Alguns números não são os correctos

Encontrei-me com um amigo que conheço desde sempre. Digo isto porque não me lembro de como o conheci. Muito menos sei precisar o momento que passou de conhecido para amigo. Falámos e depois disse-lhe que tinha de ir, tinha uma consulta. Seguiu-se a pergunta esperada, se estava tudo bem comigo? É uma pergunta idiota, que me deixa sempre desconfortável, e à qual respondo “sim está tudo bem” como quem decorou as datas das mortes dos Reis de Portugal para o teste de História. Desta vez respondi com humor, porque estava todo borrado “Estou com os Monócitos altos. Era inevitável.” Ele perguntou-me o que isto queria dizer, eu disse-lhe cancro, e rimo-nos. Acho que toda a gente percebe a importância de, quando se está com medo, agir como se não estivesse. Mas se tivesse de explicar agora porque fazemos isto, não seria capaz. Não preocupar os outros, mostrar que somos possuidores de coragem, ou porque lemos e ouvimos histórias de heróis que por não manifestarem o seu medo safaram-se.

Eu queria safar-me. Queria mesmo. Quando bebia muito e era mais novo, no dia seguinte jurava e rezava a Deus. Prometia que se me safasse desta nunca mais bebia. Voltava sempre a beber. Depois deixei de prometer o que não ia cumprir.

Cheguei ao consultório alguns minutos antes do acordado. Na sala de espera estavam as mesmas revistas que encontrei na minha primeira consulta. Para além das revistas que, já amareladas do tempo, esperavam que alguém rendesse o seu longuíssimo turno, estava uma senhora muito velhinha, sentada a olhar para a televisão. Tinha o cabelo muito branco e fino, os olhos muito azuis, e uma bengala de madeira. Disse-lhe olá, a ela e à senhora da recepção, que me respondeu com outro olá.

Na televisão dava o preço certo, com o Fernando Mendes. É um conforto saber que antes da última refeição do dia ainda há o Preço Certo. Podia ser outro programa qualquer, mas enquanto existir o Preço Certo, é preferível a outro programa. E quando um deles acabar, o Preço Certo ou o Fernando Mendes, então terá de ser outra coisa. Não me parece que um possa existir sem o outro. É o preço certo a pagar pelo sucesso.

É interessante pensar como os consultórios nos prédios da cidade podiam ser a casa de alguém. As divisões são as mesmas. Neste tínhamos a sala, onde é a recepção, o quarto onde fica o consultório, a casa de banho que continua a ser uma casa de banho. Não sei o que fazem à cozinha. Talvez fecham só a porta, ou mandam fazer uma parede para a separar definitivamente. Um consultório é uma casa remodelada a fingir que é outra coisa, como fazem as crianças. Quando era criança, e a minha mãe levava-me a um consultório, fazia este mesmo exercício de imaginar que aquilo era uma casa. Perguntava-me:

“Será que podia viver aqui? Bem… penso que sim. Só me falta uma cozinha.”

A porta do quarto abriu e o médico saiu para acompanhar um casal e uma criança à porta. Estavam satisfeitos, e apostava que dali iam jantar fora. Decidi que quando terminasse a consulta ia jantar fora também. Ao voltar da porta o médico deitou um olhar à sala de espera, ao ver-me disse-me para entrar, eliminado assim intermediários. Não era minha obrigação, mas assim que entrei no quarto do médico e fechei a porta, perguntei se a velhinha não estava antes de mim. O médico fez um sinal com a mão, e fez-me entrar de consciência tranquila. Era um bom médico. Esperei que terminasse o que estava a fazer, algumas notas que ficaram por tirar da consulta anterior.

– Pronto. Então o que o traz por cá Senhor Joaquim.

Expliquei-lhe o melhor que sabia como é que estava. As coisas não estavam bem, mas não podia ter a certeza se era suposto estarem melhores. Podia comparar com aquilo que me lembro de sentir, de uma maneira geral, de anos anteriores. Ou com as minhas expectativas. Mas não podia dizer nada de concreto. Sinto isto, aconteceu aquilo, uma dor curta, uma dor larga, quando ando, quando me deito. O que é que se pode fazer mais, preparar um discurso? Fazer um desenho? Compor uma canção? Não sei fazer nada disto, sei falar, e repito muitas vezes a mesma palavra, porque sei poucas, apesar de saber as letras todas.

