Orçamento de histórias

Alguém, uma pessoa qualquer, tinha uma ideia e percebia imediatamente, por lhe ser claro, que a ideia não era sua.

Aprender este despegamento seria uma revolução interessante.

Como o espaço disponível na internet parece ser inesgotável, deixo aqui uma ideia.

Uma cama para dormir, comida em cima da mesa (ou noutro local acessível), canalização para levar o fertilizante e trazer a rega. Só isto e mais nada. Havia mais coisas, mas todas obtidas sem esforço, o esforço servia única e exclusivamente para se ter cama, comida e bons canos. O esforço a mais era visto como ganância.

Quando alguém morria era menos um corpo em movimento, uma equação de subtração para equilibrar as contas. Nada mais do que isso. Não era uma tragédia, nem um alívio. Quando alguém nascia era mais um corpo, a emoção era a mesma (ou equivalente) à emoção associada à subtração, sentia-se o mistério. As lágrimas enchiam os olhos, de riso e de choro finalmente indistinguíveis.

Trabalhava-se de resto para se sair daqui.

Afinal aqui só se come e dorme. Havia esperança, a de um dia fugirmos deste vale de lágrimas. Não para a lua, porque parece ser afinal uma pedra, para enorme desilusão, falo por mim.

Os poetas engravidavam para parir em papel. O mesmo se passava com físicos, químicos, astrólogos, geólogos, engenheiros e outros. Não existiam os egos, porque não se fazia para ficar, tudo era para sair daqui.

Não havia médicos, não me parece haver necessidade para tanto. Sabia-se aliviar o sofrimento (como a dor do parto) com o mínimo de drogas.

Sem egos o sexo perdia importância. A bissexualidade era preferível. Não vejo como pudessem existir guerras se o planeta fosse exclusivamente habitado por bissexuais sem ego.

Os egos não lidam bem com esta atmosfera, é tudo muito pesado. Viu-se logo quando a maçã caiu na cabeça de Adão.

Não havia histórias, para quê alimentar o ego de significado? Só havia alimento para o corpo, descanso na cama, e esperança de um dia sair daqui num foguetão do tamanho da Europa.

Não ao pagamento das dívidas das histórias que deram prejuízo, recorrendo a crédito de outras histórias especulativas. O resultado já se sabe qual é: a dívida cresce, pede-se empréstimo (a juros cada vez mais exigentes) e pensa-se: “é desta, esta história é que nos vai salvar”. O empréstimo salda as dívidas mais recentes, e recomeça o endividamento.

Pode não haver solução. Podemos estar condenados a experienciar o tempo como uma continuidade inquebrável. Assumir um estilo, para não acabar em pantanas, como diz o Herberto Helder.

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