O pintor Daltónico

O dia adivinhava chuva sem demonstrar muita vontade de cumprir a promessa. Gonçalo tinha uma hora de almoço. Estava sem apetite mas tinha de ser, a hora estava marcada, há que fazer um esforço e empurrar a comida para onde irá fazer falta num futuro próximo. A facilidade de forjar o acto de mastigar ajuda a empurrar a comida mesmo em gargantas mais secas. Em último caso engole-se como se fosse comprimidos, e fica-se a dever um favor ao estomago. Neste caso extremo é aconselhável o uso dos talhares como alternativa aos pauzinhos.

Pediu um dos cinco menus pensados para adivinhar a imprevisibilidade do voracidade humano. O menu dois era o que melhor se ajustava ao seu apetite, uma sopa de cenoura, uma bifana enfiada no meio de uma carcaça, e um chá frio de limão. Quando o informaram que ia demorar um bocadinho ficou dividido, por um lado não lhe agradava a ideia de desperdiçar um atraso por culpa alheia, por outro lado conhecia o bem que o tempo faz aos apetites. Exigiu uma estimativa como garantia, e aceitou a espera.

O tabuleiro foi-lhe entregue antes de terminar o prazo do ultimato, dividiu-se novamente. Com esta segunda divisão ficou partido em quatro, nenhuma podia chegar atrasada ao trabalho.

Sentaram-se os quatro numa mesa onde só cabia uma pessoa. Esta incongruência capaz de arrancar do sonho mais profundo o mais crédulo dos sonhadores, não incomoda a vida de um sonâmbulo.

Olhou para o relógio, acreditava que quanto mais vigilante fosse do relógio, melhor controlo tinha do tempo. Comia lentamente a sopa, evitando com a colher a rodela de ovo cozido, para não ficar muito cedo com nada sem ser a monótona cor laranja da sopa de cenoura. Acompanhava cada colherada com respostas ao que os seus companheiros de mesa perguntavam. Um deles perguntou, num tom algo provocativo que não passou despercebido a Gonçalo, como tinha aguentado tantos anos a pintar paredes.

– Eu tenho uma característica que muitos pintores não têm, é esta capacidade de criar mundos na mente. Se fores ver as minhas médias, sou dos que passa mais tempo seguido agarrado ao pincel, sem tirar os olhos da parede, porque consigo desenhar em cima da cor formas em movimento.

– Mas não gostas de fazer pausas, para fumar um cigarro, ou beber um café?

– Também faço, claro. Mas não há melhor pausa do que esta fuga para dentro. A liberdade que se pode encontrar para dentro, é incomparavelmente superior à que se encontra para fora.

– Não te faz mal estar tanto tempo a olhar para a parede?

– Tem um preço a pagar. Quando termino de pintar, fico algum tempo a ver o mundo da cor da parede acabada de pintar. O mais desagradável é agora não ser eu a desenhar as formas e fazer delas o que quiser, como me tinha habituada a fazer com aquela cor. Eventualmente os olhos ajustam-se ao mundo e à sua variedade cromática, e eu aceito as formas e os seus movimentos sem mais frustrações.

– Então se sabe isso, porque fica tanto tempo a olhar para a parede?

– É uma boa pergunta. Talvez seja…

O telefone tremeu-lhe no bolso. Uma notificação persistente que ele não sabia desativar.

– Por exemplo, isto que aconteceu agora. Não foram os do meu grupo sanguíneo seguramente os responsáveis pela invenção do telemóvel. Se os fabricassem em forma de algemas, tornava-os mais fieis ao que são. Onde é que tínhamos ficado? Estava a pensar em qualquer coisa antes disto.

Comeu a rodela de ovo cozido na penúltima colherada. Não quis deixar para a última porque assim podia escolher; terminar com um colher de sopa com ovo, ou com uma colher de sopa sem ovo, igual às outras todas.

Depois da sopa estava comido. Olhou para a bifana como quem olha para uma decoração de plástico em forma de alimento. Se o acto de mastigar pode ser facilmente falsificado, o de comer não. Comer requer vontade, sem vontade mastiga-se e engole-se, até o observador mais distraído consegue dá pela diferença.

A bifana não estava partida em duas partes iguais. Tal nunca seria exigido a quem fez o favor de a cortar ao meio. Apesar disto a disparidade de tamanho de cada metade era exagerada. Escolheu começar pela maior, ao levanta-la do prato, a outra veio atrás. A fatia superior da carcaça e a carne tinham sido separadas com sucesso, o mesmo não se podia dizer da base assente no prato. Quem preparou a sandes podia ser muito eficaz a cortar pessoas em quatro, mas deixava muito a desejar no corte de bifanas ao meio.

Partiu com as próprias mãos a base do pão, finalizando o milagre da duplicação, e desferiu a primeira dentada. Uma grande dentada uma vez que era a primeira, e não sabia até quando ia continuar a ser capaz de enganar a fome. Tinha de aproveitar cada dentada, quantas menos desse melhor. Assim que começou a mastigar identificou os seus pontos fracos da sua estratégia. Não é fácil desintegrar tanta comida quando a sua descida não está a ser solicitada. Engoliu ainda a bifana era bifana e não bolo alimentar.

