Correios

Quando se está sozinho em casa, ter a televisão ligada, mesmo sem som, é uma tentação à qual cedemos em segredo. Porque estamos sozinhos. Não ficam testemunhas e não corremos o perigo de um dia entre amigos alguém nos desmentir quando afirmamos orgulhosamente que não vemos televisão. Só nos orgulhamos de não ver televisão porque toda gente vê televisão. Se entramos numa sala e não encontramos uma televisão perguntamos o que aconteceu à televisão que aqui esteve. A hipótese de nunca ter estado ali uma televisão até pode ser depois aceite, mas é porque a sala não é nossa, e não queremos passar por fascistas quando estamos como convidados na sala de alguém. Cardilino Miranda tinha uma televisão. É uma televisão modesta, com boas dimensões tendo em conta o preço. Num dia de chuva, Cardilino saiu da cama, encheu uma das suas melhores chávenas com café acabado de fazer, e sentou-se no sofá decidido a fazer qualquer coisa ali mesmo. Mas antes ia terminar o café, não dava jeito fazer coisas com a mão ocupada. Para não estar só a beber café ligou a televisão. Cardilino é uma pessoa que gosta de, sempre que possível, fazer mais do que uma coisa ao mesmo tempo.Um dia disseram-lhe que só se consegue fazer uma coisa de cada vez. Quando se faz duas ou mais coisas parece que as estamos a fazer ao mesmo tempo, mas estamos alternando umas com as outras, muito rápido. Incerto acerca do rigor cientifico desta teoria Claudino não perdeu tempo a pensar ou a verificar a sua credibilidade. Estavam a passar anúncios televisivos. Aquela hora o alvo eram reformados, pessoas que andavam na faixa etária dos sessenta aos oitenta. Quem se encontrava a baixo desta faixa aquela hora ou estava no infantário, ou na escola, ou no trabalho. Acima dos oitenta aquela hora ou estavam mortos, ou a dormir. Não existe Marketing para estes últimos, são membros que nada ou pouco contribuem para a economia. Claudino era uma excepção aquela hora, porque estava de folga. Devia ter percebido que aquilo que ia ver na televisão não era para ele, mas como não era homem de deixar que o descriminassem, assumiu que aquilo era com ele, e estava pronto para lutar contra quem tentasse sequer sugerir o contrário. Durante os primeiros dez minutos de anúncios manteve a compostura. Verbalizou uns reparos, que vibraram no ar para só para ele, e desapareciam sem deixar prova de existência. Finalmente surgiu o anúncio que ia definir o rumo daquele dia para Claudino. Um homem careca apresentava a sua nova forma. Uns comprimidos com efeitos comprovados cientificamente, e um preço acessível a qualquer um. Não era um palerma qualquer a dizer isto como o que inventou aquela teoria de não ser possível fazer mais do que uma coisa no mesmo instante. Era um homem na televisão, de fato. Os efeitos eram tantos que foram ditos todos de seguida pelo homem um ritmo menos pausado do que era usado até altura. Vitalidade, confiança, força, criatividade, inteligência, sucesso, resistência, sentido de humor. Se os efeitos eram estes para um velho de setenta anos, Claudino só imaginava o que podiam fazer por ele. Começar a cuidar do futuro agora, foi a frase que se repetia na sua mente enquanto pegava no telefone e marcava o número no ecrã. A frase não teve direito a se materializar em ruído fora da sua cabeça, só as palavras que disse quando do outro lado atenderam o telefone.

Passado uns dias Claudino chegou a casa e no correio encontrou uma carta a informar que os seus comprimidos tinham chegado e estavam no correio à sua espera. Não era comum isto acontecer. Normalmente os comprimidos eram sempre entregues directamente ao proprietário porque este encontrava-se sempre em casa. Mas Claudino era um cliente não habitual. Estes clientes eram igualmente bem vindos, e até pagavam o mesmo que os outros. À hora a que chega a casa já os correis estavam fechados, por isso tinha de ficar para amanhã. Depois de jantar deitou-se e meteu o despertador umas horas mais cedo do que precisava. Dando tempo para ir aos correis antes de ir trabalhar, e assim começar logo naquele dia a beneficiar dos merecidos super poderes. Na manhã seguinte bebeu café pelo caminho. Considerou nem beber café e emborcar logo três comprimidos em jejum. Mas decidiu que só o café até podia ajudar na absorção dos super nutrientes testados em laboratório que iam ser libertados no seu organismo. Já sentia o seu corpo preparado, conseguia até visualizar as paredes do estômago a esticar, de modo a alargar os buracos por onde passam as moléculas dos alimentos digeridos. Tinha a imagem das membranas do intestino, a mesma que vira nos livros de biologia quando andava na escola, e que tinha andado esquecida até altura. Sentia aqueles milhares de coisas, cujo nome estava definitivamente esquecido, mas cuja função era fazer passar os nutrientes no seu estado mais básico do intestino para a corrente sanguínea. Sentia-os a abanar, todos esticados porque sabiam o que ali vinha. O tão esperado alimento, aquilo que tanta falta fazia, como uma refeição para um esfomeado ou uma caricia a um cão abandonado. Entrou nos correios, carta na mão, e parou incrédulo com o que via. Uma fila de mais de cinquenta pessoas. Pessoas de todas as raças, géneros e idades. Não contava com uma final daquelas nos correis. Ainda para mais aquela hora num dia de semana. Nos correios. Quem é que ainda usa os correios, e para quê? Foi para a fila e ficou lá ainda uns dez minitos até perceber que aquele fila era a fila para outra coisa, e o que ele precisava era de tirar uma senha. Invadido de uma renovada esperança tirou a senha que ao sair fez sair também aquela esperança infundada. Era o número noventa e sete, ia no vinte e três.

