Notícias dois

Depois de mais um mandato bem sucedido no exercício do seu poder masculino, o presidente teve direito às suas merecidas férias. Do cargo.

Porque o poder masculino não tira férias, no primeiro dia de praia o folgado presidente arranjou logo oito mulheres mais novas que ele. As mulheres, atraídas pelo poder, mostraram-se disponíveis, mas o presidente, um homem de bons costumes, ficou satisfeito apenas pelo merecido reconhecimento do seu poder.

Despediu-se das mulheres, e foi mergulhar na água fria do mar salgado de Portugal.

Arrefecer a sua magnânima erecção presidencial.

Notícias um

Foram encontradas dezenas de cadáveres de melgas, moscas, e algumas formigas, na cave de um individuo, sexo masculino, 36 anos de idade, em Santa Comba Dão.

O homem, que vivia sozinho mais um gato rafeiro, justificou as suas acções assumindo ter desejos homicidas.

Apesar de não estar previsto na lei qualquer pena para este tipo de crime, a policia resolveu colocá-lo com pulseira electrónica em prisão domiciliária.

Por precaução foi feita uma desbaratização em sua casa, e as janelas foram fechadas com cimento.

Não entendido

Tudo isto não passa de um mal-entendido. Só saio de casa quando tem mesmo de ser, normalmente é quando a comida acaba. Antes nem isso, mas de tanto praticar a autofagia, nas suas mais variadas formas, desenvolvi uma intolerância à minha própria carne.

Julgo que irreversível. Nada de grave.

Regresso pelo meu pé com comida e aquilo que se agarra aos sapatos. Deixo-os à porta por precaução. Evitar tanto quando possível contaminar o interior com o exterior. Não mistura-los de maneira que o seu segredo não se revele aos nossos olhos, que só vêm um lado de cada vez.

Não sei se me faço entender. Estou a falar da auto-sustentação de tudo. É preciso acreditar num certo grau de diferenciação. A nossa carne e a carne dos outros não podem ser a mesma.

Pode ser que esteja a fazer um mal-entendido por não perceber o valor das transacções.

Não gosto de ficar a dever. Não quero o mundo à porta, a exigir o que quer que seja de mim. Não suporto ficar em dívida por não ser clara a forma, o momento, ou a vantagem de pagar de volta.

Temo desequilibrar a balança. Ou por não ser capaz de saldar a dívida, ou por ter entendido mal os contornos da transferência.

Por isso deixo os sapatos à porta. Se aconteceu trazer algo por engano agarrado à sola, fica do lado de fora. Alguém há-de se apropriar, e fazer o que deve ser feito.

Não sei o que deve ser feito.

Saber só pode resultar em duas possibilidades:

Ou recusamos o mundo, para não ter de andar sempre a incomodar-nos com o não saber o que fazer com as coisas que nos são oferecidas.

Ou ficamos com tudo. Guarda-mos tudo em nós, na nossa casa, tudo o que nos é oferecido.

Eu não faço parte dos que se encaixam na segunda possibilidade. Se pudesse receber visitas, estas confirmariam como tenho a casa vazia.

Todo o pó lá em casa cai em cima de mim, por falta de opção. Tenho pó atrás nos dentes, à frente dos olhos, por baixo das unhas. Uma vez por mês recebo nas escadas uma senhora que faz limpezas. Tira-me o pó todo. Diz-me depois que é meu, o pó. Eu respondo que não, não é. Pago-lhe e volto para dentro. Deixo-a com o meu dinheiro mais o meu pó, de maneira a certificar-me que o saldo continua a tombar para o meu lado.

Ela não se rala com isso, não se importa de ficar a dever. Tem mais com que se preocupar do que com o equilíbrio universal.

O que lhe é destinado é, o que não é não é.

É preciso um certo grau de relaxamento, despreocupação, para aguentar, acompanhar, tanta transacção em andamento.

Quando se acha que se está muito para um lado, ou para o outro, é precisa lembrar como tudo não passa de um mal-entendido.

Um mal-entendido serve para justificar um erro por excesso, ou por escassez. Os mal-entendidos resolvem-se da mesma maneira como acontecem. Exclusivamente pela mão divina. O Homem não tem acesso a esta funcionalidade. Está bloqueada.

Sei de certas coisas.

Sei fazer trocas para obter alimento, sei relacionar-me com a mulher que me limpa o pó, e sei que quando saio à rua, tudo não passa de um mal-entendido.

Televendas Um

“Ir para todo o lado descalço é um pesadelo. Atravessar a estrada, caminhar pela calçada cheia de lixo e dejectos de animais, correr para apanhar o autocarro, ter de avançar em bicos dos pés quando se quer sair do trabalho mais cedo sem que o patrão dê por isso. Quem nunca saiu do trabalho uns minutos mais cedo? Se é uma dessas pessoas tenho boas notícias para si! Se ligar agora para o número que está a passar mesmo em frente aos seus olhos, vai poder ganhar um incrível par de sapatos. A única coisa que precisa de fazer é ligar! E pagar por eles.

