Já são horas

Devia estar já em qualquer sítio que não este onde estou agora. Estou atrasado, parece-me, nada de mais, vou recuperar e quando voltar a avaliar a situação vou estar mais próximo, se não mesmo a horas. Nestes momentos em que ando com pressa, surge-me inevitavelmente um pensamento tão conhecido que nem sequer perco tempo a pensa-lo. Até porque perde-se tempo a pensar, tempo que perdido iria piorar a minha situação. Estou com pressa para quê? Uso o verbo perder porque o tempo para pensar só é ganho quando não é imposto um tempo limite ao pensamento. Quando se impõe um prazo, um limite, o pensamento envergonha-se, pelo menos o meu envergonha-se. É como urinar com alguém impaciente à espera que desocupemos o urinol. E hoje em dia quem é que tem muito tempo para pensar. Trabalha-se oito horas por dia, dorme-se mais oito, lavar os dentes, fazer o comer, deslocações, diria que sobram umas quatro horas por dia para pensar. Não há paciência para tão pouco tempo. Mas as coisas têm de ser feitas. O lixo acumula-se, e cheira mal, cada vez pior. E a comida não se organiza sozinha por cores nas prateleiras dos super-mercados. É difícil, mas não desesperemos. Porque a pergunta ainda persiste, e é pertinente. Pressa para quê? E se decidisse que não existe nada que tenha realmente de fazer sem ser as coisas que faço por fazer. E se nunca mais ouvisse um despertador, nunca mais olhasse as horas. Não soubesse em que dia estava, e deixasse de contar os anos desde que Jesus nasceu? Se renunciasse a este tempo, com que tempo ficava? Um tempo novo onde nunca estava atrasado para nada. Pode existir um tempo assim? Que não marca faltas injustificadas a ninguém, que existe só para nos ter, sem nos pedir nada em troca. Uma relação nova com o tempo. Claro que já se sabe como acontece nas relações. No princípio, quando ainda é tudo uma ideia, não se deslumbram as pedras e os predadores escondidos pelo caminho. Ainda assim acredito que seja possível estar numa relação com alguma, outra coisa, e ambas as partes serem livres. Totalmente livres. Não me lembro agora de um exemplo, mas assim que tiver tempo penso num, se o encontrar, direi. Se tiver tempo.

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