Meses, bolos e livros

Foto por Magda Ehlers

Um mês não é nada na vida de uma pessoas. Espera-se que passem doze, e depois é só repetir o ciclo umas cinquenta a setenta vezes, e o que quer que seja que aconteceu acabou. Uma caixa de bolos sortidos aumenta de valor com o tempo. Quando está cheia, ainda por abrir, qualquer um que peça “pode-me desperdiçar um dos seus bolinhos?” recebe um educado “sim” como resposta, daqueles que saem apressados atropelando a pergunta, para que não restem dúvidas quanto à boa vontade de quem tem está bem abastecido. À medida que os bolos vão sendo devorados pelas bocas esfomeadas, até o mais generoso dos seres deita uma olhadela para dentro da sua caixa antes de ceder o bolo. Nem que seja só para avaliar o sortido da situação, e imaginar o futuro com mais ou menos bolos.

Os meses não são como os bolos sortidos. Bem sei. Eu bolos cedo todos a quem quer que seja. Podem levá-los. São mais as bocas às quais dou prioridade em relação à minha, do que as que não dou. Gostava de poder dizer que dou a todas, mas a minha reduzidíssima capacidade de tirar conclusões, convenceu-me que andam por aí alguns cabrões que não merecem bolos.

Posso estar enganado, espero até estar. Equivocadamente sentado no meu sofá extensível, em frente a um computador com ligação à Internet, e uma caixinha de bolos sortidos meio comida, com especial cuidado para manter a variedade que lhe deu o nome. Não é fácil manter a disponibilidade de sortido equilibrada quanto à sua variedade. A subjectividade não ajuda na luta contra as desigualdades, mas faço um esforço, contra os meus princípios. Sou pela igualdade, mas contra o esforço. O que me deixa numa situação muito delicada.

Quanto à diferença entre bolos e meses, quanto a mim: os bolos sei para que os quero. Os meses é outra conversa.

Cheguei a ter em minha posse, ao alcance dos meus braços portanto, um livro. Sempre que o lia, não percebia nada das palavras impressas. Conhecia-as quase todas, e as que não conhecia ia logo consultar o seu significado no dicionário online, para não ter de procurar no de papel, que por desuso deve andar perdido por ai numa gaveta. Pelo menos não apanha tanto pó.

Nem assim percebia o que é que aquele livro me estava a dizer. Ora culpava-me a mim, ora culpava o livro. Não encontrava utilidade para aquele objecto. Não o vendi logo porque havia qualquer coisa nele, na forma talvez, a cor das páginas, o tipo de letra, até algumas palavras em certos parágrafos, tiradas do contexto que eu julgava que tinham de estar devido ao seu paradeiro. Mas acabei por vender.

Não me lembro quanto me deram por ele. Sei que já não tenho esse dinheiro. Devo ter comprado algo, cuja a utilidade vem escarrapachada no livro de instruções, escrita por alguém que sabe o que quer e por isso sabe também o que o cliente quer.

Passado alguns meses, numa das minhas navegações pela Internet, sentado no sofá e bem sortido, encontrei o livro à venda por um milhão de euros! Um milhão de euros! Passei meses a refrescar a página. Até que um dia refresco, e leio “vendido”. Vendido!

Alguém fez um lucro absurdo com o meu livro. Porque eu não quis esperar até lhe encontrar utilidade. Ou não soube ver a sua utilidade. Ou não trabalhei na procura da sua utilidade. Ou simplesmente não aceitei a sua ausência de utilidade, e fiquei com ele mesmo assim só porque era belo. Por ter qualquer coisa de belo, único, irrepetível, que apesar de não poder compreender, não significa que o deva ceder, entregar de mão beijada ao outro, que o trata como um artigo de compra e venda.

Os meses, os livros e as bolachas. Aguentava-me só com estes três uma vida. Desde que não me viessem falar do tipo que agora abriu uma empresa, e ganhou um prémio de empreendedor, e dá entrevistas e discursos, tudo com o dinheiro que lucrou com o meu livro! Se me lembrar do tipo, que eu nem sei quem é, salto já do sofá extensível, desassossegado e irado, e só volto quando me sentir vingado. Só volto para o sofá quando recuperar o meu livro!

Espero quando voltar que ainda me restem meses e bolachas suficientes para acabar o acabar de ler em sossego.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.