IX

Uma vez conheci um rapaz que mijava solenemente em cada árvore que encontrava. Aparência de outro modo meio tola e desajeitada, quando se aproximava de uma árvore, retirando lentamente o chapéu como a pedir licença, todo o seu corpo se endireitava, e o seu rosto adquiria uma concentração de quem se encontra de joelhos a rezar numa capela.

Isto aconteceu durante uma curta estadia minha lá para os lados da Guarda, onde as árvores são abundantes e a imaginação, como a bexiga, não conhece limites.  Finalmente, num acesso de coragem muito pouco característica da minha parte, perguntei-lhe a razão daquele comportamento. A resposta foi a que se segue:

“A terra ao girar produz um som característico. Quem durante uma qualquer noite nunca ouviu este som, deve virar o olhar para cima e dar graças aos céus por nunca assim, pelos ouvidos, ter sido irremediavelmente esmagado. Repara. Tu. No modo como a folha amarelada se desprega da árvore que parece, agora, nunca verdadeiramente a ter sustentado, e se deixa, inerte, levar pela corrente da ribeira ou do vento, até que lentamente se afunda, numa curva, onde a infindável torrente do mundo, condescendente, por vezes abranda. Senta-te, nem por isso abrandando, e observa como algum vento e água depois, uma nova folha verde aparece no espaço deixado pela outra, apenas para lhe suceder no fundo do rio ou da terra. O meu mijo, de quem foge da água, dá uma pequena, mas eficaz contribuição para que não mais se caia na humilhação de ter de pedir ao mundo condescendência, para que numa qualquer curva nos possamos finalmente quedar. O meu mijo mata a árvore. O meu mijo para o tempo. Quem na escuridão da noite nunca ouviu o som da terra a girar, deve virar-se para o céu e dar graças. No caso de o fazer é melhor ter cuidado com as graças, porque o céu também se move, e o sítio para onde se apontam pode não ser o mesmo onde elas vão parar. O melhor talvez seja fazer como na caça, dar um desconto e apontar mais para a frente. Ou nem sequer apontar, fechar os olhos e disparar; assim no mesmo momento em que ouve pela primeira vez o mundo, acaba logo com ele.”

Não percebi. Disse que sim e pirei-me dali.

Jogo de Cultura Geral – Parte I

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Não fora ter acontecido uma acesa discussão, depois de um almoço de domingo, sempre mais perigosos do que os de outro dia qualquer, uma vez calharem no fim de uma semana, coincidindo em cheio com a esperança dos homens de que tudo finalmente acaba de barriga cheia, homens sem maiúscula, no almoço não havia representação feminina. Não tivesse acontecido esta discussão, que passo a contar, e José podia contar com a colaboração do amigo Ricardo para a sua causa.

A meio do segundo jarro de vinho, o equivalente a três copos por pessoa já bebidos, José puxou da televisão, enjaulada numa armação de ferro aparafusada à parede da sala, para a mesa o tópico de desconversa sugerido pelo jornalista principal e acumulador de funções, um terrível habito de se provar ser mais porque se faz mais. O jornalista escritor, apresentador, actor, professor e não raras vezes empresário. Como todas estas personalidades se empilham num só corpo, em trocas constantes e movimento harmonioso, é arte trabalhada do malabarista ou segredo bem guardado do ilusionista, ainda por descobrir por quem desempenha a custo uma única profissão. O tema sugerido foi o aumento do desemprego em Portugal. José deu um puxão no tema para a mesa com tanta força, que este aterrou meio desorientado.

– Olha para aquela tristeza. Ninguém quer fazer nenhum. Sabes quem paga aquilo, sou eu, és tu, Pais de merda este.

Ricardo, sentado mesmo à sua frente, tem uma sobrinha doutorada em Estudos Portugueses desempregada, algo que era do conhecimento de José. Não era caso para se ofender, uma vez que o comentário tinha sido feito não por qualquer ajuste de contas pessoal, mas por uma necessidade antiga de revalidar a vida que se leva. De qualquer maneira Ricardo levou o comentário a peito, e respondeu convictamente.

– Oh esperto, sabes que os desempregados querem trabalhar? Ou achas que é bom não poder pagar as contas?

Para José o esforço de se imaginar no lugar do outro era coisa para os dias da semana, e porque os estudos recentes concluíram ser bom para o negócio. Uma missão negócio levada a cabo pelo soldado empresário, recrutando e empregando vida alheia escolhida a dedo de maneira a minimizar custos e maximizar lucro. Um corpo a crescer sem um fato a impor o tamanho ideal, o tamanho certo a partir do qual o tecido rompe.

