Desculpas para não ir a qualquer lado

Se são as coisas a acontecer, e nós a enquadrar o que acontece, ou não acontece, com o pensamento. Se é o pensamento que acontece, e depois é objectivado, como se pode, ao fazer qualquer coisa, ou não fazer coisa alguma. Se não é nada disto, e é outra coisa. Eram o tipo de problemas que Álvaro ansiava ter, sobrepostos a qualquer outro problema, de manhã à noite. Dispensava os problemas dos outros, pois para estes havia, ou não havia, solução. Só aceitava ser incomodado pelos problemas cuja solução está como a cenoura presa no pau, preso à carroça do burro.

Mas, se era por culpa das suas acções ou dos seus pensamento, estava tão envolvido na vida, pelo menos para as aparências, como qualquer outra pessoa. E por isso tinha a atormentá-lo os mesmos problemas que qualquer outra pessoa experiência por estar com vida. O que o deixava mais incrédulo, era constatar que não encontrava em si, alguma tentativa que fosse de se desembaraçar da vida. Como se a sua vontade em deixar de pertencer à humanidade, não passasse de um entretém, um pensamento agradável para quando a dita humanidade incomoda.

Impedir a vida de incomodar, é tão desafiador como mexer objectos com o poder da mente. Por isso mesmo, uma manhã acordou, e tinha um jogo de paintball marcado para depois do almoço. Quem está de fora deslumbra imediatamente, com a clareza de quem acaba de ver Jesus Cristo, pelo menos uma de muitas formas de o Álvaro se salvar. Estou com uma dor de dentes, barriga, pernas, braço, nariz. Furou-se um cano em casa. O carro tem o pneu furado. Assuntos pessoais. Não quero ir, não me apetece. Álvaro pensou em todas estas soluções para o seu problema, e outras mais ainda. Sabia que, se aplicasse qualquer uma destas soluções, teria sucesso. Também sabia porque não ia inventar uma desculpa para faltar ao compromisso. E finalmente sabia que estaria pontualmente no sítio marcado, preparado para uma partida de paintball.

Se era o pensamento que o forçava a ir. Ou ia forçosamente, e os pensamentos que surgiam faziam parte do gesto de ir, gesto irremediável, consequência de uma função muito anterior ao ser. Ir ou não ir, eis a não questão.

O individuo encarregado de conduzir o grupo pela batalha de bolinhas recheadas de tinta colorida, representava uma caricatura de uma personagem de um filme de guerra. Vestia camuflado para que os outros o pudessem ver melhor. Principalmente que vissem como ele usava camuflado, e daí tirassem as devidas conclusões. Começou por falar num tom muito próximo da sua caricatura, mas com o desenrolar das palavras, começou, em alguns momentos, a abandonar a personagem. Mas como o pano não caiu, também ele não se deixou abalar pelos momentos de fraqueza, mantendo-se na cena até ao fim.

Álvaro prestou pouca atenção, não era caso para mais. O mais importante era repetido com um grito, a antecipar a relevância do ponto que se seguia ao berro. Seguiram para uma zona de treino. Praticar porque depois era a brincar a sério. Havia um alvo a uma distância significativa. Os homens e mulheres armados, tinham de acertar no alvo, para que fossem considerados aptos para a guerra. Acertaram todos. A concorrência do mercado livre ajudou à pontaria.

Passado o teste de aptidão, tinham à sua disposição uns tantos jogos. Todos rodavam à volta do mesmo objectivo. Os guerreiros estavam bastante entusiasmados, carregavam a espingarda com a elegância que se deve ter ao carregar uma arma. Álvaro por ser feito de carne e osso, também já sentia qualquer coisa. Avançava pelas ervas com a confiança de um soldado, e ao mesmo tempo a segurança de saber que aquilo era a brincar. A pistola, o colete, o capacete, o caminhar no mato, tudo aquilo enchia-o de um espírito de entrega ao destino que o reservava. Sentia-se com força e por isso não temia a incerteza das balas. Havia por ali, no campo de batalha, uma consciência colectiva, da qual fazia parte. Tinha mergulhado na humanidade daquele momento, de capacete posto, mas mesmo assim.

Por ele era só isto. Estava bom. Era o suficiente para se perceber o que é estar vivo por aquelas bandas. Mas os outros tinham pago caro o bilhete, e queriam a experiência toda, com tudo o que tinham direito. Para desfrutar da experiência, das duas uma: Ou dizia que tinha de ir urinar. Depois ficava a passear pela natureza, quem sabe acompanhado por alguém que também não gostasse de brincar às guerras, a ver de longe as palhaçadas dos outros. Ou então tinha de acreditar que aquilo era a sério. E para acreditar que aquilo era a sério, tinha de se esquecer de que era, até certo ponto, livre de ir fazer outra coisa qualquer. Álvaro escolheu uma terceira via, a de participar sem nunca se esquecer de que aquilo era um jogo. Acreditou ser capaz, mas a convicção só durou até levar o primeiro tiro, que ao rebentar-lhe na coxa, gritou-lhe ao ouvido: “olha que isto afinal é a sério!”.

Estava com um pé dentro e outro fora. Não era o único. Havia esta diferença fundamental que partia o grupo em dois. Os que estavam completamente submersos no jogo, e os que, talvez devido às propriedades da matéria, ficavam a boiar. Metade do corpo submerso, e a outra metade fora de água à deriva.

Sem o atrito da água, as balas de tinta embatem na pele com mais velocidade. A dor que sentia, presumia ser a mesma que infligiria nos outros, se disparasse contra os seus corpos. Por isso não disparou muito. Os poucos disparos que fez, foram com o cuidado de falhar. Não sabia porém, que os que o agrediam, estavam mergulhados no jogo, e por isso quase não sentiam as balas. Os que agrediam por sua vez, não sabiam que Álvaro estava a flutuar, e por isso estava vulnerável às balas livres para percorrer o espaço sem o atrito da água. A tendência para espreitar o que existe fora da água paga-se caro.

Antes do final, Álvaro encontrou uma árvore, e sem que ninguém desse por isso, descarregou uma boa parte das suas munições na coitada. Mesmo assim foi quem entregou a arma com mais balas por gastar. Porque os outros gastaram-nas todas. Não sobrou uma.

– Então não conseguiste gastar as balas todas? Olha que eles não devolvem o dinheiro.

Já fora da arena, o sol acendia os tons de vermelho do céu. Os pássaros emitiam sons do bico, sem razão aparente para tal coisa. Surpreendentemente soava a pássaros a cantar, sem que eles tivessem combinado. Os humanos trocavam palavras numa tentativa de fazer prolongar a experiência. Evitar que caísse no esquecimento. Mas era já uma guerra perdida.

O homem do camuflado avisou que havia cerveja à venda. E assim começou outra coisa, que viria a sobrepor-se à anterior, ocupando eventualmente o seu lugar, e servindo de base de aterragem para a seguinte.

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