Uma conspiração, vista de longe, por um urso – III

O julgamento tinha hora marcada, porque de outra maneira, muito provavelmente não haveria julgamentos em parte alguma. Só depois do relógio é que se começou a julgar. Depois da revolução industrial, quando começaram a produzir relógios que sobram para tudo o que era pulso neste mundo, ai é que se começa a julgar como deve ser. Mas a melhor fase só chega mesmo com os despertadores e os telemóveis. Hoje estamos no auge da actividade. Já se julga até sem dar por isso. Acontece com a naturalidade dos ponteiros a circular do número um até ao número doze, em voltas incessantemente constante, até a pilha do relógio acabar.

Quem melhor sabe a que horas anda, está evidentemente em melhores condições de julgar quem por exemplo, anda a perguntar as horas, ou os dias da semana, a toda a hora. Saber as horas é relativamente fácil, e alguém minimamente precavido, consegue facilmente acertar. Surgiu então a necessidade de arranjar um método mais eficaz de aferir quem pode julgar quem, e quem tem de ser julgado por quem. Para isso fizeram-se relógios de pulso com preços que podem ir até aos milhões de euros. Não é um método muito imaginativo, mas é eficaz. E o que quer é eficácia! Para se chegar a qualquer lado, de preferência a horas.

Dedalus acordou em cima da hora, em vez de em cima do colchão. Assim que despertou, a primeira coisa que lhe assaltou a mente liberta do sonho, foram logo as horas. Que horas são? Nunca se pode ter a certeza até enfrentar o relógio com coragem. Quando se deixa o sonho, pode ser qualquer hora, o sonho demora o tempo que tem a demorar. Se podemos fazer uma critica ao sonho, é da sua falta de pontualidade, do seu incumprimento perante os compromissos agendados. O sonho é realmente muito irresponsável.

Alcançou o telemóvel e confirmou o pressentimento de que estava atrasado. Culpou-se a si mesmo, quem mais. Saiu de casa sem tomar o pequeno almoço, não para se castigar, mas porque estava atrasado para aquela dia. Custava-lhe, mas era urgente empenhar todos os esforços até que o tempo perdido fosse recuperado. Quando se está atrasado, deve-se fazer tudo o que se ia fazer, mas mais rápido. Produtividade! É a palavra de ordem. Os músicos se percebessem isto, conseguiam encaixar muito mais reportório numa hora de concerto.

Por este andar nunca mais chego ao julgamento. Pensou.

Despachou-se de tal maneira, que quando chegou ao tribunal, ainda a porta estava fechada. Sentiu-se orgulhoso por ter provado, mais uma vez a si mesmo, que por mais atrasado que um dia julgue estar, tem a capacidade de remediar a situação. Perto do tribunal havia um café, estrategicamente localizado para satisfazer o apetite dos que acabavam de julgar, e dos que tinham tido um julgamento favorável. A quem tinha caído mal o julgamento, também a comida ia cair mal, e por isso nem lá apareciam. Dedalus estava faminto, andar em contra relógio de jejum, desgasta o estômago, é preciso compensá-lo pelo esforço. Sentou-se e pediu de braço no ar uma tosta mista e um galão. Um clássico dos pequenos almoços.

A tosta demorava. Esteve quase para apressar o empregado, mas conteve-se, pois tinha sido avisado que a tostadeira estava fria, e por isso ia demorar. Quando chegou vinha queimada nos seus limites. Não conseguiu engolir aquilo. Já ia ter de engolir uma tosta queimada, para não se atrasar, não ia engolir mais nada. Manifestou-se com humor, mas para agravar a seriedade da situação.

– Agradecido. Traga-me também a manteiga para barrar aqui na torrada por favor.

– Quer mais manteiga na tosta?

– Uma tosta é que me apetecia agora.

– Quer outra tosta?

– Oh amigo. Estou a brincar consigo.

– Ah! Pois está.

E riram-se os dois. Um sem saber do que se estava a rir, e o outro para abreviar a interacção que se desviava para caminhos mais demorados. É atalhos que se quer. Só se dá uma volta maior se for para evitar o transito.