A discussão continuava o acompanhava o movimento de uma empresa saudável. Boa empresa é a que não contrata alfaiate. Alcançou um nível tão elevado mas sem elevação, tão distante das razões que impuseram o seu surgimento, que agora os seus intervenientes, envolvidos num esquecimento embaraçoso, só pensavam na eleição um único vencedor, como inevitável e justo desfecho.

– Epah! Não me chames isto outra vez se faz favor! Isso do chamar fascista a um gajo serve para nos calar, mas eu falo e digo o que quero, não tenho medo de dizer o que penso. Tu achas bem, hã? Eu sou Português, trabalho em Portugal, mato-me a trabalhar, para pagar o ordenado a tipos que se calhar têm carros melhores do que o meu? Foda-se ó Ricardo, não me fodas pah!

– Mas de quem é que tu estás a falar? Tu estás a imaginar realidades alternativas. Olha, vai lá um dia à segurança social, e vai lá perguntar se alguém na fila anda melhor montado que tu? Ou se apanham o autocarro ou vão a butes? Tem juízo, sabes lá do que estás a falar.

– Mas responde-me, porque é que não vão trabalhar? Se precisam tanto assim de rendimento no final do mês, porque não vão trabalhar? E não me venhas com a história de não haver trabalho. Trabalho sempre houve e haverá de haver. É preciso é querer trabalhar.

– Há! Há muito trabalho. Dá para trabalhar na tua empresa com estágios do IEFP. Quando é para ti, tudo bem, o Estado já pode bancar. Pimenta no cu dos outros para mim é refresco.

– Tu sabes lá o que é ter de gerir uma empresa neste Pais. Sabem quanto é que eu pago de IRC, sabem? E os salários que tenho de pagar todos os meses? Só se investe no turismo aqui. Queria ver-te. Falas sem saber o que custa a vida pah.

A discussão continuava neste carrocel já o telejornal tinha terminado. Para além dos três homens sentados na mesma mesa de café, transformada em mesa de debate político, de café, a sala estava vazia, até os empregados fartos de ouvir berros sobre os que não estão, abrigaram-se na cozinha. Os restos de carne com nervos e as manchas de vinho secas no papel rasgado e dobrado pelos cotovelos irrequietos dos homens, espelhava a natureza desconstrutiva dos argumentos.

O terceiro elemento, o Sr. Fernando, conservava-se mudo, mas como auscultava os outros com uma perturbadora atenção, nunca pareceu ausente da discussão. Ouvia-os atentamente mesmo quando as vozes se sobrepunham, quando assim era escolhia uma, assumindo da abafada o contraditório da percebida.

Fernando era um homem moderado. Uma moderação cultivada pelo prazer de pensar e uma aversão ao conflito. Este traço de personalidade faziam dele um elemento deveras solicitado para almoços de convívio combativos como este, um preço a pagar pela conservação de um raro traço entre os seus semelhantes convictos das suas certezas.

Aproveitou uma breve pausa na discussão para intervir finalmente com todo o direito que lhe era devido.

– Eu percebo o sentimento de injustiça aqui do nosso amigo José. Porém, se tivesse de culpar alguém por me sobrecarregar para além do necessário, como se sobrecarregavam os escravos mais habilidosos nas tarefas que outros demostravam ser incapazes, ou se recusavam mesmo a fazer, sofrendo as consequências bárbaras da sua recusa e que são do nosso conhecimento histórico, eu culparia não os desgraçados que vivem dos subsídios, mas sim os donos e acionistas das grandes empresas. Não falo das pequenas e médias, bem sei como têm de se esforçar só para não ter prejuízo dada a feroz competitividade do mercado.

Acrescentou a parte das pequenas e médias empresas, numa hábil estratégia de demonstrar estar do lado de José, e não contra ele, de maneira a não contribuir para o carrocel de mal entendidos. De qualquer maneira esqueceu-se de demonstrar como é que os poderosos sobrecarregam os seus compatriotas. Foi melhor assim, se o tivesse feito, baseando-se na História e nos seus números mais redondos, ia obrigar os companheiros a jantar fora de casa.

Se uma discussão entre pessoas da mesma classe social, acerca de temas como este, acaba com uns contra outros, deve-se certamente a um mal entendido, onde a parte responsável é deixada de fora, sossegada em anonimato, o que é profundamente lamentável.

– Mas então diz-me lá então Fernando. – disse Jorge – Para ver se eu compreendo, só quero perceber, nada mais. Tu achas bem? Um tipo que não faz nada, não trabalha não produz, não cria emprego, não faz nada, é um parasita. E receba no final do mês por isso? Cai-lhe o dinheiro do céu?

