Caro Visitante

Nada disto foi o julgámos poder ser. Afinal, as coisas tendem todas a desaparecer. Entropia, julgo ser esta a melhor palavra, para dizer o que estou a tentar dizer, e poupar tempo. Quando começou a ler isto, caro leitor, tinha mais tempo do que tem agora. E irá ser sempre assim até ao fim deste breve texto. Expresso-o para que não hajam mal entendidos.

Se as coisas têm tendência a desaparecer, parece-me obrigatório concluir, que a sua importância está restrita na sua existência. Uma nota, quando digo desaparecer refiro-me a desaparecer completamente, memória, vestígios, tudo.

Talvez não seja nada disto, e esteja a ler mal a realidade. Foi este o começo, um esforço de através da escrita, dizer sem querer, é sempre sem intenção, alguma coisa diferente, interessante. Porque sei, tão bem como qualquer pessoa, não ter grande coisa para dizer.

Mesmo assim, tenho um novo site, chama-se:

artesdedormir.com

Para este novo site escolhi um tema significamente pesquisado nos motores de busca. Também o conteúdo está pensado para obter bons resultados nos motores de busca, escrita orientada para o SEO.

Não deixa de haver espaço para a exploração através da escrita e do pensamento. Afinal estamos a falar de dormir, sonhar, passar metade da vida muito quieto na horizontal, no mesmo plano da escrita.

Seja como for, a exploração livre, sem destino definido, terá de ficar longe dos títulos H1 e H2, longe das páginas principais, longe dos caminhos por onde se atravessam as aranhas que pesquisam às cegas a rede de links em toda a sua extensão. Aqui, tudo terá de permanecer acessível ao mundo superficial, pois é nele que se vive. Aprofundamentos serão feitos nas periferias.

Em breve este site irá para o cemitério de links, por onde as aranhas desistiram de passar. Não tenho dúvidas que ficará bem.

Mudança

Por agora é tudo, quanto aos contos do Urinol. Qualquer dia irei rever os 86 contos, porque devem estar uma merda, repleta de ideias de aproveitar. É sempre assim, desde há muito tempo.

Os contos não vão desaparecer, vão ficar submersos. Porque a ideia agora é outra. Vou transformar este espaço num blogue sobre a arte de dormir. Dormir será o único tema.

Ouvi o João Quadros, falar da importância de percebermos o que fazemos melhor, e usar esta vantagem para sobreviver. Que é como quem diz ganhar dinheiro.

Durante muito tempo fui o melhor a beber cerveja. Foi tão divertido que nem tive tempo para pensar como fazer disso carreira. Agora, o que faço melhor do que qualquer outra pessoa é dormir. Provavelmente porque tenho o fígado ressentido. Não interessa.

Por tratar-se de algo apreciado por todos, prevejo sucesso e prosperidade nesta minha nova demanda.

O blogue vai contar com uma categoria de dicas numeradas; vídeos sobre o assunto, porque é mais viral do que as antigas letras; uma categoria chamada sonhos (que na verdade será onde vou enfiar os contos do urinol, o que está submerso vem sempre ao de cima); e uma categoria onde vou vender, a um preço bastante acessível, horóscopos do sono, thema coeli. Inspirados no romance de Becckett, Murphy. Será o mesmo modelo, mas direcionado para ajudar o individuo a arranjar sono, em vez de emprego.

A partir de amanhã, os Contos do Urinol passam a ser,

GUIA PARA O SONO … não.

DORMIR COMO UM PORCO … nah

UMA BOA NOITE … talvez. Sinto que estou perto.

Por agora uma boa noite, e durma bem.

Escrever III

A primeira parte é sentarmo-nos em sossegada solidão, o tempo vazio como a folha branca, onde se escreve, o melhor que se pode, o que se vai encontrando pelos miolos.

A imagem é a da fonte, para não variar. A experiência constrói caminhos, barragens, aquedutos, por vezes até cidades, de maneira a aproveitar o caudal. A não experiência deixa a fonte como está.

A segunda parte, última mas nem por isso o fim, é a do confronto com o problema até altura ignorado. Caso se assuma a responsabilidade. Só se assume a responsabilidade quando se descobre o desejo – nunca a necessidade – do trabalho em cima do tempo. Refazer a pente fino o texto, desemaranhar, lentamente como se faz ao cabelo, as letras mais aglomeradas. Rescrita e leitura até ser só releitura, e depois escrita na folha do lado. Reiniciar o processo circular até ao círculo perfeito. E depois parar, para não rasgar ou queimar o papel com a caneta às voltas já sem tinta.

