Por delicadeza

São muitos os momentos que vivemos, por ninguém se lembra de todos, apenas alguns. Os suficientes. Conheci um homem que apenas se lembrava de dois momentos de sua vida. Não sei como fazia. Exige um enorme controle da memória, ao alcance de poucos. Pior, não pode ser comprovado, cientificamente digamos. Ele diz-me que não se lembra, acreditar é uma opção. Acreditar nunca é uma opção, mas percebem o que eu quero dizer, podemos não acreditar, por mais que queiramos. Ele dizia-me que só se lembrava de duas coisas, eu acredito porque gostava de algo parecido. Lembro-me de umas tantas, e umas muitas outras lembro-me apenas ao nível dos sentidos. A razão e os sentidos têm uma relação delicada, fingem por concordar quando se confrontam, mas não passa de uma cortesia.

Não gostava de morrer brevemente, não tenho uma boa razão. Porque gostava de ver um pôr do sol a beber uma cerveja sentado num banco de jardim. É uma razão, mas parece-me ser outra vez a delicadeza da relação entre a razão e o coração. O coração quer viver, vai-se lá saber porquê, a razão não quer ser indelicada ao ponto de perguntar directamente. Vai sondando e chega a formular ideias, que se aguentam, umas mais tempo do que outras. “Por delicadeza desperdicei a minha vida” escreveu Rimbaud, que morreu com cancro aos 37 anos, provavelmente contra a sua vontade. Ninguém nunca quis morrer, por delicadeza morremos todos.

Voltando ao homem que era duas coisas, e sempre seria duas coisas já previamente defendidas e que inevitavelmente definiam quem ele era. Não me perguntem como sei, um dia o homem acordou de um enorme sono, estava como sempre, olhos expectavelmente abertos sem vontade de voltar a fechar. Sabia o que era, que tinham acontecido duas coisas, tinha nascido e tinha morrido. Pelo meio passou todo o tempo que teve, e que ainda tinha, nada a fazer. Ia sobreviver a tudo, menos a uma coisa. O homem levantou-se, saiu da cama sem medo, seu esforço e sem propósito. Não me perguntei como sei isto, porque se me exigem provas, razões, podemos deixar de acreditar que algo semelhante seja possível, e faz-nos bem acreditar.

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