– Parece que essa pessoa que me descreves, sossegadamente quieta, não existe. Antes pelo contrário, o mundo está cheio de pessoas incapazes de sossegar. Encontrar alguém capaz de não fazer nada, é raríssimo. Desafio-te a tentar, e vais ver como é complicadíssimo. O que existe são algumas pessoas, uma minoria infelizmente, que não estão disponíveis para o trabalho não produtivo que gera um lucro desigualmente distribuído por quem de direito. A estes, e aos que nada fazem se os houver, eu digo que sim, devem ter o direito, mais do que justificado, de receber um valor mínimo só por existir. Estou convicto de como, ao receberem da sociedade, gentilmente e voluntariamente retribuirão. Até prova em contrário, é esta a minha convicção.

Este parágrafo, face a agitação dos interlocutores, foi várias vezes interrompido, e só foi possível a sua conclusão, graças a uma enorme paciência e perseverança de Fernando, que teve de recuar várias vezes no texto, para poder concluir o seu pensamento.

– Tu andas a viver noutro mundo oh Fernando! As pessoas se poderem ficar o dia todo de papo para o ar a ver televisão ficam. Desde que tenham alguém que lhes meta a comidinha na mesa, e lhes pague as contas no final do mês, achas que vão mexer uma palha por alguém?

– Se fosse assim, os elementos das famílias com enormes fortunas, fortunas maiores que a soma dos salários anuais de todos os trabalhadores das empresas que detém, essas pessoas não fariam nada. Mas se fores ver, são as mais activas na sociedade. Apenas está ausente das suas actividades, o trabalho não produtivo.

– Mais razão me dás. São os que fazem mais, e são os que recebem mais. Olha a coincidência. Agora é que estás a perceber este mistério da civilização. Quem mais trabalha mais dinheiro tem. Isso é o que eu estou a dizer desde o princípio, e o que está mal é quem não trabalha ter dinheiro.

– Qualquer uma dessas pessoas com fortuna vai ter sempre mais dinheiro do que tu, mesmo não fazendo nada, se fossem capazes de não fazer nada claro. O trabalho e o dinheiro não estão diretamente relacionados como sugeres. Podes-me dizer, porque trabalharam antes. Eu diria antes porque tiveram pessoas, as tais pessoas que acusas de ociosas, durante várias gerações, e ainda hoje, a trabalhar para as suas fortunas. Esta alias parece-me ser uma boa justificação para todos terem direito a uma renda. Poderás dizer, e com razão, é um argumento fraco, aceito. De qualquer maneira, mais fraco é um argumento que justifique a desigualdade de riqueza do homem mais rico contra a do mais pobre. A única justificação que consigo imaginar, é um terrível erro de cálculos.

– Mas espera lá – interveio Ricardo, animado por ver a discussão desbloqueada – Estás a dizer que se todos recebessem, vamos supor, 500 euros só por existir, todos os meses, achas que iam aparecer voluntários para apanhar o lixo, cozer o pão, servir à mesa?

– Da maneira como hoje são desempenhadas estas tarefas não produtivas, espero bem que não. Mas acredito que continuava a haver quem apanhasse o seu lixo, não o da cidade inteira, quem cozesse o pão e servisse os seus à mesa.

– És um utópico.

– Nem por isso. Sei que se amanhã aprovassem o que eu sugeri, uma mensalidade de 500 euros para todos, muito provavelmente isso significaria um enorme caos social. De qualquer maneira isso não me impede de imaginar um futuro onde tal acontecesse, um futuro melhor para todos.

– Para todos não. Um futuro melhor para os pobres, os ricos saem prejudicados.

– Finalmente! Mas se queres saber, acho que esta ideia, de que ser rico é o fim a alcançar, o salvamento da raça humana, é o maior impedimento para a realização desta utopia. É uma ideia tão antiga como a civilização, a de que é melhor ser rico do que pobre. Esta comparação entre classes valida, quase sem darmos por isso, a constante comparação entre os Homens. Enquanto existirem classes sociais, ser pobre é evidentemente pior do que ser rico. Porém o rico tem duas ameaças: o sentimento de estar a tratar injustamente o outro, e o medo de se tornar pobre. Já para não falar da constante ameaça de revolta do povo. Bem sei como o grito de revolta perde força mal é lançado, como uma onda ao longo da hierarquia social, sujando apenas de uma leve espuma os que ocupam o topo. Todavia os tsunamis são fenómenos naturais, que sucedem sem aviso.

– Basta olhares para os livros de História do meu filho – disse Ricardo – e verás como tudo o que é ser vivo só consegue alcançar um lugar comum com o outro dentro de uma lógica de poder. Viver em comunidade sem classes socias é ainda mais Utópico do que a tal mensalidade de 500 euros.

– Não me compararia a outros seres vivos não falantes. Pelo menos no que diz respeito a questões éticas. Parece-me que o humano tem atributos que o diferenciam de um crustáceo ou de um búfalo. Todavia receio existir realmente entre animais uma preferência pelas relações de poder, de maneira a facilitar a vida em comum. Porém, se ousássemos contrariar esta tendência para a mimética, quem sabe descobríamos uma nova forma de relacionamento. Eu consigo com o meu gato, é um sinal esperançoso para realização desta promessa.

