Cena I

Numa sala cerimoniosa. Uma mesa em frente a uma lareira acesa. Copos de whisky e um cinzeiro por cima da toalha da mesa. A luz é amarela e expande-se pelas paredes vermelhas da casa, dando um tom obscuro à cena. Quando as vozes se calam, ouvimos a lenha a queimar. Na sala de pé apoiados na lareira, estão duas personagens, o Juiz, e o Presidente. Esperam a terceira e última, o Arbitro.

Presidente – O rapaz é um campeão. Sabe de onde ele vem? Vem de um meio muito pobre, teve de vencer muitas dificuldades para chegar onde chegou. Não é fácil. Nunca foi, mas está cada vez mais difícil. Não sei o onde vamos parar. Esta nova geração não é capaz. Vai ver, quando nós acabarmos, isto deixa de existir.

Juiz – Isto o quê?

Presidente – Isto. Um Isto geral. Percebe-me. Coisas que me ponho a pensar. Como vai a sua saúde? Tenho uns cigarros para quando ele chegar. Deve estar aí a chegar. Isto não vai demorar, é o tempo do cigarro. O que se passou foi… sabe o que se passou.

Juiz – Estou familiarizado.

Presidente – Melhor ainda. Não sei qual a sua posição. Não sei o que pensa de tudo isto. Mas espero poder ajudá-lo a ver as coisas como eu sei que podem ser vistas. Se não houver inconveniente claro. O senhor tem estatuto para ver o que quer como quer. Eu também, devo dizer. O que me interessava, era que víssemos as coisas da mesma maneira. Se isto o interessar. A si, particularmente.

Juiz – Temos a mesma idade, já nos conhecemos algum tempo. Não sei também o que pensa a respeito de tudo isto. Sei que seja lá o que for, é o que é. Tal como eu. Chega-se uma certa idade e o que se viu é o que é. Confia-se na memória sabe. Os olhos já não são capazes de ver outra vez as mesmas coisas com renovado olhar.

Presidente – São as mesmas coisas. Para quê olhar de novo. Confia-se na memória. Quando se tem memória até se avança às cegas. Mas talvez fosse boa ideia falarmos um pouco sobre o que pensamos sobre tudo isto. Quer começar?

Juiz – Bom em primeiro lugar penso que devemos enquadrar a questão com o espírito! O espírito da nação! Depois é preciso não esquecer…

O Juiz é interrompido pelo bater na porta anunciador da entrada em cena do arbitro.

Presidente – Ora aqui está ele. Vem vem. Com cuidado. Já se conhecem todos não é verdade. Pois bem. Continue senhor Juiz estava a ir muito bem.

Juiz – Bom… Certo… Pronto. Então… Agora… O que é que eu estava a falar? Varreu-se-me.

Presidente – (ri num riso contagiante) Isto está a pedir é que nos sentemos e acendemos estes três cigarros que trago aqui comigo.

Sentam-se, dois de um lado e o arbitro do outro, acendem os cigarros. Fumam algumas baforadas, as suficientes para encher o cenário de fumo, tornando o ambiente mais obscuro ainda.

Arbitro – O que me deixa desconfortável é somente o agendamento deste encontro. Muitas vezes vim, sempre como convidado, antes de um jogo. Nunca depois. Isto deixa-me intrigado.

Presidente – Sente-se perdido. É natural. Nós estávamos precisamente a falar disto antes de chegar. Mas deixe-me que lhe diga. Esteve muito bem no jogo. Via-se que sabia o que estava a fazer. Sempre em cima dos acontecimentos, nada lhe passou ao lado. A sua prestação foi imaculada diria. A clareza com que apitou os lances, mesmo os mais desafiantes, foi de uma… de uma… faltam-me as palavras. Viu o jogo senhor juiz.

Juiz – Não vi com muita pena minha. Mas partilho o mesmo ponto de vista. O que de resto não é novidade alguma. Este jogo foi mais uma confirmação da sua inquestionável competência. Não foi um jogo nada fácil, lances com variadíssimas possibilidades de interpretação. O senhor abordou-os todos com uma visão de águia.

Presidente – Mesmo os mais difíceis. Reforço. Nomeadamente um que gostava de falar agora consigo. Quando o (hesita, tira uma pequena agenda do bolso do casado, volta a colocar no bolso) Marquinhos corta a bola ao (repete o movimento de tirar a agenda do bolso) Soares, lembra-se? Toca na bola.

Arbitro – Sim mas eu marquei falta.

Presidente – Fez muito bem. Parabéns. Era falta. Não era um lance fácil. Mas era falta e foi marcada. O problema é a tecnologia sabe. A tecnologia confunde o jogo. Ou melhor, torna-o mais incompreensível. E quem já não o compreendia bem, fica baralhado. Fica a pensar que percebe o que se está a passar, mas não percebe nada. Percebe? Eu e o senhor juiz estávamos antes de o senhor chegar a falar precisamente disto.

