Azinheiras nos campos de batalha

Quando era pequena disseram-lhe que podia ser o que quisesse. Só por enquanto, pensavam eles depois de lhe dizer a melhor parte. Foi desta maneira inspiradora que terminou uma das suas aulas do terceiro ou quarto ano de escola, não é fácil precisar o momento certo. As datas por serem mais irrelevantes do que as palavras ficam esquecidas. Iria comprovar isto anos mais tarde nos testes de História. Mas avançando, para não nos perdermos no tempo. No final desta aula, os colegas cheios de inocência inflamada pelas prosperas palavras da professora (e pelo tempo, estava um dia de sol), diziam uns aos outros o que iam ser. Se o senhor presidente tivesse ouvido a conversa, tranquilizava-se quanto ao futuro da nação. Havia de tudo: médicos, cantores, artistas, compositores, escritores, pilotos de avião ou camião. Havia também mão de obra para profissões menos nobres, como policias, bombeiros, socorristas, taxistas ou maquinistas. Ficavam de fora algumas profissões como varredor de ruas, pedreiro, trolha. Não era grave, mais tarde alguém cedia e ficava com a fava. Ela, a Criança, participou na conversa, mas não disse nada a respeito do seu caso. Preferiu ir para casa reflectir na questão. Tinha medo da reacção dos colegas àquilo que queria ser quando crescesse, pois era algo bastante diferente das ambições dos colegas. Mesmo assim não deixava de ser qualquer coisa, e por isso encaixava dentro dos parâmetros que a professora estipulou. Depois de uma noite de sono voltou à escola e no primeiro intervalo disse aos colegas perto dela, confiante por saber-se defender de eventuais criticas: eu quando crescer quero ser uma árvore.

Passou a ser tratada por Azinheira até ao secundário. Uma boa escolha, pois podia ser abreviado para “Azelha” servindo assim na mesma o propósito de insultar e não deixando de fazer referência à palavra original pela semelhança fonética. Esta transformação proporcionava sempre alguns risos, que naturalmente foram perdendo intensidade pelo uso. Entretanto também a Azinheira deixou de querer ser árvore. Não havia como resistir à pressão social. Então a Azinheira cresceu e depois do ensino obrigatório foi estudar Marketing. Já não podia ser agora o que quisesse. Mesmo assim podia ser muita coisa com um curso de Marketing. O que não faltavam eram mercados, uns mais emergentes que outros, era uma questão de escolher o terreno que mais lhe convinha. Podia até mudar de pais, e escolher um clima mais propício. Tudo coisas que não podia fazer (pelo menos de forma independente) se fosse uma árvore. Durante o curso já nem a tratavam por Azinheira, mas antes pelo seu nome próprio. Aquele sonho de criança parecia-lha agora um devaneio inexplicável.

Quando terminou o curso atirou com o currículo para tudo quanto era lado. Tal um mau atirador numa guerra que não é a sua. Acertou numa empresa que lhe dava algum do seu dinheiro em troca do seu tempo. Ela aceitou e em vez de dar o ar fresco das azinheiras, dava lucro à empresa, que por ser uma entidade não precisava de respirar, mas precisava muito de lucro. Os anos passaram com ela a mudar de empresa para empresa, mas no fundo sempre a fazer quase a mesmo. Aquele episódio da escola primária acompanhou-a. Era uma daquelas recordações de infância que ficaram como que tatuadas numa região qualquer do cérebro. Ela sentia que ali estava qualquer coisa da sua identidade, qualquer coisa que podia ajudar a dar significado ao resto. Espaçadamente lembrava-se do episódio. Uma vez lembrou-se ao ter uma conversa durante uma noite de copos com uma colega sua que tinha nascido homem e agora era mulher. Outra vez em casa no sofá no final de um domingo em família, quando na televisão falavam sobre a crescente escassez de árvores no planeta, e o perigo de sufocarmos todos por isso. Lembrava-se que um dia sonhara ser uma árvore. E aquilo parecia-lhe ridículo, mas importante. Por isso esforçava-se para não cair no esquecimento.

Um dia o chefe do gabinete onde trabalhava decidiu levar a equipa a jogar paintball. Não há nada como a guerra para criar laços. Aquilo que não nos mate torna-nos mais fortes ao que parece. No terreno de batalha havia uma grande azinheira, no meio. Sabe-se porquê, talvez por aborrecimento, surgiu uma ideia na cabeça da Azinheira, a que não estava plantada. Então saiu do seu esconderijo, tão naturalmente e descontraída que ninguém se atreveu a disparou na sua direcção, pensaram que se tinha rendido evidentemente. Estagnou ao lado da árvore e de braços abertos copiou a sua forma. Ficou assim, como se fosse uma árvore. Os colegas riram-se, desta vez com ela e não dela, eram mais maduros. Ela também se ria, até estagnar só de sorriso na cara. Sentia-se bem, muito mais confortável do que antes, quando estava a lutar numa guerra a fingir com tiros de tinta. Os colegas da sua equipa ficaram confusos, se fosse uma brincadeira, tal como pensaram no princípio, estava a ser muito demorada. Os adversários que pensaram que ela tinha-se rendido, agora já não tinham certeza. Um deles perguntou “Marta!? Estás viva?”. As árvores não respondem. Depois levou com uns seis ou sete balázios no tronco e membros. No dia seguinte tinha a pele castanha como o tronco de uma Azinheira.

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