Mulher ao frio

Estavam todos gordos, lembro-me pelo menos disto. Já eu andava com o umbigo encostado à coluna vertebral, era o metabolismo. Nem sempre tive a certeza de ser o metabolismo a razão de não aumentar o volume do meu corpo. Uma vez disseram-me, ou ouvi em qualquer lado, que podia ser a ansiedade. A palavra utilizada foi stress. Mas stress não podia ser porque não sabia sequer falar inglês. Só se tivesse comido um hambúrguer algo estragado. Mas não, se fosse era ansiedade, lembro-me de estar ansioso. Não me faltava nada, mas por receio que me faltasse, ou talvez por pensar que podia vir a precisar de alguma coisa cara, continuava insistentemente a me levantar antes do tempo, acordado indelicadamente pelo despertador, e a ir trabalhar. Honestamente não sei o que faria mais se um dia deixasse de ir trabalhar. Provavelmente arranjaria outro trabalho. Não havia muito para fazer, também lembro-me disso. Éramos todos gordos sem nada para fazer. Estava tudo feito e convenientemente à nossa disposição. Havia jogos para parecer que não era bem assim, para parecer que o que havia era pouco para a fome que tínhamos. Um apetite inesgotável.

Lembro-me de ver um filme onde alguém entrava num restaurante chinês e pedia imensa comida, porque estava faminto. Os pratos com as variedades ocupavam toda a mesa, uma chinesada, como se dizia em minha casa quando era dia de comer os restos da semana. O homem comia aflitivamente. Apressado, atirava o que agarrava para dentro de si, mastigando o mínimo necessário, às vezes menos que isso. Mas nunca saciava o apetite, mandava sempre vir mais para seu desespero (lembro-me de pensar quanto é que não ia ser a conta) e para satisfação dos empregados que já nem saiam de perto dele. Acho que aquilo era um sonho, na cena seguinte ele acordava se a memória não me falha. Era assim que me sentia, e como via os meu semelhantes. Não me sentia atraído pelos meus semelhantes. Não encontrava nada de novo em qualquer um deles. Culpa minha provavelmente, mas não me sentia culpado, pelo menos por isso. Sentia-me cansado, isto sim. Apesar de tudo acreditava que tudo se ia resolver, ia aparecer qualquer coisa nova, fosse em alguém, fosse nas noticias, chegasse por um livro ou um poema, ou caísse do céu.

Esperar que algo caísse do céu era uma prática muito criticada no nosso tempo, pelos homens produtivos. Da bíblia reteve-se para lição póstuma, a parte que diz só tem direito ao pão quem trabalha. A parte de esperar que alguma coisa chegue do céu foi completamente esquecida. Talvez por não ter sido devidamente compreendida, ou porque não interessava mesmo. Mas há coisas no céu. Se não houvesse, quanto mais não seja não havia Internet e os telefones eram comandos de televisão órfãos.  Talvez o que o homem do sonho no restaurante chinês precisasse para saciar o seu apetite fosse precisamente isso. Deixar de pedir do menu, e olhar de uma janela para o céu. Deixar o vento que sopra habitualmente nos sonhos percorrer-lhe o corpo e a cara. Acordar com a pele fresca, sem o seu cheiro característico, mas a cheirar a brisa onírica. Acho que podia interessar-me este cheiro. Teria qualquer coisa para fazer que não fosse ir trabalhar para onde ia, montar e desmontar os Legos e os puzzles do jogo de ganhar a vida, e voltar para o sofá recarregar a bateria.

