Como adormecer

Existem poucas garantias na vida, adormecer é uma. Contudo, o sono nem sempre é fácil de agarrar. Deixe-me sossega-lo, querido insone: ninguém morre por não dormir uma noite ou duas. Aliás, às vezes sentimo-nos mais bem dispostos sem horas de sono.

Vamos à questão, Como adormecer? É muito simples, basta esperar que aconteça. E quando não acontece? Quando se fecha os olhos e se vira o corpo, mas nada, ou tudo, menos dormir. E tem de estar em determinado sítio, a uma hora marcada, e conviver com outros, que aparentam ser tão naturais. O que fazer?

O que fazer perante estes momentos infernais?

Deixo-lhe algumas coisas que pode fazer para adormecer. Esta lista refere-se ao que pode ser feito quando já está deitado de luzes apagadas, independentemente do que foi feito antes.

1 – Adormecer no meio da guerra.

Deite-se de barriga para cima.

Respire fundo 7 vezes, pelo nariz ou pela boca, um dos dois.

Pense e sinta um dos pés, e relaxe-o. Faça o mesmo para o outro pé, os calcanhares, as canelas, os joelhos, a perna propriamente dita, a pénis ou a vagina, o rabo, a barriga (e aqui começamos a entrar nas partes mais sensíveis), as costelas, os pulmões, os ombros, os cotovelos, as mãos, os dedos das mãos, os braços propriamente ditos, o coração (muito importante o coração) o pescoço, os maxilares ( e aqui já estamos na parte interessante, com o resto do corpo quase morto) o nariz, as orelhas, os olhos, a testa, as orelhas, a testa, a língua, os olhos.

2 – Camara no quarto.

Imagine que está uma câmera no seu quarto, apontada para si. Imagine a imagem da câmera, que é a imagem do seu corpo. Do outro lado observa-o é quem quiser. Pode ser um homem misterioso; um segurança sonolento, ou mesmo a dormir; uma pessoa numa cabana, no meio do nada, sentada no sofá, sem nada para fazer, aconchegada por uma lareira; ou pode ser você mesmo. E pense só na imagem, só na imagem.

3 – Meditar.

Não sei se já fez meditação. Se não fez, e não sabe fazer, apenda num instante, num vídeo de 2 minutos no Youtube. Durante a meditação não se deve adormecer, mas não é proibido. E garanto-lhe que é uma tentação.

4 – Contar carneiros.

Pessoalmente, detesto contar carneiros. Quando era insone experimentei. Imaginei uma certa quantidade deles, de um lado de uma cerca. Uma massa inesgotável de carneiros. E começava a contar, imaginava o animal a saltar para o outro lado, onde lentamente se formava uma massa de carneiros, esta com um número igual à contagem.

Nunca resultou. À minha ansiedade aumentava com a contagem. Era como estar a olhar para um relógio, a ver os segundos a passar. De qualquer maneira, para ser uma técnica tão resistente à passagem do tempo, pode ser que resulte consigo, nunca é demais tentar.

5 – O macaco que escreveu uma peça para teatro.

Diga palavras aleatórias, silenciosamente e para si. Estas não devem ter qualquer relação umas com as outras, não podem contar uma história. De preferência estrangeiras.

Um exemplo: road face I will for a picture maybe but well pencil far gote paper with more … e assim sucessivamente.

Um famoso compositor de música clássica disse isto:

“Se o ser humano viesse ao mundo com com um livro de instruções, a última linha seria para dizer que tudo o que fora escrito pode não resultar.”

Não se preocupe. Um eterno sono espera-o no pior dos cenários possíveis. E não se esqueça que pode sempre falar com um médico. A ciência de hoje tem soluções para tudo o que tem solução. E para o que não tem solução, há o provérbio “o que não tem remedio, remediado está.”

Obrigado e uma boa noite.

Notícia cinco

Hoje, um grupo de pessoas subiu uma rua inteira, levavam cartazes contra o racismo, fascismo, machismo, e como sobravam cartazes sem nome, ainda acrescentaram mais uma ou duas coisas acabadas em “ismo” que não destoassem do conjunto. No final da rua largaram os cartazes e foram beber um copo.

Um dos manifestantes quis citar um comediante americano famoso, pois parecia-lhe ser apropriada ao contexto, mas antes sentiu-se na obrigação de explicar às senhoras quem era o comediante. Não explicou aos senhores pois assumiu não ser necessário.

Pediram todos uma cerveja, o empregado que os serviu era preto e tinha sotaque angolano. Todos repararam. O manifestante que costumava fazer imitações de sotaques africanos, para seu divertimento e de quem se entretivesse com este tipo de humor, desta vez achou por bem não o fazer. 