Não vai conseguir adquirir estes sapatos em mais nenhum sítio. Aliás, se perder esta oportunidade limitada ao stock existente, não terá outra. Vai ter de andar descalça para o resto da sua longa e dolorosa vida. Mas não é só isto! Estes sapatos têm uma sola feita a pensar exactamente nas medidas do seu pé. Ajustam-se como nenhum outro que já teve. Há uma vida antes, e depois destes sapatos. Depois de andar neste sapatos, já não vai poder usar outros. Isso eu garanto-lhe. Por isso o melhor é ligar e pedir dois.

O preço é de 75 euros. Só!? É verdade. Pode escolher a cor apesar de ser irrelevante. Não têm atacadores. Não precisa de ficar a noite toda acordado a pensar se os seus filhos não estarão a mexer-lhe nos atacadores, e a estudar uma maneira de se enforcarem quando não conseguirem aguentar mais as dores nos pés, por terem de caminhar descalços. Não quer que os seus filhos se enforquem? Então hoje é o seu dia de sorte. Vai poder, em vez de comprar dois pares, comprar três! Ou quatro! Um para cada filho ou filha.

O que foi isto!? Não acredito. O alarme mágico. Sabe o que quer dizer? O preço já não são os 75 euros que lhe falei. Agora pode aproveitar esta oportunidade, que irá melhorar a sua vida amorosa, familiar, carreira, prestação sexual. Não sei se já lhe disse, mas os sapatos aderem a toda a superfície como um pega-monstros. Eu pelo menos só fodo com eles calçados. Como pode ver tenho-os agora. Por apenas 10 euros o par! 10 euros! Chiça! Esta é que eu não estava à espera.

Porque é que o preço desceu inexplicavelmente, cinquenta euros? Primeiro, porque eu não sei fazer contas. Não me pagam para pensar. E a si também não. Aposto que já ouviu isso no seu trabalho. A segunda razão é porque quem produz sapatos não o faz para calçar as pessoas. Por isso é que mesmo quem não anda descalço, ideologicamente é como andasse. Quem produz sapatos, produz para gerar lucro. O máximo possível. Tem de sobrar dinheiro para pagar aos infelizes que fazem sapatos de forma compulsiva.

Sapatos que não servem o seu propósito, porque estão ocupados a servir outro. E outros. Sempre o mesmo, sempre os mesmos, independentemente do méritos das cambalhotas que damos para sermos o outro que não somos. Transformar tudo o mais depressa possível em dinheiro. Porque tudo acaba por se transformar em dinheiro. É inevitável. Como a morte. A morte trágica dos seus filhos se não comprar estes sapatos agora por 7.99!”

Paraíso perdido, eventualmente

Não se encontravam há tanto tempo que era como se agora fossem estranhos um para o outro. A sua história ficara tão esquecida, que agora vista à distância, pareciam ser duas histórias distintas. Uma para cada. Bastante parecidas. Se as comparássemos podia-mos até arriscar dizer que pertenciam à mesma peça. Se sim ou se não, é um assunto que só interessava à arqueologia.

Beijaram-se à porta do centro comercial e como estavam atrasados foi só isso que fizeram. Entraram apressados centro comercial a dentro, ela na liderança, porque sabia melhor o caminho.

Temos de nos despachar. Não acredito que vamos perder o filme.

Pensei que era às e um quarto. Mas vamos conseguir. Queres correr?

Ela começou a correr imediatamente a seguir à sugestão. Estava só à espera de uma autorização para desautorizar as boas maneiras que mandam não correr em espaços públicos com muita gente. Chegaram ao mesmo tempo à bilheteira. Não estava ninguém na fila.

Bom dia, noite. Eram dois bilhetes para, nem sei como é que se chama o filme, mas começa com P. tens aí a dizer?

Se era para a sessão das oito já não há. Só para a próxima.

Ah porra não acredito. Não pode ser. Eh pá que chatice.

Pois. Já não posso mesmo fazer nada. O filme já começou.

Oh começar não começou, não pode ter começado, só passaram cinco minutos.

Pois.

Granda chatice. E a que horas é a próxima sessão?

Às 23h30.

Só? O que é que vamos fazer aqui até as onze e meia. Nada. Não há nada para fazer. Bem. Obrigado, vamos pensar.

Afastaram-se da bilheteira. Ele ainda não tinha expressado o seu desagrado porque não tinha a certeza se não era melhor assim. Estava expectante por saber o que iam fazer agora.

Bom. Então como é que estás? Parece que temos muito tempo para meter a conversa em dia.

Três horas de vinte minutos. Temos três horas e vinte minutos.

Onde é que queres ir?

Tanto faz. Onde é que queres esperar?

Vamos até ao parque.

Saltaram o gradeamento e entraram numa zona coberta por relva que, a avaliar pela ausência de uma passagem para o seu interior, devia estar interdita a pessoas. Contudo estava cheia de vários grupos pessoas, sentadas a desfrutar os últimos raios de sol daquele dia. Sentaram-se os na relva sem saber exactamente como iam preencher aquele tempo não contabilizado pelos seus planos.

Comecei a praticar tai chi chuan. Relaxa-me imenso. Então agora.

Ainda estás a morar no mesmo sítio?

Qual sitio?

Já não me lembro para onde foste morar. Mas é o mesmo não é.

Sim deve ser. Já lá estou à tanto tempo que deve ser. E tu? Ainda és pintor? Ou já começas-te a ter dinheiro para pagar as contas?