Orçamento de histórias

Alguém, uma pessoa qualquer, tinha uma ideia e percebia imediatamente, por lhe ser claro, que a ideia não era sua.

Aprender este despegamento seria uma revolução interessante.

Como o espaço disponível na internet parece ser inesgotável, deixo aqui uma ideia.

Uma cama para dormir, comida em cima da mesa (ou noutro local acessível), canalização para levar o fertilizante e trazer a rega. Só isto e mais nada. Havia mais coisas, mas todas obtidas sem esforço, o esforço servia única e exclusivamente para se ter cama, comida e bons canos. O esforço a mais era visto como ganância.

Quando alguém morria era menos um corpo em movimento, uma equação de subtração para equilibrar as contas. Nada mais do que isso. Não era uma tragédia, nem um alívio. Quando alguém nascia era mais um corpo, a emoção era a mesma (ou equivalente) à emoção associada à subtração, sentia-se o mistério. As lágrimas enchiam os olhos, de riso e de choro finalmente indistinguíveis.

Trabalhava-se de resto para se sair daqui.

Afinal aqui só se come e dorme. Havia esperança, a de um dia fugirmos deste vale de lágrimas. Não para a lua, porque parece ser afinal uma pedra, para enorme desilusão, falo por mim.

Os poetas engravidavam para parir em papel. O mesmo se passava com físicos, químicos, astrólogos, geólogos, engenheiros e outros. Não existiam os egos, porque não se fazia para ficar, tudo era para sair daqui.

Não havia médicos, não me parece haver necessidade para tanto. Sabia-se aliviar o sofrimento (como a dor do parto) com o mínimo de drogas.

Sem egos o sexo perdia importância. A bissexualidade era preferível. Não vejo como pudessem existir guerras se o planeta fosse exclusivamente habitado por bissexuais sem ego.

Os egos não lidam bem com esta atmosfera, é tudo muito pesado. Viu-se logo quando a maçã caiu na cabeça de Adão.

Não havia histórias, para quê alimentar o ego de significado? Só havia alimento para o corpo, descanso na cama, e esperança de um dia sair daqui num foguetão do tamanho da Europa.

Não ao pagamento das dívidas das histórias que deram prejuízo, recorrendo a crédito de outras histórias especulativas. O resultado já se sabe qual é: a dívida cresce, pede-se empréstimo (a juros cada vez mais exigentes) e pensa-se: “é desta, esta história é que nos vai salvar”. O empréstimo salda as dívidas mais recentes, e recomeça o endividamento.

Pode não haver solução. Podemos estar condenados a experienciar o tempo como uma continuidade inquebrável. Assumir um estilo, para não acabar em pantanas, como diz o Herberto Helder.

Uma batata tem, mais ou menos, 86 calorias

Alguém disse “batata é um legume nojento!” Os Homens não admitem certas palavras. Receosos dos actos consequentes de tão insensata declaração, atacaram o autor com palavras piores ainda. Terminado o ataque, seguiram a sua vida, seguros de que as suas batatas estavam para sempre em segurança.

O autor inventou um pau, e foi para a luta. Outro, esperou até descobrir o metal. Outro ainda só entrou no campo de batalha depois de esculpir uma espada afiada. As ideias, ao contrário dos sólidos, não são de natureza competitiva, pois o espaço que dispõem para se esticar é infinito. Porém, quando se agarram aos corpos, parecem adoptar as leis que regem os objectos sólidos. Quando as temos, ou elas nos possuem, e as queremos colocar ao sol, ou elas por sol imploram, devem estar revestidas de arame farpado, para o nosso bem. Aos autores mais encalhados, enrascados ou sensíveis, aconselha-se mesmo esperar ou reprimir a ideia até esta estar realmente bem armadilhada. Isto aqui é uma selva, na selva não se sabe onde começa o corpo e acaba a ideia.

Se os corpos percebessem os seus limites imprecisos, constatariam que também o espaço para estes é infinito. Mas o desejo de competir é um capacete medieval de viseira curta.

Uma rápida espreitadela em qualquer direção, e verificamos existir espaço livre. Existe sempre mais espaço sem corpos do que ocupado, olhe-se para onde se olhar, em qualquer altura do dia ou noite. A subjetividade sugere haver espaços mais belos que outros, o estatuto faz-nos crer haver espaços melhores do que outros, a sobrevivência ensina-nos haver espaços bons e outros maus. A vida é uma guerra quando nomeada. E a palavra partilha rende-se, mais tarde ou mais cedo, ao insistente poder.

10 biliões de corpos, ou mais, já sem contar com os bichos, árvores, montanhas, oceano. O medo de ser empurrado para um canto do mundo, sem terra de cultivo, no sol desértico, ou na sombra desesperançada, leva-nos a imprimir na vida imagens bélicas, copiadas do que percecionamos ser o comportamento animal.

