VII

Sentado à secretária, no final de uma noite longa, de frente para o papel ainda vazio, o criador dá um breve suspiro: “É isto… não é isto?”

Debruça-se sobre a folha em branco e rabisca qualquer coisa sobre uma fada. O quadrado circular não existe em nenhum mundo possível. E assim se cria o mundo… Um quadrado circular é um quadrado a girar sobre o seu centro; trata-se no fundo da revolta da geometria, do espancamento da lógica sem qualquer razão. Fixar o quadrado circular é contemplar o mundo.

“Dias etéreos…”

Acrescenta mais qualquer coisa, contorce-se um pouco na cadeira e solta uma leve bufa, que lentamente, como um dia que clareia, envolve todo o quarto e segue caminho. É este o material da criação.

O que me fui lembrar

Eu não sou isto que aqui vês

Este é o corpo que uso para ser nos outros tudo aquilo que posso ser

Estou cansado, o meu corpo está gasto

Porque já sou muitas coisas nos outros

O que vai ser de mim quando os outros morrerem

Eles que transportam o meu verdadeiro eu

E o que vai ser dos outros quando eu morrer

Eu que tenho em mim tanto que não me pertence

Notícia cinco

Hoje, um grupo de pessoas subiu uma rua inteira, levavam cartazes contra o racismo, fascismo, machismo, e como sobravam cartazes sem nome, ainda acrescentaram mais uma ou duas coisas acabadas em “ismo” que não destoassem do conjunto. No final da rua largaram os cartazes e foram beber um copo.

Um dos manifestantes quis citar um comediante americano famoso, pois parecia-lhe ser apropriada ao contexto, mas antes sentiu-se na obrigação de explicar às senhoras quem era o comediante. Não explicou aos senhores pois assumiu não ser necessário.

Pediram todos uma cerveja, o empregado que os serviu era preto e tinha sotaque angolano. Todos repararam. O manifestante que costumava fazer imitações de sotaques africanos, para seu divertimento e de quem se entretivesse com este tipo de humor, desta vez achou por bem não o fazer. 

Depois instalou-se uma pequena desordem, afinal qual era a melhor marca de cerveja? Cada um disse a sua, apresentando argumentos, uns mais imaginativos, outros mais agarrados aos factos. Não houve grande luta, afinal cada um podia ficar com a sua.

Mas quando foi para decidir onde se ia a seguir. Ai é que foi! Tentaram o método democrático, mas não funcionou. A minoria tinha muita força, mas não a suficiente para arrastar os outros para onde quer que fosse. Estavam perigosamente perto do ponto de ruptura.

As acusações que sabiam poder atirar contra os outros, para destruir as suas ideias e fazer prevalecer as próprias, corriam livremente pelas mentes de cada um deles.

Associavam preconceitos ao destino escolhido pelo outro, e depois ao outro pessoalmente. Até que um se excedeu “ou vamos para cima, ou não se vai a lado nenhum!” Um deles teve de agarrar pelo “f” o “fascista” que queria sair lançado pela boca em resposta ao ultimato. Enfim, uma enorme desgraça para aquele grupo de pessoas.

Acabaram por partir o grupo em dois, para ser mais fácil. Depois disto, cada sub-grupo partiu com um ódio especial pelo outro sub-grupo. Mas como tinham bons corações, cultivados com boas doses de tolerância e amor, acabaram por perdoar, e ao perdoar, inesperadamente o ódio transformou-se em saudade.

Moralidade desta notícia – Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.

Televendas dois

Sente-se cansado? Com tosse? Tem febre? Eh carapau! Isso só lá vai agora com a nova vacina! É verdade. Não procure mais. Com a nossa nova vacina não precisa de máscara, nem de gel, paracetamol, lixívia. Com esta vacina nem precisa mais de lavar as mãos depois de espirrar-lhes em cima. Uma vacina todos os dias depois de acordar, durante três meses, e esqueça essa quarentena fechado em casa a ler livros sem nada para fazer. Isto é passado. Para a frente é que é caminho. Não se esqueça nunca. Injectar-se é o melhor remédio.

Aviso legal:

A vacina pode ser adquirida em farmácias ou no nosso site por 19.99$ a unidade. Os efeitos secundários são ainda desconhecidos na sua grande maioria. Porém foram identificados casos de um medo injustificável a tudo o que diz respeito a estar vivo, perda de liberdade para fazer o que nos dá na telha quando nos der na telha, ansiedade social, uma vontade incontrolável de julgar o outro, telefonar à policia para fazer queixinhas, delírios, como achar de repente que não há nada pior do que morte do corpo, e que existir neste corpo é mais importante do que qualquer outra coisa que a imaginação, competência exclusiva do humano, pode alcançar.