Aproveitaram a nota humorística para encerrar a discussão. Num tom ainda mais leve manifestaram o seu mais sincero desprezo pelos muito ricos, chegaram a nomear alguns mais mediáticos. Antes de abandonarem o restaurante, para não dar o braço a torcer, José disse ainda.

– São os ricos e os pobres. Uns não fazem nenhum porque não precisam, outros não fazem nenhum porque não querem – e finalizando, para juntar-se aos seus companheiros, evocando a camaradagem incondicional de quem se junta à mesa para comer, acrescentou – nós é que andamos aqui a empurrar este Pais para a frente.

Um nós que prossuponha um eles, e o mal estava feito. Fernando sentiu-se tentado em repetir como os pobres oferecem-se diligentemente, contra todas as expectativas, para servir de qualquer forma a qualquer troco. Libertando os ricos para as desafiantes e indesejáveis tarefas de governação de um povo, que não raras vezes lamentavelmente se transformam em tarefas de exploração de um povo. A tarefa é desafiante, é importante estar atento mas não julgar para lá do necessário.

Não caiu na tentação e deixou o amigo ficar com a última palavra. Que a sociedade funciona assim, ninguém pode afirmar o contrário, basta enfiar a cabeça de fora da janela, e constatar os movimentos em redor. A questão não é essa. A questão é mais profunda, tão profunda como a necessidade intrínseca do humano por justiça, e por não estar só no mundo.

Ricardo aceitou as tréguas subentendidas de José, e os três agendaram por alto o próximo almoço

Assim foi a discussão.

Dias mas tarde José recebeu uma chamada de um canal de televisão, congratulando-o por ter sido o escolhido para servir de concorrente no programa Joker, um programa de perguntas e respostas transmitido todos os dias úteis na televisão pública. Para participar foi-lhe exigido que levasse consigo outra pessoa, um co-concorrente, sem o qual a sua participação não poderia ser aceite. José lembrou-me imediatamente do seu amigo Ricardo. Não fosse a discussão descrita, e o caso mudava de figura.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

VIII

No outro dia, numa daquelas manhãs húmidas de Sintra, houve um velho de outro tempo que passou pela rua. Vinha de preto, casaca comprida e comida pelo atrito dos anos.

O atrito dos anos é uma expressão optimista, agora bastam segundos para que uma casaca se perca para sempre numa história que já não existe.

Tinha o rosto enrugado e amarelo torrado, coberto por uma penugem russa que lhe cobria quase toda a cara, e à volta do olho um vinco profundo e redondo, como se tivesse passado toda a vida a espreitar por um monóculo, no entanto hei-lo agora a passar pela rua ainda meio nublada da manhã.

O gatilho quando tocado ao de leve, como que a sondar a pressão exacta do disparo, resiste, e a arma parece fundir-se numa só peça pesada e inteira. O gatilho, quando finalmente premido não oferece resistência, e a arma desvanece-se na bala que desaparece não se sabe bem onde; procura-la é procurar por um culpado quando a culpa já se encontra eliminada.

Mais uma vez, como desde sempre, a terra foi invadida pelo cheiro a queimado das lareiras dos homens. O velho seguiu caminho até à praça da igreja, parou de fronte para o templo e cheirou um pouco de rapé que retirou de uma minúscula caixa de marfim que tinha no bolso da casaca, passada essa oração seguiu caminho e desapareceu na neblina matinal. Aquela neblina que agora é só água gasosa que percorre as ruas e não trás mais do que verdete às paredes.

O pintor Daltónico

O dia adivinhava chuva sem demonstrar muita vontade de cumprir a promessa. Gonçalo tinha uma hora de almoço. Estava sem apetite mas tinha de ser, a hora estava marcada, há que fazer um esforço e empurrar a comida para onde irá fazer falta num futuro próximo. A facilidade de forjar o acto de mastigar ajuda a empurrar a comida mesmo em gargantas mais secas. Em último caso engole-se como se fosse comprimidos, e fica-se a dever um favor ao estomago. Neste caso extremo é aconselhável o uso dos talhares como alternativa aos pauzinhos.

Pediu um dos cinco menus pensados para adivinhar a imprevisibilidade do voracidade humano. O menu dois era o que melhor se ajustava ao seu apetite, uma sopa de cenoura, uma bifana enfiada no meio de uma carcaça, e um chá frio de limão. Quando o informaram que ia demorar um bocadinho ficou dividido, por um lado não lhe agradava a ideia de desperdiçar um atraso por culpa alheia, por outro lado conhecia o bem que o tempo faz aos apetites. Exigiu uma estimativa como garantia, e aceitou a espera.

