Ladrar a canção

Um velho na televisão bem vestido que fala sobre as coisas que viu.

Tenho inveja, não conto a ninguém, por contradizer a vida.

Não se contradiz a vida de ânimo leve.

Encontro-me com alguém que me pergunta quem sou.

Respondo-lhe sem hesitações, como se fosse coisa minha,

como se ele não soubesse

Sou igual a todos, estamos todos na mesma relação.

É o segredo que escondemos uns dos outros, para acreditar, até ao fim, que a vida tem uma relação connosco, que não tem com mais ninguém.

A vida chateia-se, porque para ela os Homens são todos iguais.

Estranha relação.

Os cães amam a vida, e por isso ela não se chateia tanto.

Amam a vida de tal maneira que só lhes sobra amizade.

Os cães não morrem. Não percebo porquê.

Se me lembrasse porque os cães não morrem, também eu seria, até certo ponto, imortal.

Não se tem medo quando se descobre que se é imortal.

Mas não basta sermos notificados.

Só tenho medo de mim mesmo. Não tenho medo de mais nada.

Do que está fora, não tenho palavra a dar. Cá dentro é outra conversa.

Os cães não dançam porque não sabem ouvir a linguagem musical.

Eu danço para esquecer-me dela.

A música com letra é uma piada de mau gosto.

Como a poesia com palavras.

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