Má altura para começar usar gravata

Se me convidam para jantar não respondo logo. A menos que o convite seja feito pessoalmente, neste caso tenho de responder qualquer coisa. É importante termos memorizado uma ou duas respostas, prontamente preparadas para um momento de aflição, como é um convite inesperado para jantar. Comer com outra pessoa é uma provação, um feito que exige que exige preparação e esforço. Primeiro é preciso sincronizar os apetites. Não se consegue comer sem apetite, e não se pode prever o futuro para adivinhar quando chega. O meu é bastante incerto, e gosto de o manter assim. Se o obrigo a uma previsibilidade aborrecida, só para respeitar as convenções horárias das refeições dos meus concidadãos, corro o risco irritar algum outro dos meus órgãos que não aceite esta ditadura imposta pela pressão de se comer a horas decentes.

Imaginemos que por sorte, os apetites alinham-se, e quando chega o ensopado de carne, tanto eu como o meu companheiro estamos famintos. Nada que já não nos tenha acontecido. Agora é preciso rasgar a carne com uma faca, espetar-lhe um garfo, atirá-la para a boca e fazer como fazem os animais. Depois da carne triturada, há que engolir num gesto derradeira, cujo retorno já se sabe qual é, e não é tema de conversa para se ter à mesa. Tudo em silencio, absorvidos nos nossos pensamentos, de animal a saciar o apetite. Fazer isto algumas vez por semana, as necessárias, até um dia. Percebo que possa ser feito com companhia, com testemunhas, mas prefiro fazê-lo longo em segredo. Apesar de reconhecer as desvantagens que uma refeição solitária pode ter em relação a uma ceia em comunidade.

Não gosto que me vejam a comer. Não gosto que me vejam a cagar, a foder, a dormir, a respirar. Não gosto que me vejam doente, que me vejam a cair, a sangrar, a morrer.

Encostado à grade da mercearia onde ficámos de nos encontrar bebi a minha primeira cerveja do dia. Sozinho porque cheguei premeditadamente mais cedo que a hora marcada. Pensamento das memórias de um passado mais um menos distante daquela hora, e a esperança de um futuro sossegado, fácil de transformar em passado que colado ao que já tenho faço algum sentido, seja alguma coisa. Sempre tive esta esperança, ai de mim se ela me abandonar. Mais um grande gole na cerveja e não sejamos tão dramáticos. Acontece sempre qualquer coisa, há sempre qualquer coisa que está para acontecer. Bebi a cerveja até ao fim descansado, com a certeza de não estar em guerra, e vontade de ouvir José Mário Brando. O sol de final de tarde, o som da cidade, as pessoas que deslizavam pelas ruas, como que se conhecessem todas umas à outras, tudo isto pedia mais uma cerveja. Bêbedo já tenho desculpa para não perceber tudo isto que me rodeia, e aprecio melhor as coisas. Mas esperei por companhia, guardei a vontade com a certeza que iria compensar. Apesar de ser experiente nestas coisas, não deixo de sentir alguma ansiedade. Quando desconfiamos do que aí vem ficamos ansiosos pela confirmação. Quando vi o corpo do meu amigo, já este estava quase a chegar até mim. Vinha de olhos na calçada, nunca vou saber porquê. O encontro acontece, e ansiedade deixa-nos. Agora é beber mais uma. Tirámos as cervejas do frigorífico e pagamos valor que lhes foi atribuído pelo super mercado, mais a margem de lucro que o indiano, responsável por todos os aspectos da mercearia e da sua vida, achou que merecia. Não sei como é que se chega a estes valores, mas pago-os sem nunca protestar, ao contrário do meu amigo que parece saber melhor que eu quanto vale uma cerveja. Brindamos ao tempo que nos resta e bebemos.

Pah. Enquanto vinha para aqui, estava a pensar em qualquer coisa importante. Qualquer coisa que podia ser traduzida em palavras, numa conversa, fosse com quem fosse. Agora que estou contigo não sei por onde começar, porque não me lembro do que tinha para dizer. Até tinha já preparado algumas frases. Talvez se voltar atrás, se percorrer novamente o caminho, talvez me lembre. Eu já volto.

Claro que ofereci-me para o acompanhar, apesar de saber que isto reduzia, se não eliminava mesmo, as suas hipóteses. Fiquei sozinho mas não foi por muito tempo porque entretanto chegou o meu outro amigo. Era um jantar a quatro, por isso ainda estava mais um por chegar.

O Ricardo já chegou mais foi dar uma volta. Foi tentar lembrar-se de qualquer coisa importante que se tinha esquecido.

