Uma conspiração, vista de longe, por um urso

À rebeldia das novas regras, impostas de forma informal, mas designadas de recomendações, para acelerar a sua aceitação, o grupo de amigos juntou-se para uma jantarada. Eram quatro, normalmente seriam mais, mas à última da hora, o espírito rebelde abandonou os que não compareceram. Tinham comprado fatias de carne, que iam seguramente sobrar, e cerveja em quantidade correspondente à carne. O Joca por ser o mais experiente naquelas andanças, atirou-se logo ao grelhador. O Rui, dono da casa e por consequência do grelhador, não levou a mal. Antes pelo contrário ficou satisfeito por Joca ter reclamado o lugar que lhe servia bastante bem. Ofereceu-se simplesmente para ajudar, pois apesar de amigos desde a instrução primária, a cortesia estava presente nas suas relações. O Carlos e o Quim, os que faltava mencionar, trouxeram as cervejas e os quarto beberam enquanto a carne grelhava.

Depois do comer também não houve confusões. Os dois que sentiam ser os que menos tinham contribuído com o seu trabalho, voluntariaram-se para lavar a loiça, enquanto os outros dois pensavam o que se ia jogar a seguir. Tarefas concluídas sentaram-se à mesa e tiraram o primeiro jogo da caixa. Todas as caixas tinham as respectivas regras do jogo respectivo, imprimidas em papel, e que eram respeitadas à letra. Todos eles tinham a certeza que nenhum fazia, ou alguma vez fez, batota. Conheciam-se bem, porque tinham investido naquelas relações, era única maneira de estarem certos do carácter de cada um. Podia existir alguma desconfiança, porque é humano errar por distracção. Todavia batota deliberada era algo que não existia naqueles jogos.

Foram trocando de jogo ao longo da noite, para não se fartarem, e mais do que isso, para não se esquecerem que estavam a jogar a um jogo. Apesar de serem bastante amigos, sabiam que todos os homens podem ser corrompidos, é uma questão de tempo.

Tinham um jogo, intitulado “Guerra dos tronos”, baseado num livro com o mesmo nome, que demorava muito tempo a acabar. Podia até prolongar-se por dias ou semanas. Nesse jogo, os amigos, deixavam de ser capazes de manter a compostura. Ao fim de quatro horas, era este o seu limite, instalava-se a desconfiança. Um olhava para o mão do outro, via que este tinha quase o dobro das suas moedas, e um pensamento de inveja explodia, sem que ninguém desse conta.

– Como é que tens esse dinheiro todo?

– Já não te lembras é? Estivesses com atenção pato bravo.

Já ninguém se lembrava. E isto era só o início. Ao fim de seis horas, mais coisa menos coisa, até se esqueciam que tudo aquilo era a brincar. Começavam as discussões, instalava-se o tal clima de tensão, que se ouve falar no noticiário, por cima das horas da refeição. Quando um perdia uma batalha, iniciava imediatamente a retaliação com insultos verbais. Remexia no passado, até encontrar eventos que justificassem a sua derrota, e lhe devolvessem o orgulho perdido. O outro defendia-se para que a sua vitória não acabasse desvalorizada. Cada movimento das peças tinha agora de ser medido e pensado várias vezes antes de concretizado. Depois de executada a acção, não havia nada a fazer. Ou se salvava, ou estava tudo para sempre perdido. Irremediavelmente perdido. “Carta batida carta jogada” era a nova regra, acrescentada ao livro, dada a gravidade da situação. No final nem o vencedor ficava satisfeito. À medida que arrumavam o jogo na caixa, e o feitiço se ia dissipando, voltavam aos poucos a conseguir rir. No final prometiam não mais abrir aquela caixa maldita.

Naquele dia nada disto aconteceu. Jogaram vários jogos. O Carlos foi quem mais ganhou, e no final fez questão de recordar os amigos da sua superioridade, que, por ser uma superioridade inventada pela imaginação, com prazo de validade curto, não incomodou os outros. Antes pelo contrário, contribuiu, tal como as cervejas, para animar a malta, que é o que é preciso.

Era já tarde e estavam todos borracheirões. Quim que tinha sido o que bebera menos, pediu aos amigos mais uma hora, e garantiu que depois estava em condições de conduzir. Aproveitaram a espera para uma segunda investida à carne. Comeram como estivadores ao pequeno almoço. Concluída a ceia Quim deu boleia aos amigos. Deixou o Carlos em casa e depois o Joca, por esta ordem pois era a que melhor encaixava no percurso. Estacionou o carro e foi-se deitar já o dia estava a clarear.

A história não acaba aqui, porque para enorme infortúnio dos quatro amigos, houve mais alguém que presenciou aquela inocente farra. O agente Mancuso, do alto de uma colina, disfarçado de urso, testemunhou, e tirou notas, do crime desde o seu principio.

Não perca o próximo episódio porque este já excedeu a sua largura.

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