Arbitro – A regra ali é muito clara. Há um desequilibro do Soares provocado pelo Marquinhos que resulta na violação da lei 18 do código. Posteriormente existe o contacto na bola, mas como vem previsto na alínea c) do mesmo artigo não valida o lance.

Presidente – Maravilhoso. Ouviu isto senhor Juiz. Eu não percebo nada disto. Mas pareceu-me correctíssimo. Sem erros legais.

Juiz – Não estou familiarizado com o artigo em questão mas concordo. Parece-me não existir espaço para leituras alternativas.

Presidente- (ri novamente como antes) Até aqui estamos todos de acordo. O problema são precisamente as ideias alternativas. E é para estas que deve estar preparado. Não sei se já viu alguma destas ideias? Deve ter visto com certeza. Espero que perceba uma coisa. O problema não é ver. Mais cedo ou mais tarde todos vemos. O problema é querer ver e assumir que se viu.

Arbitro – Eu vi que foi falta. Pelas razões que apresentei.

Presidente – Imagine que via que não era falta? Qual era o problema se, imagine, agora visse que era falta? Visse de tal maneira que não podia deixar de ver?

Arbitro – Admito que posso errar. Como disse há lances de muito difícil análise. No entanto estou convencido que tomei a decisão correcta. É um pouco desconfortável para mim, visto ser o senhor o Presidente do clube que foi beneficiado. Mas isto não afecta de maneira alguma as minhas acções. É uma questão de justiça. Da verdade.

O presidente levanta-se, leva consigo o copo e o cigarro. Arrasta-se lentamente até ficar de frente para a lareira.

Juiz – O senhor viu que não era falta. As imagens mostram como está a olhar para o lance no momento em que Marco Henrique toca na bola. Porque é que marcou falta?

Arbitro – Não compreendo o que se está a passar. Eu marquei falta. E se não foi falta foi erro meu.

Juiz – Um erro. Nem mais. Toda a gente erra. O senhor errou. Era um lance difícil, e errou. Não volta a acontecer. Depois trata-se da suspensão e os aspectos concretos do castigo, isto é o menos importante. O mais importante é perceber o que se passou… Percebe o que se passou.

Arbitro – Cometi um erro. Errei como humano que sou. Assumo a responsabilidade da minha decisão, e cumprirei o meu castigo.

Juiz – Certo. É isto que tem de ver. Agora próximo ponto. Porque é que errou?

Presidente – (interrompe) Não, agora porque é que marcou falta?

Juiz – Exacto. Porque é que marcou falta?

Arbitro – (hesita na resposta e dá uma baforada para ganhar tempo) Não lhe sei dizer. Pareceu-me que era falta. Segundo as regras do jogo.

Juiz – (ri como o Presidente) Segundo as regras do jogo era falta de certeza.

Presidente – (com um sorriso irónico nos lábios) Não. Ele refere-se ao regulamento de futebol.

Juiz – Ah. Sim. E isto é bom ou é mau?

Presidente (volta energicamente para a mesa) Bom, mau, o que importa é perceber. O mal está feito. É irremediável. Mas não aconteceu nenhum desastre. Acontece a todos os arbitro, em todos os jogo. E sim, é uma boa resposta. Agora o que é importante, é a tal justiça, a tal verdade de que falou. Repara, como disse, mais cedo ou mais tarde todos acabamos por ver, refiro-me ao outro lado das coisas. E não é verdade nenhuma, muito menos é justo, é o que é. As coisas são o que são. O problema, e é disto que eu tenho medo, é quando se quer que as coisas sejam o que não são, só porque vimos algo que nos parece ser a tal verdade, ou a tal justiça. Isto não existe, percebe. Então pergunto-lhe, porque é que beneficiou o meu clube?

Arbitro – (puxa a cadeira atrás com indignação) Eu não beneficiei o seu clube. Desculpe, eu sou um profissional integro. Tenho integridade. E deixe-me que lhe diga, não vejo como podemos continuar a ter estes convívios depois desta sugestão. Não sou inocente, seu bem que este tipo de acusações fazem parte da minha profissão, mas vindas de alguém como o senhor. Alguém que como parte envolvida sabe tão bem como eu que nunca me tentou corromper.

Juiz (ri-se mas desta vez de forma menos intensa) Acha que não esta corrompido? Como juiz folgo em saber.

Presidente – Como disse. Mais cedo ou mais tarde todos vemos. Vemos muita coisa, uma delas é esta, de que estamos todos corrompidos.

Juiz – Era isso que eu estava a falar antes do senhor chegar. Quando me perguntou do espírito da nação. Devo continuar? Deixe-me então só dizer duas ou três coisas antes que me perca novamente. O povo é a base para se poder pensar tudo o que se segue. Se percebermos a sua natureza…

Presidente – (interrompe o Juiz) Perdão meritíssimo, permita-se só terminar este ponto, antes que me esqueça.