Eu não tenho grandes contas para pagar. Quando moravas comigo era outra conversa.

Sempre paguei tudo. Que me lembra. Mas se te estou a dever alguma coisa.

Não não. Estou a brincar. Não me deves nada.

Boa. Então hoje pagas tu o jantar.

Ambos experimentavam posições para se sentar na relva. Ora de mãos atrás a apoiar o tronco, ora abraçando os joelhos com os braços, cruzando as pernas uma por cima da outra. Iam-se imitando um ao outro, à procura de uma posição confortável. Uma posição conseguissem manter por muito tempo sem dor. Já não acreditavam em posições para o resto da vida. Mas se descobrissem alguma, que fosse suportável e até desse ao corpo algum prazer, iriam mantê-la pelo menos até ao último raio de sol. Por enquanto continuavam a tentar. Ela decidiu repetir a das mãos enterradas na relva a servir de suporte, e pernas esticadas em V. Ele foi copiou.

Estou a pensar mudar-me para aqui. Estou cansada de Sintra. Aqui pelo menos posso sair à rua, ver coisas acontecer.

Queres trocar comigo? Eu estou cansado de ver coisas a acontecer. Se não acontecesse mais nada, por mim estava óptimo.

Às vezes mereces que te metam um espelho à frente quando dizes certas coisas. Já nem me lembrava dessa tua… maneira de dizer as coisas.

Qual maneira de dizer as coisas?

Não. Eu preciso de pessoas com vontade de fazer coisas na minha vida. Dividir a casa com mais, sei lá, uma data de gente.

Mas que coisas é que queres fazer?

Sei lá. Passear pela cidade junto ao rio. Comer numa mesa cheia de gente, numa esplanada iluminada por luzes de natal, e música vinda de todos os lado. As ruas cheia de gente a noite inteira, até depois de nos irmos deitar.

E o teu marido vai a esse jantar? Ou só aparece mais tarde?

Mais adiante três pessoas, separadas por uma distância considerável, atiravam um disco entre elas. Um cão corria de um lado para o outro atrás de uma bola arremessada pelo dono. E um rapaz dizia qualquer coisa ao ouvido da namorada que a punha a rir descontroladamente.

Vamos jogar ao disco com eles?

Vamos. Deixa-me só descansar um bocadinho.

Deitou-se de barriga para cima na relva. Ela chegou-se mais para perto dele, e esticou-se da mesma maneira. Nos seus campos de visão passou só a existir um azul avermelhado que escondia as estrelas, mas não por muito tempo. Os pássaros faziam as suas últimas passagens por aquele plano azul e vermelho. Dali por uns minutos iam interromper o seu voo por umas horas. Iam esperar abrigados num ramo de uma árvore qualquer. Quando o sol decidisse voltar, arrancavam dos ramos das árvores para retomar o seu voo incessante.

Está-se bem aqui. Melhor do que no cinema.

Isto é um bom plano. E estamos deitados. Sempre é melhor do que sentados a ver pessoas a fingir que estão a fazer coisas.

Porque é que as pessoas fingem que estão a fazer coisas?

Não sei. Nunca pintei um céu. Já pintei tanta coisa. E nunca me passou pela cabeça pintar a merda do céu.

Passas pouco tempo nesta posição. Este já não pintas.

Podia-lhe tirar uma foto e pintar amanhã.

Para que é que vais pintar um céu?

Amanhã também não podia. Tenho tanta coisa para fazer amanhã.

Queres ir andando? Está a ficar frio não está.

Sim quero. Vamos.

O amor é um curto circuito dizia Beckett. Foi uma sorte, à falta de uma palavra certa para explicar o que aconteceu. Quiseram os dois deitar-se juntos, e quiseram os dois, ao mesmo tempo, começar a caminhar.

Os que ficaram, os outros exemplos pessoais no parque, não tiveram a mesma sorte:

Das três pessoas que jogavam frisbee, uma perdeu a vontade de continuar a brincadeira muito antes das outras duas. A rapariga queria continuar a rir-se, mas o rapaz não tinha mais nada engraçado para dizer. E o dono do cão fartou-se de lhe atirar a bola. Quando o cão estava capaz de continuar a correr atrás daquela bola para o resto da sua vida, ou até lhe acabarem as forças.

Subiram lado a lado a rua, muito devagar. Qualquer que fosse o seu destino, queriam que este chegasse dali por muito tempo. Tal como fizeram na relva, com as posições do corpo estático, começaram a experimentar agora em movimento. Ela contou dois tempos enquanto ele deu um passo. E pensou que conseguia melhorar o tempo dele para o dobro. Ele topou que ela dava agora passos de quatro tempos cada. Foi ambicioso e no passo seguinte demorou-se, vejam bem, dezasseis tempos. Ela quase que ia tropeçando e se esbardalhando no chão tal fora a mudança de velocidade. Mas não se deixou ficar, e apresentou-lhe uma incrível passada de cinquenta e nove tempos.

Na manhã seguinte quando os pássaros arrancaram voo dos ramos das árvores, eles ainda estavam a subir a rua.

