Confissão numa igreja cristã

Em criança tinha feito a catequese até ao primeiro crisma. Os pais não eram religiosos ao ponto de fazer questão que o filho fizesse a catequese ou fosse baptizado ou visitasse uma igreja todos os domingos antes do almoço. Mas eram pessoas de fé, que por sua vez lhes fora ensinado em criança a importância do sagrado. Talvez não teria sido necessário ensinar-lhes a fé, pois mesmo antes de perceber porque é que a religião é importante, já acreditavam que o era. Bastou ouvirem alguém com autoridade no assunto dizê-lo, foi mais uma confirmação do que uma revelação. Por isso quando tiveram um filho acharam por bem inscreve-lo na catequese. O miúdo perguntou-lhes porquê. Era uma boa oportunidade para explicaram porque é que consideravam a religião importante. Foi uma oportunidade desperdiçada. Porém não devemos culpa-los por falta de responsabilidade como progenitores educadores. Afinal isto é tudo uma questão de fé, não se explica, mas pode-se perceber. O miúdo disse que não percebia nada, oferecendo uma razão concreta aos pais para o inscreverem na catequese.

Entrou e saiu, por lá ouviu histórias antigas, personagens com nomes hebraicos, e um Jesus que parecia ser o preferido por se o Deus Homem. Não pensara mais nisso, e seguiu com a sua vida não perdendo tempo com a vida destas pessoas que talvez até nunca tivessem existido. Quando chegou à faculdade alguém recordou os textos bíblicos. E derepente, aquele assunto que tinha ficado esquecido voltou agora com uma importância inesperada. Conhecer os textos bíblicos era sinal de cultura, e ser um Homem culto era importante, porque um Homem culto é um Homem relevante, que provavelmente sabe o que diz. Então ele passou a conhecer os textos bíblicos, através de filmes, livros audio, ou vídeos no YouTube. Não os percebia mas isso não tinha importância porque ninguém parecia saber a importância de perceber aquelas histórias. O importante era conhecer, principalmente as partes onde entra Jesus, que permanece o preferido.

Ser um homem culto ajudou-o a conseguir o que queria na vida. Na sua vida, porque se não tinha perdido tempo em criança a perceber a vidas de personagens fictícias, não ia agora em adulto, agora que a vida revelou toda a sua gravidade, não ia agora perder tempo a preocupar-se com a vida de ninguém sem ser a dele. Tornou-se aquilo que está descrito na bíblia como um egoísta de merda. Casou-se e teve filhos, porque queria ter uma mulher e filhos. A mulher reprimia-o por só pensar nele. Ele desvalorizava as criticas da mulher, porque ela não conhecia o mundo. Já ele conhecia o mundo, melhor que ninguém no seu entender, e tinha desistido de o perceber. Ela gostava dele, porque sabia que enquanto estivesse com ele não lhe ia faltar nada. Mas não o amava, porque ele também não a amava. Amar é um acto de fé, coisa que tinha decidido não investir o seu tempo, nem o seu dinheiro que estava investido noutros lugares. Os lugares que escolhera para investir o seu dinheiro faziam aquilo que vem na bíblia como milagre da multiplicação. Ele conhecia este milagre, mas tal como acontecera quando estudava na catequese, não percebia o milagre. Os milagres são como o amor, é preciso fé para os perceber. No entanto eles acabam por acontecer quer se tenha ou não fé.

