Estar no mar, não poder estar perdido, uma ideia como qualquer outra

As transições de um estado para outro são os momentos mais interessantes de testemunhar. Só quem está de fora, ou quem já os ter experimentou mais que uma vez, consegue abstrair-se, de alguma maneira, e assistir devidamente ao espectáculo. Uma vez éramos cinco, estávamos embriagados, por sermos jovens e nos terem sido concedidas algumas horas de liberdade da autoridade paternal. Não éramos experientes nos licores e afins, mas como não era também a nossa estreia, a transição do sóbrio para o ébrio fez-se sem grandes surpresas e hesitações.

Decidimos ir até ao mar. Levámos uma bola porque a intenção original, ou pelo menos a mais anterior que podíamos alcançar, era a de ir jogar. O que nos levou a entrar no mar foi, ironicamente, a bola. Foi lá parar antes de nós, saída de um pé menos afinado, ou com uma inclinação secreta para descobrimento oceânicos.

Esta transição, por mais experiente que se seja, é sempre dura. Afinal é, e foi, uma enorme transição. Instalou-se uma pequena discussão. Não fosse o álcool a correr-nos nas veias, e a maré a empurrar devagarinho a bola para a linha do horizonte, teria durado mais tempo. Reunidas estas condições, o primeiro mergulhador ofereceu o corpo, ainda a bola estava apenas a umas dez braçadas de distância.

Não fui o primeiro, o pioneiro, mas também não esperei para ser o último. Na verdade nunca dei importância a classificações. Nem sei de onde vem esta necessidade absurda de ordenar as coisas, quando a ordem das coisas está bem resolvida. Só mergulhei de cabeça depois de sentir os colhões encharcados. Foi assim a minha transição. Não sei como foi a experiência para os outros, nunca falámos sobre isto.

Uma vez lá dentro… e agora aqui é que está a poesia.

Toda enfiada neste momento, que passou por nós como passam as horas dos dias quando deixamos de pensar no relógio.

Nem todos fazíamos o mesmo, apesar de haver uma força que nos empurrasse para isso. Essa força não era a maré, nem o vento, que não têm nada haver com os desejos de adolescentes bebemos. Começamos por brincar como crianças. A bola desenhava círculos perfeitos ao passar de uns para os outros. De vez em quando alguém, por se aborrecer com a previsibilidade da trajectória, inventava um passe para outro que não fosse o esperado. Mas a bola, por mais voltas que desse, voltava a estabelecer o seu movimento perfeitamente circular. Quando ficava sem bola, preocupava-me inutilmente. Acreditava na hipótese de não voltar a ter a bola, de ser esquecido, de ficar isolado num mar desconhecido. A aleatoriedade do trajecto da bola alarmava-me, mas a previsibilidade era ainda pior. Tudo preocupações estéreis, porque a bola volta sempre. Os outros deviam sentir como eu sentia. Digo isto porque ouvia-os gritar: “Passa a bola caralho!” Depois de experimentem uma privação prolongada, e julgarem não aguentar mais tamanhas provações.

O repetição foi acumulando cansaço, e aos poucos fomos ficando sérios. Eu fui uma das vítimas, mas não fui o primeiro a manifestar-me. Fingi durante algum tempo, não era seguramente o único. Finalmente um de nós, acho que foi o que entrou primeiro no mar, faz sentido que tivesse sido, desistiu do jogo, e simplesmente afastou-se. Cada um faz o que quer com o seu tempo, não são exigidas justificações (porém são bem-vindas explicações). Pensar nas possibilidades pode parecer sufocante, mas é melhor do que ficar a brincar aos círculos com a bola, até a pele ficar enrugada.

Qualquer ideia é válida. Devido à natureza da matéria, umas têm melhor aplicabilidade que outras. Mas todas são válidas.

Um encheu o peito de ar, e pôs-se a boiar na água de barriga para cima, a olhar o céu, sem esforço, deixando-se levar pela corrente. Para outros aquilo não servia. Ou porque não conseguiam flutuar, e tinham vergonha de pedir que os ensinassem, ou porque simplesmente precisavam de se mexer, fazer coisas. Uns então nadavam, do ponto A para o ponto B, faziam corridas para dar sentido às suas deslocações. Havia quem nadasse contra a corrente, e depois ficasse tão cansado, que pensasse não ser capaz de continuar. É assim que alguns se afogam. Ali, por estarmos em grupo, ninguém corria este risco. Outro mergulhava no mar e desaparecia. Eu ficava ansioso quando alguém desaparecia debaixo de água por tempo indeterminado. Não podia evitar pensar nos piores cenários. Depois sentia um alívio por o ver emergir, de olhos fechados, respiração ofegante, num sítio diferente e surpreendente. Quando alguém regressa do fundo do mar, nem parece ser mais ele, mas sim outro qualquer. Ao agarrar a respiração de novo, parece querer dizer qualquer coisa importante, qualquer descoberta feita no fundo, lá por baixo. Não chega a dizer, parece que se arrepende e escolhe ficar calado, em silêncio. Se calhar falou debaixo de agua, mas não se ouviu.

Dançámos, cantámos, insultámo-nos, por amor, amámo-nos, beijámo-nos, abraçamo-nos, rolámos na areia, levámos com a rebentação das ondas em cima, as voltas que demos.

Fomos todos parar à toalha. Alguém perguntou: “E a bola? Onde está a bola?” Estava ao nosso lado, foi lá parar sem que tivesse havido qualquer esforço da nossa parte. “Sorte”, disse alguém. Outro disse que se tratava de uma coincidência. Eu, talvez por ter conservado a minha bebedeira de álcool no mar salgado, senti que era algo mais. Uma outra coisa para além da coisa em si, qualquer coisa que devia perceber, resolver, como na canção.

Conversa de bêbedo, eu sei. E um amigo meu disse “Podia morrer agora mesmo e morria feliz.” Lembro-me de o ouvir a dizer isto, e não ter ficado preocupado, porque afinal era só uma ideia, como qualquer outra ideia. Como flutuar, mergulhar ou nadar com a corrente. Mas lá está, nem todas as ideias, devido à natureza da matéria, têm uma boa aplicabilidade. Umas demonstram-se melhor que outras. Apesar disso recuso-me a rotular de má ou boa uma ideia. Não há nem pode existir tal coisa. Tão certo como naquele dia, termos acabado todos no sítio certo, à hora certa, independentemente das ideias e consequentes movimentos de cada um.

Esquecemo-nos foi da bola.

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