Não entendido

Tudo isto não passa de um mal-entendido. Só saio de casa quando tem mesmo de ser, normalmente é quando a comida acaba. Antes nem isso, mas de tanto praticar a autofagia, nas suas mais variadas formas, desenvolvi uma intolerância à minha própria carne.

Julgo que irreversível. Nada de grave.

Regresso pelo meu pé com comida e aquilo que se agarra aos sapatos. Deixo-os à porta por precaução. Evitar tanto quando possível contaminar o interior com o exterior. Não mistura-los de maneira que o seu segredo não se revele aos nossos olhos, que só vêm um lado de cada vez.

Não sei se me faço entender. Estou a falar da auto-sustentação de tudo. É preciso acreditar num certo grau de diferenciação. A nossa carne e a carne dos outros não podem ser a mesma.

Pode ser que esteja a fazer um mal-entendido por não perceber o valor das transacções.

Não gosto de ficar a dever. Não quero o mundo à porta, a exigir o que quer que seja de mim. Não suporto ficar em dívida por não ser clara a forma, o momento, ou a vantagem de pagar de volta.

Temo desequilibrar a balança. Ou por não ser capaz de saldar a dívida, ou por ter entendido mal os contornos da transferência.

Por isso deixo os sapatos à porta. Se aconteceu trazer algo por engano agarrado à sola, fica do lado de fora. Alguém há-de se apropriar, e fazer o que deve ser feito.

Não sei o que deve ser feito.

Saber só pode resultar em duas possibilidades:

Ou recusamos o mundo, para não ter de andar sempre a incomodar-nos com o não saber o que fazer com as coisas que nos são oferecidas.

Ou ficamos com tudo. Guarda-mos tudo em nós, na nossa casa, tudo o que nos é oferecido.

Eu não faço parte dos que se encaixam na segunda possibilidade. Se pudesse receber visitas, estas confirmariam como tenho a casa vazia.

Todo o pó lá em casa cai em cima de mim, por falta de opção. Tenho pó atrás nos dentes, à frente dos olhos, por baixo das unhas. Uma vez por mês recebo nas escadas uma senhora que faz limpezas. Tira-me o pó todo. Diz-me depois que é meu, o pó. Eu respondo que não, não é. Pago-lhe e volto para dentro. Deixo-a com o meu dinheiro mais o meu pó, de maneira a certificar-me que o saldo continua a tombar para o meu lado.

Ela não se rala com isso, não se importa de ficar a dever. Tem mais com que se preocupar do que com o equilíbrio universal.

O que lhe é destinado é, o que não é não é.

É preciso um certo grau de relaxamento, despreocupação, para aguentar, acompanhar, tanta transacção em andamento.

Quando se acha que se está muito para um lado, ou para o outro, é precisa lembrar como tudo não passa de um mal-entendido.

Um mal-entendido serve para justificar um erro por excesso, ou por escassez. Os mal-entendidos resolvem-se da mesma maneira como acontecem. Exclusivamente pela mão divina. O Homem não tem acesso a esta funcionalidade. Está bloqueada.

Sei de certas coisas.

Sei fazer trocas para obter alimento, sei relacionar-me com a mulher que me limpa o pó, e sei que quando saio à rua, tudo não passa de um mal-entendido.

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