O tabuleiro foi-lhe entregue antes de terminar o prazo do ultimato, dividiu-se novamente. Com esta segunda divisão ficou partido em quatro, nenhuma podia chegar atrasada ao trabalho.

Sentaram-se os quatro numa mesa onde só cabia uma pessoa. Esta incongruência capaz de arrancar do sonho mais profundo o mais crédulo dos sonhadores, não incomoda a vida de um sonâmbulo.

Olhou para o relógio, acreditava que quanto mais vigilante fosse do relógio, melhor controlo tinha do tempo. Comia lentamente a sopa, evitando com a colher a rodela de ovo cozido, para não ficar muito cedo com nada sem ser a monótona cor laranja da sopa de cenoura. Acompanhava cada colherada com respostas ao que os seus companheiros de mesa perguntavam. Um deles perguntou, num tom algo provocativo que não passou despercebido a Gonçalo, como tinha aguentado tantos anos a pintar paredes.

– Eu tenho uma característica que muitos pintores não têm, é esta capacidade de criar mundos na mente. Se fores ver as minhas médias, sou dos que passa mais tempo seguido agarrado ao pincel, sem tirar os olhos da parede, porque consigo desenhar em cima da cor formas em movimento.

– Mas não gostas de fazer pausas, para fumar um cigarro, ou beber um café?

– Também faço, claro. Mas não há melhor pausa do que esta fuga para dentro. A liberdade que se pode encontrar para dentro, é incomparavelmente superior à que se encontra para fora.

– Não te faz mal estar tanto tempo a olhar para a parede?

– Tem um preço a pagar. Quando termino de pintar, fico algum tempo a ver o mundo da cor da parede acabada de pintar. O mais desagradável é agora não ser eu a desenhar as formas e fazer delas o que quiser, como me tinha habituada a fazer com aquela cor. Eventualmente os olhos ajustam-se ao mundo e à sua variedade cromática, e eu aceito as formas e os seus movimentos sem mais frustrações.

– Então se sabe isso, porque fica tanto tempo a olhar para a parede?

– É uma boa pergunta. Talvez seja…

O telefone tremeu-lhe no bolso. Uma notificação persistente que ele não sabia desativar.

– Por exemplo, isto que aconteceu agora. Não foram os do meu grupo sanguíneo seguramente os responsáveis pela invenção do telemóvel. Se os fabricassem em forma de algemas, tornava-os mais fieis ao que são. Onde é que tínhamos ficado? Estava a pensar em qualquer coisa antes disto.

Comeu a rodela de ovo cozido na penúltima colherada. Não quis deixar para a última porque assim podia escolher; terminar com um colher de sopa com ovo, ou com uma colher de sopa sem ovo, igual às outras todas.

Depois da sopa estava comido. Olhou para a bifana como quem olha para uma decoração de plástico em forma de alimento. Se o acto de mastigar pode ser facilmente falsificado, o de comer não. Comer requer vontade, sem vontade mastiga-se e engole-se, até o observador mais distraído consegue dá pela diferença.

A bifana não estava partida em duas partes iguais. Tal nunca seria exigido a quem fez o favor de a cortar ao meio. Apesar disto a disparidade de tamanho de cada metade era exagerada. Escolheu começar pela maior, ao levanta-la do prato, a outra veio atrás. A fatia superior da carcaça e a carne tinham sido separadas com sucesso, o mesmo não se podia dizer da base assente no prato. Quem preparou a sandes podia ser muito eficaz a cortar pessoas em quatro, mas deixava muito a desejar no corte de bifanas ao meio.

Partiu com as próprias mãos a base do pão, finalizando o milagre da duplicação, e desferiu a primeira dentada. Uma grande dentada uma vez que era a primeira, e não sabia até quando ia continuar a ser capaz de enganar a fome. Tinha de aproveitar cada dentada, quantas menos desse melhor. Assim que começou a mastigar identificou os seus pontos fracos da sua estratégia. Não é fácil desintegrar tanta comida quando a sua descida não está a ser solicitada. Engoliu ainda a bifana era bifana e não bolo alimentar.

A segunda dentada foi menos ambiciosa e por isso entregue ao estomago com melhor apresentação. Pousou a metade da bifana no prato, era muita comida! Mais do que precisava para o resto do dia. Lembrou-se de embrulhar para mais tarde, procurou uma boa desculpa para não o fazer, encontrou a de ter de transportar um resto de bifana consigo até encontrar o seu apetite. Não queria pressionar, nem ficar refém do seu apetite.

– Nem tudo é bom sabem?

– A que se refere?

