Número desconhecido

Andava de olhar intermitente entre o telemóvel, pousado no braço do sofá onde estava, e as imagens transmitidas no televisor. Mesmo assim quando este tocou, ele deu um salto. Uma respiração profunda e atendeu, ansioso por ficar a saber a quem pertencia aquele número desconhecido.

– Estou Rui! Então pah ando-te a telefonar há três dias. Tu não atendes. Tenho aqui isto tudo parado! O que é que vai na tua cabeça?

– Desculpe. Eu não sou o Rui.

– Não é o Rui? Rui Gomes? Este não é o número do Rui?

– Não. Não senhor. Deve ser engano. Eu chamo-me Ricardo.

– Eh pá, granda bronca! Ai, e agora!?

– Pois agora realmente não sei…

– Ah, o que é que eu vou fazer à minha vida. Então tenho aqui mais de 500 mil euros e tu queres ver que levei banhada.

– Pois. Eu não sei como o …

– Epah. Olhe… deixe… Foda-se…

Desligou e foi à sua vida, certamente bastante contrariado. Ricardo estava aliviado por não ser nada com ele. Se soubesse que era engano, tinha atendido há mais tempo. Mas todo o cuidado é pouco. Animado, já nem recordava porque andava tão preocupado, resolveu ir comer um bolo. Levantou-se do sofá, calçou-se, carteira no bolso de trás, e saiu pela porta fora.

Entrou no café que tinha em mira. Era um café pacato, frequentado por não mais de três ou quatro comedores de bolo por semana. Aquele fluxo de clientela só não ameaçava o negócio, porque o proprietário já ia nos noventa anos de vida vivida a vender bolos, pasteis, e umas bebidas para não empachar. Se aos noventa ainda não se conseguiu alcançar a independência financeira, única razão para um comerciante se sentir seduzido a empachar o seu estabelecimento comercial com estranhos, não é aos noventa e um que as coisas vão melhorar.

Expostos no balcão de vidro, ali desde 1960, quando aquilo era novidade e motivo para espanto, estavam os habituais bolos da casa. Na prateleira de cima estava, por esta ordem:

Um croissant de chocolate bem cozido, com pepitas de chocolate a cobrir a parte mais alta, e chocolate a sair das duas extremidades. Sugerindo que o interior do bolo não era um vazio de massa amanteigada.

Um bolo Húngaro recheado de doce de framboesa, com a framboesa também a sair de fora, produzindo o mesmo efeito do chocolate no croissant, e confirmando que naquela casa não se poupa no recheio.

Uma bola de Berlim cheia, mas cheia a abarrotar, de creme de ovo. De tal maneira que até a montra estava besuntada. Dava a sensação que só era seguro pegar naquela bola de luvas. Trincá-la então só de babete e toalha de praia por perto.

Por fim um bolo de arroz comprado no super mercado da frente, para completar a fila e não ficar o espaço vazio.

O dono daquela montra tinha horror aos vazios. Por isso mesmo não havia prateleira de baixo. Sempre que não havia bolos ou pasteis suficientes para preencher as prateleiras, estas eram arrancadas, e escondidas bem longe do olhar.

Como já era tarde, e a casa só recebe três clientes por semana, aquilo estava até bastante composto de bolos. Podia até sobrar.

Ao ver entrar o que era provavelmente o seu primeiro cliente do dia, o senhor nonagenário desejou que ele fosse guloso ou estivesse esfomeado. Ou, se não era desejar muito, as duas coisas. Se fosse as duas coisas os quatro bolos iam à vida, e ele fechava mais cedo.

– Ora bem vindo à nossa humilde casa onde o lema é servir bem bem servir, dá saúde e faz sorrir. Diga-me em que lhe posso ajudar. Temos croissant com chocolate belga, feitos em França e importado exclusivamente para este humilde estabelecimento, temos depois aqui um último, que sobrou…

Para a idade, o homem tinha uma energia admirável. Ricardo deixou de o ouvir, porque já vinha com ela fisgada para comer uma bola de Berlim.

– Pode ser a bola de Berlim. E um gin-tónico! Primeiro o gin se fizer o obséquio.

Entornava pequenas porções de gin com água tónica para dentro da boca, com a calma de um verdadeiro degustador. O velho foi buscar um prato de sopa, para fazer o transbordo da bola com segurança. Nisto o telefone toca. Ricardo, que tinha lábios, dentes, língua, copo gin, gin, tónica, tudo junto sem cumprir a distância social, numa orgia de frescura lubrificada a saliva, deu um salto que até o fez babar o balcão de 1960.

Número desconhecido! Não recordava se era o mesmo número. Aquele que andou convencido de estar a ligar para um Rui, e depois de finalmente ser atendido por um Ricardo, ficou convencido que o Rui é um vigarista.

Acalmou-se, desta vez não precisou de respirar fundo, tinha um gin-tónico na sua mão. Assim que o telemóvel deixou de tocar, foi comparar os números, na esperança de coincidirem, tal jogador de lotaria. Os dois primeiros coincidiam, os outros eram todos diferentes, ou os mesmo mas em posições diferentes. Merda! E bebeu mais um bocadinho. Mais um número desconhecido! Mas quem é esta gente que telefona para quem não conhece? Para quê?