Enquanto esperava, fazia o mesmo caminho quase todos os dias. Foi neste caminho que encontrei a mulher que agora sei que se chama Júlia. Uma mulher que estava todos os dias sentada no mesmo sítio, no chão em cima de um degrau de uma porta de um prédio velho e abandonado, como ela. Era uma mulher já velha, devia ter uns cinquenta anos, parecia ter mais que isso até. Talvez tivessem dito a sua idade no julgamento, não me recordo. Recordo-me pouco do julgamento. Foi um julgamento desnecessário pois eu era evidentemente culpado. Sempre que passava por ela, esta estendia-me a mão de boca calada. Não olhava para mim, apenas a mão na minha direcção, o resto do corpo permanecia como imagino que estivesse na minha ausência. Indiferente ao meu passar, só a mão fazia o movimento. Era como se só a mão não tivesse ainda desistido de lutar, só  a mão se lembrava de fazer qualquer coisa racional, qualquer coisa necessária para aquele resto de corpo frágil pudesse sobrevivência. Nos meus últimos dias de liberdade pensava muito naquela mulher. Imaginava-me a sair de casa num fim de semana, antes do jantar, e ir ter com ela, sentar-me a seu lado, ela revelar-se como sendo alguém. Falava-me da sua vida, eu não lhe dizia nada a respeito da minha até ela terminar. Depois dizia-lhe para ir viver comigo, porque era absurdo deixa-la na rua depois de nos conhecer-mos. Repetia este encontro várias vezes no meu pensamento, nunca era o mesmo. Depois comecei a imaginá-la a andar lá por casa, a acordar comigo, e passear comigo. Agora que penso nisto teria sido muito mais fácil dizer-lhe olá, do ter feito tudo como fiz. Deixei de reparar na mão que me estendia, e comecei a olhar a sua cara, que nunca me olhava de volta. Acho que fiz isto para ganhar coragem, mas foi com certeza isto que me obrigou a tomar uma decisão irremediável.

No julgamento a pergunta mais insistente era onde tinha eu arranjado a arma. Se já a tinha? Se a tinha comprado? Se a encontrei caída do céu? Eu percebia a pergunta, queriam saber tudo. A fome era imensa devido à escassez, e agora que tinham ali uma oportunidade de compreender a natureza humana, algo que não se encontra à venda em lado algum, iam roer-me os ossos até sentirem quanto mais não fosse o sabor a qualquer coisinha. Eu não lhes dei nada. A minha recusa não foi premeditada, se soubesse o que queriam dava-lhes sem hesitar. Mas não sabia o que esperavam de mim. E agora que penso nisto, desconfio que eles também não sabiam o que queriam encontrar em mim. Os gatos quando perdem o olfacto morrem à fome porque deixam de ser capazes de identificar o alimento mesmo à frente dos seus olhos. Eu perdera todos os sentidos há muito tempo, mesmo assim esperava que alguma coisa caísse do céu. Só se fosse um piano. Enfim, não lhes podia dar nada sem ser os meus ossos, que depois de roídos iam bater no xilindró.

– O que gostava só de perceber é porque lhe deu um tiro quando ela lhe pediu… o quê? Vinte, cinquenta cêntimos? Porque saiu de casa com a arma no bolso? Pensou matá-la antes de sair de casa?

-Sim. Não foi pelo dinheiro que a matei. Dava-lhe de bom grado todo o dinheiro que tenho. Foi porque ela já estava morta quando a encontrei. Cheguei tarde de mais percebe.

-Mas foi você que a matou?

-Porque apesar de tudo ainda era o seu corpo. Ao frio e à chuva, com fome e dores sabe-se lá onde ou porquê. Desprotegida da maldade dos homens que violam, agridem e matam. Não a podia deixar assim. Como é que podia viver sabendo que ela estava ali ao frio, vulnerável.

– Então porque não a levou para casa.

-Porque ela já estava morta. Não ia levar um cadáver para casa.

Agora que revejo estes episódios, admiro-me não ter ido antes parar ao manicómio. Talvez tivesse sido melhor, aqui também não se passa nada de novo. São as mesmas pessoas que lá fora. Um pouco mais magoadas e menos sofisticadas. Uma versão menos delicada, menos trabalhada, das pessoas que vivem nas prisões abertas. Se calhar junto dos malucos é que estava bem.

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