Esta história começa agora, até aqui foi uma pequena introdução, para uma ainda mais pequena história. Não estamos em tempo de cansar as pessoas com textos bíblicos. Como não percebia o mundo, mais concretamente o mundo onde investia o seu dinheiro, acabou por perde-lo todo. É o risco de se viver dependente de algo que não se percebe. No dia que perdeu tudo, saiu do escritório sem saber o que fazer. O suicídio foi a primeira ideia. No passado tinha até dito cheio da coragem de quem está longe de ter de enfrentar a adversidade, com palavras ensopadas com álcool de uma sexta-feira de copos, que se um dia perdesse tudo matava-se imediatamente. Agora já tinha deixado passar mais do que tempo necessário para se poder dizer que não cumprira a promessa. Caminhava pelo passeio a um ritmo lento. Nunca tinha visto aquele passeio, aquelas ruas, os prédios de um lado e do outro, as portas os carros de todas as cores, e as pessoas que se moviam como ele. Não pensava no que ia fazer, gostava de saber onde iam aquelas pessoas, pessoas que só agora via serem como ele. O que é que elas queriam? Porque andavam ali aquela hora? Porque é que as pessoas fazem o que fazem? Era o que precisava de saber, e não sabia. Sentiu vergonha por não saber algo que devia ser tão simples, devia ser das primeiras coisas que se aprende. Os sinos da igreja perto de si fizeram-no parar. Ouviu-os tocar, achava até que nunca tinha ouvido sinos tocar. Seguiu as pessoas e com elas entrou na igreja. Não conseguiu concentrar-se numa única palavra durante a missa. Quando esta terminou ficou sentado onde estava, até estar só ele e o padre na igreja. O padre aproximou-se:

– A missa já terminou meu filho.
– Não tenho para onde ir senhor Padre.

Atrapalhado com a conversa o padre sugeriu uma confissão. Pelo menos assim consegui fazê-lo levantar-se de onde estava. É mais fácil convencer alguém ajoelhado a ir para casa do que alguém sentado.

– Diz-me lá então uma coisa meu filho. O que desejas confessar a Deus?

Disse o padre como quem se prepara para contar uma anedota dos malucos do riso.

– Senhor padre será que posso antes me sentar. Doem-me os joelhos. – Olhe que isto sentado é mais caro. E nós aqui não aceitamos cartões de crédito.

Aquela piada, feita por um padre que se o tivéssemos ouvido a dar a missa arriscávamos dizer que tem uma especial inclinação para a comédia. Mas por qualquer motivo que agora não temos tempo de desvendar é padre. Aquela piada provocou um quantidade de riso tão imensa que assim que se formou no interior do nosso herói, agora de joelhos, saiu disparada pela boca nariz e olhos. Ficou a jorrar com alta intensidade ainda mais uns dez minutos depois de ter saído da igreja. O padre até o acompanhou à porta, pelo caminho contou mais umas piadas, mas o riso que ressoava pela igreja era da sua primeira grande piada. Da porta disse adeus ao seu mais satisfeito cliente daquele dia, e voltou para dentro. Ia ficar semanas a dizer piadas a torto e a direito. Mas isso não interessa porque temos de acompanhar o nosso herói até ao fim da sua história. Quando finalmente se esgotou, as ultimas gargalhadas saíram intermitentemente, como o final de uma grande mija, o nosso herói voltou a si e o seu semblante ficou sério como dantes. Nada tinha mudado. Depois ficou ainda mais sério, porque teve uma ideia. No dia seguinte declarou falecia junto de quem tinha obrigação de o fazer e foi para padre. Ainda não sabe para que serve a religião, mas isso não importa, porque agora é um homem de fé. Aceita a vida sem a perceber, e a vida por se sentir aceitada torna-se suportável. A vida é misteriosa em vez de obscura e oculta. Vamos só ouvir, antes de ir embora, o inicio de uma das suas missas.

– O remédio. A cura para todo o desespero, é o sofrimento. E não por razões espirituais, ou teológicas. Mas sim porque tem de existir sempre duas coisas, uma e o seu oposto. E isto é física, é ciência, química, não é preciso ter-se fé. Se há molhado há seco, se há subida há descida se há lucro há prejuízo, e muito pode ser o prejuízo. Quando Jesus Cristo com a coroa de espinhos, a cruz às costas, subiu o monte… o monte…

E depois passou à frente, começou um pai nosso para disfarçar. Não se lembrava do nome do monte. Mas era um homem desenrascado.


					

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