Alguns números não são os correctos

Então como ganhar o Euro-milhões? Relembrando o que se pretende, são cinco experiências, cada uma delas para encontrar um número, cada uma para um dos cinco sentidos. Quando tivermos os cinco números, ou melhor, quando estiver convencido que os tenho, então pensamos às estrelas.

Antes de avançar para as experiências devo ainda dizer mais qualquer coisa. Esta necessidade ocorra porque esta é uma experiência solitária. Por isso carece do tão precioso e útil contraditório que só o outro pode oferecer. Eu não sei o que o outro pensa disto tudo, que dúvidas ou questões lhe surgem ao ler estas palavras que escolhi para falar de qualquer coisa que também eu não sei bem do que se trata. Falta-me esta informação, que seguramente me iria conduzir por caminhos melhor sinalizados.

Há ruas que só se mostram quando alguém as sinaliza. O que vou fazer de seguida é endereçar esta questão, colmatar esta falha, propondo eu algumas questões, as chamadas perguntas frequentes, que encontramos em alguns sites cuja utilidade é duvidosa. Como é duvidosa esta minha causa. Se alguém (que não seja eu) vos tentar convencer que sabe adivinhar os números do Euro milhões, esta pessoa é um vigarista. Ou um louco. Mas vamos ao que importa por agora. Perguntas frequentes.

Porque não partilho esta experiência com as pessoas que me são próximas?

Não é seguramente pelo risco de ser confundido com um vigarista. Quem me conhece sabe que não o sou. Alias, a minha cara nem permite qualquer equivoco a este respeito. Por isso posso dizer, até quem não me conhece sabe que não posso ser um vigarista. Posso ser confundido por um louco. Não é algo que me dê especial conforto, mas também não é esta a razão de não partilhar a experiência com amigos e familiares. Não o faço porque o sucesso desta experiência depende quase exclusivamente de Fé. É preciso acreditar nestas coisas. É preciso encontrar a Fé. Ora eu não vejo (e ainda ando muito por ai) ninguém preocupado com espiritualidades. Vejo toda a gente cheia de vontade de ganhar o Euro-milhões, mas preocupados com a procura da Fé nem os padres.

Talvez esteja a ser injusto. Na verdade não conheço nenhum padre. Se partilhasse esta experiência com alguém, ou seria imediatamente ignorado, ou se perdesse tempo, e explicasse o meu ponto de vista, o melhor que conseguisse dentro do intervalo de atenção que o meu interlocutor me cedesse, sei que seria mal sucedido. Teria de esperar que a pessoa fosse procurar a sua Fé, se estivesse disposta a isto, e só depois poderia receber os seus pareceres. Quem é que, com filhos, contas para pagar, quatro semanas de férias por ano, e o clima cada vez mais quente, tem tempo para o espírito.  Nem eu que como se pode ver, estou cheio de tempo. Tanto que até o vendo a um barato. O que me leva à próxima questão.

Porque é que achas que podes saber a chave do Euro-milhões?

Não acredito que consiga acertar na chave do Euro-milhões. Disse-o para chamar a atenção. Mas sem qualquer segunda intenção. Fiz até mais para chamar a minha atenção. O que acredito é que é possível prever a chaves do Euro-milhões. Não digo acertar, isto penso que é lógico que é possível. E existe provas, já houve quem acertasse.  Digo, antes de ocorrer o sorteio, saber, com toda a certeza, os números que vão sair da tômbola. Não tenho dúvidas que a aleatoriedade é uma ideia para explicar algo que não podemos compreender racionalmente. Por isso a escolha da Fé como forma de abordar esta experiência.

O que é ter Fé?

Se esta pergunta me fosse dirigida por alguém, para parecer bem, e despejar o meu valor intelectual pelos ouvidos da pessoa, citava algo de Kierkegaard, falaria de Abraão, da metafórica espada suspensa em todas as cabeças. Lembrava o caso de Tolstoi, se estivesse a falar com alguém que não percebesse nada do assunto arriscava, e fala de Nietzsche, como um bom pedante. Como a pergunta é feita por mim a mim, vou tentar ser mais honesto.

