Abelha mecânica

Toda gente que conheço sabe viver melhor que eu. Eu, por teimosia em querer perceber como é que as coisas começaram funcionar, interrompo o movimento da vida. Os outros, os que conheço, vivem, e bem, sem se incomodar com o que possa estar por detrás da vida que levam. Não sejamos tão dramáticos. O que faço não é nenhum crime, e não sou de todo o único a fazê-lo. Assalta-me uma curiosidade, quero compreender qualquer coisa para depois gritar ao mundo aquilo que vi. Compreensível julgo eu. Como é que havia de adivinhar que a vida, depois de parada, custa a arrancar, como os computadores velhos. Computador é uma má escolha para metáfora, porque eu nunca ia parar e remexer no interior de um computador. Conheço as minhas limitações. Mas recordo-me de uma abelha.

Estava de férias, tinha 10 anos e um medo irracionalmente profundo de abelhas. Era meio-dia e estavam uns quarenta graus ao sol. Encontrei uma abelha incólume e ao mesmo tempo falecida. Esperei para confirmar se estava realmente morta. Não precisei de muito tempo para ficar convencido porque nenhum corpo com vida suportaria aquele sol com tanta serenidade. Levei-a comigo para casa. Nunca tinha visto de tão perto uma abelha. Inspeccionei-a na segurança que só a morte nos pode oferecer. As patas pretas e finas como cabelo eram quatro, mas podiam ter sido mais, acidentes acontecem. Os olhos que me fascinavam sem me dizer nada a seu respeito. As asas transparentes com desenhos de formas que faziam lembrar cortinas ou toalhas de mesa. Já não tinha ferrão. Deixou-o por impulso algures, sem medir as consequências do seu acto. Sabia não poder evitar o seu destino. Já eu não sabia perceber nada destas coisas, só imaginar hipóteses, que depois de um processo de selecção, transformavam-se em frágeis verdades.

Quando satisfiz a minha curiosidade pelo exterior, resolvi abri-la ao meio, ou transversalmente. Tanto fazia desde que tivesse acesso ao interior daquele insecto que quando animado de vida, faz-me recear pela minha. Agarrei numa faca, das que têm cabo em madeira, e seguro de que estava prestes a fazer algo nunca antes feito, cortei-a ao meio como se corta a carne e o peixe. Evidentemente o interior transformou-se, logo que contactou com o ar, em exterior. O mesmo exterior que nada me dizia a respeito da coisa. Repeti a experiência até mais cinco vezes, e com seis parte de abelha em cima da mesa, perdi o interesse e fui meter a faca para lavar.

“Inútil, o voo de fora para dentro. Cá fora deveria ser uma imagem: a verdade transposta numa forma que surpreendesse quando comparada com a realidade”(1)

Esta também não é a melhor metáfora porque não havia maneira de voltar a meter a abelha a funcionar. Para além disso não fui eu que a parei. Encontrei-a parada por forças alheias a mim e a ela. Se a encontrasse em andamento, nunca teria coragem de a parar. Por mais que me garantissem, e garantem, que as abelhas não fazem mal a ninguém. O meu medo não é o do desconhecido. Já fui ferrado e sei que não dói tanto como imaginamos doer. Depende também da imaginação de cada um.

Talvez a melhor metáfora seja uma abelha robótica. Passo a explicar. É uma abelha parada, tal como a que eu encontrei de baixo a braseira do sol. Mas que pode, a qualquer momento, ser reanimada por impulsos magnéticos disparados no interior do seu ser electrónico.

Desejo a vida nas coisas. E já agora em mim. Não que me julgue diferente das coisas, mas a subjectividade tem que se lhe diga, e impõe esta separação, mesmo aos que a repudiam mais. Ao mesmo tempo quero estar bem longe, a uma distância de segurança, quando se der o impulso que dá vida ao corpo. Não gosto de ser ferrado.

Daqui se tiram algumas conclusões que tiram valor literário ao texto, mas que servem com certeza algum outro fim. Os nossos olhos não são o melhor órgão para ver a morte. Seja ela biológica, artificial, interior ou exterior. Existem vários tipos de morte. Só se tem medo quando se tem vida, e do que ainda não está morto. A vida acontece sem aviso, e por fenómenos que também não se vêm com olhos de gente. E por fim, em inglês porque receio não haver uma tradução em jeito de provérbio no português, e para terminar caia bem um provérbio: “a watched pot never boils”.

(1) – Photomaton & Vox – Herberto Helder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.