Nunca se encontra mais que um avião quando se olha o céu

Nunca se vê mais do que um avião quando olhamos o céu, seja de noite ou de dia. Sinal que os controladores do tráfego aéreo estão atentos e fazem o seu trabalho com a disciplina de um animal que luta pela sua sobrevivência. Não era para menos, controlar as trajectórias dos aviões é um assunto muito sério. Se deixássemos os aviões voar livremente, desenhando nos céus as linhas que bem entendessem, como fazem os pássaros e as moscas, era um escândalo mundial. Seguramente estes homens, que tanto se esforçam por manter os seus empregos como controladores de tráfego aéreo seriam despedidos, e não se ia ficar por aqui. Mais despedimentos, criticas e enxovalhamentos se seguiriam.

Para aqueles que nasceram espécies voadoras, não existe restrições para o seu voo. Até porque estes seres a que me refiro dificilmente perceberiam as subtilizas do sistema jurídico que ajuda os Homens a viver todos amontoados uns por cima dos outros.

Se no céu não nos deixam encontrar mais de um avião de cada vez, dentro de nossas casas não existe limites no que diz respeito à quantidade de moscas. Entram e saem quando podem, como se a casa lhes pertencesse. Não se deixam intimidar pela posição que ocupam na cadeia alimentar. Diria até que não se deixam intimidar por nada, uma mosca é sempre a mesma mosca, esteja ela sozinha, ao lado de um urso ou de um leão. Até quando ficam presas numa teia de aranha, só o material de que a teia é feita as imobiliza. No que diz respeito ao destino cruel que lhes foi traçado, esse não as intimida de maneira alguma.

Agora ficaria, se não eternamente, por muito tempo grato, se o leitor destas palavras me ajudasse a dar sentido ao episódio que vou passar a relatar. Este pedido tem na sua origem um pecado, o de sugerir, de forma quase inocente e por isso despercebida, a garantia de que existe um sentido por explicar. Pode não existir. Mas vamos tentar acreditar que existe um sentido, não nos faz mal pois é um exercício de criatividade, uma competência muito cobiçada pelo mercado de trabalho. Então foi isto que me aconteceu:

Estava sozinho em casa sentado no sofá da sala. Já tinha dado pela mosca, sabia que devia andar à roda da única lâmpada acesa. Ouvia o seu voo, e via a sua sombra aparecer em determinados pontos da parede. O barulho que uma mosca emite quando voa é, vai-se lá saber porquê, incomodativo. Não sei ao certo, mas imagino que seja uma questão história, explicada pelas mesmas ideias que explicam a razão do nosso medo instintivo em relação a outros insectos como aranhas e escorpiões. Não é aqui que está o mistério. Ou melhor, é precisamente aqui que está o mistério, mas não é por aqui que quero compreender. O barulho incomodava-me, mas o que me incomodava mais era a ousadia da sua presença. A sua intromissão, sem razões e sem respeito pela minha presença, faziam-me desejar o pior aquela mosca. Se um gato entrasse em minha casa, seria porque desejava encontrar alimento ou um local mais acolhedor que a rua. E assim que desse pela minha presença, iria reconhecer-me. O gato ao contrário da mosca não é indiferente ao mundo que o rodeia. A mosca parece ignorar que é um ser vivo. Atravessa o espaço sem considerar a natureza dos objectos que dele fazem parte. Para uma mosca eu valho tanto como um sofá. Uma mosca não distingue o livro que estou a ler, do folheto do lidl que abandonei em cima da mesa.

Levantei-me porque cheirava mal. Havia quatro dias que não tomava banho. Vi-a pousada na torneira da cozinha, onde guardo o mata-moscas, feliz coincidência, para mim, injusto destino para mosca, caso não me faltasse pontaria. Devo ter falhado o golpe letal. Quando o assunto é moscas e mata moscas nem sem se pode ter certezas, mas como não encontrei o cadáver, e pareceu-me ouvir o seu voo triunfante depois de desferido o golpe, guardei a arma com adequada desilusão. Liguei o esquentador e fui para a casa de banho. Assim que fechei a porta ouvi a mosca. Era a mesma mosca, hoje sei-o, porque só havia uma mosca.

A minha casa de banho, como todas as casas de banho da classe média, é pequena. Tem uma sanita, um armário, um lavatório para lavar as mãos e outro para lavar os pés que ninguém usa. Uma banheira, um espelho e uma janela. Pode parecer desumano, um capricho de quem tem muito tempo livre, mas decidi esperar o tempo que fosse preciso até a mosca pousar, e depois assassiná-la. Demorei algum tempo para a encontrar, ouvia-a porque a acústica da casa de banho é bastante boa, só não conseguia precisar as suas coordenadas. Finalmente dei com ela a esvoaçar junto aos azulejos do chão. Agarrei na toalha dos pés, porque não queria sujar a toalha das mãos. Desferi alguns golpes, sempre sem sucesso, até a perder de vista. Encontrei-a mais acima, desta vez a repetir sempre o mesmo trajecto. Ia até a banheira, fazia alguns círculos por lá, depois saia do último circulo direita contra o espelho. Embatia em si mesma como quem o tenta atravessar-se. Depois quase sem interromper o voo, voltava aos círculos. Encostei-me à parede disposto a esperar o tempo que fosse necessário, desejava esmagar aquela mosca. O zumbido era incessante, a mosca era incansável. O barulho, que prometia ser eterno, entrava-me pelos ouvidos como um destino incontornável. Enquanto ali estivesse ia ser sempre aquilo, porque a mosca não ia parar, e movia-se rápido demais para que eu a pudesse alcançar, ou sequer tocar. Apenas a podia vislumbrar por um instante, até desaparecer da minha vista, e ficar só a música dos seus misteriosos círculos.

