Exercício de conspiração

Era um domingo de manhã, o tempo não estava imperdível, e o sossego era tal que sair da cama seria considerado um pecado. Infelizmente para o Senhor Meritíssimo Presidente Global, o sono teimava a não querer voltar a pegar. A sua longa carreira profissional dotou-o de invejáveis atributos, raros de encontrar na generalidade da raça humano. Mas como o que cresce acima das suas possibilidades exige os proporcionais sacrifícios, paciência para teimosias era coisa que faltava ao Presidente.

Ao fim da segunda tentativa enfureceu-se contra o sono, e as suas vontades próprias. O sono que por não ser gente não reconhecia autoridade ao Presidente, foi-se de vez, deixando o Presidente de boca aberta, e não por força de um bocejo.

Como um raio saltou da cama. O seu desejo era com o salto acordar toda a gente do mundo. Era um homem que não fazia as coisas por menos. Se ele não dormia, é porque dormir é um defeito desprezível. Entáo ninguém dorme, para que esta sua verdade, recentemente instaurada, ganhe balanço e pegue. Já que o sono não pega.

Mas as coisas não se fazem como noutros tempos. No tempo de seus bisavós bastava gritar “estão proibidos de dormir meus filhos de uma puta.” Insultar era de homem, e ninguém dormia. Quem dormisse, e fosse apanhado, levava o tratamento da espada, ou espingarda, ou prisão, tortura, fosse o que fosse que lhe tirasse o sono. Mas cedo se percebeu as trágicas consequências deste caminho. O povo não gostava, identificava a causa do seu sofrimento, que logo a calhar era material. Revoltava-se contra a matéria no poder, e até que percebessem que a promessa de liberdade da revolução, não era afinal liberdade nenhuma, era o cabo das tormentas.

Por um lado, naqueles tempos, a revolução dava jeito. Enquanto se está convencido de que alguém está a tratar da libertação colectiva, não se faz nada pela libertação individual. Não se correndo assim o risco de acontecer uma libertação geral, que possibilite a tão esperada implementação da anarquia. Isso é que tirava o sono ao Presidente. Agarrou no telemóvel e ligou ao vice Presidente global, que de um maneira geral era o Presidente de toda a gente no mundo, menos do Presidente.

– O que é que andas a fazer?

Que raio de pergunta para se fazer ao segundo homem mais atarefado do mundo. O Vice Presidente só admitiria aquele tom de voz a uma pessoa.

– As pessoas têm de andar com mais medo José! O que é que andas a fazer José?!

O vice Presidente só admitiria que o tratassem por José, a uma pessoa, que é quem vocês podem imaginar.

– Tira-lhes o sono José. Inventa um ameaça que não os faça rir. Nada de colapsos financeiros, eles já desenvolveram um sentido de humor para a pobreza material Nada material! Quero sombras! Electricidade! Mitos! Invisibilidade! Confundi-os está bem. Faz alguma coisa de jeito nem que seja uma vez na puta da tua vida. Se precisares de ajuda liga. Tenho de ir cagar.

Meio atrapalhado, o Vice Presidente convocou logo uma reunião com os melhores argumentistas que o dinheiro pode comprar. Havia melhores, mas é preciso levar também em consideração a qualidade preço. Ao fim de três horas de reunião ainda não havia uma ideia. Só material. Os argumentistas culpavam silenciosamente o Vice Presidente, que insistia em pegar nas suas ideias e transformá-las em algo concreto. Só para poder ter algo para mostrar ao Presidente Global. Grande engraxador.

Um argumentista que tinha de ir apanhar o mais novo ao ballet, e estava a ficar apertado de tempo, tentou pôr fim àquilo, indo buscar uma ideia das suas ao baú. Reciclagem criativa.

– E que me dizem de um Apocalipse de Zombis

– Isso não é uma série?

– Sim, mas primeiro foi um filme.

– Não. Primeiro foi um romance.

– Ninguém se lembra do romance.

– E o filme é para rir? É que se for esqueçam já a ideia. Tem de ser de terror.

– Sim, o filme é terror.

– Aquilo é mais acção.

– Nick tu não escreveste uma comédia com Zombies.

– Sim. Mas foi em 2004. Ninguém se lembra.

– O Jarmusch não fez um recentemente?

– Sim, mas não é comédia.

– Não é? Eu achei piada.

– Mas uma coisa é um filme, outra é a realidade. José, confia em mim, ninguém vai achar piada.

Quem não achou piada foi o Vice Presidente. Ficou com a ideia do Nick, e mandou-o prender por excesso de intimidade.

Contratou-se logo outro. Era pior mas mais barato. E para evitar mais despedimentos e custos de contratações inesperadas, ninguém lhe disse o nome do Vice Presidente. No anonimato tudo corre melhor, e com menos custos. Fica mais difícil para os criativos terem ideias a tempo de ir buscar os filhos ao ballet. Mas quem é que dança ballet quando anda a correr por ai uma pandemia de Zombis.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.