Exercício do poder

O exercício que melhor reflecte o poder do atleta tem como nome: peso-morto. Descreve-se como sendo a maneira mais eficaz de arrancar um peso do chão. Só o tira do chão quem pode. Todos podem, não existe qualquer lei que o proíba, mesmo se existisse, seria certamente desrespeitada sem ninguém saber. Mas nem toda a gente pode com o peso. Há quem tente e conclua que não tem força para levantar o peso do chão. Incapaz de completar o movimente da forma correcta e segura, desiste, vai fazer outro exercício. Há quem se aproxime do peso, sabendo de ante-mão que é muito mais do que pode levantar, mas mesmo assim decida “eu vou levantar isto do chão custe o que custar”. Esta decisão é perigosa porque dela pode resultar danos para a pessoa (o peso morto tem um elevado risco para a integridade física caso executado de forma incorrecta), e colateralmente para o ginásio, que passa a ser um local perigoso, onde os utentes não sentem segurança. Dai se conclui, o peso morte deve ser feito apenas por atletas experientes, e com moderação. Apesar disto, qualquer pessoa pode tentar fazer o peso morto, apenas porque é feio proibir.

Outro exemplo: alguém está sentado no sofá com o gato ao colo, enquanto bebe café e lê um livro. O café, quem bebe café sabe, faz com que se tenha de ir à casa de banho, cagar. A pessoa levanta-se, pede licença ao gato, e vai à casa de banho. O gato por ser gato, e não pensar muito tempo acerca do que faz ou deixa de fazer, ocupa o lugar agora vago. Quando regressa, a pessoa quer evidentemente o seu lugar de volta. Mas o gato não cede o lugar por livre vontade. Está agarrado ao lugar, com unhas e dentes. A pessoa pode tirar o gato dali. Alias a pessoa  tem poder para tirar o gato de qualquer sítio da casa, todos os dias, a toda a hora. Se a pessoa quiser, pode não deixar o gato fixar-se jamais num lugar. O que a impede é o interesse de não incomodar o gato. As pessoas e os gatos podem conviver juntos harmoniosamente, basta não serem idiotas. Os gatos não costumam ser idiotas. Neste exemplo bastou um leve cutucar nos flancos traseiros do gato para este devolver harmoniosamente o lugar à pessoa, e ocupar o seu, ao colo.  Mais tarde, quando o peso do gato já se fazia sentir nas penas que ocupava, a pessoa aguentou heroicamente o desconforto. Porque o gato estava a dormir, e não é um peso morto que se possa arrancar de onde está sem consideração.

Se no primeiro exemplo temos coisas mortas, no segundo temos coisas vivas. Acho que… acho que é bastante claro. Que assim é… Não existem outras coisas fora destas duas categorias. Ou estão vivas ou estão mortas. Aquilo que sei acerca de biologia é que uma coisa viva pode tornar-se uma coisa morta. Mas uma coisa morta não pode ser uma coisa viva. As coisas mortas, em princípio ficam onde estão. Se alguma força fizer com que se movam, movem-se para onde a força as empurra, emitindo os seus gritos de possível desagrado, ou contentamento, quem sabe. Quanto maior for a força e e deslocação, maior é o grito. Depois calam-se e ficam onde estão, é o conformismo das coisas mortas, é o silêncio. As coisas vivas fazem o mesmo. Precisamente a mesma coisa. Não podia ser de outra maneira.

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