A segunda dentada foi menos ambiciosa e por isso entregue ao estomago com melhor apresentação. Pousou a metade da bifana no prato, era muita comida! Mais do que precisava para o resto do dia. Lembrou-se de embrulhar para mais tarde, procurou uma boa desculpa para não o fazer, encontrou a de ter de transportar um resto de bifana consigo até encontrar o seu apetite. Não queria pressionar, nem ficar refém do seu apetite.

– Nem tudo é bom sabem?

– A que se refere?

– Ser livre para desenhar as formas e escolher o cor de fundo é um prazer enorme, quase como uma droga, mas há sempre um preço a pagar. Li em qualquer lado que só se sonha a preto e branco.

– Isto do preço a pagar não será um catolicismo capitalista. Não sei se podemos aplicar esta ideia a tudo. Ou se precisamos de aplicá-la ao que quer que seja.

– Vamos fazer uma pausa na conversa. Tenho de comer isto e assim não é fácil.

– Porquê?

Levantou a cabeça e endireitou a coluna, à procura do silêncio, nem que fosse por um instante. Depois voltou à bifana e a um dialogo interno menos esquizofrénico.

Não consigo comer tudo o que tenho no prato, mas se conseguir mais duas dentadas, pelo menos termino uma parte, já é qualquer coisa, e depois quem sabe? A outra metade é mais pequena, no rigor se comer esta metade já estou para lá do meio, mais perto do fim do que parece. Por outro lado se fiquei cheio à primeira dentada, as minhas perspetivas não são as mais animadoras.

Porque é que quem come 17 bifanas tem uma história para contar, mas ficar a rebentar pelas costuras com meia sopa não é notícia para ninguém.

– Há uma dose mínima de alimento a consumir para se ter voz.

Ainda tinha o sumo. Lembrou-se de ter assistido a uma competição de devoradores de cachorro quente. Antes de cada dentada mergulhavam o cachorro num copo com água, como quem molha bolachas no chá. Este maneira pouco usual de se ter uma refeição estava legitimada pelo prémio, em dinheiro, entregue ao vencedor. Não ia fazer o mesmo evidentemente. Apesar de a sua refeição ser, de uma manira mas indirecta, para ganhar dinheiro. Fosse como fosse, ali naquela mesa, a bifana não encaixava no copo.

Bebeu um bom bocado de sumo. A mudança de sólido para o líquido restaurou-lhe alguma confiança. Antes de a perder, não acontece só com o apetite, levou a bifana à boca e abocanhou um bocado quase igual à primeira dentada. Faltava uma trinca, e a metade mais pequena, nunca pensou chegar tão longe.

Equacionou a estratégia de começar a metade que faltava antes de terminar a outra. Sabia bem o que este caminho queria dizer, era dar-se por vencido. Era comprometer-se em aceitar a refeição como terminada com um resto por comer à vista de todos. Por mais insignificante que fosse, não podia ignora-lo, marcava o seu fracasso, e todos os significados que se podia tirar dele. Um prato vazio é uma refeição terminada para ele e para o senso comum, um prato com restos é uma refeição terminada para quem passou a ver restos onde antes jurava ver comida.

Encheu a boca com sumo e juntou-lhe o resto da primeira metade. Com tempo a criatividade junta as formas que sem tempo não se encaixam. Só faltava a metade mais pequena da bifana. Nunca pensou ser capaz de comer tanto. Visto por quem passa, era um homem sentado à mesa a almoçar, mas de perto, visto a partir dos seus olhos, era um feito heroico.

Parou, sentia-se cheio. Não precisava de comer mais. Nem naquela refeição em contra relógio, nem nas próximas.

Se tivesse dito isso a alguém, qualquer pessoa, veria reflectido na cara do outro interlocutor a pouca probabilidade de isto ser verdade. De outra maneira não havia como provar o contrário, pelo menos naquele momento.

– E se terminar a bifana? Se com o que já comi assegurei alimento para o resto da vida, se comer o resto, fico até com uma margem de segurança.

A brilhante conclusão a que chegara não lhe abriu o apetite, tal seria fatal para a sua nova filosofia. Um último esforço, pensou, vou empurrar isto para dentro, e depois acabou-se, seguem-se anos sem sobressaltos a favor do vento, indiferente ao destino até porque vou de boleia.

Deu a primeira dentada e uma das últimas da sua vida. Olhou para o que já tinha feito, sentia-se cheíssimo, se fosse qualquer outra refeição teria terminado ali, mas aquela era a última, e agora que estava tão perto do fim, não se ia embora sem comer tudo.

Guardou um resto do sumo para o fim, para limpar o sabor da carne, uma vida fluida como os líquidos, livre da tirania das formas sólidas. Agarrou no resto da bifana e enfiou-a toda na boca. Foi o fim não consumado porque faltava mastigar. Mas era irreversível, como o movimento de uma ratazana no interior de uma jiboia. A boca do animal fecha-se, e o corpo engolido só volta a ver as cores quando se metamorfosear.

Mastigou pela última vez, engoliu e bebeu o sumo. Olhou para o relógio, estava algumas horas atrasado. O estômago pedia-lhe para caminhar sem inventar um destino espacial ou temporal. Estava a dever um favor ao estômago desde a primeira dentada, não podia nem queria recusar-lhe aquela vontade. Levantou-se e começou a andar.

Tanto quanto sabemos, não voltou ao seu trabalho de pintar paredes. Continuou cheio, e cheio de vontade de caminhar, cheio a dobrar. Não havia qualquer razão para ir pintar uma parede ou o que quer que fosse. Já tudo levou a primeira de mão há muito tempo.

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