Jogo de Cultura Geral – Parte I

Foto por Steve Johnson em Pexels.com

Não fora ter acontecido uma acesa discussão, depois de um almoço de domingo, sempre mais perigosos do que os de outro dia qualquer, uma vez calharem no fim de uma semana, coincidindo em cheio com a esperança dos homens de que tudo finalmente acaba de barriga cheia, homens sem maiúscula, no almoço não havia representação feminina. Não tivesse acontecido esta discussão, que passo a contar, e José podia contar com a colaboração do amigo Ricardo para a sua causa.

A meio do segundo jarro de vinho, o equivalente a três copos por pessoa já bebidos, José puxou da televisão, enjaulada numa armação de ferro aparafusada à parede da sala, para a mesa o tópico de desconversa sugerido pelo jornalista principal e acumulador de funções, um terrível habito de se provar ser mais porque se faz mais. O jornalista escritor, apresentador, actor, professor e não raras vezes empresário. Como todas estas personalidades se empilham num só corpo, em trocas constantes e movimento harmonioso, é arte trabalhada do malabarista ou segredo bem guardado do ilusionista, ainda por descobrir por quem desempenha a custo uma única profissão. O tema sugerido foi o aumento do desemprego em Portugal. José deu um puxão no tema para a mesa com tanta força, que este aterrou meio desorientado.

– Olha para aquela tristeza. Ninguém quer fazer nenhum. Sabes quem paga aquilo, sou eu, és tu, Pais de merda este.

Ricardo, sentado mesmo à sua frente, tem uma sobrinha doutorada em Estudos Portugueses desempregada, algo que era do conhecimento de José. Não era caso para se ofender, uma vez que o comentário tinha sido feito não por qualquer ajuste de contas pessoal, mas por uma necessidade antiga de revalidar a vida que se leva. De qualquer maneira Ricardo levou o comentário a peito, e respondeu convictamente.

– Oh esperto, sabes que os desempregados querem trabalhar? Ou achas que é bom não poder pagar as contas?

Para José o esforço de se imaginar no lugar do outro era coisa para os dias da semana, e porque os estudos recentes concluíram ser bom para o negócio. Uma missão negócio levada a cabo pelo soldado empresário, recrutando e empregando vida alheia escolhida a dedo de maneira a minimizar custos e maximizar lucro. Um corpo a crescer sem um fato a impor o tamanho ideal, o tamanho certo a partir do qual o tecido rompe.

A discussão continuava o acompanhava o movimento de uma empresa saudável. Boa empresa é a que não contrata alfaiate. Alcançou um nível tão elevado mas sem elevação, tão distante das razões que impuseram o seu surgimento, que agora os seus intervenientes, envolvidos num esquecimento embaraçoso, só pensavam na eleição um único vencedor, como inevitável e justo desfecho.

– Epah! Não me chames isto outra vez se faz favor! Isso do chamar fascista a um gajo serve para nos calar, mas eu falo e digo o que quero, não tenho medo de dizer o que penso. Tu achas bem, hã? Eu sou Português, trabalho em Portugal, mato-me a trabalhar, para pagar o ordenado a tipos que se calhar têm carros melhores do que o meu? Foda-se ó Ricardo, não me fodas pah!

– Mas de quem é que tu estás a falar? Tu estás a imaginar realidades alternativas. Olha, vai lá um dia à segurança social, e vai lá perguntar se alguém na fila anda melhor montado que tu? Ou se apanham o autocarro ou vão a butes? Tem juízo, sabes lá do que estás a falar.

– Mas responde-me, porque é que não vão trabalhar? Se precisam tanto assim de rendimento no final do mês, porque não vão trabalhar? E não me venhas com a história de não haver trabalho. Trabalho sempre houve e haverá de haver. É preciso é querer trabalhar.

– Há! Há muito trabalho. Dá para trabalhar na tua empresa com estágios do IEFP. Quando é para ti, tudo bem, o Estado já pode bancar. Pimenta no cu dos outros para mim é refresco.

– Tu sabes lá o que é ter de gerir uma empresa neste Pais. Sabem quanto é que eu pago de IRC, sabem? E os salários que tenho de pagar todos os meses? Só se investe no turismo aqui. Queria ver-te. Falas sem saber o que custa a vida pah.

A discussão continuava neste carrocel já o telejornal tinha terminado. Para além dos três homens sentados na mesma mesa de café, transformada em mesa de debate político, de café, a sala estava vazia, até os empregados fartos de ouvir berros sobre os que não estão, abrigaram-se na cozinha. Os restos de carne com nervos e as manchas de vinho secas no papel rasgado e dobrado pelos cotovelos irrequietos dos homens, espelhava a natureza desconstrutiva dos argumentos.

