O dinheiro cheira a pobre

Depois de se aprender as coisas mais importantes que se tem para aprender… Não quero meter-me para aqui a fazer listas como quem vai ao super-mercado, mas para não me acusarem de ser abstracto (não gosto que me acusem destas coisas) dou um ou dois exemplos: comer vegetais faz bem, trabalhar é importante e inevitável. Cá estão, foram mesmo duas. Evidentemente existe mais, é importante ir à escola, pedir se faz favor mesmo quando não é favor nenhum, cumprimentar ao chegar e ao sair dos locais, não beber muito, depois de se aprender estas coisas, fica-se a saber que apesar de nos melhorarem a vida, sua aprendizagem não é suficientes para a vida deixar de ser uma filha da puta de vida. Os primeiros anos, ou gerações, ainda se tem alguma esperança de que se insistirmos na sua prática, vamos mais cedo ou mais tarde ser devidamente recompensados. Não sabemos o que é uma devida compensação, nunca ninguém nos disse. O que nos disseram é que já somos devidamente recompensados, apesar de não nos parecer nada. Os espíritos mais portugueses acabam por se convencer que sim, pelo menos exteriorizam esta crença. Mas já Freud, ou outro psicólogo famoso, dizia qualquer coisa como apesar do individuo não manifestar uma necessidade de justiça dos outros para com ele, o seu intimo necessita desta justiça, e reprimi-o por se deixar andar, sem exigir um tratamento justo. Claro que o intimo pode estar enganado, se devemos ou não confiar nos instintos, é uma discussão que não queria de todo ter. Antes queria dizer o que aconteceu a um Homem pobre, que se tornou rico.

Enquanto pobre o Homem, que já era considerado um adulto, saia de casa para trabalhar. Só assim podia continuar a viver naquela casa, que nem dele era. Deixavam-no viver lá, e já era uma sorte. Nem sequer sabia quem é que o deixava lá viver. Se era o senhorio, o banco, a imobiliária, o estado Português ou o Americano. Também não tinha coragem de perguntar, podia ser mal interpretado e ficar a viver nas ruas onde só podia olhar em redor para ver tantas casas que não são dele. Mas ele trabalhava, e suava por trabalhar. Chegava a casa e despia-se, mas o cheiro ficava na roupa, mesmo depois de lavada, porque vejam, eram todos os dias, não há roupa que aguente. Eventualmente todas as suas roupas tinham aquele cheiro do suor, e o mesmo acontecia aos seus vizinhos que, apesar de ele se convencer que não, que só ele tinha uma vida dura cheia de trabalho ingrato, tinham a mesma vida que ele. Este cheiro que era o cheiro do cruzamento de todo aquele suor, dava um cheiro característico aquelas casas. Neste cheiro estavam também outras flagrâncias, como a madeira velha dos soalhos, a humidade nas paredes, os peidos da comida barata de micro-ondas. Era o cheiro que ele respirava quando chegava a casa e era pobre. Se lhe perguntassem que cheiro era aquele, não saberia responder, pois já nem sentia o cheiro. Porque era pobre, e aquele cheiro estava sempre com ele.

O Homem ficou rico. Sabe-se lá porquê. Não interessa. É um erro pensar que interessa, um erro que interessa a quem não é pobre. Como se houvesse maneira morais e éticas de ter o milhões de euros na carteira. Como se aqueles milhões pudessem pertencer a alguém de forma justa. A sorte é que O Senhor os perdoa. Porque eles sabem o que fazem. Talvez não saibam, ouso dizer. Mas o homem ficou rico. Mudou de casa, comprou tudo o que se lembrava de ter desejado comprar quando era pobre, e saiu de cena. Nem disse a ninguém. As pessoas que são ricas têm medo de dizer aos outros quão ricas são verdadeiramente. É compreensível, Lacan ou outro psicólogo famoso pode explicar. Eu acho que é porque têm medo que lhes peçam dinheiro. Depois disto tudo o homem sentou-se no seu sofá, em frente ao seu plasma, e pôs-se ver uma cena de um filme, onde o protagonista depois de ganhar uma mão cheia de dinheiro, agarrou o melhor que conseguia as notas, com as mãos, levou-as ao nariz e cheirou-as profundamente. Apresentando depois ao espectador uma expressão de enorme contentamento. Agora era a sua vez de experimentar aquela flagrância, só ao alcance de alguns. Saiu para a rua, logo ao virar da esquina levantou o máximo de notas que podia tirar da máquina multibanco. Até aquela altura nem sabia quantas eram. Eram muitas. Foi para casa, sempre com cuidado para ninguém o ver. Medo de ser assaltado obviamente. Sentou-se no sofá almofadado, à frente do plasma, levou as notas à boca e quando inspirou sentiu o cheiro da sua antiga vida, da sua antiga casa, da sua antiga roupa. O dinheiro cheirava a pobre. A partir daquele dia passou sempre a pagar tudo com cartão, ou pela Internet.

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