– Ser livre para desenhar as formas e escolher o cor de fundo é um prazer enorme, quase como uma droga, mas há sempre um preço a pagar. Li em qualquer lado que só se sonha a preto e branco.

– Isto do preço a pagar não será um catolicismo capitalista. Não sei se podemos aplicar esta ideia a tudo. Ou se precisamos de aplicá-la ao que quer que seja.

– Vamos fazer uma pausa na conversa. Tenho de comer isto e assim não é fácil.

– Porquê?

Levantou a cabeça e endireitou a coluna, à procura do silêncio, nem que fosse por um instante. Depois voltou à bifana e a um dialogo interno menos esquizofrénico.

Não consigo comer tudo o que tenho no prato, mas se conseguir mais duas dentadas, pelo menos termino uma parte, já é qualquer coisa, e depois quem sabe? A outra metade é mais pequena, no rigor se comer esta metade já estou para lá do meio, mais perto do fim do que parece. Por outro lado se fiquei cheio à primeira dentada, as minhas perspetivas não são as mais animadoras.

Porque é que quem come 17 bifanas tem uma história para contar, mas ficar a rebentar pelas costuras com meia sopa não é notícia para ninguém.

– Há uma dose mínima de alimento a consumir para se ter voz.

Ainda tinha o sumo. Lembrou-se de ter assistido a uma competição de devoradores de cachorro quente. Antes de cada dentada mergulhavam o cachorro num copo com água, como quem molha bolachas no chá. Este maneira pouco usual de se ter uma refeição estava legitimada pelo prémio, em dinheiro, entregue ao vencedor. Não ia fazer o mesmo evidentemente. Apesar de a sua refeição ser, de uma manira mas indirecta, para ganhar dinheiro. Fosse como fosse, ali naquela mesa, a bifana não encaixava no copo.

Bebeu um bom bocado de sumo. A mudança de sólido para o líquido restaurou-lhe alguma confiança. Antes de a perder, não acontece só com o apetite, levou a bifana à boca e abocanhou um bocado quase igual à primeira dentada. Faltava uma trinca, e a metade mais pequena, nunca pensou chegar tão longe.

Equacionou a estratégia de começar a metade que faltava antes de terminar a outra. Sabia bem o que este caminho queria dizer, era dar-se por vencido. Era comprometer-se em aceitar a refeição como terminada com um resto por comer à vista de todos. Por mais insignificante que fosse, não podia ignora-lo, marcava o seu fracasso, e todos os significados que se podia tirar dele. Um prato vazio é uma refeição terminada para ele e para o senso comum, um prato com restos é uma refeição terminada para quem passou a ver restos onde antes jurava ver comida.

Encheu a boca com sumo e juntou-lhe o resto da primeira metade. Com tempo a criatividade junta as formas que sem tempo não se encaixam. Só faltava a metade mais pequena da bifana. Nunca pensou ser capaz de comer tanto. Visto por quem passa, era um homem sentado à mesa a almoçar, mas de perto, visto a partir dos seus olhos, era um feito heroico.

Parou, sentia-se cheio. Não precisava de comer mais. Nem naquela refeição em contra relógio, nem nas próximas.

Se tivesse dito isso a alguém, qualquer pessoa, veria reflectido na cara do outro interlocutor a pouca probabilidade de isto ser verdade. De outra maneira não havia como provar o contrário, pelo menos naquele momento.

– E se terminar a bifana? Se com o que já comi assegurei alimento para o resto da vida, se comer o resto, fico até com uma margem de segurança.

A brilhante conclusão a que chegara não lhe abriu o apetite, tal seria fatal para a sua nova filosofia. Um último esforço, pensou, vou empurrar isto para dentro, e depois acabou-se, seguem-se anos sem sobressaltos a favor do vento, indiferente ao destino até porque vou de boleia.

Deu a primeira dentada e uma das últimas da sua vida. Olhou para o que já tinha feito, sentia-se cheíssimo, se fosse qualquer outra refeição teria terminado ali, mas aquela era a última, e agora que estava tão perto do fim, não se ia embora sem comer tudo.

Guardou um resto do sumo para o fim, para limpar o sabor da carne, uma vida fluida como os líquidos, livre da tirania das formas sólidas. Agarrou no resto da bifana e enfiou-a toda na boca. Foi o fim não consumado porque faltava mastigar. Mas era irreversível, como o movimento de uma ratazana no interior de uma jiboia. A boca do animal fecha-se, e o corpo engolido só volta a ver as cores quando se metamorfosear.

Mastigou pela última vez, engoliu e bebeu o sumo. Olhou para o relógio, estava algumas horas atrasado. O estômago pedia-lhe para caminhar sem inventar um destino espacial ou temporal. Estava a dever um favor ao estômago desde a primeira dentada, não podia nem queria recusar-lhe aquela vontade. Levantou-se e começou a andar.

