Manta de Retalhos

O que não tem remédio, remediado está, e a língua portuguesa é muito traiçoeira.

Não me vou desgastar com o que se pode tirar de dentro dos provérbios, vou escrever antes que o pensamento se ponha a escavar até chegar ao que costuma estar fora do alcance da luz de palco. O persistente pensamento no mesmo ponto da superfície, perfura e incomoda quem está a exercer funções vitais nos bastidores. Ao abrir buraco obriga as partes de dentro, apanhadas de surpresa pela luz do sol, a representar. O sol obriga os objectos sem luz própria a fingir ser seu o fato emprestado. Este acumular de funções do pessoal técnico, pode não fazer bem à saúde da peça. Mas pode-se também descobrir um maravilhoso novo actor. Uma coisa é certa, o buraco fica feito, pelo menos até ser esquecido ou assimilado pela peça.

A escrita perfuradora não é produtiva (e por isso há quem diga, muito boa gente, desnecessária, pessoas que percebem muito da necessidade), pelo menos em português, porque lá está, a língua é traiçoeira. Se fica muito tempo no aconchego da mudez de um livro, à espera de leitor, quando finalmente se lê, está virada na direção contrária à plateia. Trai o actor falador, e isso incomoda desnecessariamente até o senhor que sobe as cortinas para depois poder desce-las. Com uma língua destas não há como competir com a produtividade da língua alemã, por exemplo. Não sei falar alemão, confesso, mas parecem-me mais produtivos. Também me parece, isto avaliar pelo barulho das vozes, que não se divertem tanto em palco como acontece com as línguas latinas. De qualquer maneira vou parar com isto, porque as comparações entre culturas também não são nada boas para a saúda das peças, do tecido social. Só servem para confundir os textos e deixar o espectador com vontade de abandonar a sala.

Estive a pensar no que escrevi até aqui, assumo esta minha incoerência, não raras vezes percebida como hipocrisia, mas pode não ser nem uma nem outra. Prometo reunir todas as minhas forças para não repetir o façanha.

Como disse estou cansado, é esta a minha desculpa, não tenho desculpa para a desculpa, entenda-se. Sei como a primeira desculpa carece de uma segunda, porque se ficássemos pela primeira, o remédio seria descansar, e é isso que devemos evitar a todo o custo, o remédio, pois como já se viu só o que não tem remédio está remediado. Por isso é que a escrita perfuradora é tão produtiva, dira até necessária. É preciso ir de desculpa em desculpa, queimando-as pelo caminho como quem queima a carta depois de a ler, até chegar ao irremediável, para ficar tudo remediado. Se o leitor está encostado à parede, num ponto de não retorno, à beira do abismo, muitos parabéns, está onde qualquer companhia de Teatro sonha chegar.

Não podemos esquecer porém, como a língua portuguesa é traiçoeira. E eu a dar-lhe com os estudos comparatistas.

É um alívio o irremediável, e é aterrador enquanto esperamos pacientemente pelo alívio. O estado irreversível deixa até o mais anestesiado dos animais de pelo arregalado como quem quer afugentar uma ameaça maior do que o corpo que se tem. Como se o tamanho importasse. Sejamos francos, o tamanho não importa, sejamos mais francos, o tamanho importa, um pouco mais ainda, o tamanho não importa. Pode-se ir sempre um pouco mais além. Será assim que se chega ao irreversível? Desfazendo-nos das certeza que fomos colecionando quando estavam na moda as coleções?

-Mas afinal o que é o senhor? Um troca tintas qualquer? Então agora o tamanho já importa outra vez?

-Se deseja acusar alguém de troca tintas, acuse a língua portuguesa se faz favor! Não vê como eu fui igualmente intrujado!?

Um rapaz, que podia muito bem ser uma rapariga, tanto quanto eu, e estou seguro de que os outros também, podemos perceber porque se nasce uma coisa e não outra. Um rapaz passa por uma prancha e decide não saltar para o mar. As razões são as mesmas de sempre, e como sempre mencioná-las é querer resolver o que está resolvido. Um dia percebe que afinal tem de saltar, e a partir do momento em que recebe a condenação, culpa-se por não ter saltado antes, duvida até se é possível fazê-lo agora sem prática. Isto dito assim é um problema gravíssimo para o rapaz, porque saltar de uma prancha, por escrito, pode ser qualquer coisa. O poder da abstração leva-nos de um particular ao outro sem dar tempo de conferir o geral que as transporta, passam-se depois anos até descobrir o erro nas configurações da máquina do tempo. Se não for escrito, nem a tinta nem na pedra, o que aconteceu foi, e perdoem-me dizer-vos por escrito, não havia outro remédio: Um rapaz não saltou da prancha e depois saltou. Pode ter gostado, pode não ter gostado, isso agora é com ele. Também os sabores dizem respeito à língua, mesmo quando esta se encontra calada.

Abaixo as palavras! Ou que se comece a escrever a lápis.

Ou se invente uma nova linguagem, constituída por palavras que não se encaixem umas nas outras. Ou que se proíba o convívio entre palavras, distanciamento social para as palavras, abraços nas ruas entre os corpos, mesmo os de nariz entupido.

Devo ter pensado em tudo o que escrevi, não serei o único, dias e dias a fio. De qualquer maneira continuo a confiar no primeiro provérbio, apesar da iminente traição sugerida pelo segundo.

Quando começaram com os provérbios já estava tudo aos remendos.

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