Desvie-se por favor que me está a tapar o vento

Chegados a este ponto restam-nos duas alternativas (sempre o números dois, o par, uma e a outra coisa) ou aceitamos que quem morre, é porque se morre. É algo que sempre aconteceu, não é invenção do Homem. Morte que normalmente é acompanhada de sofrimento físico. Não é nada de novo, nada que já não se tenha sentido, desde o útero. Mesmo assim compreendo a nossa dor.

Ou então, aceitamos que temos de nos portar bem, daqui em diante, por tempo indeterminado, todos, muito bem. Muito bem comportadinhos e a seguir as regras ambíguas, escritas por quem sabe melhor que nós, o que é melhor para cada um. Ambíguas porque a vida é complexa, são muitos anos de história colectiva, e o peso das suas significâncias. Quem não percebe isto não sabe o que é a vida! E pelo andar da carruagem, nunca irá saber. A eles, aos que ousam ridicularizar a vida dos outros ao escolher uma vida diferente, a estes espera-lhes uma morte lenta, e dolorosa. Cada inspiração se revela mais curta que a anterior, até só terem direito a minúsculas porções de ar.

Deviam saber, já têm idade para isso, que não se vive de outra maneira. É tudo muito bonito e um mar de possibilidades, até o pneu do carro furar. E quando se parte uma perna? Quando se tem de pagar a conta do super mercado? E as pneumonias, as guerras, a pobreza e a miséria. Olhem para a realidade como nós a vemos. Porque é a realidade tal como a pintámos. Não quisemos enganar ninguém. Isto que aqui está, é uma versão reduzida do que vimos. Estamos sozinhos no final das contas. A vida é caminhar de cruz às costas, e no fim esperar pela morte.

Mas e se… (é um suponhamos), nada contra viver à imagem de Cristo. É preciso acreditar em algo (será?).

Imaginemos então, que tenho um quintal com tomates. Mais nada. Conheço o tipo que me repara o pneu da bicicleta. Vivo sem precisar da promessa de um futuro radiante, porque não me fascino mais com histórias de encantar. Consegui finalmente aceitar que o Godot não está atrasado. O vazio de estar vivo, a sua ausência de propósito, eventualmente, deixa de me assustar. Vivo sem medo. Sem nada, e sem medo.

Viver assim exige que eu conheça verdadeiramente o outro, e crie uma relação com ele. Uma relação que só é possível quando percebo que, o que separa o outro do eu, é a subjectividade. E quando se vive sem nada, no silêncio, a subjectividade é uma coisa do presente, incapaz de sobreviver ao tempo. Condenada a uma queda aparatosa no esquecimento, no instante que se segue ao seu aparecimento.

Ora, não se sabe “do que as pessoas são capazes para iludirem a ausência de um sentido para a vida, para escaparem à miséria ou ao peso dos outros”, dizia Dinis Machado.

As bestas, vamos chamar-lhes bestas, mas sem ressentimento, porque se elas pudessem seriam certamente outra coisa qualquer. As bestas não sabem relacionar-se com os outros sem se esquecerem de si mesmas. Têm medo de estar sozinhas, porque não suportam a falta que lhes faz uma história para tapar a frieza do céu, impossível de se abarcar completamente com um só olhar.

Não sabem. Têm esta fraqueza, que combatem com a sua maior arma, a sua força bestial. Disposta a matar se for caso para isso, e no dia seguinte convencer o mundo da história que desenharam e penduraram perante os seus olhos, para não verem mais nada. E enquanto tiverem forças, vão lutar contra os outros e contra o mundo, para que não lhes seja derrubado o mural.

O mural serve-lhes para reduzir o mundo a um tamanho confortável, interpretável, e inalterável. Dorme-se e quando se acorda, tudo está como se deixou ficar. Quando aquilo parece estar a ruir, o autor faz os devidos retoques.

Chegados a esta altura, o autor pode ser qualquer um. Está uma multidão a olhar para o mesmo mural. Já se esqueceram que estão a olhar para um desenho. Apertam-se uns contra os outros de tal maneira, que julgam estar unidos. Mas o movimento concêntrico é uma fuga para o centro seguro onde não se corre o risco de olhar os limites do ecrã.

Deitar abaixo o mural, o ecrã, o quadro ou o que se quiser chamar, é, chegados a esta altura, um atentado contra a humanidade. Mas desviar o olhar, mudar de sítio para espreitar o que está por detrás, é uma hipótese. Talvez esteja outro mural. Uma coisa abstracta, sem referências artísticas que nos conduzam a uma explicação catártica. Mesmo assim, vale a pena vadiar pela exposição, nem que seja para espairecer as ideias.

A besta original já cá não anda. Mas escreveu por todo o lado a sua verdade. O que está escrito hoje no mural, é a verdade das bestas que se seguiram, partindo do mito da besta original. Se calhar chamamos vândalos em vez de bestas. Ou artistas, pintores, escritores. É o que se quiser chamar.

No mural temos, disponíveis para consulta, num calendário, os nossos ritmos. Amanhã vou jantar fora, tenho de estar bem disposto. No fim de semana não trabalho, tenho de relaxar. E feliz, mesmo feliz, vai ser entre 19 e 31 de Agosto, já marquei as férias. Parece normal porque é o que vemos quando olhamos o lugar onde costumava estar o céu.

Por mim pode ficar assim. e está muito bem. Eu não tenho sangue, já sangrei o suficiente, temo não ter que me reste. Por isso vou perguntar ao vizinho: “Olhe desculpe? Onde fica os Urinóis?” Depois saiu de fininho, rezando para ninguém dar por mim. Rezar para não dar nas vistas enquanto não se abandona o templo. Assim que me vir livre é zarpar para a rua, onde se pode apanhar algum ar fresco. A brisa! Apanhar com o vento na cara!

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