Uma batata tem, mais ou menos, 86 calorias

Alguém disse “batata é um legume nojento!” Os Homens não admitem certas palavras. Receosos dos actos consequentes de tão insensata declaração, atacaram o autor com palavras piores ainda. Terminado o ataque, seguiram a sua vida, seguros de que as suas batatas estavam para sempre em segurança.

O autor inventou um pau, e foi para a luta. Outro, esperou até descobrir o metal. Outro ainda só entrou no campo de batalha depois de esculpir uma espada afiada. As ideias, ao contrário dos sólidos, não são de natureza competitiva, pois o espaço que dispõem para se esticar é infinito. Porém, quando se agarram aos corpos, parecem adoptar as leis que regem os objectos sólidos. Quando as temos, ou elas nos possuem, e as queremos colocar ao sol, ou elas por sol imploram, devem estar revestidas de arame farpado, para o nosso bem. Aos autores mais encalhados, enrascados ou sensíveis, aconselha-se mesmo esperar ou reprimir a ideia até esta estar realmente bem armadilhada. Isto aqui é uma selva, na selva não se sabe onde começa o corpo e acaba a ideia.

Se os corpos percebessem os seus limites imprecisos, constatariam que também o espaço para estes é infinito. Mas o desejo de competir é um capacete medieval de viseira curta.

Uma rápida espreitadela em qualquer direção, e verificamos existir espaço livre. Existe sempre mais espaço sem corpos do que ocupado, olhe-se para onde se olhar, em qualquer altura do dia ou noite. A subjetividade sugere haver espaços mais belos que outros, o estatuto faz-nos crer haver espaços melhores do que outros, a sobrevivência ensina-nos haver espaços bons e outros maus. A vida é uma guerra quando nomeada. E a palavra partilha rende-se, mais tarde ou mais cedo, ao insistente poder.

10 biliões de corpos, ou mais, já sem contar com os bichos, árvores, montanhas, oceano. O medo de ser empurrado para um canto do mundo, sem terra de cultivo, no sol desértico, ou na sombra desesperançada, leva-nos a imprimir na vida imagens bélicas, copiadas do que percecionamos ser o comportamento animal.

As ideias, como as facas de um Conto de Jorge Luís Borges, combatem servindo-se de humanos. A vencedora sobe ao pódio, é a ideia dominante, e a vencida deve ser calada, reprimida, trancada no armário, até ser agendada desforra, desta vez com novos intervenientes humanos, arrastados e confundidos por ideias da batata.

As ideias são mais perigosas, para o humano, que os vírus. Contagiam de tal forma, que em muitos casos o corpo e a ideia tornam-se indistinguíveis. O remédio não ataca a ideia sem envenenar o corpo.

E o regresso, depois da guerra? Não há regresso. A pessoa toma o remédio, cumpre a dosagem e restantes recomendações da bula. Ultrapassado o terrível período convalescente, de vómitos, tonturas e uma canseira de uma ponta à outra do dia, encontra na sua casa, nos passeios, nas lojas, em todo o lado a doença, ainda que inerte. Uma questão de tempo até a imunidade desvanecer. Nada a fazer.

Quando alguém chama nojento a uma batata, ideia pouco sensata, dado o valor nutricional e a saborosa variedade de pratos confecionados com tão famoso legume, convém ser tolerante com o homem, e intolerante com a ideia.

Mas se a ideia for nova, e de elevado contágio… bem, deixemos essa difícil decisão para os peritos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.