Notícias quatro

Um homem não sai de sua casa há sete meses, e faz intenções de continuar confinado por mais um ou dois meses. Tudo depende, segundo ele, de como as coisas avançarem. Quanto questionado se o recolhimento lhe estava a ser imposto, o homem respondeu que não, e que sim. Ninguém o obrigava fisicamente ficar em casa, porém, para que não fosse preciso chegar a este ponto, preferia mostrar voluntariamente que aceita o castigo. No raciocínio dele, ao castigar-se por sua vontade, mostra que não precisam de o castigar no futuro. Confia na sua lógica, apesar de não ter assinado nada.

Notícias três

A equipa de jornalistas correu até à casa da mulher que afirma ser capaz de prever todos os movimentos de toda e qualquer mosca.

Foram recebidos pela mulher que pediu para se sentarem, enquanto não aparecia uma mosca. Não deveria faltar muito, as janelas estavam todas abertas.

A mosca apareceu e pousou na parede de um amarelado típico de casa de fumador. A mulher levantou-se, estendeu os braços no ar, inspirou num tom grave, mordeu o lábio inferior e abriu as sobrancelhas. Ambos os jornalistas, como a mulher e a mosca ficaram como estátuas.

A mulher começou a adivinhar: “vai para a direita” e acertou. Ouviu-se um aaah exclamativo. Depois disse “agora vai pousar na jarra” falhou. Por respeito ninguém se pronunciou. A mulher não se mostrou desencorajada, e sem perder tempo declarou a seguinte profecia “vai cair morta!”. Surpreendendo todos na sala, principalmente a mosca, a mulher espetou uma sonora bofetada na mosca com um jornal que apareceu ninguém sabe como. Acertou.

No caminho para casa, um dos jornalistas pensou, se a mulher tivesse acertado tudo, estava agora a varrer os estilhaços daquela bonita jarra.

Notícias dois

Depois de mais um mandato bem sucedido no exercício do seu poder masculino, o presidente teve direito às suas merecidas férias. Do cargo.

Porque o poder masculino não tira férias, no primeiro dia de praia o folgado presidente arranjou logo oito mulheres mais novas que ele. As mulheres, atraídas pelo poder, mostraram-se disponíveis, mas o presidente, um homem de bons costumes, ficou satisfeito apenas pelo merecido reconhecimento do seu poder.

Despediu-se das mulheres, e foi mergulhar na água fria do mar salgado de Portugal.

Arrefecer a sua magnânima erecção presidencial.

Notícias um

Foram encontradas dezenas de cadáveres de melgas, moscas, e algumas formigas, na cave de um individuo, sexo masculino, 36 anos de idade, em Santa Comba Dão.

O homem, que vivia sozinho mais um gato rafeiro, justificou as suas acções assumindo ter desejos homicidas.

Apesar de não estar previsto na lei qualquer pena para este tipo de crime, a policia resolveu colocá-lo com pulseira electrónica em prisão domiciliária.

Por precaução foi feita uma desbaratização em sua casa, e as janelas foram fechadas com cimento.

Não entendido

Tudo isto não passa de um mal-entendido. Só saio de casa quando tem mesmo de ser, normalmente é quando a comida acaba. Antes nem isso, mas de tanto praticar a autofagia, nas suas mais variadas formas, desenvolvi uma intolerância à minha própria carne.

Julgo que irreversível. Nada de grave.

Regresso pelo meu pé com comida e aquilo que se agarra aos sapatos. Deixo-os à porta por precaução. Evitar tanto quando possível contaminar o interior com o exterior. Não mistura-los de maneira que o seu segredo não se revele aos nossos olhos, que só vêm um lado de cada vez.

Não sei se me faço entender. Estou a falar da auto-sustentação de tudo. É preciso acreditar num certo grau de diferenciação. A nossa carne e a carne dos outros não podem ser a mesma.

Pode ser que esteja a fazer um mal-entendido por não perceber o valor das transacções.

Não gosto de ficar a dever. Não quero o mundo à porta, a exigir o que quer que seja de mim. Não suporto ficar em dívida por não ser clara a forma, o momento, ou a vantagem de pagar de volta.

Temo desequilibrar a balança. Ou por não ser capaz de saldar a dívida, ou por ter entendido mal os contornos da transferência.

Por isso deixo os sapatos à porta. Se aconteceu trazer algo por engano agarrado à sola, fica do lado de fora. Alguém há-de se apropriar, e fazer o que deve ser feito.

Não sei o que deve ser feito.

Saber só pode resultar em duas possibilidades:

Ou recusamos o mundo, para não ter de andar sempre a incomodar-nos com o não saber o que fazer com as coisas que nos são oferecidas.

Ou ficamos com tudo. Guarda-mos tudo em nós, na nossa casa, tudo o que nos é oferecido.