Meses, bolos e livros

Foto por Magda Ehlers

Um mês não é nada na vida de uma pessoas. Espera-se que passem doze, e depois é só repetir o ciclo umas cinquenta a setenta vezes, e o que quer que seja que aconteceu acabou. Uma caixa de bolos sortidos aumenta de valor com o tempo. Quando está cheia, ainda por abrir, qualquer um que peça “pode-me desperdiçar um dos seus bolinhos?” recebe um educado “sim” como resposta, daqueles que saem apressados atropelando a pergunta, para que não restem dúvidas quanto à boa vontade de quem tem está bem abastecido. À medida que os bolos vão sendo devorados pelas bocas esfomeadas, até o mais generoso dos seres deita uma olhadela para dentro da sua caixa antes de ceder o bolo. Nem que seja só para avaliar o sortido da situação, e imaginar o futuro com mais ou menos bolos.

Os meses não são como os bolos sortidos. Bem sei. Eu bolos cedo todos a quem quer que seja. Podem levá-los. São mais as bocas às quais dou prioridade em relação à minha, do que as que não dou. Gostava de poder dizer que dou a todas, mas a minha reduzidíssima capacidade de tirar conclusões, convenceu-me que andam por aí alguns cabrões que não merecem bolos.

Posso estar enganado, espero até estar. Equivocadamente sentado no meu sofá extensível, em frente a um computador com ligação à Internet, e uma caixinha de bolos sortidos meio comida, com especial cuidado para manter a variedade que lhe deu o nome. Não é fácil manter a disponibilidade de sortido equilibrada quanto à sua variedade. A subjectividade não ajuda na luta contra as desigualdades, mas faço um esforço, contra os meus princípios. Sou pela igualdade, mas contra o esforço. O que me deixa numa situação muito delicada.

Quanto à diferença entre bolos e meses, quanto a mim: os bolos sei para que os quero. Os meses é outra conversa.

Cheguei a ter em minha posse, ao alcance dos meus braços portanto, um livro. Sempre que o lia, não percebia nada das palavras impressas. Conhecia-as quase todas, e as que não conhecia ia logo consultar o seu significado no dicionário online, para não ter de procurar no de papel, que por desuso deve andar perdido por ai numa gaveta. Pelo menos não apanha tanto pó.

Nem assim percebia o que é que aquele livro me estava a dizer. Ora culpava-me a mim, ora culpava o livro. Não encontrava utilidade para aquele objecto. Não o vendi logo porque havia qualquer coisa nele, na forma talvez, a cor das páginas, o tipo de letra, até algumas palavras em certos parágrafos, tiradas do contexto que eu julgava que tinham de estar devido ao seu paradeiro. Mas acabei por vender.

Não me lembro quanto me deram por ele. Sei que já não tenho esse dinheiro. Devo ter comprado algo, cuja a utilidade vem escarrapachada no livro de instruções, escrita por alguém que sabe o que quer e por isso sabe também o que o cliente quer.

Passado alguns meses, numa das minhas navegações pela Internet, sentado no sofá e bem sortido, encontrei o livro à venda por um milhão de euros! Um milhão de euros! Passei meses a refrescar a página. Até que um dia refresco, e leio “vendido”. Vendido!

Alguém fez um lucro absurdo com o meu livro. Porque eu não quis esperar até lhe encontrar utilidade. Ou não soube ver a sua utilidade. Ou não trabalhei na procura da sua utilidade. Ou simplesmente não aceitei a sua ausência de utilidade, e fiquei com ele mesmo assim só porque era belo. Por ter qualquer coisa de belo, único, irrepetível, que apesar de não poder compreender, não significa que o deva ceder, entregar de mão beijada ao outro, que o trata como um artigo de compra e venda.

Os meses, os livros e as bolachas. Aguentava-me só com estes três uma vida. Desde que não me viessem falar do tipo que agora abriu uma empresa, e ganhou um prémio de empreendedor, e dá entrevistas e discursos, tudo com o dinheiro que lucrou com o meu livro! Se me lembrar do tipo, que eu nem sei quem é, salto já do sofá extensível, desassossegado e irado, e só volto quando me sentir vingado. Só volto para o sofá quando recuperar o meu livro!

Espero quando voltar que ainda me restem meses e bolachas suficientes para acabar o acabar de ler em sossego.

Número desconhecido

Andava de olhar intermitente entre o telemóvel, pousado no braço do sofá onde estava, e as imagens transmitidas no televisor. Mesmo assim quando este tocou, ele deu um salto. Uma respiração profunda e atendeu, ansioso por ficar a saber a quem pertencia aquele número desconhecido.

– Estou Rui! Então pah ando-te a telefonar há três dias. Tu não atendes. Tenho aqui isto tudo parado! O que é que vai na tua cabeça?

– Desculpe. Eu não sou o Rui.

– Não é o Rui? Rui Gomes? Este não é o número do Rui?

– Não. Não senhor. Deve ser engano. Eu chamo-me Ricardo.

– Eh pá, granda bronca! Ai, e agora!?

– Pois agora realmente não sei…

– Ah, o que é que eu vou fazer à minha vida. Então tenho aqui mais de 500 mil euros e tu queres ver que levei banhada.

