deste caminho. O povo não gostava, identificava a causa do seu sofrimento, que logo a calhar era material. Revoltava-se contra a matéria no poder, e até que percebessem que a promessa de liberdade da revolução, não era afinal liberdade nenhuma, era o cabo das tormentas.

Por um lado, naqueles tempos, a revolução dava jeito. Enquanto se está convencido de que alguém está a tratar da libertação colectiva, não se faz nada pela libertação individual. Não se correndo assim o risco de acontecer uma libertação geral, que possibilite a tão esperada implementação da anarquia. Isso é que tirava o sono ao Presidente. Agarrou no telemóvel e ligou ao vice Presidente global, que de um maneira geral era o Presidente de toda a gente no mundo, menos do Presidente.

– O que é que andas a fazer?

Que raio de pergunta para se fazer ao segundo homem mais atarefado do mundo. O Vice Presidente só admitiria aquele tom de voz a uma pessoa.

– As pessoas têm de andar com mais medo José! O que é que andas a fazer José?!

O vice Presidente só admitiria que o tratassem por José, a uma pessoa, que é quem vocês podem imaginar.

– Tira-lhes o sono José. Inventa um ameaça que não os faça rir. Nada de colapsos financeiros, eles já desenvolveram um sentido de humor para a pobreza material Nada material! Quero sombras! Electricidade! Mitos! Invisibilidade! Confundi-os está bem. Faz alguma coisa de jeito nem que seja uma vez na puta da tua vida. Se precisares de ajuda liga. Tenho de ir cagar.

Meio atrapalhado, o Vice Presidente convocou logo uma reunião com os melhores argumentistas que o dinheiro pode comprar. Havia melhores, mas é preciso levar também em consideração a qualidade preço. Ao fim de três horas de reunião ainda não havia uma ideia. Só material. Os argumentistas culpavam silenciosamente o Vice Presidente, que insistia em pegar nas suas ideias e transformá-las em algo concreto. Só para poder ter algo para mostrar ao Presidente Global. Grande engraxador.

Um argumentista que tinha de ir apanhar o mais novo ao ballet, e estava a ficar apertado de tempo, tentou pôr fim àquilo, indo buscar uma ideia das suas ao baú. Reciclagem criativa.

– E que me dizem de um Apocalipse de Zombis

– Isso não é uma série?

– Sim, mas primeiro foi um filme.

– Não. Primeiro foi um romance.

– Ninguém se lembra do romance.

– E o filme é para rir? É que se for esqueçam já a ideia. Tem de ser de terror.

– Sim, o filme é terror.

– Aquilo é mais acção.

– Nick tu não escreveste uma comédia com Zombies.

– Sim. Mas foi em 2004. Ninguém se lembra.

– O Jarmusch não fez um recentemente?

– Sim, mas não é comédia.

– Não é? Eu achei piada.

– Mas uma coisa é um filme, outra é a realidade. José, confia em mim, ninguém vai achar piada.

Quem não achou piada foi o Vice Presidente. Ficou com a ideia do Nick, e mandou-o prender por excesso de intimidade.

Contratou-se logo outro. Era pior mas mais barato. E para evitar mais despedimentos e custos de contratações inesperadas, ninguém lhe disse o nome do Vice Presidente. No anonimato tudo corre melhor, e com menos custos. Fica mais difícil para os criativos terem ideias a tempo de ir buscar os filhos ao ballet. Mas quem é que dança ballet quando anda a correr por ai uma pandemia de Zombis.