As ideias, como as facas de um Conto de Jorge Luís Borges, combatem servindo-se de humanos. A vencedora sobe ao pódio, é a ideia dominante, e a vencida deve ser calada, reprimida, trancada no armário, até ser agendada desforra, desta vez com novos intervenientes humanos, arrastados e confundidos por ideias da batata.

As ideias são mais perigosas, para o humano, que os vírus. Contagiam de tal forma, que em muitos casos o corpo e a ideia tornam-se indistinguíveis. O remédio não ataca a ideia sem envenenar o corpo.

E o regresso, depois da guerra? Não há regresso. A pessoa toma o remédio, cumpre a dosagem e restantes recomendações da bula. Ultrapassado o terrível período convalescente, de vómitos, tonturas e uma canseira de uma ponta à outra do dia, encontra na sua casa, nos passeios, nas lojas, em todo o lado a doença, ainda que inerte. Uma questão de tempo até a imunidade desvanecer. Nada a fazer.

Quando alguém chama nojento a uma batata, ideia pouco sensata, dado o valor nutricional e a saborosa variedade de pratos confecionados com tão famoso legume, convém ser tolerante com o homem, e intolerante com a ideia.

Mas se a ideia for nova, e de elevado contágio… bem, deixemos essa difícil decisão para os peritos.

Ensaio

Gostava de saber como vivem os bichos. Não me parece nada correcto assumir que se sabe porque fazem eles as coisas que fazem. Não me julgue caro leitor. Não sou negacionista, excepto quando nego. Aceito e deixo a ciência entrar na minha vida tanto quando posso, reconheço a sua utilidade, reconheço também as repercussões mais imediatas.

Mas desconfio, e hesito. Parece-me que ao morder a maçã, Adão foi preso num jardim, e não ao contrário. Arrastou consigo Eva, porque os homens já se sabe. Tal como os bichos, presos no jardim zoológicos, também nós estamos enjaulados nas masmorras do jardim do Éden. Masmorras de porta encostada, umas mais do que outras, e que nunca dão para o portão de saída. Sai-se para o corredor, divaga-se pelos caminhos labirínticos, à procura da saída, e quando julgamos estar quase, já estamos metidos outra vez na aldeia dos macacos, ou na jaulas dos leões, a viver a temática da jaula.

Eu cá gosto de andar nos corredores. Há cada vez menos animais como eu nos corredores. A direção de marketing do Zoo anda apreensiva quanto aos passeadores, dizem precisar de mais atrações nas jaulas, mais espetáculo. De vez em quando lá encaminham uns quantos na direção certa. Desconfio de que o que eles querem é ter os corredores limpos, não sei para quê. Talvez não tenham percebido que o jardim não tem fim, e que os corredores são prisões como as jaulas.

No outro dia vi um macaco atirar-se a outro macaco, não no jardim, fora dele, pois estou a falar de dois macacos macacos, e não a referir-me a pessoa macaco. Imaginei o porquê da pancadaria, queria dar significado aquilo. Uma mania minha. Depois fui desenhar palavras para a gaiola dos canários, como de costume.

Caça Sonhos

Admitindo a materialidade dos protões e electrões, podemos então acreditar, nos momentos de maior aflição espiritual, que os males da alma obedecem às mesmas leis dos males do corpo. Sendo assim, o que cura o corpo cura o espírito, e vice-versa.

Da mesma forma que um corpo desleixado bate com a cabeça numa porta aberta, e segue caminho aos solavancos, também as incontáveis, e aparentemente aleatórias, colisões, impactos violentos, choques desastrosos, quedas aparatosas, dos protões e electrões, moldam o espírito tornando-o coxo. O espirito desorientado falha o passo, seguindo caminho ao pé coxinho.

Então o melhor é cuidar do corpo. Como é que se cuida do corpo? Comer pouco e bem, dormir quando se tem sono, evacuar quando se tem vontade, e estar sempre onde se está, nem um pouco à frente nem um pouco atrás.

E ler. Tudo e mais alguma coisa, sem esquecer que os olhos emprestados têm as suas agendas. Fica-se com fantasmas agarrados à pele, se não se tem cuidado. Alguns, quando ouvem falar em planos de revolta e libertação, assombram o inquilino, fazem-no crer que a vida sem a sua presença é vazia e desesperante. O inquilino precisa de se lembrar, que há outros faz fantasmas, é o que não falta, uma vez que os mortos são mais que os vivos. Parece que os vivos lutam, com as suas ideias, quando na verdade é uma luta de fantasmas a viver uma crise de acesso à habitação.