O senhor dos bolos volto com uma tenaz, uma colher de sopa, e uma travessa. Assim que terminou a transladação da bola de Berlim, que na travessa parecia uma francesista cheia de molho amarelo, disse solenemente:

– Não pude deixar de reparar como desde que voltei, o amigo tem um peso a carregar-lhe a alma. Disponha se achar que desabafar pode ajuda-lo a reencontrar a paz com que entrou neste estabelecimento comercial.

Era uma boa observação. A verdade é que agora, nem apetite tinha para engolir o bolo tão desejado. Mas não podia fazer desfeita ao homem. Talvez pedisse para embrulhar.

– Acontece que me andam a telefonar de números desconhecidos. Eu não atendo, depois fico a pensar o que podia ter sido.

– Tem medo? É compreensível. Tememos única e exclusivamente o desconhecido sabe? Mas digo-lhe. É só mesmo por falta de conhecimento. Acredite em mim que ando às voltas nisto há 90 anos. Fui obrigado a conhecer muita coisa. Depois de conhecer, às vezes não é à primeira, deixa de meter medo. Quantas chamadas não atendidas já atendeu?

– Uma. Foi hoje a minha primeira.

– E o que era?

– Não era para mim.

– Ah… era engano. Sei bem. Está ver? Nunca é nada.

– Vinha comemorar. Só tive tempo de saborear… nem um terço do gin tónico.

Ricardo suspirou e bebeu o gin até metade. Ia com as mão à bola, mas achou que era melhor pedir uma colher de sopa. Enquanto o velho procurava por alguma, perdida numa gaveta desde os anos noventa, o telemóvel voltou a tocar. Número desconhecido! O velho voou até junto dele, de tal maneira ágil que parecia ter metade da idade, e disse empolgado:

– Quer que eu atenda!? Eu atendo-lhe isso!? Olhe que eu pareço ter esta idade, mas ainda estou aqui para as curvas.

Ricardo meio atrapalhado concordou. E o homem dos bolos e dos pastéis, arregaçou as mangas, tossiu para os bolos que já não seriam de qualquer maneira vendidos, para limpar a voz, e assumindo uma posse cerimonial, atendeu o telefone. Mesmo a tempo. Falou com a cortesia de um duque, demonstrando que quem fala não nasceu para servir o desconhecido.

– Pastelaria os Quatros Bolos. Daqui o proprietário do estabelecimento, em que lhe posso ser útil? … sim … sim … compreendo – Desligou – Era engano.

– Outro engano?

– Ora evidentemente. Está a ver? Assim já se vai habituando. Qualquer dia já atende telefones com a destreza de um operador de chamadas.

De sorriso na cara e espírito livre, confiante na sua força de enfrentar o desconhecido que há-de vir, Ricardo atirou-se de cabeça à bola, e começou a devorá-la com um apetite maior do que a travessa. Por aquele andar ainda comia os outros bolos. De boca cheia de creme perguntou:

– Então o senhor já não tem medo de nada? Já conhece tudo. Certo?

– Tenho medo da morte. Ainda não morri.

Disse aquilo como se tivesse dado conta disto pela primeira vez. Ricardo interrompeu a sua comemoração, como se tivesse ouvido algo no qual nunca tivesse pensado.

– Mas seguramente deve ser como o resto… Conhece alguém que já tenha morrido?

– Não… todas pessoas que conheço nunca morreram… Espera! A minha querida mãezinha já morreu!

– Então. Pergunte-lhe. Está à espera do quê? Pergunte-lhe como é? Não tem o número dela?

O homem baixou-se e atirou com o telefone fixo da loja para cima do balcão. Com tamanha força, que as pepitas de chocolate do croissant descolaram-se quase todas. Agarrou no auscultados, quando ia marcar o número lembrou-se:

– Espera. Não lhe posso telefonar.

Ficaram ambos muito embaraçados. O embaraço, por não ser o sentimento apropriado numa situação destas, deu lugar a um terror que não conseguiam disfarçar. Sentiam que a qualquer momento iam enlouquecer. Aquela confusão absurda só era possível numa anedota dos malucos do riso. Ou quando as pessoas enlouquecem. Estavam os dois muito sérios. Olhavam em redor e um para o outro, num pânico constante. Quando se convenceram que, pelo menos por agora, nada iria acontecer, desataram a rir. Um riso que vinha do estômago com tamanha força que explodia-lhe nos dentes e nos lábios. Uma gargalhada vinda do desconhecido. Tomavam consciência de que seus corpos não lhes pertenciam. Incapazes de dizer uma palavra, esboçar um movimento da sua autoria. Riam e as lágrimas escorriam inevitavelmente. Estava tudo bem, por agora, e era o suficiente.

Ricardo acabou com a bola. Pediu para embrulhar o bolo Húngaro para comer em casa. À noite lembrou-se de o velho ter tossido em cima do Húngaro. Esquecido da gargalhada que dera antes, atirou o bolo ao lixo, com medo de apanhar alguma doença terminal.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.