Aquilo que fui e o que vou mais ser

Os finais de dia, independentemente da hora, são sempre complicados. É a ausência de garantias. Quando me deito não sei se vou conseguir adormecer, e depois de adormecer nada me garante que volta a acordar. Uma enorme chatice que parece incomodar-me só a mim. Mas não partilho a cama com os outros, para saber se tenho exclusividade deste problema. No que diz respeito à parte de adormecer, a ciência disponibiliza eficazes remédios, em xarope ou comprimidos. Pode-se sempre também recorrer a medicinas alternativas como o álcool a canabis. É um problema quase resolvido. Agora não saber se vou acordar, quando tenho uma história para contar, é que me anda a tirar o sono. Preciso de tempo para contar esta história até ao fim. As interrupções impostas pela necessidade de dormir são inevitáveis e não me preocupam. Pelo contrário o risco de morrer durante o sono perturba-me. Se tal acontecer, todo o tempo que me resta deixa de existir, e deixa de haver história para contar.

Acordei antes do despertador tocar. Não tinha de todo atingido o número necessário de horas de sono para não me sentir cansado ao longo do dia, mas eram quase dez horas. Tinha de estar antes do almoço com o director do jornal. Era um homem sempre ocupado, que nunca perdia muito tempo a dar-me conversa. Apanhei-o no café encostado ao balcão na pausa do almoço. Tinha o discurso preparado e memorizado. Cumprimentei-o e fui directo ao assunto. Não podia ser de outra maneira, assim que me viu olhou para o relógio e bebeu o café, ao mesmo tempo, num exagerado esforço de mostrar que estava com pressa. Tive de ser preciso, disse-lhe as palavras mágicas

“Tenho uma história que vale milhões, um escândalo prestes a explodir. Nada será igual. Eu tenho informações, sei do que mais ninguém sabe, fonte segura e exclusiva. E até já tenho um título – corrupção mesmo ao lado de sua casa.”

Disse-me que o título era grande demais, ninguém ia ler, e pôs-se andar. Segui-o sem hesitar como se tivéssemos combinado ir para o mesmo sítio. Fui-lhe contando a história, teria sido muito mais fácil se tivéssemos ficado sentados, ou até mesmo ao balcão, mas as coisas são como são. Disse-lhe que sabia de um caso de corrupção na maior cadeia de super mercados da cidade. Os chefes das lojas contratam uma empresa de desbaratização que, por operar exclusivamente com trabalhadores ilegais, cobra muito pouco. Estes trabalhadores fazem tudo nas lojas, todo o tipo de trabalho. Fazem-no durante a noite, para não dar nas vistas. Desta maneira a empresa poupa milhares de euros em salários, e os chefes ganham prémios por conseguir produzir o muito ambicionado lucro com tão pouca mão de obra.

Consegui dizer-lhe tudo no caminho que fizemos do café até à redacção do jornal. Um feito ainda mais extraordinário tendo em conta que chovera. Os desníveis da calçada, consequência do peso dos passos da vida apressada das pessoas, estavam cheios de água. O que me obrigou a desvios que perturbavam a recepção sonora das minha palavras pelo aparelho auditivo do meu ouvinte. Vi-me forçado a ajustes de volume, nem sempre eficazes, mas que de uma maneira geral, produziam o efeito que esperava, pois vi como o director franziu mais do que uma vez a sobrancelha, e me olhou de lado, expressando o seu interesse. Quando chegámos à porta da redacção, já eu me preparava para entrar com ele, fez-me parar, e colocando uma mão no meu peito disse-me para ir escrever a história.

Passei o resto do dia a rever todo o material que dispunha. Tinha investigado o caso com o rigor de um cientista. Tinha recortes de jornal, documentos oficiais, informação financeira, gráficos, e até entrevistas gravadas num ficheiro audio. Só me faltava saber o que ia fazer com aquilo tudo. A verdade é que não tinha sido honesto com o director. Nada daquilo que lhe dissera a respeito da história que tenho para contar é verdade. Apenas vi, uma vez que fui fazer compras, um dos senhores da limpeza a repor chocolates nas prateleiras do respectivo corredor. Imaginei que se podia tratar de um caso de abuso de poder, mas pode haver outra explicação. E a papelada que juntei não suporta, pelo menos sem imaginação, a minha teoria. Pouco importa, agora estava comprometido, era esta a história que ia contar.

Peguei numa quantidade suficiente de folhas, mais do que aquelas que alguma vez conseguiria encher de palavras, duas canetas caso a primeira me falhasse, umas moedas pretas que acumulava numa tigela junto à porta, e saí confiante. Quando me sentia assim, assumia uma expressão serena, quase de sofrimento resignado. Uma estratégia usada, sem saber bem porquê, para aliviar os dias de verdadeiro sofrimento que estavam sempre por vir. Apesar deste fingimento, que servia até mais para mim do que para os outros, sabia que me sentia bem, e por isso não deixei de aproveitar o dia.

Antes de ir escrever para o café, entrei por um desvio e fui a um outro café, mais concorrido mas com melhores bolos. Não podia escrever neste segundo café. Para além de ser sempre muito difícil arranjar uma mesa, o barulho das conversas e dos pedidos era constante. Os empregados nunca paravam, e eram tantos que nunca me calhava o mesmo duas vezes seguidas. Custa-me acreditar que se conhecessem uns aos outros também. Nos dias de maior movimento, culpava-me por contribuir para o excesso de trabalho inglório daquela gente. Não era fácil resistir, porque os bolos são mesmo muito bons, os melhores, e a um bom preço. Bons bolos, mas impossível parar para escrever. Assim que se entrava pelo porta, era logo imposto a todos os participantes ritmo, produtividade.