Algo confuso, é certo. Talvez ver o filme caça fantasmas, com outros olhos, esclareça. Tentemos, tentemos sempre qualquer coisa diferente e de preferência absurda.

Manta de Retalhos

O que não tem remédio, remediado está, e a língua portuguesa é muito traiçoeira.

Não me vou desgastar com o que se pode tirar de dentro dos provérbios, vou escrever antes que o pensamento se ponha a escavar até chegar ao que costuma estar fora do alcance da luz de palco. O persistente pensamento no mesmo ponto da superfície, perfura e incomoda quem está a exercer funções vitais nos bastidores. Ao abrir buraco obriga as partes de dentro, apanhadas de surpresa pela luz do sol, a representar. O sol obriga os objectos sem luz própria a fingir ser seu o fato emprestado. Este acumular de funções do pessoal técnico, pode não fazer bem à saúde da peça. Mas pode-se também descobrir um maravilhoso novo actor. Uma coisa é certa, o buraco fica feito, pelo menos até ser esquecido ou assimilado pela peça.

A escrita perfuradora não é produtiva (e por isso há quem diga, muito boa gente, desnecessária, pessoas que percebem muito da necessidade), pelo menos em português, porque lá está, a língua é traiçoeira. Se fica muito tempo no aconchego da mudez de um livro, à espera de leitor, quando finalmente se lê, está virada na direção contrária à plateia. Trai o actor falador, e isso incomoda desnecessariamente até o senhor que sobe as cortinas para depois poder desce-las. Com uma língua destas não há como competir com a produtividade da língua alemã, por exemplo. Não sei falar alemão, confesso, mas parecem-me mais produtivos. Também me parece, isto avaliar pelo barulho das vozes, que não se divertem tanto em palco como acontece com as línguas latinas. De qualquer maneira vou parar com isto, porque as comparações entre culturas também não são nada boas para a saúda das peças, do tecido social. Só servem para confundir os textos e deixar o espectador com vontade de abandonar a sala.

Estive a pensar no que escrevi até aqui, assumo esta minha incoerência, não raras vezes percebida como hipocrisia, mas pode não ser nem uma nem outra. Prometo reunir todas as minhas forças para não repetir o façanha.

Como disse estou cansado, é esta a minha desculpa, não tenho desculpa para a desculpa, entenda-se. Sei como a primeira desculpa carece de uma segunda, porque se ficássemos pela primeira, o remédio seria descansar, e é isso que devemos evitar a todo o custo, o remédio, pois como já se viu só o que não tem remédio está remediado. Por isso é que a escrita perfuradora é tão produtiva, dira até necessária. É preciso ir de desculpa em desculpa, queimando-as pelo caminho como quem queima a carta depois de a ler, até chegar ao irremediável, para ficar tudo remediado. Se o leitor está encostado à parede, num ponto de não retorno, à beira do abismo, muitos parabéns, está onde qualquer companhia de Teatro sonha chegar.

Não podemos esquecer porém, como a língua portuguesa é traiçoeira. E eu a dar-lhe com os estudos comparatistas.

É um alívio o irremediável, e é aterrador enquanto esperamos pacientemente pelo alívio. O estado irreversível deixa até o mais anestesiado dos animais de pelo arregalado como quem quer afugentar uma ameaça maior do que o corpo que se tem. Como se o tamanho importasse. Sejamos francos, o tamanho não importa, sejamos mais francos, o tamanho importa, um pouco mais ainda, o tamanho não importa. Pode-se ir sempre um pouco mais além. Será assim que se chega ao irreversível? Desfazendo-nos das certeza que fomos colecionando quando estavam na moda as coleções?

-Mas afinal o que é o senhor? Um troca tintas qualquer? Então agora o tamanho já importa outra vez?

-Se deseja acusar alguém de troca tintas, acuse a língua portuguesa se faz favor! Não vê como eu fui igualmente intrujado!?

Um rapaz, que podia muito bem ser uma rapariga, tanto quanto eu, e estou seguro de que os outros também, podemos perceber porque se nasce uma coisa e não outra. Um rapaz passa por uma prancha e decide não saltar para o mar. As razões são as mesmas de sempre, e como sempre mencioná-las é querer resolver o que está resolvido. Um dia percebe que afinal tem de saltar, e a partir do momento em que recebe a condenação, culpa-se por não ter saltado antes, duvida até se é possível fazê-lo agora sem prática. Isto dito assim é um problema gravíssimo para o rapaz, porque saltar de uma prancha, por escrito, pode ser qualquer coisa. O poder da abstração leva-nos de um particular ao outro sem dar tempo de conferir o geral que as transporta, passam-se depois anos até descobrir o erro nas configurações da máquina do tempo. Se não for escrito, nem a tinta nem na pedra, o que aconteceu foi, e perdoem-me dizer-vos por escrito, não havia outro remédio: Um rapaz não saltou da prancha e depois saltou. Pode ter gostado, pode não ter gostado, isso agora é com ele. Também os sabores dizem respeito à língua, mesmo quando esta se encontra calada.