– Pois. Eu não sei como o …

– Epah. Olhe… deixe… Foda-se…

Desligou e foi à sua vida, certamente bastante contrariado. Ricardo estava aliviado por não ser nada com ele. Se soubesse que era engano, tinha atendido há mais tempo. Mas todo o cuidado é pouco. Animado, já nem recordava porque andava tão preocupado, resolveu ir comer um bolo. Levantou-se do sofá, calçou-se, carteira no bolso de trás, e saiu pela porta fora.

Entrou no café que tinha em mira. Era um café pacato, frequentado por não mais de três ou quatro comedores de bolo por semana. Aquele fluxo de clientela só não ameaçava o negócio, porque o proprietário já ia nos noventa anos de vida vivida a vender bolos, pasteis, e umas bebidas para não empachar. Se aos noventa ainda não se conseguiu alcançar a independência financeira, única razão para um comerciante se sentir seduzido a empachar o seu estabelecimento comercial com estranhos, não é aos noventa e um que as coisas vão melhorar.

Expostos no balcão de vidro, ali desde 1960, quando aquilo era novidade e motivo para espanto, estavam os habituais bolos da casa. Na prateleira de cima estava, por esta ordem:

Um croissant de chocolate bem cozido, com pepitas de chocolate a cobrir a parte mais alta, e chocolate a sair das duas extremidades. Sugerindo que o interior do bolo não era um vazio de massa amanteigada.

Um bolo Húngaro recheado de doce de framboesa, com a framboesa também a sair de fora, produzindo o mesmo efeito do chocolate no croissant, e confirmando que naquela casa não se poupa no recheio.

Uma bola de Berlim cheia, mas cheia a abarrotar, de creme de ovo. De tal maneira que até a montra estava besuntada. Dava a sensação que só era seguro pegar naquela bola de luvas. Trincá-la então só de babete e toalha de praia por perto.

Por fim um bolo de arroz comprado no super mercado da frente, para completar a fila e não ficar o espaço vazio.

O dono daquela montra tinha horror aos vazios. Por isso mesmo não havia prateleira de baixo. Sempre que não havia bolos ou pasteis suficientes para preencher as prateleiras, estas eram arrancadas, e escondidas bem longe do olhar.

Como já era tarde, e a casa só recebe três clientes por semana, aquilo estava até bastante composto de bolos. Podia até sobrar.

Ao ver entrar o que era provavelmente o seu primeiro cliente do dia, o senhor nonagenário desejou que ele fosse guloso ou estivesse esfomeado. Ou, se não era desejar muito, as duas coisas. Se fosse as duas coisas os quatro bolos iam à vida, e ele fechava mais cedo.

– Ora bem vindo à nossa humilde casa onde o lema é servir bem bem servir, dá saúde e faz sorrir. Diga-me em que lhe posso ajudar. Temos croissant com chocolate belga, feitos em França e importado exclusivamente para este humilde estabelecimento, temos depois aqui um último, que sobrou…

Para a idade, o homem tinha uma energia admirável. Ricardo deixou de o ouvir, porque já vinha com ela fisgada para comer uma bola de Berlim.

– Pode ser a bola de Berlim. E um gin-tónico! Primeiro o gin se fizer o obséquio.

Entornava pequenas porções de gin com água tónica para dentro da boca, com a calma de um verdadeiro degustador. O velho foi buscar um prato de sopa, para fazer o transbordo da bola com segurança. Nisto o telefone toca. Ricardo, que tinha lábios, dentes, língua, copo gin, gin, tónica, tudo junto sem cumprir a distância social, numa orgia de frescura lubrificada a saliva, deu um salto que até o fez babar o balcão de 1960.

Número desconhecido! Não recordava se era o mesmo número. Aquele que andou convencido de estar a ligar para um Rui, e depois de finalmente ser atendido por um Ricardo, ficou convencido que o Rui é um vigarista.

Acalmou-se, desta vez não precisou de respirar fundo, tinha um gin-tónico na sua mão. Assim que o telemóvel deixou de tocar, foi comparar os números, na esperança de coincidirem, tal jogador de lotaria. Os dois primeiros coincidiam, os outros eram todos diferentes, ou os mesmo mas em posições diferentes. Merda! E bebeu mais um bocadinho. Mais um número desconhecido! Mas quem é esta gente que telefona para quem não conhece? Para quê?

O senhor dos bolos volto com uma tenaz, uma colher de sopa, e uma travessa. Assim que terminou a transladação da bola de Berlim, que na travessa parecia uma francesista cheia de molho amarelo, disse solenemente:

– Não pude deixar de reparar como desde que voltei, o amigo tem um peso a carregar-lhe a alma. Disponha se achar que desabafar pode ajuda-lo a reencontrar a paz com que entrou neste estabelecimento comercial.

Era uma boa observação. A verdade é que agora, nem apetite tinha para engolir o bolo tão desejado. Mas não podia fazer desfeita ao homem. Talvez pedisse para embrulhar.

– Acontece que me andam a telefonar de números desconhecidos. Eu não atendo, depois fico a pensar o que podia ter sido.

– Tem medo? É compreensível. Tememos única e exclusivamente o desconhecido sabe? Mas digo-lhe. É só mesmo por falta de conhecimento. Acredite em mim que ando às voltas nisto há 90 anos. Fui obrigado a conhecer muita coisa. Depois de conhecer, às vezes não é à primeira, deixa de meter medo. Quantas chamadas não atendidas já atendeu?

