Uma conspiração, vista de longe, por um urso – II

O agente Mancuso acordou cansado como era de costume. Antes de sair da cama escreveu num papel, agora com letras maiúsculas, que tinha de trocar a cama de lugar. Estava cansado de acordar sempre no mesmo sítio, ao lado da mesma pessoa. Quanto à pessoa seria preciso um desastre acontecer para que agora, ao fim de tantos anos de casamento, as coisas mudassem de lugar. Porém, mudar a cama de lugar, fazer umas mudanças, era até algo que entusiasmava a esposa. Pequenas alterações fazem toda a diferença.

Escreveu com maiúsculas num papel não para se lembrar, mas para registar a importância da ideia. Era um homem simples, consciente de um mundo finalizado, assim que deixou os estudos, e transitou para a vida adulta. Quando este mundo, fechado e acabado, que era o seu, começava a ruir, Mancuso mudava as coisas de lugar. Se pinga do tecto, por cima do sofá, desvia-se o sofá, porque a obra está finalizada.

Se Mancuso fosse músico, em vez de um lembrete escrito à mão, compunha uma peça, que capturasse o ruído que sentia ao acordar.

Arrastou-se até à sala, abriu o computador e começou a escrever o relatório. Começou assim:

“No dia 21 de Junho de 2020, um grupo de quatro indivíduos, já devidamente identificados com os seguintes nomes e apelidos: João Alves, Rui da Costa, Joaquim Silva e Carlos Sousa. Infringiram a lei número 75 do código de Estado. São acusados dos seguintes crimes. 1)”

Levantou-se da mesa porque o ruído do estômago em jejum começava a ser difícil de ignorar. O estômago é um órgão autêntico. Há outros, como o fígado, que passa uma vida inteira sem dar sinal, e de um dia para o outro, arruína o seu portador. Os olhos, que estão longe como o diabo, costumam dar o primeiro aviso. Um alerta quase sempre tardio, divido à distancia entre os dois. Mas o estômago comunica honestamente, sem preconceitos ou complexos, directamente, sem papas na língua, o que se está a passar por dentro.

Mancuso abriu o frigorífico, que para condizer com o resto da casa, fazia também ele um ruído terrível, devido a um problema na ventoinha. Não havia dinheiro para reparações. Tal como Mancuso transmitira à esposa “quando avariar compra-se um novo.” Colocou em cima da mesa uma cuvete com fígado, e a manteiga.

Vamos passar à frente dos preparativos da refeição, porque Mancuso tem até um gato. Quem percebeu de qual romance é este Mancuso, e teve ao mesmo tempo a pachorra de ler o romance onde entre Stephen Dedalus, pode descobrir uma relação entre um e outro, e substituir um pelo outro. Na sua mente claro. Ou misturá-los numa só personagem. Isto já vai lançado para todas as direcções, não quero contribuir mais para a desordem.

Ora, depois de calar o estômago, o seu e o do gato, que ao vê-lo na cozinha tirou instintivamente partido da situação. Stephen Dedalus avançou destemido para o computador, disposto a terminar o relatório, para depois ir, livre das amarras das obrigações laborais, passear junto ao mar. Recomeçou de onde acreditava ter ficado:

“2) Aquisição de uma quantidade absurda de bens de primeira necessidade como carne, pão, cerveja, entre outros. 3) Ingestão de uma quantidade insultuosa de comida e de bebida. 4) Conversas de teor inapropriado, por vezes até pornográfico, onde se objectivava o sexo feminino. 5) Troca de insultos ofensivos para a boa moral da nação, durante um jogo ilegal. 6) Demonstrações injustificadas de arrogância, aquando a vitória nesse mesmo jogo. 7) As garrafas de cerveja vazias ficaram por despejar no vasilhame, num acto de inequívoca preguiça.”

Guardou, releu para corrigir algum erro gramatical, exportou para pdf e enviou a quem de direito. Estava concluído o seu trabalho, por agora. Teria ainda de estar presente em tribunal, no dia do julgamento estatal. Estava satisfeito por, pelo menos, ter cumprido o seu dever. O sentimento de dever cumprido acaricia-nos o espírito independentemente do dever que se cumpriu.

Sentiu sua mulher a despertar, no quarto. Sem perder tempo enfiou os sapatos nos pés, agarrou na carteira e no telemóvel, num gesto já compulsivo, e saiu de casa. O ruído da sua saída foi abafado pelo do frigorífico, pelo menos isso.

Caminhou até à praia onde viu uns adolescentes, evidentemente embriagados, no mar não vigiado por um nadador salvador, a jogar à bola. Pensou “Hoje não. Hoje estou de folga. Hoje é um dia para mim.” Ignorou-os e continuou pelo passeio.

Mais à frente tirou os sapatos, deixou-os na calçada, confiante, apesar de tudo, nos bons valores morais dos seus concidadãos, e caminhou pela areia até às rochas junto ao mar.

Um, o tacto, sentia mais nos pés, livres como as mãos, destinadas pela força evolutiva a gestos mais delicados. Sentia o resultado da teimosia das ondas, da sua implacabilidade, desferindo líquidos golpes salgados, nas rochas até lhes destituir da forma. Água mole em pedra dura. E agora enfiavam-se nos furos, entre os dedos dos pés, colando-se à pele, aproveitando uma boleia prevista pelo vento.

Dois, o olfacto, cheirava os odores da praia que o levavam para a banheira num passado longínquo. Quando uma coisa implicava eventualmente a outra. Os cheiros, por serem invisíveis, chegam mais rapidamente ao pensamento, e o pensamento desvia-se do seu caminho para os perseguir. Um desvio também ele previsto, pela brisa.

Três, a visão, percepcionava agora todo aquele espectáculo, enquadrado pela luz já como imagem final. Os olhos, esforçam-se ao máximo para atingir a autenticidade do estômago, desprezando por agora as perturbações da figadeira, que não eram urgentes seguramente. O esforço prejudica a visão. Quando semicerramos, os olhos, focam a coisa isolada do resto. Não é preciso força para abrir os olhos, morre-se tanto de olhos fechados como abertos.

Quatro, o paladar, está ainda ocupado com o sabor do fígado, da manteiga e do café. Este pelo menos tem desculpa para estar distraído com outra coisa qualquer, e não a coisa que está ausente.

E por fim cinco, a audição, do ressoar do que está ausente. O barulho que atravessa o tempo que não existe, e surge invisível, trazendo agarrado a inexistência, igual ao silêncio.

Inventaram-se mais pecados que sentidos. Agora o autor não consegue inventar ele uma bela simetria. Sendo assim termino.

Não perca o próximo episódio porque este já excedeu o seu comprimento.

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