Afta

Apareceu, no céu da minha boca, uma ferida a qual chamei afta. A palavra veio-me à minha cabeça, onde está o meu céu da boca, e onde por sua vez apareceu-me a afta, que é uma ferida, no céu da boca.

Toquei-lhe com a língua, foi uma sensação incrível. O receio, devido ao inusitado de tudo aquilo, fez-me hesitar antes de repetir o toque. Vencido o receio, perdi a contagem. Mas posso-vos dizer, não me orgulho, mas como é bom para a saúde partilhar o que pensamos, vou dizer: Houve dias, dias inteiros, que não fiz mais nada se não lamber a ferida.

Devo explicar-me. Afinal é para isso que cá estou. Faço-o mais por mim, sou egoísta. Às vezes tenho de me explicar em voz alta. Não me chego a perceber. Não, isso seria pedir demais, e seria até assustador. Não sei o que faria, se um dia percebesse o que quer que fosse.

Passo a explicar-me. A ferida, que por definição é o que está depois da carne, lambida, produzia em mim uma sensação de infinito. Cada lambidela produzia mais infinito. No espectro das sensações, fica no extremo oposto de nenhuma sensação. Ironicamente, uma conduz à outra. A de infinito à de nada, a de nada ao infinito.

Não percebo. Melhor assim, perceber não me ia fazer nada bem.

Vou arriscar uma explicação! É assim que elas começa, as enxaquecas.

Admito tratar-se de um vulgar problema de armazenamento. Nada mais do que um simples problema logístico.

Passo a explicar pela segunda vez, porque a primeira pareceu-me insuficiente.

O infinito, sentido, é constituído (como se pensa ser constituído tudo o resto) por protões e electrões. Estes electrões e protões têm de estar em algum lado, antes de ir para lado nenhum. Ora quer-me parecer, existir algures em mim, um local onde são armazenados. Quem trata das feridas seguindo os conselhos do médico, e não como um cão como eu faço, nunca tem o armazém a rebentar pelas costuras. Como vos disse, passei um dia inteiro a lambuzar na ferida. O armazém não podia receber mais encomendas, houve uma ordem de esvaziamento, abriu-se um buraco negro em mim, e despejou-se aquilo tudo para o buraco.

Isto tudo para explicar o quê? Entretanto esqueci-me.

Enfim.

Deixei de sentir infinito. Ainda assim, sentia algum prazer ao tocar na ferida. Depois uma dor agradável, leve, e depois aquilo infectou. Tive de ir ao médico, ele disse-me que eu era um animal. Eu disse está bem senhor doutro, mas diga-me, isto é caso para eu me preocupar? Deu-me um antibiótico. Só pediu para eu não o misturar com álcool. Deve ter ficado com uma má ideia a meu respeito. Apesar de eu me ter explicado, quando não precisava. Acho que foi quando falei em protões e electrões, que ele deixou de me levar a sério. Se tivesse, em vez disso, falado em bactérias ou vírus, para mim é a mesma coisa.

Hoje, porque isto já se passou alguns anos, passo a língua e não sinto nada.

Mas é um nada confortável, é sempre um bocado triste, deve ser pela lembrança do que foi. Não podia continuar assim, estava a infectar, disse o médico.

Enfim.

Se calhar não estou a passar a língua no sítio certo. A memória não é nada precisa.

Enfim.

Quando voltar a ter uma afta, porque o médico falou-me da forte possibilidade de isto voltar a acontecer, só não percebi porque falou dessa possibilidade como se fosse algo a evitar.

Enfim.

Quando reaparecer, tenho já as horas marcadas para cada lambidela, fiz uma folha no excell. Se me comprometer, exige algum compromisso, por mais que custe, se conseguir seguir o plano à risca.

Enfim.

Hei-de me habituar à rotina. Se correr mal, esvazio-me e volto ao antibiótico. Sobraram alguns comprimidos da última vez.

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