– Uma. Foi hoje a minha primeira.

– E o que era?

– Não era para mim.

– Ah… era engano. Sei bem. Está ver? Nunca é nada.

– Vinha comemorar. Só tive tempo de saborear… nem um terço do gin tónico.

Ricardo suspirou e bebeu o gin até metade. Ia com as mão à bola, mas achou que era melhor pedir uma colher de sopa. Enquanto o velho procurava por alguma, perdida numa gaveta desde os anos noventa, o telemóvel voltou a tocar. Número desconhecido! O velho voou até junto dele, de tal maneira ágil que parecia ter metade da idade, e disse empolgado:

– Quer que eu atenda!? Eu atendo-lhe isso!? Olhe que eu pareço ter esta idade, mas ainda estou aqui para as curvas.

Ricardo meio atrapalhado concordou. E o homem dos bolos e dos pastéis, arregaçou as mangas, tossiu para os bolos que já não seriam de qualquer maneira vendidos, para limpar a voz, e assumindo uma posse cerimonial, atendeu o telefone. Mesmo a tempo. Falou com a cortesia de um duque, demonstrando que quem fala não nasceu para servir o desconhecido.

– Pastelaria os Quatros Bolos. Daqui o proprietário do estabelecimento, em que lhe posso ser útil? … sim … sim … compreendo – Desligou – Era engano.

– Outro engano?

– Ora evidentemente. Está a ver? Assim já se vai habituando. Qualquer dia já atende telefones com a destreza de um operador de chamadas.

De sorriso na cara e espírito livre, confiante na sua força de enfrentar o desconhecido que há-de vir, Ricardo atirou-se de cabeça à bola, e começou a devorá-la com um apetite maior do que a travessa. Por aquele andar ainda comia os outros bolos. De boca cheia de creme perguntou:

– Então o senhor já não tem medo de nada? Já conhece tudo. Certo?

– Tenho medo da morte. Ainda não morri.

Disse aquilo como se tivesse dado conta disto pela primeira vez. Ricardo interrompeu a sua comemoração, como se tivesse ouvido algo no qual nunca tivesse pensado.

– Mas seguramente deve ser como o resto… Conhece alguém que já tenha morrido?

– Não… todas pessoas que conheço nunca morreram… Espera! A minha querida mãezinha já morreu!

– Então. Pergunte-lhe. Está à espera do quê? Pergunte-lhe como é? Não tem o número dela?

O homem baixou-se e atirou com o telefone fixo da loja para cima do balcão. Com tamanha força, que as pepitas de chocolate do croissant descolaram-se quase todas. Agarrou no auscultados, quando ia marcar o número lembrou-se:

– Espera. Não lhe posso telefonar.

Ficaram ambos muito embaraçados. O embaraço, por não ser o sentimento apropriado numa situação destas, deu lugar a um terror que não conseguiam disfarçar. Sentiam que a qualquer momento iam enlouquecer. Aquela confusão absurda só era possível numa anedota dos malucos do riso. Ou quando as pessoas enlouquecem. Estavam os dois muito sérios. Olhavam em redor e um para o outro, num pânico constante. Quando se convenceram que, pelo menos por agora, nada iria acontecer, desataram a rir. Um riso que vinha do estômago com tamanha força que explodia-lhe nos dentes e nos lábios. Uma gargalhada vinda do desconhecido. Tomavam consciência de que seus corpos não lhes pertenciam. Incapazes de dizer uma palavra, esboçar um movimento da sua autoria. Riam e as lágrimas escorriam inevitavelmente. Estava tudo bem, por agora, e era o suficiente.

Ricardo acabou com a bola. Pediu para embrulhar o bolo Húngaro para comer em casa. À noite lembrou-se de o velho ter tossido em cima do Húngaro. Esquecido da gargalhada que dera antes, atirou o bolo ao lixo, com medo de apanhar alguma doença terminal.

VI

O ultimato tinha sido claro, restavam-lhe agora cerca de trinta minutos para que o primeiro comboio abandonasse a cidade. O ultimato tinha sido claro, tinha de lá estar. São cinco e meia da madrugada. Pensou que se tivesse movido de uma outra forma, talvez não se teria dado a ver. Qual terá sido o gesto ou a palavra que deitou tudo a perder? São cinco e meia, o comboio parte às seis. Preparou-se calmamente durante toda a noite, afinal ainda havia tempo. Tirou os pequenos resquícios de sujidade debaixo das unhas, barbeou-se com calma e lentidão, para que nenhum pêlo ficasse esquecido para trás. Acabara agora de lavar cuidadosamente os pés. Não fez malas, tudo o que tinha em casa deveria lá ficar, menos ele. Ele deveria partir no primeiro comboio da manhã, eram essas as condições do ultimato. Se ao menos não se tivesse deixado apanhar. O dia começava a clarear, aos poucos as formas coloridas iam aparecendo no horizonte. Ainda havia tempo para passar pelo pontão, despedir-se da praia como se faz no último dia de férias. Desceu as escadinhas estreitas da falésia e avançou lentamente pelo asfalto coberto de areia trazida pelo vento, até se sentar à beira do pontão. Ela apareceu pouco depois, foi uma sorte incrível, pensou, que a trouxe naquele instante àquele local. A baleia emergiu, soltando um repuxo de água, no preciso instante em que se sentou, aquele corpo imenso, quase todo submerso, reflectia os primeiros raios de luz. Acendeu um cigarro. “Não se trata de um momento mágico” pensou, “nada do que vejo tem outro significado para além do que vejo. A baleia que há pouco estava imersa, esta agora aqui quase inteira à minha frente, e eu pela primeira vez vejo-a e vejo a carne”.A baleia afundou-se por segundos e voltou à superfície soltando o mesmo jacto de água, avançou uns metros e voltou a desaparecer, desta vez definitivamente. O dia estava agora completamente lá e era belo, a água estava ainda enegrecida pelo sol oblíquo, por toda a praia multiplicavam-se as longuíssimas sombras dos pequenos pedregulhos, a brisa silenciosa da manhã acariciava a areia ainda húmida da maré alta. O pontão estava vazio.

