Vendilhões do tempo.

Como pode ver Fátima, nós preocupamo-nos acima de tudo com o bem estar das pessoas. Empregamos mais de quinhentas pessoas, todas com salários superiores ao salário mínimo imposto por lei. Porque para nós as pessoas, e as suas famílias, estão em primeiro lugar. Queremos acima de tudo colaboradores felizes por estarem connosco.

Muito bem. E você? Como gere a sua empresa?

Eu não posso, nem quero saber das pessoas. São mais de quinhentos porra! É muita gente. Nem sei os nomes daquela gente toda. Eu vejo as coisas desta maneira. Enquanto der para mim, mais do que para os outros evidentemente, eu mantenho o negócio. Mas tenho de ser eu a ganhar mais, porque a empresa é minha, foi eu que arrisquei, não ando a trabalhar para os outros. Pago mais que o ordenado mínimo porque sei que ganho com isso. Eles andam mais contentes, e produzem mais. Só pago o valor que maximiza o meu ganho. Isto não tem nada que se lhe diga Fátima. A partir do momento que eu deixe de ganhar, deixam todos. Como é óbvio. Isto existe para me servir, e serve os outro por consequência.

Lamentável… Voltando a si. Explique-nos como funciona o seu negócio?

Ainda bem que me pergunta Fátima. Tenho todo o prazer em explicar. A actual crise fez-nos olhar mais longe. Através de uma parceria internacional, conseguimos ter acesso a um mercado mais alargado. Investimos também na qualificação. Percebemos que ao produzir em maior escala, aliando uma eficiente rede de distribuição, conseguíamos fazer chegar os nossos produtos até ao nosso cliente, ao melhor preço. O nosso principal objectivo é dar ao nosso cliente o melhor produto possível, a um preço acessível à sua realidade. Porque para nós o cliente está em primeiro lugar. Sabe Fátima… isto não é uma área fácil. É preciso trabalhar arduamente para que tudo isto seja possível. Mas é para isso que cá estamos. Todos os dias ultrapassamos desafios, tudo para que o nosso cliente possa contar connosco do seu lado.

Magnifico. E o senhor. Como é o dia a dia do seu negócio?

Eu compro a um preço e vendo mais caro. É só isto. Podem dar as voltas que quiserem, repetir de diferentes maneiras. É comprar a X vender a X mais Y. O desafio é só este. Fazer lucro. Somos os vendilhões do tempo dona Fátima. O dinheiro deu-nos educação, fatos caros, gravatas, carros para ir a reuniões, pagar a legisladores, mas o que fazemos é isto. Não passamos de comerciantes incapazes de ver mais do que isto. O que fazemos só é aceitável porque o povo é miserável, e sem isto morriam milhões à fome. Com isto morrem à mesma, mas lentamente. Se eu ganho todos os meses 1000, e o tipo que trabalha para mim 10, não é? Passado um ano eu tenho 12 000 e ele tem 120. Passado 10 anos eu tenho 120 000 e ele tem 1200. Passado 20 anos ele morreu à fome. E eu também me fodo. Fodemo-nos todos dona. Andamos todos a foder-nos uns aos outro como animais que somos.

Calma. Este tipo de linguagem não é admissível neste programa.

Não devia ser. Mas é. Tanto é que foi. E continuará a ser. Até uns morrerem à fome, e outros de solidão.

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