Tanto quanto sabemos, não voltou ao seu trabalho de pintar paredes. Continuou cheio, e cheio de vontade de caminhar, cheio a dobrar. Não havia qualquer razão para ir pintar uma parede ou o que quer que fosse. Já tudo levou a primeira de mão há muito tempo.

Afta

Apareceu, no céu da minha boca, uma ferida a qual chamei afta. A palavra veio-me à minha cabeça, onde está o meu céu da boca, e onde por sua vez apareceu-me a afta, que é uma ferida, no céu da boca.

Toquei-lhe com a língua, foi uma sensação incrível. O receio, devido ao inusitado de tudo aquilo, fez-me hesitar antes de repetir o toque. Vencido o receio, perdi a contagem. Mas posso-vos dizer, não me orgulho, mas como é bom para a saúde partilhar o que pensamos, vou dizer: Houve dias, dias inteiros, que não fiz mais nada se não lamber a ferida.

Devo explicar-me. Afinal é para isso que cá estou. Faço-o mais por mim, sou egoísta. Às vezes tenho de me explicar em voz alta. Não me chego a perceber. Não, isso seria pedir demais, e seria até assustador. Não sei o que faria, se um dia percebesse o que quer que fosse.

Passo a explicar-me. A ferida, que por definição é o que está depois da carne, lambida, produzia em mim uma sensação de infinito. Cada lambidela produzia mais infinito. No espectro das sensações, fica no extremo oposto de nenhuma sensação. Ironicamente, uma conduz à outra. A de infinito à de nada, a de nada ao infinito.

Não percebo. Melhor assim, perceber não me ia fazer nada bem.

Vou arriscar uma explicação! É assim que elas começa, as enxaquecas.

Admito tratar-se de um vulgar problema de armazenamento. Nada mais do que um simples problema logístico.

Passo a explicar pela segunda vez, porque a primeira pareceu-me insuficiente.

O infinito, sentido, é constituído (como se pensa ser constituído tudo o resto) por protões e electrões. Estes electrões e protões têm de estar em algum lado, antes de ir para lado nenhum. Ora quer-me parecer, existir algures em mim, um local onde são armazenados. Quem trata das feridas seguindo os conselhos do médico, e não como um cão como eu faço, nunca tem o armazém a rebentar pelas costuras. Como vos disse, passei um dia inteiro a lambuzar na ferida. O armazém não podia receber mais encomendas, houve uma ordem de esvaziamento, abriu-se um buraco negro em mim, e despejou-se aquilo tudo para o buraco.

Isto tudo para explicar o quê? Entretanto esqueci-me.

Enfim.

Deixei de sentir infinito. Ainda assim, sentia algum prazer ao tocar na ferida. Depois uma dor agradável, leve, e depois aquilo infectou. Tive de ir ao médico, ele disse-me que eu era um animal. Eu disse está bem senhor doutro, mas diga-me, isto é caso para eu me preocupar? Deu-me um antibiótico. Só pediu para eu não o misturar com álcool. Deve ter ficado com uma má ideia a meu respeito. Apesar de eu me ter explicado, quando não precisava. Acho que foi quando falei em protões e electrões, que ele deixou de me levar a sério. Se tivesse, em vez disso, falado em bactérias ou vírus, para mim é a mesma coisa.

Hoje, porque isto já se passou alguns anos, passo a língua e não sinto nada.

Mas é um nada confortável, é sempre um bocado triste, deve ser pela lembrança do que foi. Não podia continuar assim, estava a infectar, disse o médico.

Enfim.

Se calhar não estou a passar a língua no sítio certo. A memória não é nada precisa.

Enfim.

Quando voltar a ter uma afta, porque o médico falou-me da forte possibilidade de isto voltar a acontecer, só não percebi porque falou dessa possibilidade como se fosse algo a evitar.

Enfim.

Quando reaparecer, tenho já as horas marcadas para cada lambidela, fiz uma folha no excell. Se me comprometer, exige algum compromisso, por mais que custe, se conseguir seguir o plano à risca.

Enfim.

Hei-de me habituar à rotina. Se correr mal, esvazio-me e volto ao antibiótico. Sobraram alguns comprimidos da última vez.

VII

Sentado à secretária, no final de uma noite longa, de frente para o papel ainda vazio, o criador dá um breve suspiro: “É isto… não é isto?”

Debruça-se sobre a folha em branco e rabisca qualquer coisa sobre uma fada. O quadrado circular não existe em nenhum mundo possível. E assim se cria o mundo… Um quadrado circular é um quadrado a girar sobre o seu centro; trata-se no fundo da revolta da geometria, do espancamento da lógica sem qualquer razão. Fixar o quadrado circular é contemplar o mundo.