Abelha mecânica

Toda gente que conheço sabe viver melhor que eu. Eu, por teimosia em querer perceber como é que as coisas começaram funcionar, interrompo o movimento da vida. Os outros, os que conheço, vivem, e bem, sem se incomodar com o que possa estar por detrás da vida que levam. Não sejamos tão dramáticos. O que faço não é nenhum crime, e não sou de todo o único a fazê-lo. Assalta-me uma curiosidade, quero compreender qualquer coisa para depois gritar ao mundo aquilo que vi. Compreensível julgo eu. Como é que havia de adivinhar que a vida, depois de parada, custa a arrancar, como os computadores velhos. Computador é uma má escolha para metáfora, porque eu nunca ia parar e remexer no interior de um computador. Conheço as minhas limitações. Mas recordo-me de uma abelha.

Estava de férias, tinha 10 anos e um medo irracionalmente profundo de abelhas. Era meio-dia e estavam uns quarenta graus ao sol. Encontrei uma abelha incólume e ao mesmo tempo falecida. Esperei para confirmar se estava realmente morta. Não precisei de muito tempo para ficar convencido porque nenhum corpo com vida suportaria aquele sol com tanta serenidade. Levei-a comigo para casa. Nunca tinha visto de tão perto uma abelha. Inspeccionei-a na segurança que só a morte nos pode oferecer. As patas pretas e finas como cabelo eram quatro, mas podiam ter sido mais, acidentes acontecem. Os olhos que me fascinavam sem me dizer nada a seu respeito. As asas transparentes com desenhos de formas que faziam lembrar cortinas ou toalhas de mesa. Já não tinha ferrão. Deixou-o por impulso algures, sem medir as consequências do seu acto. Sabia não poder evitar o seu destino. Já eu não sabia perceber nada destas coisas, só imaginar hipóteses, que depois de um processo de selecção, transformavam-se em frágeis verdades.

Quando satisfiz a minha curiosidade pelo exterior, resolvi abri-la ao meio, ou transversalmente. Tanto fazia desde que tivesse acesso ao interior daquele insecto que quando animado de vida, faz-me recear pela minha. Agarrei numa faca, das que têm cabo em madeira, e seguro de que estava prestes a fazer algo nunca antes feito, cortei-a ao meio como se corta a carne e o peixe. Evidentemente o interior transformou-se, logo que contactou com o ar, em exterior. O mesmo exterior que nada me dizia a respeito da coisa. Repeti a experiência até mais cinco vezes, e com seis parte de abelha em cima da mesa, perdi o interesse e fui meter a faca para lavar.

“Inútil, o voo de fora para dentro. Cá fora deveria ser uma imagem: a verdade transposta numa forma que surpreendesse quando comparada com a realidade”(1)

Esta também não é a melhor metáfora porque não havia maneira de voltar a meter a abelha a funcionar. Para além disso não fui eu que a parei. Encontrei-a parada por forças alheias a mim e a ela. Se a encontrasse em andamento, nunca teria coragem de a parar. Por mais que me garantissem, e garantem, que as abelhas não fazem mal a ninguém. O meu medo não é o do desconhecido. Já fui ferrado e sei que não dói tanto como imaginamos doer. Depende também da imaginação de cada um.

Talvez a melhor metáfora seja uma abelha robótica. Passo a explicar. É uma abelha parada, tal como a que eu encontrei de baixo a braseira do sol. Mas que pode, a qualquer momento, ser reanimada por impulsos magnéticos disparados no interior do seu ser electrónico.

Desejo a vida nas coisas. E já agora em mim. Não que me julgue diferente das coisas, mas a subjectividade tem que se lhe diga, e impõe esta separação, mesmo aos que a repudiam mais. Ao mesmo tempo quero estar bem longe, a uma distância de segurança, quando se der o impulso que dá vida ao corpo. Não gosto de ser ferrado.

Daqui se tiram algumas conclusões que tiram valor literário ao texto, mas que servem com certeza algum outro fim. Os nossos olhos não são o melhor órgão para ver a morte. Seja ela biológica, artificial, interior ou exterior. Existem vários tipos de morte. Só se tem medo quando se tem vida, e do que ainda não está morto. A vida acontece sem aviso, e por fenómenos que também não se vêm com olhos de gente. E por fim, em inglês porque receio não haver uma tradução em jeito de provérbio no português, e para terminar caia bem um provérbio: “a watched pot never boils”.