Percebo tanto o que é a Fé como percebo a importância do sistema bancário ou a relevância dos accionista para a economia. Sei explicar tão bem o que é a Fé como sei dizer qual a melhor dieta para determinado individuo. Mas sei onde ela se manifesta. Quando amamos alguém, e esperamos que esta pessoa sinta o mesmo amor por nós. Quando um jogo de futebol vai nos noventa minutos, e esperamos que aconteça um golo. Quando vamos ver as notas de um determinado exame, e esperamos encontrar a palavra aprovado junto ao nosso nome. Ou quando vamos verificar a chave do Euro-milhões. Nestes exemplos (excepto o último) existe um conjunto de factores que definam o resultado, e que podem ser explicados e percebidos. Mesmo assim, mesmo assim. É a espada suspensa por uma corda, se a corda ceder (e vai ceder) a espada cai e desfere o golpe derradeiro. Mas assumimos insistentemente que tal não vai acontecer. Recuso-me a ser um niilista.

Porquê baralhar o Euro-milhões com a Fé?

Pela importância que hoje se dá ao dinheiro. Um cidadão Europeu (presumo que também um cidadão Americano) tem todas as semanas do ano uma oportunidade de se tornar tão rico como um rei. Todas as semanas tem oportunidade de ganhar a vida de uma só vez, em vez de a ter de ganhar aos bocadinhos todos os dias.

Quanto Dinheiro é preciso para ganhar a vida?

Esta para mim é a questão que permite relacionar a Fé com o dinheiro. Ninguém sabe ao certo. Mas toda a gente sabe que é preciso agir de maneira a satisfazer as exigências do dinheiro. Por isso seguem um determinado código de valores. Algumas por medo do que será delas se não o fizerem, medo de ser castigadas pelo Dinheiro. Outras porque descobriram que a vida torna-se mas fácil, melhor, se seguirem um código de valores que atraia o Dinheiro.

Então podemos dizer que quem ganhar o Euro-milhões percebe o que é a Fé?

Não. Não me parece.

Mas se dizes que a Fé é como dinheiro. Quem tiver muito dinheiro tem muita Fé.

Digo que da mesma maneira que não se percebe o que é a Fé, também não se percebe o que é o dinheiro. É como se o Homem sempre que escolhe algo para dar propósito, significado à vida, deixa de perceber a natureza do que escolheu. Não sei porque tal acontece?

Talvez porque o que o Homem não percebe mesmo é a vida. Percebo-te de alguma maneira. Mesmo assim acho perverso e até perigoso misturar a questão da Fé com o Euro-milhões. A Fé não pode ter utilidade neste mundo, e o dinheiro é deste mundo.

Pois é isto mesmo que proponho. Encontrar uma utilidade da Fé neste mundo. Uma utilidade prática e concreta. Que tenha aplicabilidade, que seja traduzível. Como a ciência.

Como a ciência?

Como a ciência.

Bem. Boa sorte.

Onde é que vais?

Calar-me.

Certo. Mas não vais longe?

Não. 

Não me podes dizer mais qualquer coisa a respeito do sítio onde estás?

Pensas que é aqui o tal sítio que falaste? Onde se pode encontrar os números do Euro-milhões. Pensas que aqui é algum sitio fora do mundo? E queres algo de fora do mundo para usar no mundo?

Bem. Sim. Era isto mesmo que esperava.

Aqui também não se sabe a chave do Euro-milhões, Aqui é o mesmo que ai.

Não. Isto é porque agora também estás aqui. Estamos no mesmo sítio, percebes? O que eu quero saber é onde é que estavas antes?

Antes de quê?

Antes de aqui estar.

Não me lembro. Só me lembro disto. Tu é que deves saber? Onde estava antes de me teres trazido para aqui?

Eu trouxe-te para aqui? Bem. Não me lembro de o fazer. Se o fiz, não foi de propósito.

Oh foda-se. De que é que isso me serve. Se foi de propósito ou não foi de propósito.

Desculpa. Talvez quando fores vais para onde eu te fui buscar.

Se assim for, não tenho com que me preocupar.

Mas podes ir para outro sitio.

Isso já me preocupa. 

Desculpa mais uma vez.

Não. Eu sei que estas coisas acontecem. Deixa. Se tiver de arriscar. O Euro-milhões de hoje vai ser…

Não! Não digas. Eu não vou jogar. Podes acertar, e isto seria doloroso.

2 3 7 19 32 estrelas 2 e 9.

Filha da puta.

Vais jogar?

Não. Quero que se foda.

Estás magoado comigo.

Não. Estas coisas acontecem. Tens sentido de humor.

Sim. Foi engraçado. Bem. Adeus.

Estas são as perguntas mais frequentes. Resta-me agora meter mãos à obra e iniciar as experiências que ficaram por fazer. Se percebi bem, temos cinco experiências, são cinco sentidos, e cinco números. Não sei porque não se optou pelo totoloto em vez do Euro-milhões. De certeza que o primeiro prémio de tanto um como o outro servem para pagar os custos de uma vida.

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