Eu não faço parte dos que se encaixam na segunda possibilidade. Se pudesse receber visitas, estas confirmariam como tenho a casa vazia.

Todo o pó lá em casa cai em cima de mim, por falta de opção. Tenho pó atrás nos dentes, à frente dos olhos, por baixo das unhas. Uma vez por mês recebo nas escadas uma senhora que faz limpezas. Tira-me o pó todo. Diz-me depois que é meu, o pó. Eu respondo que não, não é. Pago-lhe e volto para dentro. Deixo-a com o meu dinheiro mais o meu pó, de maneira a certificar-me que o saldo continua a tombar para o meu lado.

Ela não se rala com isso, não se importa de ficar a dever. Tem mais com que se preocupar do que com o equilíbrio universal.

O que lhe é destinado é, o que não é não é.

É preciso um certo grau de relaxamento, despreocupação, para aguentar, acompanhar, tanta transacção em andamento.

Quando se acha que se está muito para um lado, ou para o outro, é precisa lembrar como tudo não passa de um mal-entendido.

Um mal-entendido serve para justificar um erro por excesso, ou por escassez. Os mal-entendidos resolvem-se da mesma maneira como acontecem. Exclusivamente pela mão divina. O Homem não tem acesso a esta funcionalidade. Está bloqueada.

Sei de certas coisas.

Sei fazer trocas para obter alimento, sei relacionar-me com a mulher que me limpa o pó, e sei que quando saio à rua, tudo não passa de um mal-entendido.

Televendas Um

“Ir para todo o lado descalço é um pesadelo. Atravessar a estrada, caminhar pela calçada cheia de lixo e dejectos de animais, correr para apanhar o autocarro, ter de avançar em bicos dos pés quando se quer sair do trabalho mais cedo sem que o patrão dê por isso. Quem nunca saiu do trabalho uns minutos mais cedo? Se é uma dessas pessoas tenho boas notícias para si! Se ligar agora para o número que está a passar mesmo em frente aos seus olhos, vai poder ganhar um incrível par de sapatos. A única coisa que precisa de fazer é ligar! E pagar por eles.

Não vai conseguir adquirir estes sapatos em mais nenhum sítio. Aliás, se perder esta oportunidade limitada ao stock existente, não terá outra. Vai ter de andar descalça para o resto da sua longa e dolorosa vida. Mas não é só isto! Estes sapatos têm uma sola feita a pensar exactamente nas medidas do seu pé. Ajustam-se como nenhum outro que já teve. Há uma vida antes, e depois destes sapatos. Depois de andar neste sapatos, já não vai poder usar outros. Isso eu garanto-lhe. Por isso o melhor é ligar e pedir dois.

O preço é de 75 euros. Só!? É verdade. Pode escolher a cor apesar de ser irrelevante. Não têm atacadores. Não precisa de ficar a noite toda acordado a pensar se os seus filhos não estarão a mexer-lhe nos atacadores, e a estudar uma maneira de se enforcarem quando não conseguirem aguentar mais as dores nos pés, por terem de caminhar descalços. Não quer que os seus filhos se enforquem? Então hoje é o seu dia de sorte. Vai poder, em vez de comprar dois pares, comprar três! Ou quatro! Um para cada filho ou filha.

O que foi isto!? Não acredito. O alarme mágico. Sabe o que quer dizer? O preço já não são os 75 euros que lhe falei. Agora pode aproveitar esta oportunidade, que irá melhorar a sua vida amorosa, familiar, carreira, prestação sexual. Não sei se já lhe disse, mas os sapatos aderem a toda a superfície como um pega-monstros. Eu pelo menos só fodo com eles calçados. Como pode ver tenho-os agora. Por apenas 10 euros o par! 10 euros! Chiça! Esta é que eu não estava à espera.

Porque é que o preço desceu inexplicavelmente, cinquenta euros? Primeiro, porque eu não sei fazer contas. Não me pagam para pensar. E a si também não. Aposto que já ouviu isso no seu trabalho. A segunda razão é porque quem produz sapatos não o faz para calçar as pessoas. Por isso é que mesmo quem não anda descalço, ideologicamente é como andasse. Quem produz sapatos, produz para gerar lucro. O máximo possível. Tem de sobrar dinheiro para pagar aos infelizes que fazem sapatos de forma compulsiva.

Sapatos que não servem o seu propósito, porque estão ocupados a servir outro. E outros. Sempre o mesmo, sempre os mesmos, independentemente do méritos das cambalhotas que damos para sermos o outro que não somos. Transformar tudo o mais depressa possível em dinheiro. Porque tudo acaba por se transformar em dinheiro. É inevitável. Como a morte. A morte trágica dos seus filhos se não comprar estes sapatos agora por 7.99!”