O tosta soube-lhe a queimado, mas engoliu tudo com a ajuda do café com leite. Pagou e foi fazer a digestão já dentro do tribunal. Sentou-se no lugar que lhe era devido, pronto para desempenhar a sua função. Entraram os quatro arguidos. Não sabiam ainda como tinham ido ali parar. Não sabiam que tinha sido Dedalus o responsável pelas suas detenções, e não iam ficar a saber coisa alguma. Talvez no fim ficassem a conhecer as suas penas. Às vezes era tudo tão rápido, que nem isso dava para apanhar. Não raras vezes acontecia o arguido só ficar a conhecer a sua pena depois de a cumprir. O que de certa forma é bastante mais confortável. A inocência faz-nos pagar mais caro, mas também é a melhor forma de pagamento.

Por último entrou a juíza. Dedalus nunca se cansava de olhar com atenção as caras dos juízes, e tentar perceber se existia algum traço facial, comum em todos os juízes, e ausente nos que não chegam tão longe na carreira, que explicasse como se distribuem as pessoas pelos lugares que ocupam. Para além do semblante de juiz, não distinguia mais grande coisa.

A juíza começou logo por bater com o martelo três vezes na base para esmagar a casca das sapateiras. E que golpes! Se tivesse calhado estar ali alguma, estava já pronta para se levar à boca. Gritou ordem duas vezes, e declarou: “levante-se o réu!”. De seguida, com uma voz diferente, mais brincalhona, escondendo os lábios com uma mão, criando uma espécie de ventriloquismo, disse: “Levanta-te tu meu filho da puta!” E riu-se muito, dando assim autorização para, quem na sala sentisse vontade, rir-se também. Dedalus aproveitou para soltar um peido, era a tosta queimada a fazer das suas.

– Bom. Isto foi para desanuviar aqui o ambiente que estava um bocado pesado. Sabem de que filme isto é? Não interessa. Vamos a isto. Vou ser rápida, para despachar. Não há muito a dizer. Vou até ler daqui. Ora de acordo com o nanana nanana do decreto tal das horas da Maria Cachucha, os arguidos Carlos, Rui, Joaquim e João, são os senhores, foram bla bla bla actividades desrespeitosas… ai ai os meninos. O agente Manrruso… Manduso… Danduso… Deduso… não acerto no nome. Ok… sim… isso mesmo… aqui está! Chegámos. Vou agora ler esta parte que isto é que importa.

E leu quase de uma assentada:

“Decreto número 1295 da torre de administração Pribrezhny ordena a detenção ao senhor Carlos do terreno com 0.66 hectares cadastro número 28:136:254:2001 juntamente com o prédio de residência a garagem de arrecadação, a garagem de reparação de automóveis e a estufa. O senhor Carlos realizou uma petição junto do distrito judicial de Zagorye no sentido de anular este decreto o tribunal ordenou a anulação da petição. Senhor Carlos fez nova petição desta vez junto da torre da justiça de Pribrezhny insistindo que o decreto fosse anulado. A administração da torre rejeitou a proposta. Senhor Carlos alega que o decreto inicial viola procedimentos legais e por isso disputa que a perda do terreno seja ilegal… disputa… alegando que a administração não cumpriu com os prazos de notificação exigidos por lei. Também alega que a administração violou direitos civis. O tribunal decreta pelo decreto número 1295 da torre de justiça Pribrezhny a parcela do terreno em questão seja retirada ao proprietário para a construção de uma torre de comunicações central… Torre de comunicações central. Parece-me bem. Estamos a precisar disto. “

Voltou a bater com martelo. Se a sapateira tivesse sobrevivido ao primeiro ataque agora tinha ido de vez. E terminou-se a sessão. Dito assim, sem paragens, sem virgulas, tudo de uma assentada, engolido sem se mastigar, para não sentir o sabor. Desta maneira engole-se tudo como se da verdade se tratasse. Até uma tosta queimada se engole. O importante é não dar tempo para digerir a informação. Porque depois da digestão é que se sente o cheiro a merda.

E assim termina esta trilogia, com referências ao cinema e à literatura para o leitor mais atento. Parece-me ter ficado bem de altura. Uma altura que combina bem com a largura e o comprimento das outras.

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