O outro ficou sem saber o que dizer. Fez as habituais perguntas, porquê, mas foi onde, está tudo maluco, nada disto é normal. Eu ria-me, porque sabia que aquilo era absurdo, mas por qualquer razão, não me incomodava. Era totalmente inesperado, sem explicação, e queria que continuasse assim. Ia se difícil fazer os outros dois aceitar o comportamento do Ricardo como se ele tivesse dito que ia mijar. Não podia pedir que o fizessem, seria batota, restava-me não falar mais disso, e pedir mais três, porque entretanto tinha chegado o quarto.

Ao fim da sétima cerveja resolvemos telefonar. Já se tinham enviado certas mensagem, a perguntar o que se passava, onde tinha ido, que espécie de brincadeira era aquela. Eu exigi ser eu a fazer o telefonema. Estávamos embriagados, e aquilo tinha-se tornado engraçado. Um amigo nosso que não estava connosco por pensar que se repetisse o que caminho que o levou de casa (presumivelmente) até ao local de encontro, ia-se se lembrar de algo importante que podia ser dito, por palavras, numa conversa. Atendeu quase instantaneamente, e prontamente disse que estava a chegar. Eu felicitei-o e apelei aos que estavam comigo para beber depressa, porque ia pedir mais quatro. O apelo foi aceite como se de um compromisso se tratasse. Não se podia deixar ficar mal os nossos companheiros nestas alturas. Depois uma coincidência extraordinária. Assim que saiu com as quatro cervejas, cigarro acesso na boca, esteve sempre acesso, o fumo não me incomodava, nem a impressão de estar a ser um incomodo para alguém por estar a fumar dentro de um estabelecimento. Ajusto os olhos à luminosidade, com as minhas novas lentes de homem ébrio, e vejo o Ricardo com um andar certo, na nossa direcção. Desta vez traz os olhos levantados, apontar para onde se dirigia. Um ar sério e decidido. Os outros três não o viram logo, pois estavam concentrados em não me deixar ficar mal. Esforçavam-se para acabar as suas cervejas, antes que eu chegasse com as próximas. Parei porque achei que era o melhor a fazer. Foi só ter experimentado, e senti logo que tinha sido boa ideia. Estar parado a olhar, como um espectador fora de cena, com aqueles olhos embriagados pelo álcool e pelo ar calmo envolto pelo barulho das árvores e dos pássaros que delas de apoderam. Não fazia ideia do que ia acontecer, não sabia se o Ricardo tinha encontrado alguma coisa para nos dizer, ou se tudo aquilo era uma mentira, e a verdade era muitos mais simples e mundana. O Ricardo encontrou o meu olhar e foi ter primeiro comigo. Sorria-mos os doidos, eu sorria porque estava divertido, e porque havia cerveja. Ele nunca saberei porque sorria, mas aposto que era pelos mesmos motivos. Fiquei a sorria sem me mexer, a desafiar o tempo, sem pressa porque estava sempre tudo por fazer, e nada podíamos fazer para evitar esta condição. Ele tirou-me uma das cervejas e bebeu-a de seguida. Depois pegou noutra e disse-me que assim tinha de ser, estava atrasado em relação, tinha de se despachar se queira ficar tão bêbedo quanto tinha direito.

Bebemos livremente. Pelo meio comemos no chinês. Numa mesa na esplanada, para não perder um segundo daquele ar. A cidade de Lisboa tem, por vezes, uma brisa que não pode ser encontra em lado algum. Felizmente, sempre que tive a oportunidade de a sentir, tive também a oportunidade de beber e fumar livremente, acompanhado por outros. Alegres coincidências que nos facilitam a vida. O brisa e o momento, ter saído com as cervejas no preciso momento do regresso do Ricardo, e termos todos encontrado os nossos respectivos apetites ao mesmo tempo, no mesmo lugar.

Eram uma quatro da manhã e sai do bar para fumar um cigarro e ver se ainda havia brisa. Respirei ambos, o fumo do cigarro e a brisa, que estava tão presente como no inicio de tudo aquilo, e senti um toque no ombro. Depois um gesto a pedir um cigarro, feito por um Ricardo de ar triunfante, pois apesar de ter começado com um significativo atraso, apanhou-nos. Como estávamos sozinhos, achei que podia perguntar-lhe se sempre encontrava no caminho aquilo que tinha para dizer. Ele apoiou-se no meu ombro, serro as sobrancelhas, de disse como quem tem lembrar-se de alguma coisa que lhe foi dito, mas que não foi compreendido “É tudo um estado mental. E o estado mental que se quer, só é possível pela aceitação da vulnerabilidade, face à incerteza do destino, que só nos parece incerto porque temos a mania da adivinhação.”

Eram quase sete horas da madrugado. Não me despedi dos meus amigos, porque recusava ser eu a ter de acabar aquilo. Sai de fininho. Entrei em casa, também de fininho, troquei de camisa e meti a gravata. Podia não ir trabalhar, mas era sábado, se tudo corresse bem estava despachado antes do almoço. Durmo depois, pensei, e este pensamento, penosamente deu-me a força que precisava.

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