Depois instalou-se uma pequena desordem, afinal qual era a melhor marca de cerveja? Cada um disse a sua, apresentando argumentos, uns mais imaginativos, outros mais agarrados aos factos. Não houve grande luta, afinal cada um podia ficar com a sua.

Mas quando foi para decidir onde se ia a seguir. Ai é que foi! Tentaram o método democrático, mas não funcionou. A minoria tinha muita força, mas não a suficiente para arrastar os outros para onde quer que fosse. Estavam perigosamente perto do ponto de ruptura.

As acusações que sabiam poder atirar contra os outros, para destruir as suas ideias e fazer prevalecer as próprias, corriam livremente pelas mentes de cada um deles.

Associavam preconceitos ao destino escolhido pelo outro, e depois ao outro pessoalmente. Até que um se excedeu “ou vamos para cima, ou não se vai a lado nenhum!” Um deles teve de agarrar pelo “f” o “fascista” que queria sair lançado pela boca em resposta ao ultimato. Enfim, uma enorme desgraça para aquele grupo de pessoas.

Acabaram por partir o grupo em dois, para ser mais fácil. Depois disto, cada sub-grupo partiu com um ódio especial pelo outro sub-grupo. Mas como tinham bons corações, cultivados com boas doses de tolerância e amor, acabaram por perdoar, e ao perdoar, inesperadamente o ódio transformou-se em saudade.

Moralidade desta notícia – Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.

Televendas dois

Sente-se cansado? Com tosse? Tem febre? Eh carapau! Isso só lá vai agora com a nova vacina! É verdade. Não procure mais. Com a nossa nova vacina não precisa de máscara, nem de gel, paracetamol, lixívia. Com esta vacina nem precisa mais de lavar as mãos depois de espirrar-lhes em cima. Uma vacina todos os dias depois de acordar, durante três meses, e esqueça essa quarentena fechado em casa a ler livros sem nada para fazer. Isto é passado. Para a frente é que é caminho. Não se esqueça nunca. Injectar-se é o melhor remédio.

Aviso legal:

A vacina pode ser adquirida em farmácias ou no nosso site por 19.99$ a unidade. Os efeitos secundários são ainda desconhecidos na sua grande maioria. Porém foram identificados casos de um medo injustificável a tudo o que diz respeito a estar vivo, perda de liberdade para fazer o que nos dá na telha quando nos der na telha, ansiedade social, uma vontade incontrolável de julgar o outro, telefonar à policia para fazer queixinhas, delírios, como achar de repente que não há nada pior do que morte do corpo, e que existir neste corpo é mais importante do que qualquer outra coisa que a imaginação, competência exclusiva do humano, pode alcançar.

Notícias quatro

Um homem não sai de sua casa há sete meses, e faz intenções de continuar confinado por mais um ou dois meses. Tudo depende, segundo ele, de como as coisas avançarem. Quanto questionado se o recolhimento lhe estava a ser imposto, o homem respondeu que não, e que sim. Ninguém o obrigava fisicamente ficar em casa, porém, para que não fosse preciso chegar a este ponto, preferia mostrar voluntariamente que aceita o castigo. No raciocínio dele, ao castigar-se por sua vontade, mostra que não precisam de o castigar no futuro. Confia na sua lógica, apesar de não ter assinado nada.

Notícias três

A equipa de jornalistas correu até à casa da mulher que afirma ser capaz de prever todos os movimentos de toda e qualquer mosca.

Foram recebidos pela mulher que pediu para se sentarem, enquanto não aparecia uma mosca. Não deveria faltar muito, as janelas estavam todas abertas.

A mosca apareceu e pousou na parede de um amarelado típico de casa de fumador. A mulher levantou-se, estendeu os braços no ar, inspirou num tom grave, mordeu o lábio inferior e abriu as sobrancelhas. Ambos os jornalistas, como a mulher e a mosca ficaram como estátuas.

A mulher começou a adivinhar: “vai para a direita” e acertou. Ouviu-se um aaah exclamativo. Depois disse “agora vai pousar na jarra” falhou. Por respeito ninguém se pronunciou. A mulher não se mostrou desencorajada, e sem perder tempo declarou a seguinte profecia “vai cair morta!”. Surpreendendo todos na sala, principalmente a mosca, a mulher espetou uma sonora bofetada na mosca com um jornal que apareceu ninguém sabe como. Acertou.

No caminho para casa, um dos jornalistas pensou, se a mulher tivesse acertado tudo, estava agora a varrer os estilhaços daquela bonita jarra.

