Iniciação para se ser Santo

Mais tarde ou mais cedo surge o momento de descansar, de limpar o tanque dos resíduos acumulados por se andar por ai num sistema corrupto que aparentemente sempre existiu. Este momento chegou para Diogo num domingo. Era tarde, ele estava já deitado e de luzes desligadas. Tinha-se deixado estar de barriga para cima, quase ainda com a mão no interruptor do candeeiro que servia para iluminar o quarto onde só cabia a cama de casal, que ocupava sozinho todas as noites. Fixado o olhar apático na janela, onde gradualmente foi conseguindo ver alguma coisa. Quando finalmente os olhos deixaram de acreditar naquela falsa escuridão, que surgiu no início devido ao excesso de luz do candeeiro, Diogo reparou que tinha deixado a janela aberta. Para quê fecha-la agora? Nem está frio, pensou. E depois pensou noutra coisa: para quê fechar a janela? Não tinha uma boa resposta.

Existem pessoas que não sabem que não sabem para quê fechar a janela. Outras que sabem que não sabem para quê. E outras ainda, talvez, que sabem para quê fechar a janela, e por isso sabem porque fazem as coisa que fazem, e não fazem as que não fazem. Diogo está inserido na categoria das que sabem que não sabem, e por isso estava incomodado. Não fosse a janela estar aberta a verdadeira causa desta tão inesperada incomodação, levantou-se e fechou-a. Voltou para a mesma posição, o incómodo parecia não voltar, então adormeceu.

Algures durante a noite acordou para ser confrontado com algo novo. Onde antes sentia as suas pernas, tal como as devemos sentir se tudo estiver bem, sentia um comichão insuportável. A comichão era de tal maneira intensa que exigia uma vigorosa fricção das unhas na pele, quanto mais coçava mais sentia vontade de coçar. Toda esta inusitada situação despertou-o e de repente estava novamente de barriga para cima e incomodado. Não era possível dormir com tanta comichão. Diogo tentava afastar os piores pensamentos, os que o culpavam a si pela situação de agora. A verdade era que ultimamente andava desleixado, deixara de aspirar ou de apanhar o pó da casa. Até mesmo as tarefas menos trabalhosas, como lavar a loiça ou levar o lixo estavam descuidadas. A somar a tudo isto não tomava banho há dois dias. Esta falta de disciplina nas tarefas do quotidiano transformaram o seu lar num local atractivo para a bicharada. Porque não precisava de acender sequer a luz para confirmar o que suspeitava. Tinha sido mordido por um qualquer insecto que, atraído pelo calor do seu corpo, acumulado dentro da roupa da cama, tinha-se infiltrado junto às suas pernas onde tivera o banquete da sua curta e insignificante vida.

A ideia do insecto refastelado, agora escondido algures, perto da fonte nutritiva, porque os insectos subestimam os humanos. Esta ideia inflamava Diogo por dentro.

“Como é que ele se atrevera a fazer tal coisa, e pensar que se safava, que não ia ser esmagado por um corpo inúmeras vezes maior que ele?”

Quando avaliou novamente a sua situação, e teve de admitir que se encontrava desperto demais para poder acreditar que ia ainda conseguir voltar a adormecer naquela noite, chutou os cobertores que o cobriam, acendeu luz e iniciou o a sua vingativa caça. Procurou na cama, nos cobertores, por baixo do colchão. Se encontrasse alguma coisa viva, podia ser uma formiga, ia esmagá-la sem piedade. Nem um percevejo, nada. Cansou-se de procurar, resolveu mudar de estratégia, não era difícil. Bastou-lhe pensar que os insectos não sabem que não sabem o que fazem. É mais fácil perdoar alguém com estas limitações, do que por exemplo perdoar alguém que só não sabe o que faz.  Diogo não é nenhum santo, mas não é preciso ser um santo para perdoar uma aranha atrevida, ou uma pulga esfomeada. Estabelecida a ordem hierárquica dos animais, e relembrado das limitações dos insectos face a questões de ordem ética, Diogo vestiu-se e foi trabalhar. Quem não trabuca não manduca. Se quer manducar sem trabalhar, tem de se alimentar do sangue de algum corpo adormecido.

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