(1) – Photomaton & Vox – Herberto Helder

Exercício de conspiração

Era um domingo de manhã, o tempo não estava imperdível, e o sossego era tal que sair da cama seria considerado um pecado. Infelizmente para o Senhor Meritíssimo Presidente Global, o sono teimava a não querer voltar a pegar. A sua longa carreira profissional dotou-o de invejáveis atributos, raros de encontrar na generalidade da raça humano. Mas como o que cresce acima das suas possibilidades exige os proporcionais sacrifícios, paciência para teimosias era coisa que faltava ao Presidente.

Ao fim da segunda tentativa enfureceu-se contra o sono, e as suas vontades próprias. O sono que por não ser gente não reconhecia autoridade ao Presidente, foi-se de vez, deixando o Presidente de boca aberta, e não por força de um bocejo.

Como um raio saltou da cama. O seu desejo era com o salto acordar toda a gente do mundo. Era um homem que não fazia as coisas por menos. Se ele não dormia, é porque dormir é um defeito desprezível. Entáo ninguém dorme, para que esta sua verdade, recentemente instaurada, ganhe balanço e pegue. Já que o sono não pega.

Mas as coisas não se fazem como noutros tempos. No tempo de seus bisavós bastava gritar “estão proibidos de dormir meus filhos de uma puta.” Insultar era de homem, e ninguém dormia. Quem dormisse, e fosse apanhado, levava o tratamento da espada, ou espingarda, ou prisão, tortura, fosse o que fosse que lhe tirasse o sono. Mas cedo se percebeu as trágicas consequências deste caminho. O povo não gostava, identificava a causa do seu sofrimento, que logo a calhar era material. Revoltava-se contra a matéria no poder, e até que percebessem que a promessa de liberdade da revolução, não era afinal liberdade nenhuma, era o cabo das tormentas.

Por um lado, naqueles tempos, a revolução dava jeito. Enquanto se está convencido de que alguém está a tratar da libertação colectiva, não se faz nada pela libertação individual. Não se correndo assim o risco de acontecer uma libertação geral, que possibilite a tão esperada implementação da anarquia. Isso é que tirava o sono ao Presidente. Agarrou no telemóvel e ligou ao vice Presidente global, que de um maneira geral era o Presidente de toda a gente no mundo, menos do Presidente.

– O que é que andas a fazer?

Que raio de pergunta para se fazer ao segundo homem mais atarefado do mundo. O Vice Presidente só admitiria aquele tom de voz a uma pessoa.

– As pessoas têm de andar com mais medo José! O que é que andas a fazer José?!

O vice Presidente só admitiria que o tratassem por José, a uma pessoa, que é quem vocês podem imaginar.

– Tira-lhes o sono José. Inventa um ameaça que não os faça rir. Nada de colapsos financeiros, eles já desenvolveram um sentido de humor para a pobreza material Nada material! Quero sombras! Electricidade! Mitos! Invisibilidade! Confundi-os está bem. Faz alguma coisa de jeito nem que seja uma vez na puta da tua vida. Se precisares de ajuda liga. Tenho de ir cagar.

Meio atrapalhado, o Vice Presidente convocou logo uma reunião com os melhores argumentistas que o dinheiro pode comprar. Havia melhores, mas é preciso levar também em consideração a qualidade preço. Ao fim de três horas de reunião ainda não havia uma ideia. Só material. Os argumentistas culpavam silenciosamente o Vice Presidente, que insistia em pegar nas suas ideias e transformá-las em algo concreto. Só para poder ter algo para mostrar ao Presidente Global. Grande engraxador.

Um argumentista que tinha de ir apanhar o mais novo ao ballet, e estava a ficar apertado de tempo, tentou pôr fim àquilo, indo buscar uma ideia das suas ao baú. Reciclagem criativa.

– E que me dizem de um Apocalipse de Zombis

– Isso não é uma série?

– Sim, mas primeiro foi um filme.

– Não. Primeiro foi um romance.

– Ninguém se lembra do romance.

– E o filme é para rir? É que se for esqueçam já a ideia. Tem de ser de terror.

– Sim, o filme é terror.

– Aquilo é mais acção.

– Nick tu não escreveste uma comédia com Zombies.

– Sim. Mas foi em 2004. Ninguém se lembra.

– O Jarmusch não fez um recentemente?

– Sim, mas não é comédia.

– Não é? Eu achei piada.

– Mas uma coisa é um filme, outra é a realidade. José, confia em mim, ninguém vai achar piada.

Quem não achou piada foi o Vice Presidente. Ficou com a ideia do Nick, e mandou-o prender por excesso de intimidade.

Contratou-se logo outro. Era pior mas mais barato. E para evitar mais despedimentos e custos de contratações inesperadas, ninguém lhe disse o nome do Vice Presidente. No anonimato tudo corre melhor, e com menos custos. Fica mais difícil para os criativos terem ideias a tempo de ir buscar os filhos ao ballet. Mas quem é que dança ballet quando anda a correr por ai uma pandemia de Zombis.