“Dias etéreos…”

Acrescenta mais qualquer coisa, contorce-se um pouco na cadeira e solta uma leve bufa, que lentamente, como um dia que clareia, envolve todo o quarto e segue caminho. É este o material da criação.

O que me fui lembrar

Eu não sou isto que aqui vês

Este é o corpo que uso para ser nos outros tudo aquilo que posso ser

Estou cansado, o meu corpo está gasto

Porque já sou muitas coisas nos outros

O que vai ser de mim quando os outros morrerem

Eles que transportam o meu verdadeiro eu

E o que vai ser dos outros quando eu morrer

Eu que tenho em mim tanto que não me pertence

Notícia cinco

Hoje, um grupo de pessoas subiu uma rua inteira, levavam cartazes contra o racismo, fascismo, machismo, e como sobravam cartazes sem nome, ainda acrescentaram mais uma ou duas coisas acabadas em “ismo” que não destoassem do conjunto. No final da rua largaram os cartazes e foram beber um copo.

Um dos manifestantes quis citar um comediante americano famoso, pois parecia-lhe ser apropriada ao contexto, mas antes sentiu-se na obrigação de explicar às senhoras quem era o comediante. Não explicou aos senhores pois assumiu não ser necessário.

Pediram todos uma cerveja, o empregado que os serviu era preto e tinha sotaque angolano. Todos repararam. O manifestante que costumava fazer imitações de sotaques africanos, para seu divertimento e de quem se entretivesse com este tipo de humor, desta vez achou por bem não o fazer. 

Depois instalou-se uma pequena desordem, afinal qual era a melhor marca de cerveja? Cada um disse a sua, apresentando argumentos, uns mais imaginativos, outros mais agarrados aos factos. Não houve grande luta, afinal cada um podia ficar com a sua.

Mas quando foi para decidir onde se ia a seguir. Ai é que foi! Tentaram o método democrático, mas não funcionou. A minoria tinha muita força, mas não a suficiente para arrastar os outros para onde quer que fosse. Estavam perigosamente perto do ponto de ruptura.

As acusações que sabiam poder atirar contra os outros, para destruir as suas ideias e fazer prevalecer as próprias, corriam livremente pelas mentes de cada um deles.

Associavam preconceitos ao destino escolhido pelo outro, e depois ao outro pessoalmente. Até que um se excedeu “ou vamos para cima, ou não se vai a lado nenhum!” Um deles teve de agarrar pelo “f” o “fascista” que queria sair lançado pela boca em resposta ao ultimato. Enfim, uma enorme desgraça para aquele grupo de pessoas.

Acabaram por partir o grupo em dois, para ser mais fácil. Depois disto, cada sub-grupo partiu com um ódio especial pelo outro sub-grupo. Mas como tinham bons corações, cultivados com boas doses de tolerância e amor, acabaram por perdoar, e ao perdoar, inesperadamente o ódio transformou-se em saudade.

Moralidade desta notícia – Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar.

Televendas dois

Sente-se cansado? Com tosse? Tem febre? Eh carapau! Isso só lá vai agora com a nova vacina! É verdade. Não procure mais. Com a nossa nova vacina não precisa de máscara, nem de gel, paracetamol, lixívia. Com esta vacina nem precisa mais de lavar as mãos depois de espirrar-lhes em cima. Uma vacina todos os dias depois de acordar, durante três meses, e esqueça essa quarentena fechado em casa a ler livros sem nada para fazer. Isto é passado. Para a frente é que é caminho. Não se esqueça nunca. Injectar-se é o melhor remédio.

Aviso legal:

A vacina pode ser adquirida em farmácias ou no nosso site por 19.99$ a unidade. Os efeitos secundários são ainda desconhecidos na sua grande maioria. Porém foram identificados casos de um medo injustificável a tudo o que diz respeito a estar vivo, perda de liberdade para fazer o que nos dá na telha quando nos der na telha, ansiedade social, uma vontade incontrolável de julgar o outro, telefonar à policia para fazer queixinhas, delírios, como achar de repente que não há nada pior do que morte do corpo, e que existir neste corpo é mais importante do que qualquer outra coisa que a imaginação, competência exclusiva do humano, pode alcançar.

Notícias quatro

Um homem não sai de sua casa há sete meses, e faz intenções de continuar confinado por mais um ou dois meses. Tudo depende, segundo ele, de como as coisas avançarem. Quanto questionado se o recolhimento lhe estava a ser imposto, o homem respondeu que não, e que sim. Ninguém o obrigava fisicamente ficar em casa, porém, para que não fosse preciso chegar a este ponto, preferia mostrar voluntariamente que aceita o castigo. No raciocínio dele, ao castigar-se por sua vontade, mostra que não precisam de o castigar no futuro. Confia na sua lógica, apesar de não ter assinado nada.