O terceiro elemento, o Sr. Fernando, conservava-se mudo, mas como auscultava os outros com uma perturbadora atenção, nunca pareceu ausente da discussão. Ouvia-os atentamente mesmo quando as vozes se sobrepunham, quando assim era escolhia uma, assumindo da abafada o contraditório da percebida.

Fernando era um homem moderado. Uma moderação cultivada pelo prazer de pensar e uma aversão ao conflito. Este traço de personalidade faziam dele um elemento deveras solicitado para almoços de convívio combativos como este, um preço a pagar pela conservação de um raro traço entre os seus semelhantes convictos das suas certezas.

Aproveitou uma breve pausa na discussão para intervir finalmente com todo o direito que lhe era devido.

– Eu percebo o sentimento de injustiça aqui do nosso amigo José. Porém, se tivesse de culpar alguém por me sobrecarregar para além do necessário, como se sobrecarregavam os escravos mais habilidosos nas tarefas que outros demostravam ser incapazes, ou se recusavam mesmo a fazer, sofrendo as consequências bárbaras da sua recusa e que são do nosso conhecimento histórico, eu culparia não os desgraçados que vivem dos subsídios, mas sim os donos e acionistas das grandes empresas. Não falo das pequenas e médias, bem sei como têm de se esforçar só para não ter prejuízo dada a feroz competitividade do mercado.

Acrescentou a parte das pequenas e médias empresas, numa hábil estratégia de demonstrar estar do lado de José, e não contra ele, de maneira a não contribuir para o carrocel de mal entendidos. De qualquer maneira esqueceu-se de demonstrar como é que os poderosos sobrecarregam os seus compatriotas. Foi melhor assim, se o tivesse feito, baseando-se na História e nos seus números mais redondos, ia obrigar os companheiros a jantar fora de casa.

Se uma discussão entre pessoas da mesma classe social, acerca de temas como este, acaba com uns contra outros, deve-se certamente a um mal entendido, onde a parte responsável é deixada de fora, sossegada em anonimato, o que é profundamente lamentável.

– Mas então diz-me lá então Fernando. – disse Jorge – Para ver se eu compreendo, só quero perceber, nada mais. Tu achas bem? Um tipo que não faz nada, não trabalha não produz, não cria emprego, não faz nada, é um parasita. E receba no final do mês por isso? Cai-lhe o dinheiro do céu?

– Parece que essa pessoa que me descreves, sossegadamente quieta, não existe. Antes pelo contrário, o mundo está cheio de pessoas incapazes de sossegar. Encontrar alguém capaz de não fazer nada, é raríssimo. Desafio-te a tentar, e vais ver como é complicadíssimo. O que existe são algumas pessoas, uma minoria infelizmente, que não estão disponíveis para o trabalho não produtivo que gera um lucro desigualmente distribuído por quem de direito. A estes, e aos que nada fazem se os houver, eu digo que sim, devem ter o direito, mais do que justificado, de receber um valor mínimo só por existir. Estou convicto de como, ao receberem da sociedade, gentilmente e voluntariamente retribuirão. Até prova em contrário, é esta a minha convicção.

Este parágrafo, face a agitação dos interlocutores, foi várias vezes interrompido, e só foi possível a sua conclusão, graças a uma enorme paciência e perseverança de Fernando, que teve de recuar várias vezes no texto, para poder concluir o seu pensamento.

– Tu andas a viver noutro mundo oh Fernando! As pessoas se poderem ficar o dia todo de papo para o ar a ver televisão ficam. Desde que tenham alguém que lhes meta a comidinha na mesa, e lhes pague as contas no final do mês, achas que vão mexer uma palha por alguém?

– Se fosse assim, os elementos das famílias com enormes fortunas, fortunas maiores que a soma dos salários anuais de todos os trabalhadores das empresas que detém, essas pessoas não fariam nada. Mas se fores ver, são as mais activas na sociedade. Apenas está ausente das suas actividades, o trabalho não produtivo.

– Mais razão me dás. São os que fazem mais, e são os que recebem mais. Olha a coincidência. Agora é que estás a perceber este mistério da civilização. Quem mais trabalha mais dinheiro tem. Isso é o que eu estou a dizer desde o princípio, e o que está mal é quem não trabalha ter dinheiro.

– Qualquer uma dessas pessoas com fortuna vai ter sempre mais dinheiro do que tu, mesmo não fazendo nada, se fossem capazes de não fazer nada claro. O trabalho e o dinheiro não estão diretamente relacionados como sugeres. Podes-me dizer, porque trabalharam antes. Eu diria antes porque tiveram pessoas, as tais pessoas que acusas de ociosas, durante várias gerações, e ainda hoje, a trabalhar para as suas fortunas. Esta alias parece-me ser uma boa justificação para todos terem direito a uma renda. Poderás dizer, e com razão, é um argumento fraco, aceito. De qualquer maneira, mais fraco é um argumento que justifique a desigualdade de riqueza do homem mais rico contra a do mais pobre. A única justificação que consigo imaginar, é um terrível erro de cálculos.