Notícias dois

Depois de mais um mandato bem sucedido no exercício do seu poder masculino, o presidente teve direito às suas merecidas férias. Do cargo.

Porque o poder masculino não tira férias, no primeiro dia de praia o folgado presidente arranjou logo oito mulheres mais novas que ele. As mulheres, atraídas pelo poder, mostraram-se disponíveis, mas o presidente, um homem de bons costumes, ficou satisfeito apenas pelo merecido reconhecimento do seu poder.

Despediu-se das mulheres, e foi mergulhar na água fria do mar salgado de Portugal.

Arrefecer a sua magnânima erecção presidencial.

Notícias um

Foram encontradas dezenas de cadáveres de melgas, moscas, e algumas formigas, na cave de um individuo, sexo masculino, 36 anos de idade, em Santa Comba Dão.

O homem, que vivia sozinho mais um gato rafeiro, justificou as suas acções assumindo ter desejos homicidas.

Apesar de não estar previsto na lei qualquer pena para este tipo de crime, a policia resolveu colocá-lo com pulseira electrónica em prisão domiciliária.

Por precaução foi feita uma desbaratização em sua casa, e as janelas foram fechadas com cimento.

Televendas Um

“Ir para todo o lado descalço é um pesadelo. Atravessar a estrada, caminhar pela calçada cheia de lixo e dejectos de animais, correr para apanhar o autocarro, ter de avançar em bicos dos pés quando se quer sair do trabalho mais cedo sem que o patrão dê por isso. Quem nunca saiu do trabalho uns minutos mais cedo? Se é uma dessas pessoas tenho boas notícias para si! Se ligar agora para o número que está a passar mesmo em frente aos seus olhos, vai poder ganhar um incrível par de sapatos. A única coisa que precisa de fazer é ligar! E pagar por eles.

Não vai conseguir adquirir estes sapatos em mais nenhum sítio. Aliás, se perder esta oportunidade limitada ao stock existente, não terá outra. Vai ter de andar descalça para o resto da sua longa e dolorosa vida. Mas não é só isto! Estes sapatos têm uma sola feita a pensar exactamente nas medidas do seu pé. Ajustam-se como nenhum outro que já teve. Há uma vida antes, e depois destes sapatos. Depois de andar neste sapatos, já não vai poder usar outros. Isso eu garanto-lhe. Por isso o melhor é ligar e pedir dois.

O preço é de 75 euros. Só!? É verdade. Pode escolher a cor apesar de ser irrelevante. Não têm atacadores. Não precisa de ficar a noite toda acordado a pensar se os seus filhos não estarão a mexer-lhe nos atacadores, e a estudar uma maneira de se enforcarem quando não conseguirem aguentar mais as dores nos pés, por terem de caminhar descalços. Não quer que os seus filhos se enforquem? Então hoje é o seu dia de sorte. Vai poder, em vez de comprar dois pares, comprar três! Ou quatro! Um para cada filho ou filha.

O que foi isto!? Não acredito. O alarme mágico. Sabe o que quer dizer? O preço já não são os 75 euros que lhe falei. Agora pode aproveitar esta oportunidade, que irá melhorar a sua vida amorosa, familiar, carreira, prestação sexual. Não sei se já lhe disse, mas os sapatos aderem a toda a superfície como um pega-monstros. Eu pelo menos só fodo com eles calçados. Como pode ver tenho-os agora. Por apenas 10 euros o par! 10 euros! Chiça! Esta é que eu não estava à espera.

Porque é que o preço desceu inexplicavelmente, cinquenta euros? Primeiro, porque eu não sei fazer contas. Não me pagam para pensar. E a si também não. Aposto que já ouviu isso no seu trabalho. A segunda razão é porque quem produz sapatos não o faz para calçar as pessoas. Por isso é que mesmo quem não anda descalço, ideologicamente é como andasse. Quem produz sapatos, produz para gerar lucro. O máximo possível. Tem de sobrar dinheiro para pagar aos infelizes que fazem sapatos de forma compulsiva.

Sapatos que não servem o seu propósito, porque estão ocupados a servir outro. E outros. Sempre o mesmo, sempre os mesmos, independentemente do méritos das cambalhotas que damos para sermos o outro que não somos. Transformar tudo o mais depressa possível em dinheiro. Porque tudo acaba por se transformar em dinheiro. É inevitável. Como a morte. A morte trágica dos seus filhos se não comprar estes sapatos agora por 7.99!”