Abaixo as palavras! Ou que se comece a escrever a lápis.

Ou se invente uma nova linguagem, constituída por palavras que não se encaixem umas nas outras. Ou que se proíba o convívio entre palavras, distanciamento social para as palavras, abraços nas ruas entre os corpos, mesmo os de nariz entupido.

Devo ter pensado em tudo o que escrevi, não serei o único, dias e dias a fio. De qualquer maneira continuo a confiar no primeiro provérbio, apesar da iminente traição sugerida pelo segundo.

Quando começaram com os provérbios já estava tudo aos remendos.

X

“Oh homem! Não faça isso! Não se desgrace! Então você vai-se por a beber água? Você não beba água. A água é uma coisa demasiado pura. Alias! A água é uma contradição lógica, você não faça isso! Vem da terra homem, está tudo dito. Isso nem sequer tem sabor. Nós não queremos nada com a terra. Uma coisa assim tão pura vinda do interior da terra? É de estranhar, tenho cá para mim que se trata de uma armadilha, não pode ser, não bate certo, a água é algo demasiadamente sem-sabor para existir num mundo tão fétido. Vá por mim, dizem que foi nela que principiou a vida e será seguramente por ela que a vida terminará. Se quer beber misture com qualquer coisa, nem que seja barro. Agora estar a beber isso assim tão puro. Afaste-se da água, foram os que bebiam água os responsáveis pelos maiores crimes da humanidade, deixaram-se levar pela correnteza e pelo asseio e pronto, acharam que podiam lavar isto. Homem, não faça isso, deixe a pureza para os peixinhos nadarem, água nem para o banho! Beba sumo, beba vinho, beba sangue!… Mas não toque em água.”

Não se paga bilhete depois de entrar?

Visto a determinada distância um fogão é um cubo. Aproximamo-nos movidos pelo desejo e, num tempo e espaço diferentes, afinal é uma panela em cima de um fogão. Mais uns passos e o fogão desaparece, só se vê a panela. A observação prolongada resulta em dois acontecimentos, o esquecimento do fogão, e a compreensão da panela a ferver ao lume. Contrariando o impulso de fuga, ateado pelo borbulhar sensível ao calor do conteúdo da panela, resolvemos permanecer vidrados. Aos nossos olhos, e para nosso espanto, o cubo visto à distância é só água a ferver.

A agitação generaliza-se pela superfície, uma observação mais pormenorizada e encontram-se partes semelhantes a lagos imunes às alterações climáticas. Vai-se do particular para o geral, e de volta ao particular mas desta vez um outro particular, a ginástica que altera as conclusões. Procura-se padrões, perceber de uma só assentada o caos, dar algum significado ao cubo. Ouve-se o som do metal a cair desamparado.

O olhar segue o choque metálico, para isso tem de abandonar a água quente demais para mergulhos, foi o gato a derrubar a taça da comida, foi só isso, mais nada. Se fosse possível, depois desta distração, esquecer a água a ferver, esta deixava de ser o que é para ser um tacho a levar com gás ardente na base. Se nos esquecêssemos por uma semana, suponhamos, era um tacho frio, eventualmente com um buraco na base, em cima de um fogão. Quem o visse assim naquele estado nada tinha para acrescentar. E quem vier contar o que se passou não consegue apresentar qualquer tipo de prova, sem ser talvez uma memória humedecida pela água que ferveu ao ponto de se evaporar, e entrou pelas narinas de quem julgou compreender o que verdadeiramente aconteceu.

Fica-se com a opinião da maioria, ou da minoria que nos sirva, o que é muito bom e suficiente, diga-se. Fica-se onde incomodamos menos os outros, nunca onde nos é mais confortável, isso é um perigo. Onde calhamos é onde estamos bem. Quem não está bem onde está, e julga ficar melhor deslocado ou ter estado melhor afastado, é porque acredita que o reposicionamento vai resultar em convite para subir ao palco, quem sabe até participar no espetáculo, visitar os bastidores ou tocar no artista com a ponta dos dedos. Lamento informar mas tal coisa nunca aconteceu a viva alma. Acontece porventura aos mortos, depois do concerto acabar.