Os números passavam devagar. De vez em quando lá passavam uns quarto ou cinco de seguida. Claudino pensava “se for assim ainda consigo chegar a tempo ao trabalho”. Mas não era assim, e depois lá encalhava num número. Claudino começou a olhar para aquilo como se estive a ver televisão. Só não podia verbalizar os seus comentários. Nem muito baixinho, porque se alguém estivesse a observá-lo pensaria que ele era doido. E havia doidos ali nos correis aquela hora. Um homem entrou tirou a senha, começou depois a falar sozinho, para o chão. “Não dá. Não posso estar aqui em pé. O médico disse que não podia. Merda que filhos da puta. Não metem mais gente a trabalhar porquê? Vão ao centro de emprego está lá muita gente a precisar de emprego.” Um doido que não compreende como funcionam as coisas. Claudino também não percebia como funcionavam as coisas, mas era mais sofisticado que o doido. Sabia que a solução não podia ser aquela, se fosse já o tinham feito. Apesar da sua superior sofisticação, não deixava de estar tão frustrado como o doido. Queria perceber porque é que havia pessoas que demoravam dois minutos para ser atendidas, e outras demoravam quase meia hora. Não lhe parecia justo. Começou a observar as pessoas, e a atribuir-lhes a culpa de tudo: “A culpa é vossa. Não são organizados. Não existe ordem. Cada um faz o que quer e não compreende que vive em sociedade.” Via como um homem lia uma carta e encolhia os ombros sem perceber nada, e depois ia perguntar ao funcionário pedindo que lhe explicasse. Ouviu uma conversa de uma mulher que não tinha trazido o cartão de cidadão, mas mesmo assim queria qualquer coisa para a qual era preciso ter o cartão consigo. Viu um homem a pedir fita cola para colar a caixa que queria enviar. Toda a gente pedia canetas, as que estavam presas por um fio tinham sido quase todas roubadas. Uma funcionária fazia caretas e dizia coisas desnecessárias e inapropriadas a um bebe ao colo da mulher que estava a ser atendida por ela. Coisas como “Então estás bom? Tens uma barriguinha muito bonita. Não falas comigo porquê?” Tudo isto entrava no seu sistema caindo em cima das paredes do estômago que se fechavam com o peso cada vez maior. Os intestinos já não estavam receptivos, só ferviam, irradiando um calor que cujos efeitos podiam ser comprovados pela sua testa já húmida de suor.

Estava na senha noventa, e eram horas de entrar ao serviço. Faltavam sete senhas. Chegar atrasado compensava tento em conta que estava ali já há duas horas. Se desistisse agora eram duas horas que não iam contar para nada. Estava de pé quando fez a chamada para o serviço. Desculpou-se com o transito, a desculpa não foi bem recebida, pois era já repetida, mas passou. Ainda viu duas pessoas passar-lhe à frente. Umas estava grávida, a outra tinha prioridade mas ele não percebeu porquê. Finalmente chegou a sua vez. Deu o papel ao funcionário, este deu-lhe o envelope com os comprimidos. Assim só, quase não se trocou uma palavra, nem demorou um minuto porque o envelope estava mesmo ali à mão. Saiu disparado dos correios. Pelo caminho abriu o envelope, tirou cinco comprimidos e engoliu-os em duas vezes. Agora é que vai ser, pensou enquanto esticava a mão para mandar parar um taxi de maneira a chegar o mais depressa possível ao serviço. Quando chegou percebeu porque é que a desculpa tinha tido tão má aceitação. Era um daqueles dias. Filas que saiam do prédio. Gente sem paciência que não percebia a demora, e culpava os outros por tudo. Vestiu a camisa e antes, o chefe disse-lhe que não podia ter escolhido um pior dia para chegar atrasado, e sugeriu que talvez não fosse má ideia ele fazer mais umas horas hoje. Ele olhou para fila outra vez e concordou. O chefe agradeceu e deu umas palavras de incentivo que ele engoliu com mais dois comprimidos dos seus. Na pausa quando foi urinar viu que o seu mijo era azul. Nunca tinha visto tal coisa.

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