Bananas que eu escrevo o que me cai na cabeça

Chega-se ao pé de mim de tão perto que somo.
Escrevi isto porque foram umas palavras,
que fui buscar ao acaso. Juro,
não têm qualquer tipo de propósito.

Não é comum escrever desta maneira.
Não tinha absolutamente nada,
nada para dizer. E sou aprendiz no silêncio.
Achei que o melhor era escrever mesmo assim.

É o que estou a fazer. 
Assim mesmo.
Estou a escrever em quadras.
A forma vem ao de cima.

A forma e as ideias.
Já estou para aqui a dizer alguma merda.
São as ideias e as formas.
Colam-se a nós e nem com a escova de arame.

Já estou a tentar dizer qualquer coisa de novo.
A cabo de um vagão sem destino terrestre
Boa. Ás vezes para adormecer faço isto.
Digo palavras ao acaso.

Estou preocupado sem razões sabem?
Se ao menos inventasse uma ou duas.
Inventar razões não me parece nada cientifico.

Que se foda a ciência. 
Antes pelo menos reconhecíamos não haver nada a fazer.
Agora não se aceita a implacabilidade desta coisa.

Estava a ir tão bem. 
Tenho de meditar mais.
É cientifico que produz efeito.

Mas vou acabar como comecei.
Nem que seja no último verso.
Bananas. 

Vendilhões do tempo.

Como pode ver Fátima, nós preocupamo-nos acima de tudo com o bem estar das pessoas. Empregamos mais de quinhentas pessoas, todas com salários superiores ao salário mínimo imposto por lei. Porque para nós as pessoas, e as suas famílias, estão em primeiro lugar. Queremos acima de tudo colaboradores felizes por estarem connosco.

Muito bem. E você? Como gere a sua empresa?

Eu não posso, nem quero saber das pessoas. São mais de quinhentos porra! É muita gente. Nem sei os nomes daquela gente toda. Eu vejo as coisas desta maneira. Enquanto der para mim, mais do que para os outros evidentemente, eu mantenho o negócio. Mas tenho de ser eu a ganhar mais, porque a empresa é minha, foi eu que arrisquei, não ando a trabalhar para os outros. Pago mais que o ordenado mínimo porque sei que ganho com isso. Eles andam mais contentes, e produzem mais. Só pago o valor que maximiza o meu ganho. Isto não tem nada que se lhe diga Fátima. A partir do momento que eu deixe de ganhar, deixam todos. Como é óbvio. Isto existe para me servir, e serve os outro por consequência.

Lamentável… Voltando a si. Explique-nos como funciona o seu negócio?

Ainda bem que me pergunta Fátima. Tenho todo o prazer em explicar. A actual crise fez-nos olhar mais longe. Através de uma parceria internacional, conseguimos ter acesso a um mercado mais alargado. Investimos também na qualificação. Percebemos que ao produzir em maior escala, aliando uma eficiente rede de distribuição, conseguíamos fazer chegar os nossos produtos até ao nosso cliente, ao melhor preço. O nosso principal objectivo é dar ao nosso cliente o melhor produto possível, a um preço acessível à sua realidade. Porque para nós o cliente está em primeiro lugar. Sabe Fátima… isto não é uma área fácil. É preciso trabalhar arduamente para que tudo isto seja possível. Mas é para isso que cá estamos. Todos os dias ultrapassamos desafios, tudo para que o nosso cliente possa contar connosco do seu lado.

Magnifico. E o senhor. Como é o dia a dia do seu negócio?

Eu compro a um preço e vendo mais caro. É só isto. Podem dar as voltas que quiserem, repetir de diferentes maneiras. É comprar a X vender a X mais Y. O desafio é só este. Fazer lucro. Somos os vendilhões do tempo dona Fátima. O dinheiro deu-nos educação, fatos caros, gravatas, carros para ir a reuniões, pagar a legisladores, mas o que fazemos é isto. Não passamos de comerciantes incapazes de ver mais do que isto. O que fazemos só é aceitável porque o povo é miserável, e sem isto morriam milhões à fome. Com isto morrem à mesma, mas lentamente. Se eu ganho todos os meses 1000, e o tipo que trabalha para mim 10, não é? Passado um ano eu tenho 12 000 e ele tem 120. Passado 10 anos eu tenho 120 000 e ele tem 1200. Passado 20 anos ele morreu à fome. E eu também me fodo. Fodemo-nos todos dona. Andamos todos a foder-nos uns aos outro como animais que somos.

Calma. Este tipo de linguagem não é admissível neste programa.

Não devia ser. Mas é. Tanto é que foi. E continuará a ser. Até uns morrerem à fome, e outros de solidão.