Desisti, mas não completamente. Matá-la, extinguir a sua presença, fazendo-a desaparecer não só para mim mas para tudo, era no mínimo muito ambicioso. Abandonar a casa de banho e fugir era uma solução, mas nunca uma solução definitiva, porque estava sujo e a cheirar mal, tinha de me lavar, mais tarde ou mais cedo. Restava abrir uma janela. Abria-a completamente, e recuei novamente para junto da parede. Talvez fosse também isto que ela queria, libertar-se daquela casa de banho, daquele trajecto de círculos que terminava sempre da mesma maneira, com ela a esbarrar no seu reflexo inesperadamente. Talvez fosse isto que a mosca precisava, fugir dali.

Talvez fosse isto, mas não era, e se era, nunca chegou acontecer. A mosca evitava o exterior. Talvez porque lá fora estava frio, mais frio do que na casa de banho. Enquanto esperei que algo acontecesse não estive completamente parado. Pensei, principalmente a respeito das circunstancias em que estava envolvido. Fui de um lado para o outro, esperando melhores resultados. Atirei objectos, o melhor que podia contra a mosca, ou na direcção onde adivinhava que ela estivesse, ou ia estar. Nada resultou, voltava sempre ao mesmo, encostado à parede à espera do silêncio. Lá fora era de noite, e fazia-se silencio, quase que podia ouvi-lo.

Era demais, vi as horas e eram quase cinco da manhã. Tinha de trabalhar à tarde deste mesmo dia, como quase nos outros dias todos. Havia uns dias que não precisava de ir trabalhar, estavam marcados e sabia quais eram, tudo muito previsível como o voo da mosca. Também não podia parar, deixar de trabalhar, tal como o voo da mosca, cada um com os seus círculos. Fechei a janela, sai da casa de banho com cuidado, para não deixar a mosca também. Agora quem me pode explicar isto. Não sei nada sobre moscas, mas sei, empiricamente, que os insectos sentem-se atraídos pela luz. A luz exerce uma irresistível atracão na bicharada. Há até uma anedota que sugere a hipótese de existir peregrinações de mosquitos em direcção ao sol. Voam até onde conseguem ir, com certeza nenhum lá chega. Desliguei a luz da casa de banho, agarrei numa lanterna, e voltei a entrar. O zumbido cessara, tudo estava escuro. Não deixei que os meus olhos se adaptassem à escuridão e acendi a lanterna. A luz incidiu num ponto na parede onde estava uma mosca. Armei-me com a toalha dos pés, senti que tinha tempo para me preparar, abrigado no silencio e pelo escuro, e num movimento explosivo, onde apliquei tudo o que tinha, cheio de certeza e confiante no resultado, atirei a tolha conta a mosca, que como um truque de magia desapareceu. O silêncio manteve-se, sinal de sucesso. Acendi a luz, abri a porta e procurei o corpo da vítima. Não o encontrei, assumi que o impacto foi tal, que não deixou rasto. Um assassinato limpo, cometido por um homem sujo que não tomava banho há quatro dias. Liguei o esquentador, voltei e encontrei-a outra vez na parede, a mosca, no mesmo sítio onde julguei ter acertado. Tive medo que ela fugisse, e voltasse à expressão estaca zero. Agarrei na toalha dos pés, desta vez com menos preparação, e atirei-a contra a mosca, com a mesma força e determinação da primeira vez. Vi-a aterrar sem vida e ficar onde caíra. Morta em cima do azulejo da casa de banho. Toquei-lhe com o dedo do pé, não se mexeu, estava morta, tão morta quanto as moscas podem estar. Podia finalmente respirar de alívio, aquela já não ia voltar a azucrinar-me o juízo. Peguei-a com uma folha de papel higiénico, e olhei-a sem saber o que estava a procurar. Era uma mosca, de diferente só tinha uma coloração azul esmeralda que brilhava como imagino que brilha o verde nas moscas verdes. E parecia ser mais escura do que o normal. De resto era uma mosca. Se tivesse agarrado numa faca e a tivesse aberto ao meio, não ia ver nada que não estivesse a ver já. Se tivesse lambido ou provado, não ia sentir nada que já não tivesse sentido. Talvez ficasse doente, ou talvez nem isso. Embrulhei-a no papel, e foi sanita abaixo, com o descarregar do autoclismo.

Foi isto que aconteceu. Talvez pudesse tentar descrever o azul da mosca. Valia a pena o esforço porque não era um azul qualquer. Talvez noutra altura. Não preciso da mosca para descrever este azul. E se precisasse era já tarde demais, já foi pelo autoclismo. Sem querer influenciar o leitor, acho que o sentido está naquele azul. Sei que o leitor é inteligente, e tem um vasto conhecimento acerca de moscas. Se calhar até sabe de que mosca estou a falar. Mas peço-lhe para concordar comigo quando digo que o sentido está naquele azul. O mesmo azul por onde andam os aviões, um de cada vez.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.