Para finalizar mostrei-lhe as análises, porque pareceu-me não estar a ser de todo eloquente. Aquela hora já só se pensa em jantar. Assim que lhe estendi as análises, agarrou-se aos papéis confiante de que ia conseguir dizer alguma coisa relativa ao meu caso, “Joaquim. Ora Joaquim”. Disse antes de uma pausa dramática. Ajeitou os óculos, endireitou-se na cadeira, alinhando o corpo na minha direcção, e depois de um instante de medição das palavras, que seguramente eram mais que as minhas, disse:

– O que se passa Quim? Porque é que está assim?

– Não será daquilo que eu como? Eu não como nada bem doutor. Falta-me hábitos.

– A alimentação e uma dieta saudável que respeite as instruções da Direcção-Geral de Saúde é fundamental para uma vida saudável. Sim. Mas não é isso que o traz por cá. Não é por isso que estes resultados estão como estão.

Não sabia mais que dizer. Era uma daquelas situações que mais valia então despachar e ir cada um à sua vida.

– Bem, então eu vou tratar disto senhor doutor. Vou pensar, vou beber mais água. Que acha? E depois voltamos a falar. Também ainda tem a senhora que está à espera ali ao lado para atender.

– Não se preocupe com a velha. Agora é a sua vez. Os outros que esperem. Diga-me. O que fez ontem?

– Saí da cama.

– Boa. Como foi sair da cama?

– Como assim. Se doeu-me alguma coisa?

– Também. Mas relate-me a experiência. Saiu logo quando acordou. Pensou antes de sair. Com vontade. Sem vontade. O que o fez sair da cama?

– Não percebo onde é que vamos com isto.

– Isto posso eu perceber pelos seus resultados. Não sabe mesmo onde vai. Deixe-me que lhe diga. Para estes números todos, que correspondem a partículas que andam pelas suas veias, se alinharem dentro dos valores normais, é preciso o senhor se alinhar também aos valores normais. Estar dentro da norma percebe? Sabe porquê? Sabe o que é uma doença? Uma doença é estar fora da norma. É não conseguir funcionar normalmente. Se o senhor não funciona normalmente, como é que espera que os seus Eritrócitos, Hematócitos, Leucócitos, Linfócitos, Monócitos estejam dentro dos intervalos normais. Porque é que haviam de estar?

– Mas isto é assim que funciona? Não devia existir uma diferença? Ou seja. Uma coisa sou eu, enquanto indivíduo. Outra são estas partículas cuja função é garantir que eu permaneça um individuo.

– Acha que elas sabem que é para isso que existem. Sabemos nós. Porque as olhamos de fora. Você é um idiota estou a ver.

Começou a escrever. Tinha um sorriso na cara, era um homem para lá dos 70 anos, havia carinho nas suas palavras apesar de tudo. E se ele me safasse, perdoava-lhe tudo. Podia-me chamar o que quisesse. Bateu o ponto final na folha,  estendeu-ma.

– Quando sair dê esta folha à velha que está lá fora sentada. É a receita para os medicamentos que ela toma.

– Então e eu?

– Vá jantar fora. Algum sítio movimentado, repare nas pessoas. Se tiver alguma pergunta para fazer alguma delas, alguma observação ou comentário, faça. Se não tiver coragem escreva num papel. Tem um papel? Escreva nas costas desse que lhe dei, a velha vive bem sem os medicamentos. Depois de jantar vá a uma livraria, compre um livro. Escolha um bom livro. Sabe o que é um bom livro? É um livro escrito por um autor. Nada de coisas escritas por profissionais do ramo de saúde, ou da nutrição, ou uma lista feita por um especialista em mercados financeiros. Nada disto. Um bom livro. Vá para o parque, sente-se por baixo de um candeeiro e comece a ler. Leia até ao fim. Depois vá para casa, deite-se, durma, e provavelmente vai acordar melhor. Se não, a vida é mesmo assim. O que não tem importância alguma.

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