Agenda para os anos que aí vêm

Cada vez é mais frequente lembrar-me que, num dia destes, vou deixar de cá estar. Deixar de habitar neste meu corpo. Se soubesse para quando isto ia ser, podia planear melhor o tempo que tenho à disposição. Acredito cada vez mais que planear o que vamos fazer com o tempo que ainda temos é a única tarefa a ser levada a sério. Deve ser encarado com a diligência  merecida de uma situação de emergência. Com a gravidade com que, nos dias de hoje, se olha para uma empresa desprovida da capacidade de gerar lucro. Só por isso atribuo alguma utilidade ao relógio e aos calendários. Servem precisamente para este fim, o de dar significado ao tempo que nos separa daquele momento algures no futuro a partir do qual deixamos de ter mais tempo. Não precisamos necessariamente de seguir o seu modelo de registo, mas convínhamos que é um bom modelo. Outros que possamos inventar poderão também servir, mas não vão ser muito diferentes no que diz respeito à ideia geral, que é a de dividir o tempo em pedaços.

Feliz aquele que tem um plano traçado, e segue-o sem esforço. Acredito na falta de esforço. Há qualquer coisa invejável num homem que desliza pelo tempo auxiliando-se  quase exclusivamente da força da inércia. Acordar fazer o que se tem de fazer, comer de tantas em tantas horas, ou parcelas de tempo para os heterodoxos que não usam a hora como medida de referência. Dormir o tempo que for necessário, e acordar para fazer mais ou menos a mesma coisa. Não tenho nada contra traçar objectivos. Percebo que o planeamento sem objectivos possa parecer algo abstracto. E por isso de difícil concretização. Que se use os objectivos, invente-se um ou dois para ajudar no planeamento. Se não houver imaginação que se escolha algum dos pré-definidos, mais em moda, na estante à mão de semear. Planei-se face a tais objectivos. Feliz é aquele que por ser experiente planeia os dias com objectivos concretos. Ou mesmo abstractos.

Feliz é mais ainda aquele que já não precisa de objectivos para dar significado aos dias que lhe restam. Quando lhe perguntam “porque é que fazes isto desta maneira?” ele enfrenta a crueldade da pergunta com “estava escrito”. O interlocutor fica a pensar que na resposta existe uma intenção teológica, mas o homem referia-se à sua agenda, que só a ele lhe diz respeito. Há textos que dizem respeito não só a uma pessoa. Como a Odisseia de Homero, ou o folheto das promoções de uma loja de roupa. Ambos usam a palavra para sugerir maneiras de planear o tempo. Depois cada qual decide o que escreve na sua agenda. Não acredito que haja decisões melhores que outras, pelo menos de carácter absoluto. Claro que se a pessoa seguir a sugestão do folheto, será uma boa decisão para o dono da loja. Caso a roupa que comprar agrade os seus critérios estéticos, é também uma boa decisão para si. Da mesma maneira, se eu planear os próximos dez anos respeitando os mandamentos da Bíblia, vou pecar pouco ou quase nada. Mas se planear os anos que me restam neste planeta baseando-me unicamente nas dez melhores estratégias para fazer um milhão de euros, vou ser um idiota até finalmente ir bater com os ossos num caixão.

Esta curta explicação serviu para não ser mal interpretado por gente estúpida. Porque existe gente estúpida. Não relativamente estúpida, mas absolutamente estúpida. É preciso perder tempo a explicar às pessoas estúpidas porque são estúpidas. Digo isto primeiro porque posso ser uma delas, e gostava que alguém tirasse umas horas do seu tempo para se ocupar do meu caso. Depois porque, a agenda de uma pessoas estúpida está minada de palavras estúpidas, que se esforçam por contagiar as agendas das pessoas nas suas redondezas. Ao estúpido não lhe basta a sua agenda, tem de meter a caneta na dos outros, corrigir umas quantas coisas, acrescentar uma frase, uma virgula, riscar aqui e ali. Desculpam esta sua intromissão dizendo que é para o bem do outro, e nunca se responsabilizam com as consequenciais das sua emendas.

Feliz é aquele que não deixa que escrevam por ele na sua agenda, nem escreve noutra agenda que não seja a dele. Despende o seu tempo a fazer o que escreve, e a escrever o que faz. É importante escrever à mão. Quem escreve à mão está melhor protegido contra tentativas de fraude na sua agenda. Outra vantagem é a liberdade de ter uma folha em branco um lápis. Esta liberdade, diria infinita, é indispensável para a rebelião, que é por sua vez indispensável para travar os estúpidos.

Ler para planear e não ficar estúpido. Conversar com outros, (sem querer meter a mão nas suas agendas, e sem deixar que mexam na nossa) só assim podemos saber se fomos contagiados pela estupidez. E escrever para melhorar a caligrafia. Preencher a agenda de coisas para fazer com o tempo que teima em não se esgotar em frente aos nossos olhos. Nada de novo. Já no século XVI, Francis Bacon observou que “ler torna o homem completo, a conversa fá-lo expedito, e a escrita, preciso.” Antes dele com certeza alguém terá digo algo parecido, e agora estou eu a dizer a mesma coisa, não devo ser o único papagaio. Todo este tempo foi isto, muito tempo, muito mais do que aquele que nos resta concidadão.

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