Cães de todas as cores

Por aborrecimento, ou qualquer outro sentimento, que se tenta empurrar para segundo plano, e que depois por lá vai ficando, apodrecendo, e naturalmente emanando um odor por vezes sufocante, que rompe pelos planos todos até se libertar na atmosfera, o homem começou a dar de comer a um cão vadio que frequentava as suas bandas.

Começou por um impulso. Viu o cão a rondar a sua porta, arrebitar o focinho, esforçando-se por cheirar qualquer aroma interessante. Pensou “que se dane” e atirou-lhe os restos do almoço. No dia seguinte o cão voltou. Sabia por conversa com os vizinhos, que não era boa ideia dar confiança ao cão. Dizia-se que era um cão teimoso e barulhento. Quando ganhava confiança transformava-se num ordinário sem maneiras. Cagava e mijava em qualquer canto, ladrava sem parar a noite inteira, comia tudo e logo a seguir chorava por mais. Um inferno. E pior que isso, depois era o cabo dos trabalhos até ele perceber que não é mais bem vindo, e pode ir passear para outra freguesia.

Ignorando os conselhos dos vizinhos, o homem lá foi dando comida todos os dias ao cão. As primeiras vezes o cão comia afastado do homem, por segurança. Mas o homem queria tocar no cão, é humano desejar o contacto físico. Foi investido aos poucos, até que finalmente, ao fim de alguns dias, alcançou o toque no pêlo da besta, e assim ficou estabelecida a intimidade. No dia seguinte já o cão lançou-se sem hesitar até junto do homem. Foi quando ele se deu conta que o cão cheirava, naturalmente, a cão.

Quanto mais se dá banho ao cão, mais o cão cheira a cão. É o feitiço a virar-se contra o feiticeiro. Foi quando o homem previu, que talvez não tivesse sido boa ideia atrair o rafeiro. Para não piorar a situação interrompeu imediatamente as doações alimentares diárias. Mas o cão continuava a aparecer todos os dias à mesma hora. Todavia era só isto que fazia. Surgia, espreitava, e quando aceitava que não ia receber nada do homem sem ser o seu desprezo, metia trote até à próxima paragem.

Por piedade, mas pode ter sido outro sentimento qualquer, que agora irrompia de um plano anterior, depois de lá ter sido esquecido, por embaraço ou inconveniência, o homem decidiu voltar a alimentar o cão.

Resolveu interiormente o conflito da seguinte maneira: “Todos os dias é um disparate, depois fico com o cão a toda a hora aqui à porta, a cheirar mal, a incomodar os vizinhos. Mas uma vez por semana, uma dose pré-definida. Se todos fizerem o mesmo, o cão não passa fome, e não desgraça a vida a ninguém. Porque ter aí à solta uma animal esfomeado, também não me parece uma boa solução. Pode até ser perigoso.”

Saiu de casa com exactamente 150 gramas de ração num saco de plástico. Mas o cão não o esperava à porta como era habitual. Colocou os dois pés assentes no chão da rua e assobiou. Esperou pelo vizinhou do lado, que subia a rua na sua direcção, para lhe perguntar se tinha visto o bicho.

– O cão? Deve ter ido pregar para outra freguesia. Ou foi parar a um canil.

Voltou para dentro com a ração no saco. Por experiência não a deitou fora. Sabia que eventualmente ia aparecer outro cão por ali. Há cães a vadiar por todo o lado, de todas as cores e todos os tamanhos.

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