– Mas espera lá – interveio Ricardo, animado por ver a discussão desbloqueada – Estás a dizer que se todos recebessem, vamos supor, 500 euros só por existir, todos os meses, achas que iam aparecer voluntários para apanhar o lixo, cozer o pão, servir à mesa?

– Da maneira como hoje são desempenhadas estas tarefas não produtivas, espero bem que não. Mas acredito que continuava a haver quem apanhasse o seu lixo, não o da cidade inteira, quem cozesse o pão e servisse os seus à mesa.

– És um utópico.

– Nem por isso. Sei que se amanhã aprovassem o que eu sugeri, uma mensalidade de 500 euros para todos, muito provavelmente isso significaria um enorme caos social. De qualquer maneira isso não me impede de imaginar um futuro onde tal acontecesse, um futuro melhor para todos.

– Para todos não. Um futuro melhor para os pobres, os ricos saem prejudicados.

– Finalmente! Mas se queres saber, acho que esta ideia, de que ser rico é o fim a alcançar, o salvamento da raça humana, é o maior impedimento para a realização desta utopia. É uma ideia tão antiga como a civilização, a de que é melhor ser rico do que pobre. Esta comparação entre classes valida, quase sem darmos por isso, a constante comparação entre os Homens. Enquanto existirem classes sociais, ser pobre é evidentemente pior do que ser rico. Porém o rico tem duas ameaças: o sentimento de estar a tratar injustamente o outro, e o medo de se tornar pobre. Já para não falar da constante ameaça de revolta do povo. Bem sei como o grito de revolta perde força mal é lançado, como uma onda ao longo da hierarquia social, sujando apenas de uma leve espuma os que ocupam o topo. Todavia os tsunamis são fenómenos naturais, que sucedem sem aviso.

– Basta olhares para os livros de História do meu filho – disse Ricardo – e verás como tudo o que é ser vivo só consegue alcançar um lugar comum com o outro dentro de uma lógica de poder. Viver em comunidade sem classes socias é ainda mais Utópico do que a tal mensalidade de 500 euros.

– Não me compararia a outros seres vivos não falantes. Pelo menos no que diz respeito a questões éticas. Parece-me que o humano tem atributos que o diferenciam de um crustáceo ou de um búfalo. Todavia receio existir realmente entre animais uma preferência pelas relações de poder, de maneira a facilitar a vida em comum. Porém, se ousássemos contrariar esta tendência para a mimética, quem sabe descobríamos uma nova forma de relacionamento. Eu consigo com o meu gato, é um sinal esperançoso para realização desta promessa.

Aproveitaram a nota humorística para encerrar a discussão. Num tom ainda mais leve manifestaram o seu mais sincero desprezo pelos muito ricos, chegaram a nomear alguns mais mediáticos. Antes de abandonarem o restaurante, para não dar o braço a torcer, José disse ainda.

– São os ricos e os pobres. Uns não fazem nenhum porque não precisam, outros não fazem nenhum porque não querem – e finalizando, para juntar-se aos seus companheiros, evocando a camaradagem incondicional de quem se junta à mesa para comer, acrescentou – nós é que andamos aqui a empurrar este Pais para a frente.

Um nós que prossuponha um eles, e o mal estava feito. Fernando sentiu-se tentado em repetir como os pobres oferecem-se diligentemente, contra todas as expectativas, para servir de qualquer forma a qualquer troco. Libertando os ricos para as desafiantes e indesejáveis tarefas de governação de um povo, que não raras vezes lamentavelmente se transformam em tarefas de exploração de um povo. A tarefa é desafiante, é importante estar atento mas não julgar para lá do necessário.

Não caiu na tentação e deixou o amigo ficar com a última palavra. Que a sociedade funciona assim, ninguém pode afirmar o contrário, basta enfiar a cabeça de fora da janela, e constatar os movimentos em redor. A questão não é essa. A questão é mais profunda, tão profunda como a necessidade intrínseca do humano por justiça, e por não estar só no mundo.

Ricardo aceitou as tréguas subentendidas de José, e os três agendaram por alto o próximo almoço

Assim foi a discussão.

Dias mas tarde José recebeu uma chamada de um canal de televisão, congratulando-o por ter sido o escolhido para servir de concorrente no programa Joker, um programa de perguntas e respostas transmitido todos os dias úteis na televisão pública. Para participar foi-lhe exigido que levasse consigo outra pessoa, um co-concorrente, sem o qual a sua participação não poderia ser aceite. José lembrou-me imediatamente do seu amigo Ricardo. Não fosse a discussão descrita, e o caso mudava de figura.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

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