Não se paga bilhete depois de entrar?

Visto a determinada distância um fogão é um cubo. Aproximamo-nos movidos pelo desejo e, num tempo e espaço diferentes, afinal é uma panela em cima de um fogão. Mais uns passos e o fogão desaparece, só se vê a panela. A observação prolongada resulta em dois acontecimentos, o esquecimento do fogão, e a compreensão da panela a ferver ao lume. Contrariando o impulso de fuga, ateado pelo borbulhar sensível ao calor do conteúdo da panela, resolvemos permanecer vidrados. Aos nossos olhos, e para nosso espanto, o cubo visto à distância é só água a ferver.

A agitação generaliza-se pela superfície, uma observação mais pormenorizada e encontram-se partes semelhantes a lagos imunes às alterações climáticas. Vai-se do particular para o geral, e de volta ao particular mas desta vez um outro particular, a ginástica que altera as conclusões. Procura-se padrões, perceber de uma só assentada o caos, dar algum significado ao cubo. Ouve-se o som do metal a cair desamparado.

O olhar segue o choque metálico, para isso tem de abandonar a água quente demais para mergulhos, foi o gato a derrubar a taça da comida, foi só isso, mais nada. Se fosse possível, depois desta distração, esquecer a água a ferver, esta deixava de ser o que é para ser um tacho a levar com gás ardente na base. Se nos esquecêssemos por uma semana, suponhamos, era um tacho frio, eventualmente com um buraco na base, em cima de um fogão. Quem o visse assim naquele estado nada tinha para acrescentar. E quem vier contar o que se passou não consegue apresentar qualquer tipo de prova, sem ser talvez uma memória humedecida pela água que ferveu ao ponto de se evaporar, e entrou pelas narinas de quem julgou compreender o que verdadeiramente aconteceu.

Fica-se com a opinião da maioria, ou da minoria que nos sirva, o que é muito bom e suficiente, diga-se. Fica-se onde incomodamos menos os outros, nunca onde nos é mais confortável, isso é um perigo. Onde calhamos é onde estamos bem. Quem não está bem onde está, e julga ficar melhor deslocado ou ter estado melhor afastado, é porque acredita que o reposicionamento vai resultar em convite para subir ao palco, quem sabe até participar no espetáculo, visitar os bastidores ou tocar no artista com a ponta dos dedos. Lamento informar mas tal coisa nunca aconteceu a viva alma. Acontece porventura aos mortos, depois do concerto acabar.

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