Barbear ao relento

Era um sujeito bem parecido, que se parecia melhor com alguma barba no rosto do que sem nenhuma. No entanto era demais. Parecia um desleixado, com pêlos mais compridos que outros, encaracolados nas partes do rosto onde remexia distraidamente. Os bigodes ficavam a cheirar a gordura depois de comer. Conseguia cheirá-a melhor quando enfiava os pêlos que cobriam o lábio superior dentro de uma das narinas. Era algo que lhe dava certo prazer.

Prometera a si mesmo que não ia passar mais um dia, e no final daquele, ia mesmo fazer a barba. Procrastinou de tal maneira que, só já depois de fazer a digestão do jantar, agarrou na máquina de barbear. Tirou a camisola ficando o tronco nu. Ao espelho contraiu os músculos abdominais, e ficou satisfeito por ver a forma de alguns. Lembrou-se do trabalho que dava limpar os pêlos do lavatório depois de fazer a barba. Saltavam-lhe da cara e mesmo quando cobria tudo com um papel, eles arranjavam maneira de cair ao lado, enfiando-se em tudo quanto era canto.

Agarrou na máquina e foi para a rua. Começou a barbear-se em cima da relva. O rugir da máquina, o seu tronco destapado, os músculos abdominais, e a hora tardia, encheram-no de uma virilidade romântica. Sentia-se um homem, e não um sujeito com nome próprio, apelido, nacionalidade e um número de identificação. Barbeou-se algum tempo no mesmo sitio, e depois, por achar que já estava a deixar demasiados pêlos onde estava, mudou de poiso. Uns passos para o lado.

Levantou a cabeça para melhor chegar à pelugem do pescoço, e ali onde estava agora, o seu olhar encontrou as estrelas. Agora peço ao leitor, se tive a sorte de o ter ainda aqui comigo, visto que um homem a barbear-se não é um acontecimento relevante para a vida de alguém. Peço que perceba, porque eu não fui capaz.

Um homem sai de casa meio despido. Enquanto corta a pelugem que lhe cresceu na cara, com uma máquina movida a electricidade, olha para cima e vê o céu e as estrelas. Como é que isto foi acontecer? Como é que ele foi ali parar? Como é que os pêlos cresceram? Porque é que foram acabar ali no chão da rua? Quem é que adivinhava uma coisa destas? Onde é que o vento os vai levar? E a electricidade? O barulho da máquina a irromper no silêncio que o céu gelado contém. E as estrelas ali a fazer o quê? Tudo por baixo das nossas cabeças. Sempre por baixo das nossas cabeças.

Evitando de pensar nisto, porque tinha a barba para fazer, limitou-se a observar. Contemplou tudo sem qualquer esforço, deixando-se apenas estar ali, a fazer o que acabava por fazer. Não podia ver o que estava a fazer, pois não tinha espelho. Não acompanhava, com o olhar, as suas transformações, aquilo que lhe estava acontecer. Foi a troca que fez. Sacrificou o espelho por não ter de perder tempo a procurar os milhares de pêlos, cortados em partes incompletas, da sua raiz, cuspidos sabe-se lá para que recanto do lavatório, sujando tudo em redor. Ali do lado de fora, nem lhe interessava onde eles fossem cair. Fosse onde fosse, passavam logo a fazer parte da natureza. Assim que abandonassem o seu rosto, deixavam imediatamente de ser problema seu.

Desligou a máquina e voltou para dentro. Acendeu a luz da casa de banho, arrumou a máquina e olhou-se ao espelho. A barba tinha ficado bem feita. Seja lá isso o que queira dizer.

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