Como acertar no Euro Milhões

Os casos de superstições que acabaram por alcançar validação cientifica não são raros. Isto para dizer que a maior parte do conhecimento está na categoria do “não sabemos sequer que não sabemos”. A ciência é bastante eficaz em recrutar conhecimento da zona do “sabemos que não sabemos” para a zona do “agora sabemos”. A filosofia e, quero dizer, talvez a teologia, são óptimas para encontrar o “ainda não sabíamos que não sabíamos”. Vão buscar precisamente, presumo eu, ao tal sítio onde acredito que esteja a maior parte do conhecimento que os nossos cérebros, tal como se apresentam hoje, (o meu hoje, não o seu, pois não consigo adivinhar o que vai acontecer a este texto depois de o lançar na Internet) conseguem captar. Dito isto é razoável que o leitor, cuja identidade acabei de assumir que desconheço completamente, não acredite que se continuar a ler, vá descobrir uma formula ou algo parecido capaz de prever a chave do sorteio do Euro Milhões.

Se o leitor não acredita em tal coisa, faz muito bem. Diria parabéns mas não há grande coisa para congratular. Se o leitor não acredita e deixou de ler, não é o meu leitor. Porque… parece-me evidente. Se o leitor acredita, e vai continuar a ler até surgirem os derradeiros capítulos cujo conteúdo irá finalmente atribuir significado a esta vida de merda que se leva a fazer aquilo que se pode, também faz muito bem. Até porque os tempos estão difíceis, e quem sou eu para formular juízos de valor em relação às questões da fé. Já assumi alias que me atrapalho com facilidade quando o assunto é teologia. Para além disso, quem sabe? É possível ganhar o Euro Milhões. Se o jogo não estiver viciado, e acredito que não está, qualquer pessoa pode ganhar o Euro Milhões. No entanto a grande maioria das pessoas, quase todas para dizer a verdade, nunca vão ganhar o Euro Milhões. Da mesma maneira que a grande maior das pessoas nunca vai ter qualquer uma das três mortes que acontecem no inicio do filme Magnólia de P. T. Anderson. E se o autor do filme pode pedir ao espectador para não simplificar o mundo dizendo com leviandade que se trata de uma coincidência. Também posso pedir ao leitor para não assumir que quem ganha o Euro Milhões tem sorte. A sorte é o nome que desenrascámos para falar das tais coisas que estão no tal sítio do “não sabemos que não sabemos”. Que era onde estava também a electricidade antes de alguém a descobrir. Não sejamos preguiçosos como somos quando nos chateiam para salvar o planeta do aquecimento global.

Mas não quero desviar-me do assunto. Voltando onde se quer estar, para que se chegue onde se pode chegar. O desvendar das regras matemáticas que explicam porque é que saiu a bola com o número 14, em vez da bola com o número 30 como tínhamos no talão de aposta. O que é que tem de se fazer (se é que posso fazer alguma coisa) para garantir que no próximo sorteio os números sorteados serão o 8 19 20 26 41 e as estrelas o 6 e o 8.

Talvez para isto acontecer basta escrever estes números num texto, tal como estou agora a fazer, e não registar esta chave. Não me parece que seja isto. Não me parece que possa ser assim tão fácil. Tenho este preconceito, que ganhei com as histórias que ouvi ao longo da vida. Estas histórias servem-me muito mais do que a minha história, que perde por ser só uma, e eu ser incapaz de a percepcionar a uma distância confortável, que me permita ver alguma coisa sem ferir a vista.

Agora outro ponto aleatório. Há evidências na bíblia acerca da relação directa e proporcional entre o trabalho e o dinheiro. Ou o trabalho e o pão que nos alimenta. Hoje o pão tem um preço significativo. Mesmo assim ainda se encontram promoções nas padarias. Se não quisermos ir tão longe cronologicamente, encontramos em todas as histórias esta evidência. Estamos num universo que nos quer deitar fora, seja como for, der por onde der. A única maneira de nos agarrar-mos à vida, é através do trabalho. Já se sabe o que acontece às nêsperas quando estas ficam muito paradinhas e muito quietinhas à espera que algo aconteça.

Sendo assim, ganhar o Euro Milhões nunca poderá ser um feito desprovido de esforço. Tal coisa violaria esta regra que, apesar de não a ter desenvolvido com o tempo merecido, penso que estabeleci como válida.

Mãos à obra. Acredito que no fim desta aventura será desvendada a chave por detrás disto tudo. Se não, paciência. A minha sugestão para os próximos meses, um plano de trabalho, porque é disto que se trata, trabalho, é a seguinte.

Primeiro há que perceber onde fica o tal local do “não sabemos que não sabemos”. É imprescindível, mesmo que não se possa ir lá como se vai do ponto A ao ponto B. É preciso saber qualquer coisa acerca da sua natureza. Seja o clima ou o cheiro. Para tal irei partir de um conto de Fanz Kafka, quando este fala-nos de como se faz para encontrar uma personagem de ficção. Onde é que estão as personagens de ficção? Onde é que as podemos encontrar antes de estas serem inventadas ou materializadas em objectos artísticos no plano real. Depois de alguém as descobrir podemos responder que estão num livro, ou num filme. Mas antes disto? Onde estava K. antes de ser escrito o Processo? Onde é que Kafka o foi encontrar? É para lá que vamos, não à procura de personagens, mas de números. Kafka tirou de lá uma só letra, um K, e valeu a pena, pelo menos no meu entender.

Depois de encontrar, o melhor que podermos, as coordenadas deste tal local, vamos explora-lo recorrendo a experiências. Nesta fase proponho cinco experiências. Uma para cada um dos cinco sentidos. Esta coincidência entre o número de sentidos e o número de bolas sorteadas é casualidade. Não é possível acertar nos números sem compreender estas causas, mas vamos devagar pois ainda estamos no inicio. Fica a faltar as estrelas. Que se tivermos um pouco de sorte, também andam por lá. Talvez no céu. Uma coisa de cada vez.

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