Inesperada forma de abrir garrafas

Queria ser o primeiro a chegar porque era o lugar com maior hipótese de acertar. Ser o segundo, ou o terceiro, é uma questão de sorte. Ser o primeiro é quase certo, basta aparecer antes da hora marcada. Assim podia chegar onde era esperado, e saber o que ia encontrar. Isto aliviava-lhe a ansiedade destas reuniões ocasionais. Ainda faltavam duas horas e já estava pronto, começou a imaginar os passos seguintes “se sair de casa agora, caminhar sem pressa, como quem não está atrasado. Sim parece-me uma melhor ideia do que me sentar no sofá à espera que passem mais uns minutos.” Saiu e virou à direita, apesar de o caminho mais directo ser para a esquerda. Sentiu-se orgulhoso por não ter perdido tempo a pôr em prática o seu plano de se demorar. Este sucesso inicial foi só isto mesmo. Porque assim que virou à direita, o seu caminhar revelou-se muito mais acelerado do que precisava de ser. Desapontado tentou manter a calma, pelo menos da cintura para cima, já que as pernas estavam irremediavelmente convencidas de que estavam atrasadas. “Se elas não se acalmarem” pensou “não é grave. Escolho um caminho maior. Ou na pior das hipóteses, encontro algum já decorado, e repito-o as vezes que forem necessárias. Elas hão-de se cansar, eventualmente.” E seguro disto foi andando. Por vezes tentava impor às pernas um outro ritmo. Mas das duas ou três vezes que tentou, quase que ia caindo, pela força do pensamento sobre as pernas. Para evitar a humilhação de cair em público, deixou que as pernas levassem a melhor.

A pernas não podiam ver, porque as pernas, naturalmente, não vêm coisa alguma, mas o resto do corpo tinha chegado ao destino. Ainda faltavam quarenta e cinco minutos para ser aceitável bater à porta. Mais coisa menos coisa. Atravessou a rua e começou a caminhar na direcção inversa. Dava até tempo para fazer o caminho todo novamente, não fossem as pernas agora caminhar ao ritmo pensado para o trajecto que acabavam de concluir. Como é que estas coisas aconteciam, estava muito para além da sua capacidade de perceber estes fenómenos. Era cansativo andar tanto, e nem poder confiar nas pernas. Agora, enquanto se afastava de onde julgava ir acabar, o seu corpo deslizava pela rua ao ritmo de uma tartaruga preguiçosa. Àquela velocidade conseguia preocupar-se com outra coisa que não ele próprio. Mesmo assim não podia evitar que as outras coisas o fizessem lembrar de si mesmo. Quem sabe parado conseguisse?

Não tinha tempo para isto agora. Olhou para o relógio, e para evitar inverter a marcha, rodando 180º sobre o eixo do seu corpo, atravessou novamente a rua, e prosseguiu no outro passeio para onde veio. Nunca mudava de direcção no mesmo passeio, não fosse alguém pensar que estava perdido.

Pressionou a campainha, foi o primeiro a chegar, tal como previra. O que não estava abrangido pela sua capacidade de adivinhação, era tudo resto. A anfitriã, surpreendida por o ver chegar tão cedo, mas nem por isso preocupada, deu-lhe para beber um chá de pimenta, hortelã e menta, com mel. Um chá de pimenta, hortelã e menta! Com mel! Por esta é que ele não esperava.

O jogo iniciou-se depois de todos terem chegado. Era a última etapa, depois seguiam-se as devidas despedidas, e cada um seguia para a sua vida, desfazendo-se esta embrulhada de vidas que coincidiam no mesmo tempo, na mesma sala, na mesma mesa. Teve de esperar pacientemente enquanto o tabuleiro era montado, e as regras explicadas a alguns dos elementos que ainda não as sabiam. Ele já conhecia as regras, mas recusava segui-las. Pelo menos da mesma maneira que os outros. Precisava de jogar de maneira diferente, testar as possibilidades do jogo, descobrir que este era mais do que o que estava escrito no livro de regras. Por isso os outros achavam imensa piada à imprevisibilidade das suas jogadas. Raramente ganhava o jogo, porque o jogo tinha sido pensado para ser jogado de uma, duas no máximo, maneiras de jogar. Aos que inventavam, estava-lhes reservada a inevitável derrota, no último lugar da classificação. Se todos inventassem, não se sabe ao certo o que podia acontecer. Tal nunca acontece, porque há sempre quem leve o jogo muito a sério. Para ele não interessava ganhar, estava habituado a perder. O que interessava era poder ser livre para fazer as jogadas que bem entendesse enquanto o jogo não acabava.

Já o jogo ia a meio, e tudo indicava que mais uma vez, ele ia acabar com menos moedas que os outros. Alguém perguntou se não havia por acaso uma cervejinha fresquinha algures por ali. Como tinha terminado o seu turno, ofereceu-se para ir buscar ao ali, que só podia ser o frigorífico. Agarrou na cerveja, estava fresca, procurou nas gavetas pelo abre caricas, mas nada de o encontrar. Procurou mais um bocado, na esperança de não ter de perguntar, mas desistiu.

– Está aqui a cerveja mas não sei onde está o abre caricas.

– Não há. É com a Gillette da casa de banho.

Riram-se porque a resposta era absurda. Depois de algumas tentativas de explicar a relação entre uma Gillette e uma garrafa de cerveja fechada, a anfitriã lá conseguiu convencer os que não sabiam já, que a Gillette servia mesmo, à falta de melhor solução, para abrir as garrafas. Convencido, entrou na casa de banho, seguindo as indicações para encontrar a Gillette certa para o estranho propósito que lhe cabia. Abriu a terceira gaveta, como lhe fora indicado, e lá estava ela.

Encontrou um objecto desfigurado. O cabo estava torto, devido ao esforço de fazer algo para o qual não servia. As lâminas eram agora quatro linhas de ferrugem encarnada. E o plástico do local que contactava inocentemente com o alumínio pontiagudo da carica, estava ruído como a pele de um marinheiro no final de sua vida.

Ele agarrou naquele infeliz objecto, e quando ia para abrir a garrafa, não foi capaz de sequer tentar. Voltou para junto deles. Com um sorriso fingido na cara disse:

– Está aqui. Mas não fui capaz.

– Como assim não foste capaz? Dá cá isso.

À primeira a anfitriã abriu a garrafa. Ouviu-se, apesar de tudo, um som diferente, que foi abafado pelo riso de todos ao ver como se abre uma garrafa com o que era para ter sido uma Gillette. O improvisado abre caricas passava de mão em mão, todos queriam ver a aberração, e todos viam e manifestavam pelo riso o lado cómico de tudo aquilo.

Ele não era parvo, percebia a piada que mais ninguém via. Ele era aquele coitado abre caricas, feito a partir um uma lâmina de barbear, que se calhar nunca teve a sorte de barbear sequer um pêlo.

Para não estragar tudo no final do convívio, riu-se com os outros. Somaram-se os pontos, descobriram-se os vencedores, ele inesperadamente não ficou em último, ficou outro que tal como ele não parecia incomodado. Quem estava mais desgostoso foi o segundo lugar, que não ganhou o jogo por uns míseros dois pontos. Azar de uns, sorte para outros, e alguém tem sempre de perder, porque alguém tem sempre de ganhar.

Quando chegou a casa estava cansado. Como não podia deixar de ser. Andamos todos cansados. Para descontrair abriu uma cerveja, na mesa da sala. E apesar de não ser parvo, não deu pela ironia.

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