Juiz – Mas eu posso-me esquecer também.

Presidente – Oh com uma memória como a sua? Não acredito que tal seja possível. De qualquer maneira eu vou apontar aqui na minha agenda para não se esquecer, apesar de ser absolutamente desnecessário (aponta na agenda). Continuando…

Juiz – O que é que escreveu?

Presidente – Apenas umas notas para não nos esquecermos. Continuando. Nós daqui a nada, antes de se ir embora, vamos jogar aqui uma cartada, e espero que com o desenrolar do jogo perceba melhor, porque sou-lhe sincero, nem eu percebo inteiramente. Mas como o senhor juiz referiu e muito bem, o que importa é a vontade do povo. Tudo o resto acontece por consequência. Agora, quanto mais afastados estivermos do povo, melhor para nós. É isto que eu quero que perceba, deve-se afastar do povo.

Arbitro – (confuso, encontra o copo com o olhar, ri-se como quem de repente compreende tudo) Ok. Já estou a perceber tudo. (bebe o whisky de uma só vez) vamos então há cartada. Já está bom por hoje desta conversa da chacha.

Juiz – (num tom de repreensão) O senhor é um arbitro de futebol. Um arbitrozeco. Alias, um arbitrozeco suspenso.

Presidente – Por favor. Não vamos estragar esta noite com discórdias superficiais. Para si é uma conversa desinteressante. Eu compreendo, para mim também, acredite.

Arbitro – Eu devo pedir desculpa. Vejo que ofendi o senhor Juiz, não era minha atenção. Quando me referi ao tema como me referi queria manifestar a minha posição de que, não precisamos de abordar as questões de uma maneira tão abstracta. Quando existe regras concretas, critérios, normas, toda uma lei, que nos pode guiar.

Presidente – E temos aqui o senhor Juiz que nos serve de luz orientadora neste campo denso de leis. Mas eu não quero ir por tais caminhos. Porque a este respeito estamos mais ou menos de acordo. E em caso de discórdia temos a posição do amigo Juiz que prevalece.

Arbitro – Nada prevalece à lei. A Justiça, nem a posição do senhor Juiz. Com todo o respeito.

Juiz – Vá lá não disse verdade.

Presidente – Vamos vamos. Eu não esperava outra coisa. Verdade seja dita. Pressuponho o que o está a incomodar é a natureza abstracta das minha palavras. Um homem não dever ser abstracto. Concordo. Vou mais longe, quem sabe o que é a vida, não é abstracto. Mas o que é a vida para quem diz que sabe o que é a vida? É uma história, não concorda?

Arbitro – Eu estudei Filosofia na escola, percebo o que me está dizer. Só não percebo o que isto tem haver com o que eu faço dentro de campo. O que eu faço dentro de campo é aplicar as regras. Só isto. É agarrar numa ideia abstracta, a de justiça, e através das regras expor para que se possa observar. Para que deixe de ser uma ideia e passe a ser algo observável.

Juiz – Já alguma vez conseguiu? Eu não acompanho o que se passa por aí nos campos de futebol deste pais. Aborrece-me, principalmente por ser uma coisa que agrada tanta gente. Mas fora dos campos vejo, e leio o que se passou noutros tempos. Existe leis para quase tudo, não só para o futebol, e tudo é injusto. Custa-me encontrar, fora da ficção, um momento, um instante verdadeiramente justo.

Presidente – Deixe-me contar a história. Um homem trabalhava numa fábrica. Um dia o patrão perguntou-lhe se parava em algum café antes de vir para o trabalho. O homem disse que sim. Então o patrão começou a dar-lhe dinheiro para que lhe fosse trazido um café todos os dias. O homem considerou a proposta justa, afinal o patrão era quem lhe pagava o ordenado, e não lhe custava nada. Passado dois anos já não podia mais com aquilo. Aquela tarefa, de levar o café ao patrão todos os dias, que no principio parecia justa e normal, agora parecia-lhe errada. Conclusão, o homem acabou por apresentar a sua demissão.

Arbitro – (Depois de reflectir alguns segundos sobre a história) Quer que apresente a minha demissão?

Presidente – Quero evitar que sinta que tem de pedir a sua demissão. Porque você é um bom arbitro, e no final, quando se deixa de gostar da história do patrão, só restam estas duas hipóteses. ou se pede a demissão ou se é demitido. Palavras duas estas. Não acha? Senhor juiz existe algum outro termo jurídico, mais técnico.

Juiz – Término de funções. Afastamento por justa causa. Gosto destas duas. Que horas são? Ainda há tempo para a cartada?

Presidente – Sim. Vamos jogar ao Truco.

Juiz – Oh que grande ideia.

Arbitro – Receio não saber bem as regras desse jogo.

Presidente – Não tem importância eu explico.

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