Já com a senha tirada encontrei um espaço para esperar a minha vez. Ia pedir um baba e um garfo. Era algo que podia comer ao balcão sem me demorar. Enquanto esperava um senhora que queria pousar a sua mala em cima de uma mesa queixou-se por estar estar com restos de comida. Antes de dizer alguma coisa, ou mesmo procurar um empregado, levantou o dedo indicador. De pescoço esticado percorreu a sala com o olhar, sempre a chamar pelo empregado, como se fosse este do procedimento a ter neste caso concreto. Uma mulher de tabuleiro à cintura, cuja constituição física contrastava com a da senhora queixosa, surgiu quase do nada, e num ápice limpou a mesa. A mulher sem dar por nada, continuou a chamar pelo empregado, agora definitivamente sem razão aparente.

As pessoas comportam-se como preferem sempre que podem. Nestes dias confusos, podia-se identificar facilmente como a liberdade não é para toda a gente. Havia sempre alguém que tirava a senha e ia dar uma volta, depois voltava e reclamava a seu a vez. Alguém que indeciso pedia para provar qualquer coisa, e depois era capaz de dizer que não era do seu agrado. Outros esperavam que o empregado os ajudasse a decidir o que queriam comer, como se tivessem ido os dois lanchar. Coisas que não me cabiam na cabeça, mas que nem por isso deixava de as pensar. Chegou a minha vez e orgulhosamente pedi sem hesitar. Paguei, recebi o bolo e dei dois passos para o lado. Depois dei mais dois passos para me aproximar de uma guadanapeira porque se tinham esquecido do garfo. Comi com a mão, já me sentia culpado o suficiente por ali estar a contribuir para todo aquele desassossego. Comi o bolo, limpei as mãos, e virei costas rumo a um café mais sossegado.

O caminho percorrido até ao segundo café foi feito calmamente, passo a passo. A calma é a consequência inevitável de abandonar o que quer que seja que representa o seu contrário. A fuga àquele ambiente caótico de vozes misturadas com o agudo som de louça a bater em todo o lado, fez-me relaxar. Ou talvez fosse o efeito da dose de açúcar consumida em tão pouco tempo. Quem sabe? Entrei no segundo café empurrando a porta transparente, fechada para não deixar entrar o frio da rua. Numa mesa logo à entrada, uma senhora de chapéu vermelho olhava em frente com os cotovelos apoiados na mesa. Tinha estado a comer uma torrada que agora descansava pousada no prato, meio trincada. Descansavam as duas, a torrada e a mulher. A sua pele parecia ser desadequado aos seus ossos, uns dois ou três números acima. Era branca com aspecto frágil, um puxão leve seria suficiente para rasgar. Não olhou para o recém-chegado, mas o movimento à sua volta fez-lhe ganhar força para mais uma dentada. Pelo contrário, a atender no balcão, o presumível dono do estabelecimento já tinha dado conta da presença do seu mais recente cliente. Aproximei-me, enfrentando o olhar inquiridor do homem, e pedi um café, recebi-o com a postura de quem está agradecido, mas não consegue esconder o peso do digno trabalho que tem para realizar. Sentei-me a um canto e comecei a escrever a história.

Depois de ter escrito em quase todas as folhas que trouxera para a ocasião, e eu trouxe muitas folhas, pois aflige-me a ideia de faltar alguma coisa, precisamente no momento antes de precisar dela. Porque quando preciso de uma coisa, ou seja, no momento exacto em que preciso de determinada coisa, se não a tiver disponível, pouco ou nada importa. Sobrevivo sempre à falta do que quer que seja, sem grandes danos causados pela ausência daquilo que achei indispensável possuir. O que me leva a querer, já agora para chegar alguma conclusão, não preciso de nada em especial, pelo menos para andar aqui com este corpo revestido a pele, própria para abrigar objectos cujo seu surgimento aos meus olhos me provocaria um enorme horror. Este sim, um horror de algo que me está a faltar, e faz-me verdadeiramente falta. Foi a conclusão a que cheguei. Pode ser traduzida em linguagem popular no dito “ter saúde é o mais importante”. Não mudou nada ter chegado a tal conclusão, até porque já a sabia de cor e salteado. Onde queria ter chegado, mas não cheguei, era a uma conclusão das frases que escrevi. Escrevi-as, uma a seguir à outra, com poucas pausas para descansar a mente, ou divagar por alguns segundo. No fim conclui também que não tinha nada para dizer. Duas conclusões num dia só.

O homem do café estava bem. Queixava-se por não ter mais clientes, por o negócio não ser mais lucrativo do que era. Mas estava bem, e assim ia continuar a estar. Os empregados do outro café estavam bem. Queixavam-se pelo excesso de trabalho. Por lhes ser exigido um esforço que os deixava exaustos no final do dia. Queixavam-se do seu salário, sentiam que era pouco, porque o que estavam a oferecer era o seu tempo, algo que lhes faz falta. Mas estavam bem. Se não estivessem iam fazer outra coisa qualquer. Os empregados do super mercado bem estavam, e se não estivessem, bom remédio tinham. Fosse o que fosse que pudesse escrever, nada se ia alterar para esta gente toda. Mesmo que se alterasse para alguns, ia ser como para mim foi ter chegado à conclusão de que nada me fazia falta. Sai dali e fui comprar um totoloto. Quem sabe? Saúde não me faltava, um dinheirinho a mais não dizia que não.

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